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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Romantismo



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Álvares de Azevedo

Vagabundo
Eat, drink, and love; what can the rest avail us?

BYRON, DON JUAN.

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,

Fumando meu cigarro vaporoso,

Nas noites de verão namoro estrelas,

Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso...

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;

Mas tenho na viola uma riqueza:

Canto à lua de noite serenatas...

E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva

Nas cavernas do peito, sufocante,

Quando, à noite, na treva em mim se entornam

Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores,

Sou garboso e rapaz... Uma criada

Abrasada de amor por um soneto,

Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismando

Na donzela que ali defronte mora...

Ela ao ver-me sorri tão docemente!

Desconfio que a moça me namora...

Tenho por meu palácio as longas ruas,

Passeio a gosto e durmo sem temores...

Quando bebo, sou rei como um poeta,

E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,

Minha pátria é o vento que respiro,

Minha mãe é a lua macilenta

E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,

De painéis a carvão adorno a rua...

Como as aves do céu e as flores puras

Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni,

Sou filho do calor, odeio o frio,

Não creio no diabo nem nos santos...

Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela

Bem dourada e amante da preguiça,

Quiser a nívea mão unir à minha

Há de achar-me na Sé, domingo, à missa.

Sombra de D. Juan

A dream that was not at all a dream.

LORD BYRON, Darkness

Cerraste enfim as pálpebras sombrias!...

E a fronte esverdeou da morte à sombra,

Como lâmpada exausta!

E agora?... no silêncio do sepulcro

Sonhas o amor... os seios de alabastro

Das lânguidas amantes?

E Haidéia, a virgem, pela praia errando,

Aos murmúrios do mar que lhe suspira

Com incógnito desejo

Te sussurra delícias vaporosas...

E o formoso estrangeiro adormecido

Entrebeija tremendo?

Ou a pálida fronte libertina

Relembra a tez, o talhe voluptuoso

Da oriental seminua?

Ou o vento da noite em teus cabelos

Sussurra e lembra do passado as nódoas

No túmulo sem letras?

Ergue-te, libertino! eu não te acordo

Para que a orgia te avermelhe a face

Que a morte amarelou...

Nem para jogo e noites delirantes,

E do ouro a febre e da perdida os lábios

E a convulsão noturna!

Não, ó belo Espanhol! Venho sentar-me

À borda do teu leito, porque a febre

Minha insônia devora...

Porque não durmo quando o sonho passa

E do passado o manto profanado

Me roça pela face!

Quero na sombra conversar contigo,

Quero me digas tuas noites breves,

As febres e as donzelas

Que no fogo do viver murchaste ao peito!

Ergue-te um pouco da mortalha branca,

Acorda, Don Juan!

Contigo velarei: do teu sudário

Nas dobras negras deporei a fronte,

Como um colo de mãe...

E como leviano peregrino

Da vida as águas saudarei sorrindo

Na extrema do infinito!

E quando a ironia regelar-se

E a morte me azular os lábios frios

E o peito emudecer...

No vinho queimador, no golo extremo,

Num riso... à vida brindarei zombando

E dormirei contigo!

II

Mas não: não veio na mortalha envolto

Don Juan, seminu, com rir descrido,

Zombando do passado,

Só além... onde as folhas alvejavam

Ao luar que banhava o cemitério,

Vi um vulto na sombra.

Cantava: ao peito o bandolim saudoso

Apertava, qual nu e perfumado

A Madona seu filho;

E a voz do bandolim se repassava...

Mais languidez bebia ressoando

No cavernoso peito.

Do sombrero despiu a fronte pálida,

Ergueu à lua a palidez do rosto

Que lágrimas enchiam...

Cantava: eu o escutei... amei-lhe o canto,

Com ele suspirei, chorei com ele:

-- O vulto era Don Juan!

C...

Oh! não tremas! que este olhar, este

abraço te digam quanto é inefável -- o de

abandono sem receio, os inebriamentos de

uma voluptuosidade que deve ser eterna.

GOETHE, Fausto

Sim! coroemos as noites

Com as rosas do himeneu...

Entre flores de laranja

Serás minha e serei teu!

Sim! quero em leito de flores

Tuas mãos dentro das minhas...

Mas os círios dos amores

Sejam só as estrelinhas.

Por incenso os teus perfumes,

Suspiros por oração

E por lágrimas... somente

As lágrimas da paixão!

Dos véus da noiva só tenhas

Dos cílios o negro véu...

Basta do colo o cetim

Para as Madonas do céu!

Eu soltarei-te os cabelos...

Quero em teu colo sonhar...

Hei de embalar-te... do leito

Seja lâmpada o luar!

Sim!... coroemos as noites

Da laranjeira co'a flor...

Adormeçamos num templo

-- Mas seja o templo do amor.

É doce amar como os anjos

Da ventura no himeneu:

Minha noiva, ou minh'amante,

Vem dormir no peito meu!

Dá-me um beijo, abre teus olhos

Por entre esse úmido véu:

Se na terra és minha amante,

És a minh'alma no céu!

Dinheiro

Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré;
on a consideration, honneur, qualités, vertus.
Quand on n'a point d'argent, on est dans la dépendance
de toutes choses et de tout le monde
Chateaubriand

Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.

Lembrança de Morrer

Não mais!
Oh! Nunca mais!

SHELLEY

Quando em meu peitto rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
? Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz o dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde o fogo insensato consumia:
Só levo uma saudade ? é desse tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade ? é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos ? bem poucos ? e que não zombavam
Quando em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta? sonhou? e amou na vida?

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai-me a lua prantear-me a lousa!
Namoro a Cavalo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia- em casamento...
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafues encheu de lama...
Eu não desanimei! Se Dom Quixote
No Rossinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes, tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair, de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...

Poeta Moribundo

Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, por que tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina,
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antideluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela.
Que dessa fúria o gozo, amor eterno
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que no Céu sofrer os tolos!

Ora! e forcem um'alma qual a minha,
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça,
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!

Se eu Morresse Amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanto glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu pendera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito,
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia da glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

Soneto I

Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!

Além um Espanhol eu vi sorrindo
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro.
Parecia de gosto se esvaindo!

Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!

Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça... o mais é seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?

Soneto II

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós - e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!

Soneto III

Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti ? as noites eu velei chorando,
Por ti ? nos sonhos morrerei sorrindo!

Soneto IV

Um mancebo no jogo se descora,
Outro bêbedo passa noite e dia,
Um tolo pela valsa viveria,
Um passeia a cavalo, outro namora.

Um outro que uma sina má devora
Faz das vidas alheias zombaria,
Outro toma rapé, um outro espia...
Quantos moços perdidos vejo agora!

Oh! não proíbam, pois, no meu retiro
Do pensamento ao merencório luto
A fumaça gentil por que suspiro.

Numa fumaça o canto d'alma escuto...
Um aroma balsâmico respiro,
Oh! deixai-me fumar o meu charuto!

Soneto V

Ao sol do meio-dia eu vi dormindo
Na calçada da rua um marinheiro,
Roncava a todo o pano o tal brejeiro
Do vinho nos vapores se expandindo!

Além um espanhol eu vi sorrindo,
Saboreando um cigarro feiticeiro,
Enchia de fumaça o quarto inteiro...
Parecia de gosto se esvaindo!

Mais longe estava um pobretão careca
De uma esquina lodosa no retiro
Enlevado tocando uma rabeca!...

Venturosa indolência! não deliro
Se morro de preguiça... o mais é seca!
Desta vida o que mais vale um suspiro?

Soneto VI

Os quinze anos de uma alma transparente,
O cabelo castanho, a face pura,
Uns olhos onde pinta-se a candura
De um coração que dorme, inda inocente...

Um seio que estremece de repente
Do mimoso vestido na brancura...
A linda mão na mágica cintura...
E uma voz que inebria docemente...

Um sorrir tão angélico, tão santo...
E nos olhos azuis cheios de vida
Lânguido véu de involuntário pranto...

É esse o talismã, é essa a Armida,
O condão de meus últimos encantos,
A visão de minh'alma distraída!

Soneto VII

Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade,

Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!






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Aureliano Lessa

(Diamantina MG, 1828 - Conceição do Serro MG, 1861)

Iniciou, em 1847, o curso de Direito em São Paulo; no entanto, formou-se bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda PE, em 1851. Em São Paulo, conviveu com Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães. Trabalhou com procurador fiscal da Tesouraria Geral de Minas, em Ouro Preto MG, e advogado em Diamantina e Conceição do Serro MG. Não publicou livros em vida; seus poemas foram reunidos no volume Poesias Póstumas, publicado em 1873, com nova edição em 1909. Poeta da segunda geração do Romantismo brasileiro, Aureliano Lessa, segundo o crítico Augusto de Lima, "escrevia principalmente para o povo, se é que ele não se preocupava simplesmente com as suas próprias impressões, dando-lhes a forma que mais convinha ao meio simples em que veio viver".

Entusiasmo
Away, away

Byron.

I

Muito bem, meu ginete brioso,

Morde o freio, sacode essas crinas,

E responda teu rincho fogoso

Ao rugido feroz do canhão!

Corre, voa por essas campinas

Alastradas de tropas imigas,

Que aí ceifarei como espigas

Da seara, coa espada na mão!

II

Voa, rasga esse muro de ferro

Com teu peito de ferro mais forte,

Que ele há de tombar como um perro,

E tu hás de esmagá-lo no chão;

Minha espada é a fouce da morte,

Teu galope é veloz como o raio;

São meus golpes letais: onde caio

Teu nitrido é a voz do canhão!

III

Eia, avante! Derruba por terra

Esse bosque enfeixado de lanças,

E mil crânios e ossos enterra

De teus rápidos pés ao tocar!

Que no mesmo caminho onde avanças

Após ti vem correndo a vitória!

Oh! Tu sabes ao porto da glória

Entre nuvens de balas chegar!

IV

Tua cauda orgulhosa é açoite

Que nas faces dos vis tu resvalas;

Tua cor é mais negra que a noite,

Minha espada é mais clara que o Sol!

São teus olhos flamívomas balas,

Nosso sopro é sulfúrea fumaça!

Quem de ver-nos tiver a desgraça,

Não verá mais clarão do arrebol.

V

Oh! Não dera estes campos medonhos

Pelos reinos que existem na terra;

Não trocara por jogos risonhos

Mil perigos que vêm de tropel!

O meu reino é o campo da guerra,

Minha espada é meu cetro e tesouro,

Minha c'roa é um ramo de louro,

O meu trono este bravo corcel!

A Tarde

II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
-- Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
-- Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: -- todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens -- té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
-- Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: -- sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
-- Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
-- Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.

Êxtasis

Quando, após longa e pensativa pausa
-- Eu te amo -- dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
-- Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
-- Eu te amo! --

A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e -- teu escravo --
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...
Mensagem
(...)
Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.

Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...

Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.

Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.

Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,

Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.

Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...

Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...

O Eco

Quando eu era pequenino
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.

(...)

Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:

"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.

Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;

E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...

Tristeza

Dizes que meu amor te encanta a vida
Teus alvos dias, teus noturnos sonhos:
Mas tens a face de prazer tingida,
Teus lábios são risonhos!

Não podem florescer o amor e o riso
Nos mesmos lábios da paixão o fogo
Mata as rosas do rosto, de improviso
Gera a tristeza logo.

Olha: minh'alma é pálida e tristonha.
Minha fronte é nublada e sempre aflita.
Entretanto, uma imagem, bem risonha
Dentro em minh'alma habita.

Mas esse ermo sorrir que tenho n'alma.
Não é como da aurora o riso ardente:
É o sorrir da estrela em noite calma.
Brilhando docemente.

Ah! se me queres a teus pés prostrado.
Troca o riso por pálida beleza:
Mulher! torna-te o anjo que hei sonhado.
Um anjo de tristeza!







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A Escrava Isaura - Bernardo Guimarães

INTRODUÇÃO
Escrito em plena campanha abolicionista (1875), o livro conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter nobre, vítima de um senhor devasso e cruel.

O romance A Escrava Isaura foi um grande sucesso editorial e permitiu que Bernardo Guimarães se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época no Brasil. O autor pretende, nesta obra, fazer um libelo anti-escravagista e libertário e, talvez, por isso, o romance exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro. O estudioso Manuel Cavalcanti Proença observa que:

"Numa literatura não muito abundante em manifestação abolicionistas, é obra de muita importância, pelo modo sentimental como focalizou o problema, atingindo principalmente o público feminino, que encontrava na literatura de ficção derivativo e caminho de fuga, numa sociedade em que a mulher só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos; o mais do tempo ficava retida em casa, sem trabalho obrigatório, bordando, cosendo e ouvindo e falando mexericos, isto é, enredos e intrigas, como se dizia no tempo e ainda se diz neste romance."

O NASCIMENTO DO ROMANCE

A publicação de romances em folhetins - os capítulos aparecendo a cada dia nos jornais - já era comum no Brasil desde a década de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um Ivanhoé ou de um D'Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos e reinos da Europa.

Embora fizessem sucesso junto ao público, os primeiros romances brasileiros, publicados em folhetim, não deixavam de ser considerados, pelos literatos "sérios", como "uma leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos." O romance, esse gênero literário novo e "fácil", que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel de Macedo e Teixeira e Sousa, ganharia status de literatura "séria" com a obra de José de Alencar.

A descrição do cenário nacional

O público interessava-se, portanto, cada vez mais por um romance de aventuras românticas que apresentasse o cenário brasileiro. O grande sucesso de público de O Guarani (1857), de José de Alencar, em que as aventuras de Peri e sua amada Cecília se desenrolam em meio à exuberante natureza fluminense, estimula os escritores a se voltarem para a apresentação da ambientação tipicamente nacional em suas obras.

Na década de 70 essa tendência nacionalista haveria de se consolidar, com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor de O Cabeleira (1876) e o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de Inocência (1872). É nesse cenário literário que aparece, em 1875, um dos maiores sucessos de público do período: A Escrava Isaura, que explora uma das questões mais polêmicas da sociedade brasileira da época, a escravidão.

O ENREDO

A história se passa nos "primeiros anos do reinado de D. Pedro II", inicialmente em uma fazenda em Campos dos Goitacazes (RJ). Isaura, escrava branca e bem-educada, é assediada pelo seu senhor, Leôncio, recém-casado com Malvina. Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, como já fizera, no passado, sua mãe, que, por ter repelido o pai de Leôncio, fora submetida a um tratamento tão cruel que, em pouco tempo, morrera.

Para forçá-la a ceder, Leôncio manda Isaura para a senzala, trabalhar com as outras escravas. Sempre resignada, suporta passivamente o seu destino, porém, não cede a Leôncio, afirmando que ele, como proprietário, era senhor de seu corpo, mas não de seu coração: " - Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono." Leôncio, enfurecido, ameaça colocá-la no tronco.

No entanto, seu pai, ex-feitor da fazendo, consegue tirá-la de lá e foge com ela para Recife (PE). Em Recife, Isaura usa o nome de Elvira e vive reclusa numa pequena casa com seu pai. Então, conhece Álvaro, por quem se apaixona e é correspondida. Vai a um baile com ele, onde é desmascarada e reconhecida. Álvaro, ainda que surpreso, não se importa com o fato de ela ser uma escrava e resolve impedir que Leôncio a leve de volta, inclusive tentando comprá-la. Mas não consegue convencer o vilão, e este leva Isaura de volta ao cativeiro na fazenda.

Leôncio está praticamente falido e, com o objetivo de conseguir um empréstimo do pai de Malvina, consegue se reconciliar com a mulher, afirmando que Isaura é quem o assediava. Então, para punir Isaura, Leôncio manda que ela se case com Belchior, jardineiro da fazenda. Entretanto, Álvaro descobre a falência de Leôncio e compra a dívida dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens, inclusive de seus escravos. No dia do casamento de Isaura, antes que se celebrasse a cerimônia, Álvaro aparece e reclama seus direitos a Leôncio. Vendo-se derrotado e na miséria, Leôncio suicida-se. Tudo termina, portanto, com a punição dos culpados e o triunfo dos justos.

Como bem o sintetizou Carlos Alberto Vecchi:


"A estrutura narrativa de A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa, onde a própria vida é colocada em risco. O Amor, epicentro onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio. O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem. E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente."

OS PERSONAGENS

A obra apresenta a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína e herói. E, graças à ausência de profundidade com que são construídos, os personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.

Isaura, a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter nobre e demonstra "conhecer o seu lugar": do princípio ao fim, suporta conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar. Permanece emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade. Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor de Álvaro e termina como a própria imagem da "virtude recompensada".

Vejamos como Guimarães descreve sua heroína:


"A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (…) Na fronte calma e lisa como o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração."


Leôncio é o vilão leviano, devasso e insensível que, de "criança incorrigível e insubordinada" e adolescente que sangra a carteira do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso, casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser "um meio mais suave e natural de adquirir fortuna". Persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.

Álvaro é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável, que "tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista"; um jovem de idéias igualitárias, idealista e corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua conduta moral é assim descrita pelo autor:


"Original e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionaável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados."


Apaixonado por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio. Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio, adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.
Nos demais personagens o processo de construção é o mesmo. Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio. Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não mede esforços para isso.

Martinho é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras e "no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,… reluz constantemente um raio de velhacaria". Por querer ganhar muito dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada. Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta: feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti Proença aponta "o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil."

O dr. Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo, mostrando-lhe a realidade dos fatos. Quando Álvaro, revoltado com a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão, dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade, Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá independência para "satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua imaginação romanesca". O que não é, na verdade, característica restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.

Este romance já foi considerado, com bastante exagero, uma espécie de A Cabana do Pai Tomás (1851) nacional. Porém, Bernardo Guimarães, ao contrário da romancista americana Harriet Beecher Stowe, detém-se muito pouco na descrição dos sofrimentos provocados pelo regime escravocrata. Ele coloca, na boca de alguns personagens, como Álvaro e seus amigos, estudantes no Recife, algumas frases abolicionistas, mas parece tomar bastante cuidado em não provocar a fúria dos seus leitores conservadores. Está mais preocupado em contar as perseguições do senhor cruel à escrava virtuosa e, assim, conquistar a simpatia do leitor.

Bernardo Guimarães faz questão de ressaltar exaustivamente a beleza branca e pura de Isaura, que não denunciava a sua condição de escrava porque não portava nenhum traço africano, era educada e nada havia nela que "denunciasse a abjeção do escravo". O que parece uma escolha preconceituosa e contraditória - contar as agruras da escravidão criando uma escrava branca - talvez seja melhor compreeendido se se levar em conta que a maior parte do público que consumia romances na época era composto por mulheres da sociedade, que apreciavam as histórias de amor.

Somem-se a isso o modelo de beleza feminino de então, caracterizado pela pele nívea e maçãs rosadas do rosto e, principalmente, o objetivo do autor de conquistar a solidariedade do leitor pela escrava, mostrando a que ponto extremo poderia chegar o regime escravocrata: "fisicamente, Isaura não é diferente das damas da sociedade, mas, por ser escrava, é obrigada a viver como os de sua classe, como objeto útil nas mãos de seu senhor", conforme afirma a crítica Maria Nazareth Soares Fonseca.

O autor claramente conseguiu o que queria. A sociedade brasileira do século XIX, que tanto se apiedou das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela era branca e educada. O autor pôde, assim, demonstrar, através do seu sofrimento, o quanto "é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza". E é claro, a cor de Isaura serve, como afirma o crítico Antônio Cândido, "para facilitar a ação de Álvaro, compreensivelmente apaixonado e decidido a desposá-la, como fez."

Se houve influência, portanto, do romance A cabana do Pai Tomás, talvez tenha sido apenas no que o crítico Alfredo Bosi aponta como referência: a cena da fuga de Campos para Recife, "talvez sugerida pela fuga de Elisa através dos gelos flutuantes de Ohio para a liberdade no Norte e por fim no Canadá". Entretanto, o fato é que, como aponta o crítico, só depois do lançamento de A cabana do Pai Tomás "a literatura brasileira começou a ser povoada de feitores cruéis e de escravos virtuosos".

A LINGUAGEM

O tratamento exageradamente romântico que o autor aplica neste livro faz com que ele tenha um caráter mais de lenda do que de realidade, ao contrário de seus outros romances, como O Ermitão de Muquém (1864), O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872), em que a descrição regionalista do ambiente físico e social proporciona mais verossimilhança à trama.
Em A Escrava Isaura, o excesso de imaginação se traduz em "idealização descabida", como afirma Antonio Candido, que se concretiza no plano da linguagem em descrições repetitivas e mecânicas dos personagens, com abuso de adjetivos redundantes.

Observe-se a descrição de Isaura quando senta-se ao piano no salão de baile no Recife:

"A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu."

O AMOR E A DONZELA INEXPUGNÁVEL

"Os motivos que compõem romance", segundo Cavalcanti Proença, "são filiados nos velhos e perenes topos" - ou temas - "da literatura popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história de um amor, mas dos sofrimentos do amor. (…) Para isso se entretecem os conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)"

Entre esses temas, há um que remonta à literatura medieval e que domina a narrativa como um todo, a partir da descrição de Isaura como pura e virtuosa, lutando contra a luxúria do seu senhor. É o da donzela inexpugnável, que defende sua pureza com todas as forças de que dispõe, preferindo arriscar-se à morte na fuga a se entregar sexualmente.

Entre os precursores da literatura folhetinesca está o romancista e tipógrafo inglês Samuel Richardson (1689-1761). A sua novela Pamela, ou a Virtude Recompensada, publicada em 1741, certamente é uma das fontes de inspiração mais contundentes para a composição do romance de Bernardo Guimarães. Nessa obra, Richardson narra as desventuras de Pamela Andrews, filha de camponeses que é educada por uma senhora nobre que, ao morrer, a entrega aos cuidados de seu filho, o Conde de Belfart. Esse jovem inescrupuloso atenta contra a virtude de Pamela, assediando-lhe com ameaças vis e acaba por entregar-lhe a uma vulgar alcoviteira. Mas Pamela, como Isaura, consegue defender-se, mantendo intacta a sua honra. Acaba por comover com suas lágrimas abundantes o Conde de Belfart que, arrependido, termina se casando com a heroína.

Bernardo Guimarães acrescenta à trama romanesca inventada por Richardson a figura do cavalheiro salvador Álvaro e a temática bem brasileira da escravidão.

Também Castro Alves, o maior dos nossos escritores abolicionistas, refere-se à defesa da virtude das escravas, em poemas como Súplica, do livro Os Escravos (1883):

"Que a donzela não manche em leito impuro A grinalda do amor. Que a honra não se compre ao carniceiro Que se chama senhor.







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CASIMIRO DE ABREU

Casimiro José Marques de Abreu

(Barra de São João RJ, 1839 - Fazenda Indaiaçu, Barra de São João RJ, 1860)

Fez curso de Humanidades no Colégio Freese, em Nova Friburgo RJ, entre 1849 e 1852, mas não chegou a conclui-lo. No ano seguinte mudou-se para Lisboa (Portugal), onde sua peça Camões e o Jau foi representada, em 1856, no Teatro D. Fernando. Manteve contatos com Alexandre Herculano, Mendes Leal e Camilo Castelo Branco. De volta ao Brasil, tornou-se colaborador regular dos periódicos Correio Mercantil, A Marmota, O Espelho e Revista Popular. Em 1858 participou de reuniões no escritório de Caetano Alves de Sousa Filgueiras, advogado e poeta baiano, com Augusto Emílio Zaluar, Francisco Gonçalves Braga, José Joaquim Cândido de Macedo Júnior e Machado de Assis. Publicou sua obra mais famosa, o livro de poesia As Primaveras, em 1859. Suas Obras Completas foram editadas em 1870. Poeta da segunda geração romântica, Casimiro de Abreu abordou temas comuns entre os maiores expoentes de sua época, mas sem a mesma envergadura. No entanto, é um dos poetas mais populares do Brasil, principalmente por poemas como Meus Oito Anos, dos mais revisitados por autores do modernismo.

A Valsa
A M.***

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranquila,
Serena,
Sem pena
De mim!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
-- Não negues,
Não mintas...
-- Eu vi!...

(...)

Calado
Sozinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!

Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
-- Não negues,
Não mintas...
-- Eu vi!...

(...)

Amor e Medo

I
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"-- Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela -- eu moço; tens amor -- eu medo!...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.

E' que esse vento que na várzea -- ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

(...)

II
Ai! se eu te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!...

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos -- palpitante o seio!...

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: -- que seria da pureza d'anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
-- Tu te queimaras, a pisar descalça,
-- Criança louca, -- sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
-- Olhos pisados -- como um vão lamento,
Tu perguntaras: -- qu'é da minha c'roa?...
Eu te diria: -- desfolhou-a o vento!...

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito,
És bela -- eu moço; tens amor, eu -- medo!...

Meus Oito Anos

Oh! souvenirs! printemps! aurores!
V. HUGO.

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
-- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é -- lago sereno,
O céu -- um manto azulado,
O mundo -- um sonho dourado,
A vida -- um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
-- Pés descalços, braços nus --
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

..............................

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
-- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Lisboa, 1857
Minha Terra
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
G. DIAS.

Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha,
Nas débeis cordas da lira
Hei de fazê-la rainha;
-- Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.

Correi pr'as bandas do sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
-- É uma terra de amores
Alcatifada de flores,
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de abril.

(...)

É um país majestoso
Essa terra de Tupá,
Desd'o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
-- Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.

(...)

Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios;
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.

Foi ali, foi no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;
Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!

Um povo ergueu-se cantando
-- Mancebos e anciãos --
E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
-- Portugal! somos irmãos!

Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam -- guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!
(...)

Moreninha

Moreninha, Moreninha,
Tu és do campo a rainha,
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d'amores,
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.

(...)

Morena, minha Morena,
És bela, mas não tens pena
De quem morre de paixão!
-- Tu vendes flores singelas
E guardas as flores belas,
As rosas do coração?!..

Moreninha, Moreninha,
Tu és das belas rainha,
Mas nos amores és má;
-- Como tu ficas bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Eu disse então: -- "Meus amores,
"Deixa mirar tuas flores,
"Deixa perfumes sentir"
Mas naquele doce enleio,
Em vez das flores, no seio,
No seio te fui bulir!

Como nuvem desmaiada
Se tinge de madrugada
Ao doce albor da manhã;
Assim ficaste, querida,
A face em pejo acendida,
Vermelha como a romã!

Tu fugiste, feiticeira,
E de certo mais ligeira
Qualquer gazela não é;
Tu ias de saia curta....
Saltando a moita de murta
Mostraste, mostraste o pé!

Ai! Morena, ai! meus amores,
Eu quero comprar-te as flores,
Mas dá-me um beijo também;
Que importam rosas do prado
Sem o sorriso engraçado
Que a tua boquinha tem?...

Apenas vi-te, sereia,
Chamei-te -- rosa da aldeia --
Como mais linda não há.
-- Jesus! Como eras bonita
Co'as tranças presas na fita,
Co'as flores no samburá!

Indaiaçu, 1857

Primaveras

O Primavera! gioventú dell'anno,
Gioventú! primavera della vita.
METASTASIO.

I
A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: -- Como é linda a veiga!
Responde a rosa: -- Como é doce o orvalho!

II
Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas; -- o jasmim fenece,
Mas bafejado s'erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio.

Na primavera -- na manhã da vida --
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida -- a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s'extasia e goza.

1 de julho, 1858

Os Meus Sonhos

I
Como era belo esse tempo
De tão doces ilusões,
De tardes belas, amenas,
De noites sempre serenas,
De estrelas vivas e puras;
Quadra de riso e de flores
Em que eu sonhava venturas,
Em que eu cuidava de amores.

(...)

II
Sonhei que o mundo era um prado
Lindo, lindo, matizado
Das flores do meu jardim;
Sonhei a vida uma estrada
De gozos entrelaçada,
De gozos que não têm fim.

Esses sonhos de magia
Criei-os na fantasia
À meiga luz do luar,
E quando conta segredos
Na rama dos arvoredos
Na brisa que beija o mar.

(...)

III
Mentira, tudo mentira!
Os meus sonhos... ilusões!
As cordas da minha lira
Já não soletram canções,
A mente já não delira,
E se louco num momento
Revolvo no pensamento
Esse passado de amores...
Se triste o peito suspira...
Eu ouço um eco da terra
Bradar-me com voz que aterra:
-- Mentira, tudo mentira!

Foram sonhos. Eram lindos,
Eram lindos... mas passaram!
E desses sonhos já findos
Só lembranças me ficaram.
Só lembranças bem saudosas
Dessas noites tão formosas
Em que os sonhos despontaram,
Só lembranças desses sonhos,
Desses sonhos que passaram!...
Hoje vivo, se é que é vida

Andar co'a fronte pendida
Calado e triste a cismar;
E nessa imensa tristeza,
Nessas horas d'incerteza
Em que adormece o luar,
Em que toda a natureza
E' silêncio, amor e paz,

Eu sinto a alma saudosa
Perguntar com voz queixosa:
-- Lindos sonhos, onde estais?!
Então um eco medonho
Responde por cada sonho
C'um gemido... e nada mais!

(...)









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CASTRO ALVES

Antônio Frederico de Castro Alves

(Curralinho [Castro Alves] BA, 1847 - Salvador BA, 1871)

Viveu na Bahia até 1862, quando mudou-se para Recife, onde iniciou, em 1864, os estudos na Faculdade de Direito. Em Recife ele publicou seu primeiro poema, Destruição de Jerusalém, fundou uma sociedade abolicionista, com Rui Barbosa, e se apaixonou pela atriz portuguesa Eugênia Câmara, para quem escreveu a peça Gonzaga ou a Revolução de Minas. Em 1867 a peça estreou em Salvador, trazendo consagração ao poeta e à atriz. No ano seguinte, Castro Alves, então no Rio de Janeiro, a leria para José de Alencar, que o apresentaria a Machado de Assis. No mesmo ano, 1868, o poeta chegou a São Paulo, onde continuou seus estudos de Direito. Na sessão magna promovida pela faculdade para comemorar a independência do Brasil, ele declamou pela primeira vez o poema Navio Negreiro. Seu único livro publicado em vida foi Espumas Flutuantes (1870). Pertencente à última geração romântica, Castro Alves cantou o amor e a mulher de forma sensual e inovadora, mas é por sua poesia de temática social, que denuncia a escravidão e as desigualdades de classe, que é considerado um dos maiores e mais populares poetas brasileiros.

NAVIO NEGREIRO
I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar -- dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
-- Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo -- o mar em cima -- o firmamento...
E no mar e no céu -- a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra -- é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar -- doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
-- Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês -- marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês -- predestinado --
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma -- lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
-- Férrea, lúgubre serpente --
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

O Livro e a América

Ao Grêmio Literário

Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
-- Estatuário de colossos --
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um -- traz-lhe as artes da Europa,
outro -- as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

(...)

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto --
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe -- que faz a palma,
É chuva -- que faz o mar.

Vós, que o templo das idéias
Largo -- abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
-- Ginete dos pensamentos,
-- Arauto da grande luz!...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

Bahia.

Ode ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro de S. Paulo)

Era no Dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."

Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha -- o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma -- o vasto chão!
Por palmas -- o troar da artilharia
Por feras -- os canhões negros rugiam!
Por atletas -- dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro -- era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir -- em frente do passado,
A Liberdade -- em frente à Escravidão,
Era a luta das águias -- e do abutre,
A revolta do pulso -- contra os ferros,
O pugilato da razão -- com os erros,
O duelo da treva -- e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras -- como águias eriçadas --
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis...
...............................................
...............................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina:
Eras tu -- Liberdade peregrina!
Esposa do porvir -- noiva do sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio -- no infinito...
Um trapo de bandeira -- n'amplidão!...

São Paulo, junho de 1868.
Vozes d'África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

(...)

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

(...)

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista -- corta o mármor de Carrara;
Poetisa -- tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c'roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
O Universo após ela -- doudo amante --
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

.......................................

Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
Talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

(...)

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: "La vai África embuçada
No seu branco albornoz..."

(...)

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...

...........................................

(...)

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir -- Judeu maldito --
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d'Europa -- arrebatada --
Amestrado falcão!...

Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos -- alimária do universo,
Eu -- pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
-- Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

.........................................

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p'ra os crimes meus!...
Há dois mil anos... eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

São Paulo, 11 de junho de 1868.

Hebréia

Flos campi et lilium convallium.
(Cânt. dos Cânticos)

Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa!...

Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho...

Depois nas águas de cheiroso banho
-- Como Susana a estremecer de frio --
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto...

Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, -- se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto...

Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!...

Bahia, 1866.

O Gondoleiro do Amor

BARCAROLA
DAMA-NEGRA

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento.

E como em noites de Itália
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora
Que o horizonte enrubesceu,
-- Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no languor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?

Teu amor na treva é -- um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa -- nas calmarias,
É abrigo -- no tufão;

Por isso eu te amo, querida
Quer no prazer, quer na dor...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Recife, janeiro de 1867.

A Canção do Africano

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

Recife, 1863.

A Cruz na Estrada

Invideo quia quiescunt.
LUTERO em Worms.

Tu que passas, descobre-te! Ali dorme
O forte que morreu.
A. HERCULANO (Trad.)

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num braço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.

Recife, 22 de junho de 1865.

Aves de Arribação

I
Era o tempo em que as ágeis andorinhas
Consultam-se na beira dos telhados,
E inquietas conversam, perscrutando
Os pardos horizontes carregados...

Em que as rolas e os verdes periquitos
Do fundo do sertão descem cantando...
Em que a tribo das aves peregrinas
Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna
Tras de outro clima os cheiros provocantes
A primavera desafia as asas,
Voam os passarinhos e os amantes!...

II
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada
Abriram à tardinha as persianas;
E mais festiva a habitação sorria
Sob os festões das trêmulas lianas.

Quem eram? Donde vinham? -- Pouco importa
Quem fossem da casinha os habitantes.
-- São noivos -- : as mulheres murmuravam!
E os pássaros diziam: -- São amantes -- !

Eram vozes -- que uniam-se co'as brisas!
Eram risos -- que abriam-se co'as flores!
Eram mais dois clarões -- na primavera!
Na festa universal -- mais dous amores!

(...)

IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa
Velando a longa noite do poeta...
Além, sob as cortinas transparentes
Ela dorme... formosa Julieta!

Entram pela janela quase aberta
Da meia-noite os preguiçosos ventos
E a lua beija o seio alvinitente
-- Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa -- o amor e a natureza!

E como o cáctus desabrocha a medo
Das noites tropicais na mansa calma,
A estrofe entreabre a pétala mimosa
Perfumada da essência de sua alma.

No entanto Ela desperta... num sorriso
Ensaia um beijo que perfuma a brisa...
... A Casta-diva apaga-se nos montes...
Luar de amor! acorda-te, Adalgisa!

V
Hoje a casinha já não abre à tarde
Sobre a estrada as alegres persianas.
Os ninhos desabaram... no abandono
Murcharam-se as grinaldas de lianas.

Que é feito do viver daqueles tempos?
Onde estão da casinha os habitantes?
... A Primavera, que arrebata as asas...
Levou-lhe os passarinhos e os amantes!...

Curralinho, 1870.

Crepúsculo Sertanejo

A tarde morria! Nas águas barrentas
As sombras das margens deitavam-se longas;
Na esguia atalaia das árvores secas
Ouvia-se um triste chorar de arapongas.

A tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As trevas rasteiras com o ventre por terra
Saíam, quais negros, cruéis leopardos.

A tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo rangia o coqueiro.

Sussurro profundo! Marulho gigante!
Talvez um -- silêncio!... Talvez uma -- orquestra...
Da folha, do cálix, das asas, do inseto...
Do átomo -- à estrela... do verme -- à floresta!...

As garças metiam o bico vermelho
Por baixo das asas, -- da brisa ao açoite -- ;
E a terra na vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça co'as penas da noite!

Somente por vezes, dos jungles das bordas
Dos golfos enormes, daquela paragem,
Erguia a cabeça surpreso, inquieto,
Coberto de limos -- um touro selvagem.

Então as marrecas, em torno boiando,
O vôo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido bando pedindo outras praias
Passava gritando por sobre a canoa!...

..........................................







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FAGUNDES VARELA

Luís Nicolau Fagundes Varela

(Nossa Senhora da Piedade [Rio Claro] RJ 1841 - Niterói RJ 1875)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Noturnas, em 1861. Na época, já havia publicado artigos e poemas na Revista Dramática e Revista da Associação Recreio Instrutivo, de São Paulo SP. Em 1961 também publicou os folhetins As Ruínas da Glória e A Guarida de Pedra, e de poemas em homenagem aos atores Furtado Coelho, Eugênia Câmara e João Caetano, no Correio Paulistano. Entre 1862 e 1866 cursou Direito em São Paulo e em Recife PE, mas não chegou a concluir a faculdade. Sua obra poética inclui os livros O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1869), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta; ou, O Evangelho nas Selvas (1875), e os póstumos Cantos Religiosos (1878) e O Diário de Lázaro (1880). Em 1882 foram publicadas suas Obras Completas, e em 1857 suas Poesias Completas. Fagundes Varela é um dos nomes mais importantes do Romantismo brasileiro. Segundo o crítico Edgard Cavalheiro, "sua poesia, pelo menos a mais expressiva, aquela que mais alto o eleva, focaliza, com uma constância digna de nota num temperamento tão versátil, a luta entre a cidade e o campo, entre a solidão e o convívio social. Nesse dualismo Fagundes Varela se debateu, numa luta que assume, por vezes, aspectos de intensa dramaticidade.".

A Flor do Maracujá
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela!
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em -- a --
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

A S. Paulo

Terra da liberdade!
Pátria de heróis e berço de guerreiros,
Tu és o louro mais brilhante e puro,
O mais belo florão dos Brasileiros!

Foi no teu solo, em borbotões de sangue
Que a fronte ergueram destemidos bravos,
Gritando altivos ao quebrar dos ferros:
Antes a morte que um viver de escravos!

Foi nos teus campos de mimosas flores,
À voz das aves, ao soprar do norte,
Que um rei potente às multidões curvadas
Bradou soberbo -- Independência ou morte!

Foi de teu seio que surgiu, sublime,
Trindade eterna de heroísmo e glória,
Cujas estátuas, -- cada vez mais belas,
Dormem nos templos da Brasília história!

Eu te saúdo, óh! majestosa plaga,
Filha dileta, -- estrela da nação,
Que em brios santos carregaste os cílios
À voz cruenta de feroz Bretão!

Pejaste os ares de sagrados cantos,
Ergueste os braços e sorriste à guerra,
Mostrando ousada ao murmurar das turbas
Bandeira imensa da Cabrália terra!

Eia! -- Caminha, o Partenon da glória
Te guarda o louro que premia os bravos!
Voa ao combate repetindo a lenda:
-- Morrer mil vezes que viver escravos!

Ideal

Não és tu quem eu amo, não és!
Nem Teresa também, nem Ciprina;
Nem Mercedes a loira, nem mesmo
A travessa e gentil Valentina.

Quem eu amo te digo, está longe;
Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.

Tem a cútis mais fina e brilhante
Que as bandejas de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoa, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.

Tem uns pés... oh! que pés, Santo Deus!
Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.

Não és tu quem eu amo, nem Laura,
Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês;
A mulher que minh'alma idolatra
É princesa do império chinês.

Juvenília I

Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?

Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?

Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.

Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.

Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.

Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.

(...)
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!

Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?

Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!

Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!

Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;

Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!

Mauro, o Escravo

(Fragmentos de um poema)

A Sentença
(...)

XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.

(...)

XIV
-- Conheces teu crime? gritou o senhor.
-- Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
-- Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.

(...)

XX
-- Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
-- Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!

XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
-- Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:

XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?

XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!

XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!

XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
-- Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.

XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
-- Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.

XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.

O General Juarez

(...)
Juarez! Juarez! sempre teu nome
Da liberdade ao lado!
Sempre teus brados ao passar dos ventos!
Sempre a lembrança tua
A cada marulhar de humanas vagas!
Em que fonte sagrada
Bebeste esse valor e essa firmeza
Que os reveses não quebram?

(...)
Quão enganada marcha a tirania!
Quão cego o despotismo
Paira e volteia nessas virgens plagas!
Há no seio da América
Um mundo novo a descobrir-se ainda:
Senhores de além-mar,
Quereis saber onde esse mundo existe?
Quereis saber seu nome?
Sondai o peito à raça americana,
E nesse mar sem fundo,
Inda aquecido pelo mar primeiro,
Vereis a liberdade!

Tu a encaraste, Juarez, de perto!
No mais fundo das matas
Onde a mãe natureza te mostrava
Um código mais puro
Do que os preceitos da infernal ciência
Cujas letras malditas
Queimam do pergaminho a lisa face,
Aprendeste o segredo
Que desde a hora prima do universo
As torrentes murmuram!
E contemplando o ermo, o céu, as águas,
Choraste por ser homem!

Mas dos vulcões sorvendo o fumo espesso,
Transpondo os areais,
Buscando asilo nas florestas amplas,
Arrostando as tormentas
Entre um pugilo de guerreiros bravos,
Pejaste de legendas
Todo o deserto que teus pés tocaram!
E as solidões sorriam,
Os abutres saíam de seus antros,
As turbas dos selvagens
Vinham surpresas se postar nos montes
Para ver-te passar!

O espírito de um povo nunca morre.
Não, não foram os homens
Que sobre o globo prolongando a vista,
Regiões escolheram,
E formaram nações, usos e crenças;
Não, uma oculta lei
Disse: -- Ao Árabe as terras arenosas,
Aos Germanos a neve;
Aqui o fogo, a luz, ali neblinas;
Nesta calmos pastores,
Ali fortes guerreiros; sonhos, crenças,
Lhes servem de defesa.

(...)

Cântico do Calvário

À MEMÓRIA DE MEU FILHO
Morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. -- Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, -- a inspiração, -- a pátria,
O povir de teu pai! -- Ah! no entanto,
Pomba, -- varou-te a flecha do destino!
Astro, -- engoliu-te o temporal do norte!
Teto, -- caíste! -- Crença, já não vives!

Correi, correi, ó lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, -- gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! -- Sede benditas!
Ó filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente,
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante

(...)
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, -- sinto o aroma
Do incenso das igrejas, -- ouço os cantos
Dos ministros de Deus que mem repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde!...

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.
Ira de Saul

FRAGMENTO

A noite desce. Os furacões de Assur
Passam dobrando os galhos à videira,
Todos os plainos de Salisa e Sur
Perdem-se ao longe em nuvens de poeira.

Minh'alma se exacerba. O fel d'Arábia
Coalha-se todo neste peito agora.
Oh! nenhum mago da Caldeia sábia
A dor abrandará que me devora!

Nenhum! -- Não vem da terra, não tem nome,
Só eu conheço tão profundo mal,
Que lavra como a chama e que consome
A alma e o corpo no calor fatal!

Maldição! Maldição! Ei-lo que vem!
Oh! mais não posso! A ira me quebranta!...
Toma tu'harpa, filho de Belám,
Toma tu'harpa sonorosa e canta!

Canta, louro mancebo! O som que acordas
É doce como as auras do Cedron,
Lembra-me o arroio de florentes bordas
Junto à minha romeira de Magron.

Lembra-me a vista do Carmelo, -- as tendas
Brancas sobre as encostas de Efraim,
E pouco a pouco apagam-se as tremendas
Fúrias do gênio que me oprime assim!

[A Cruz]

***

Estrelas

Singelas,

Luzeiros

Fagueiros,

Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!

Desertos e mares, - florestas vivazes!

Montanhas audazes que o céu topetais!

Abismos

Profundos!

Cavernas

E t e r nas!

Extensos,

Imensos

Espaços

A z u i s!

Altares e tronos,

Humildes e sábios, soberbos e grandes!

Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!

Só ela nos mostra da glória o caminho,

Só ela nos fala das leis de - Jesus!

ANCHIETA OU O EVANGELHO NAS SELVAS

CANTO IV

[Episódio de Salomé]

XII

Os primores da Europa, o luxo d'Ásia,

O fausto desta, a profusão daquela

De Herodes o palácio aformoseiam.

Mil candieiros, transparentes tochas,

Argênteos lampadários, iluminam

As vastas arcarias, machetadas

Dos mais lindos mosaicos do Oriente,

E as colunas de mármore, as pilastras,

Cobertas de lavores, e as paredes

Ornamentadas de brasões pomposos.

Os gratos sons das harpas e doçainas,

Dos citulos e frautas repercutem

Fora na larga praça, onde confusa

Cochicha a multidão maravilhada.

Celebra o rei vaidoso e dissoluto

Seu dia natalício. As salas todas

Estão cheias de amigos e convivas:

Ricos Hebreus, Latinos cavaleiros,

Senhores do Ocidente e do Levante.

As mais belas Romanas da soberba,

Mas depravada corte do tirano,

As mais airosas filhas da Circássia,

E as ninfas mais gentis das ilhas gregas

A lauta mesa reclinadas ouvem

Os torpes, desonestos galanteios

Dos escravos de César. Petulante,

De louro coroado, e verde mirto,

Do amor emblema, e símbolo da glória,

Em macia camilha repimpado,

Excita à ebriedade o rei da festa

Seus libertinos, cínicos parceiros.

Bela, apesar do vício, a fronte esbelta

Aos joelhos do amante repousando,

Herodias sorri. De espaço a espaço,

Gracioso escanção, ágil travesso,

Demônio de malícia em tenra idade,

As taças de ouro que a seus pés reluzem

De excitante falerno enche, dizendo

Imodestos gracejos. Nenhum pajem

Do mais devasso camarim do império

O vencera em audácia e desvergonha!

Entretanto, meu Deus! É uma menina,

No albor da adolescência, rósea, loira,

Olhos azuis brilhantes, lábios de anjo!

E esta menina é filha de Herodias!...

XIII

Mas, pouco e pouco, se entibia e passa.

O ardor da saturnal. Ébrios e fartos,

Estiram-se e bocejam sonolentos

Os heróis do festim: a vil preguiça

Vence a voraz e crassa intemperança...

Então, como entendendo os pensamentos

Que da mãe tediosa a fronte nublam,

Corre a menina astuta, a sala deixa,

Deixa os vestidos leves que trajava,

Cinge de rosas a gentil cabeça,

Desnuda os seios, a cintura enfeita

De perfumadas e vistosas faixas.

Toma um ebúrneo tamboril, coberto

Dos mais finos e artísticos lavores,

E, do espelho fiel se despedindo,

Volta faceira à sala do banquete.

XIV

Os tangedores, avisados, rompem

Nas mais doces e ternas harmonias;

Os convivas levantam-se surpresos:

Derramam servos nos braseiros ricos

Perfumes sem iguais. Senta-se Herodes,

Estremece Herodias. Entretanto,

Escrava da cadência, mas senhora

Dos requebrados, lânguidos meneios,

Sobre as flores dos séricos tapetes,

Mais ligeira que a leve borboleta,

Mais bela que os espíritos errantes

Que à noite brincam nos rosais cheirosos,

Ela volteia, a doida bailadeira!

Na dança figurada, aos ágeis passos

Mistura os garridos movimentos,

Os gestos mais lascivos. Arquejante,

Às vezes para do salão no centro,

Suspira e cerra os olhos... vai e, quem sabe?

Sucumbir de cansaço! Mas engano!

Reanima-se, ri, levanta os braços,

Flexível como a serpe encurva o corpo,

E num rápido giro se aproxima

Do fascinado Herodes, sacudindo

Sobre seus pés as rosas da grinalda,

Entre os aplausos mil dos assistentes.

Depois, qual passarinho caprichoso,

Que das nuvens descendo, em tarde estiva,

Modera o vôo, quando a terra avista,

Ela os passos afrouxa, e segue a medo

Os mais lento tanger dos instrumentos.

Imita a corça, quando alegre salta,

Quando corre veloz; é viva abelha

Sobre os lírios dos vales adejando...

Mimoso colibri, quando descansa,

Tão leve, que não dobra das alfombras

A mais delgada flor! Por largo tempo

Assim deleita a vista dos convivas;

Ofegante por fim, extenuada,

Faz um último esforço, e mansamente

Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.

XV

-Oh!... Pede-me o que quiseres, não vaciles!

Inda que sejam meu governo e o erário,

Juro que t'os darei! Grita enlevado

O romano senhor; eia, responde!

Então do ódio escuro e escuro gênio

Aos ouvidos murmura de Herodias:

-Lembra-te do Batista! Estranho lume

Da régia libertina inflama os olhos,

Vivo rubor lhe sobe ao lindo rosto,

Chama a filha imprudente, ao colo a estreita,

E um conselho cruel lhe dá baixinho.

XVI

-Ó rei! Diz a volúvel dançarina,

Se a promessa que parte de teus lábios

Um gracejo não fosse... - Pelos deuses,

E deusas imortais! Herodes brada,

Seja eu ludíbrio do plebeu mais rude

Se alguma coisa te negar! -Desculpa,

Se duvidei de ti; pois bem, atende:

Sabes quantas afrontas recebemos

Do protervo Batista, diz a moça;

Que punição lhe deste? Descuidoso

Nos terrados de vasta fortaleza,

Em risonha colina levantada

Escarnece de ti!... Agora escuta,

E cumpre, como um rei, o que juraste:

-Dá-me a cabeça do Batista! Herodes

Treme, os olhos abaixa, e não responde

-Hesitas?... E da mesa do banquete

A filha de Herodias se aproxima,

Lança mão de uma salva primorosa

Que ao tirano apresenta: -Nesta salva

Quero a cabeça do Batista. O bárbaro

Chama o chefe da guarda que o servia:

-Escutaste? -Escutei. -Parte, e obedece!

Eis meu anel, te servirá de senha.

O sinistro emissário a sala deixa.

Canto VIII

[Episódio da Última Ceia]

V

Iluminada estava a bela sala,

A sala do festim; servida a mesa:

Adornadas de palmas as pilastras,

Quando Jesus chegou. Mágico efeito

Produzia o clarão dos brancos círios

Sobre as ricas alfaias e cortinas

Das mais vistosas sedas, que mudavam

As vivas cores sob a luz imprópria.

Suave aroma de resinas brandas

Embalsamava o ar; vago mistério,

Secreto encanto que os altares cerca,

E banha os santuários, quando mudos

No silêncio da noite refletimos

No templo do Senhor, e nosso espírito

Julga presente Aquele que invocamos;

Os eflúvios, talvez, de um outro mundo,

O claro espaço enchiam, consagrado

Da liberdade aos últimos momentos,

Da caridade às práticas sublimes,

E da esperança às vívidas promessas!

Convidando os humildes companheiros,

Sentou-se à mesa o Salvador; à destra

Tomou lugar o cândido discípulo,

Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!

Ocuparam os mais ambos os lados.

Como não fosse o gosto dos banquetes,

Nem a paixão das finas iguarias

Que os reunira ali, mas o respeito

Das priscas tradições e os atrativos

Da fraterna união, passava o tempo,

E os felizes consócios discorriam

Sobre as divinas leis. Silencioso

Até então Jesus se conservava;

Mas, elevando a voz, grave e solene

Deste modo falou: -Ó meus amigos!

Desejei, com afã, entre vós outros

A páscoa celebrar antes da morte;

E crede, vos afirmo, doravante

Nenhum sustento levarei à boca

Até que ela se cumpra gloriosa

No reino de meu Pai! Houve uma pausa

De curta duração; o amado Mestre

Tomou então um cálice de prata,

Em cujas faces primoroso artista

Esculpira o sublime sacrifício

Do pio e manso Isaac, e lentamente

O encheu de rubro e generoso vinho.

-Bebei, disse, entregando-o aos companheiros,

Que não mais provarei da vide o fruto,

Enquanto não vier o Reino eterno!

Depois ergueu-se e se afastou da mesa,

Despiu as vestiduras, e cingiu-se

De alva toalha do mais fino linho,

Tomo uma bacia, encheu-a d'água,

Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.

Esta insólita e nova cerimônia

Lançou a confusão nas almas simples

Dos simples aldeões: surpreendidos

Olhavam para Cristo e não ousavam

Um gesto aventurar; porém tranqüilo

Prosseguia Jesus: nas finas dobras

Da macia toalha os pés molhados

Enxugava ao penúltimo. Entretanto,

O velho Pedro esquivo se escondera,

E, chegando-lhe a vez, o grande Mestre

Chamava-o com instância. -Em tal não penses,

O lhano galileu, gritou medroso;

Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,

Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! Não quero

Nem o deves querer! -Se te recusas,

Responde o Salvador, não és comigo;

Da santa comunhão não fazes parte!

-Não! Não me negarei, atalha Pedro,

Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,

Lava-me o coração! Torna-me puro

Como a luz, como o céu, como a verdade!

-Porém, disse Jesus, o que está limpo

Só deve os pés lavar, os pés somente,

E vós outros sois limpos.. ah! Não todos!...

Se os sócios do Senhor não conhecessem

A índole de Judas, bastaria

Para entender a dúbia referência

Olhar para o traidor! Tinha no rosto,

Na fealdade horrenda de um demônio,

A sinistra expressão de um condenado.

Findo o humilde servo, o Mestre exímio

Pôs de lado a toalha, e satisfeito,

Tomando as investiduras, assentou-se

No lugar que deixara junto à mesa,

E assim continuou: -Pobres amigos!

Senhor e Mestre me chamais, é certo

Que sou Mestre e Senhor, os pés vos lavo,

O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,

Lavar os pés também, mas uns aos outros.

Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção

E nome de seu pai, e, erguendo o rosto

Nesse momento esplêndido de graças,

Distribuiu aos mansos companheiros

O sagrado alimento. -Eis o meu corpo,

Dado por vosso amor... Depois, enchendo

O cálice de vinho, apresentou-lhes:

-Eis o meu sangue, o sangue da inocência,

O da Nova Aliança ardente sangue,

Que por vossa intenção será vertido...

Comei, pois, e bebei!... entre os convivas

Deste festim divino, entre os eleitos

Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,

O vinho milagroso recebiam,

Achava-se o precito que vendera

A carne e o sangue do celeste amigo!...

Cristo suspirou baixando os olhos,

Depois assim falou: -Sombrio arcano!

Desgraça inevitável! No futuro,

Sem que a suprema lei domine os atos

Da liberdade humana, eu vejo claro

O que há de suceder! Mesquinhos seres!

Sentados junto a mim, tratais-me agora

Com respeitoso amor, vossas palavras

São da fidelidade a viva cópia...

E, contudo, um de vós, há de trair-me!

E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,

Há de entregar-me aos bárbaros verdugos

Que meu sangue reclamam, como a herança

De seus perversos pais! -Senhor, que dizes!

- Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam

Os pobres aterrados. -Ora, vede,

Prossegue o Redentor, dos que me cercam,

O que a meu prato leva a mão comigo,

Aquele a quem eu der o pão molhado,

É ele o delator. Junto de Cristo,

À destra, estava João, o mais discreto,

O mais moço também e o mais formoso

Da caridosa grei; entristecido

Ao ouvir estas lúgubres palavras,

Escondera a cabeça graciosa

No seio de Jesus; e as loiras ondas

Dos lustrosos cabelos anelados,

Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam

As abundantes lágrimas. Bem cedo

Cumpira-se o mistério: várias vezes,

Por simples distração ou grosseria,

No prato do Senhor tocara o ímpio,

Mais claro ainda o caso ia tornar-se;

Já ninguém conversava: então o mestre

Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!

-Senhor! Senhor, que fazes!... Porventura

Me julgas o traidor? - Tu o disseste,

Tu o disseste, Judas! Lhe responde

Cristo magoado. O que receias?

Vai, as horas escoam-se ligeiras,

E o que tens a fazer, faze-o depressa!

Um momento depois em vão buscavam

Na sala do banquete o fementido:

Ele os tinha deixado, e estava longe.











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FAGUNDES VARELA

Luís Nicolau Fagundes Varela

(Nossa Senhora da Piedade [Rio Claro] RJ 1841 - Niterói RJ 1875)

Publicou seu primeiro livro de poesia, Noturnas, em 1861. Na época, já havia publicado artigos e poemas na Revista Dramática e Revista da Associação Recreio Instrutivo, de São Paulo SP. Em 1961 também publicou os folhetins As Ruínas da Glória e A Guarida de Pedra, e de poemas em homenagem aos atores Furtado Coelho, Eugênia Câmara e João Caetano, no Correio Paulistano. Entre 1862 e 1866 cursou Direito em São Paulo e em Recife PE, mas não chegou a concluir a faculdade. Sua obra poética inclui os livros O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1869), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869), Anchieta; ou, O Evangelho nas Selvas (1875), e os póstumos Cantos Religiosos (1878) e O Diário de Lázaro (1880). Em 1882 foram publicadas suas Obras Completas, e em 1857 suas Poesias Completas. Fagundes Varela é um dos nomes mais importantes do Romantismo brasileiro. Segundo o crítico Edgard Cavalheiro, "sua poesia, pelo menos a mais expressiva, aquela que mais alto o eleva, focaliza, com uma constância digna de nota num temperamento tão versátil, a luta entre a cidade e o campo, entre a solidão e o convívio social. Nesse dualismo Fagundes Varela se debateu, numa luta que assume, por vezes, aspectos de intensa dramaticidade.".

A Flor do Maracujá
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas do sereno
Nas folhas de gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!

Pelas tranças da mãe-d'água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová!
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá!

Por tudo o que o céu revela!
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo esse emblema
Da flor do maracujá!

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em -- a --
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!

A S. Paulo

Terra da liberdade!
Pátria de heróis e berço de guerreiros,
Tu és o louro mais brilhante e puro,
O mais belo florão dos Brasileiros!

Foi no teu solo, em borbotões de sangue
Que a fronte ergueram destemidos bravos,
Gritando altivos ao quebrar dos ferros:
Antes a morte que um viver de escravos!

Foi nos teus campos de mimosas flores,
À voz das aves, ao soprar do norte,
Que um rei potente às multidões curvadas
Bradou soberbo -- Independência ou morte!

Foi de teu seio que surgiu, sublime,
Trindade eterna de heroísmo e glória,
Cujas estátuas, -- cada vez mais belas,
Dormem nos templos da Brasília história!

Eu te saúdo, óh! majestosa plaga,
Filha dileta, -- estrela da nação,
Que em brios santos carregaste os cílios
À voz cruenta de feroz Bretão!

Pejaste os ares de sagrados cantos,
Ergueste os braços e sorriste à guerra,
Mostrando ousada ao murmurar das turbas
Bandeira imensa da Cabrália terra!

Eia! -- Caminha, o Partenon da glória
Te guarda o louro que premia os bravos!
Voa ao combate repetindo a lenda:
-- Morrer mil vezes que viver escravos!

Ideal

Não és tu quem eu amo, não és!
Nem Teresa também, nem Ciprina;
Nem Mercedes a loira, nem mesmo
A travessa e gentil Valentina.

Quem eu amo te digo, está longe;
Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.

Tem a cútis mais fina e brilhante
Que as bandejas de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoa, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.

Tem uns pés... oh! que pés, Santo Deus!
Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.

Não és tu quem eu amo, nem Laura,
Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês;
A mulher que minh'alma idolatra
É princesa do império chinês.

Juvenília I

Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?

Quando as estrelas sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas,
Ao langor daquele céu?

Lembras-te, Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.

Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão relvoso cobria
Das flores das trepadeiras.

Lembras-te, Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.

Teu seio era como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.

(...)
Que é feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!

Onde foste, ó pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?

Ah! Iná! por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!

Irei às nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberbo mergulhador!

Irei à pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;

Se depois de imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!

Mauro, o Escravo

(Fragmentos de um poema)

A Sentença
(...)

XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.

(...)

XIV
-- Conheces teu crime? gritou o senhor.
-- Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
-- Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.

(...)

XX
-- Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
-- Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!

XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
-- Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:

XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?

XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!

XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!

XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
-- Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.

XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
-- Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.

XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.

O General Juarez

(...)
Juarez! Juarez! sempre teu nome
Da liberdade ao lado!
Sempre teus brados ao passar dos ventos!
Sempre a lembrança tua
A cada marulhar de humanas vagas!
Em que fonte sagrada
Bebeste esse valor e essa firmeza
Que os reveses não quebram?

(...)
Quão enganada marcha a tirania!
Quão cego o despotismo
Paira e volteia nessas virgens plagas!
Há no seio da América
Um mundo novo a descobrir-se ainda:
Senhores de além-mar,
Quereis saber onde esse mundo existe?
Quereis saber seu nome?
Sondai o peito à raça americana,
E nesse mar sem fundo,
Inda aquecido pelo mar primeiro,
Vereis a liberdade!

Tu a encaraste, Juarez, de perto!
No mais fundo das matas
Onde a mãe natureza te mostrava
Um código mais puro
Do que os preceitos da infernal ciência
Cujas letras malditas
Queimam do pergaminho a lisa face,
Aprendeste o segredo
Que desde a hora prima do universo
As torrentes murmuram!
E contemplando o ermo, o céu, as águas,
Choraste por ser homem!

Mas dos vulcões sorvendo o fumo espesso,
Transpondo os areais,
Buscando asilo nas florestas amplas,
Arrostando as tormentas
Entre um pugilo de guerreiros bravos,
Pejaste de legendas
Todo o deserto que teus pés tocaram!
E as solidões sorriam,
Os abutres saíam de seus antros,
As turbas dos selvagens
Vinham surpresas se postar nos montes
Para ver-te passar!

O espírito de um povo nunca morre.
Não, não foram os homens
Que sobre o globo prolongando a vista,
Regiões escolheram,
E formaram nações, usos e crenças;
Não, uma oculta lei
Disse: -- Ao Árabe as terras arenosas,
Aos Germanos a neve;
Aqui o fogo, a luz, ali neblinas;
Nesta calmos pastores,
Ali fortes guerreiros; sonhos, crenças,
Lhes servem de defesa.

(...)

Cântico do Calvário

À MEMÓRIA DE MEU FILHO
Morto a 11 de dezembro de 1863

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. -- Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, -- a inspiração, -- a pátria,
O povir de teu pai! -- Ah! no entanto,
Pomba, -- varou-te a flecha do destino!
Astro, -- engoliu-te o temporal do norte!
Teto, -- caíste! -- Crença, já não vives!

Correi, correi, ó lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! Um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golgonda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, -- gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! -- Sede benditas!
Ó filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente,
Buscando um novo clima onde pousarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante

(...)
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Escuto em meio de confusas vozes,
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, -- sinto o aroma
Do incenso das igrejas, -- ouço os cantos
Dos ministros de Deus que mem repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde!...

Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe,
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.
Ira de Saul

FRAGMENTO

A noite desce. Os furacões de Assur
Passam dobrando os galhos à videira,
Todos os plainos de Salisa e Sur
Perdem-se ao longe em nuvens de poeira.

Minh'alma se exacerba. O fel d'Arábia
Coalha-se todo neste peito agora.
Oh! nenhum mago da Caldeia sábia
A dor abrandará que me devora!

Nenhum! -- Não vem da terra, não tem nome,
Só eu conheço tão profundo mal,
Que lavra como a chama e que consome
A alma e o corpo no calor fatal!

Maldição! Maldição! Ei-lo que vem!
Oh! mais não posso! A ira me quebranta!...
Toma tu'harpa, filho de Belám,
Toma tu'harpa sonorosa e canta!

Canta, louro mancebo! O som que acordas
É doce como as auras do Cedron,
Lembra-me o arroio de florentes bordas
Junto à minha romeira de Magron.

Lembra-me a vista do Carmelo, -- as tendas
Brancas sobre as encostas de Efraim,
E pouco a pouco apagam-se as tremendas
Fúrias do gênio que me oprime assim!

[A Cruz]

***

Estrelas

Singelas,

Luzeiros

Fagueiros,

Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!

Desertos e mares, - florestas vivazes!

Montanhas audazes que o céu topetais!

Abismos

Profundos!

Cavernas

E t e r nas!

Extensos,

Imensos

Espaços

A z u i s!

Altares e tronos,

Humildes e sábios, soberbos e grandes!

Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!

Só ela nos mostra da glória o caminho,

Só ela nos fala das leis de - Jesus!

ANCHIETA OU O EVANGELHO NAS SELVAS

CANTO IV

[Episódio de Salomé]

XII

Os primores da Europa, o luxo d'Ásia,

O fausto desta, a profusão daquela

De Herodes o palácio aformoseiam.

Mil candieiros, transparentes tochas,

Argênteos lampadários, iluminam

As vastas arcarias, machetadas

Dos mais lindos mosaicos do Oriente,

E as colunas de mármore, as pilastras,

Cobertas de lavores, e as paredes

Ornamentadas de brasões pomposos.

Os gratos sons das harpas e doçainas,

Dos citulos e frautas repercutem

Fora na larga praça, onde confusa

Cochicha a multidão maravilhada.

Celebra o rei vaidoso e dissoluto

Seu dia natalício. As salas todas

Estão cheias de amigos e convivas:

Ricos Hebreus, Latinos cavaleiros,

Senhores do Ocidente e do Levante.

As mais belas Romanas da soberba,

Mas depravada corte do tirano,

As mais airosas filhas da Circássia,

E as ninfas mais gentis das ilhas gregas

A lauta mesa reclinadas ouvem

Os torpes, desonestos galanteios

Dos escravos de César. Petulante,

De louro coroado, e verde mirto,

Do amor emblema, e símbolo da glória,

Em macia camilha repimpado,

Excita à ebriedade o rei da festa

Seus libertinos, cínicos parceiros.

Bela, apesar do vício, a fronte esbelta

Aos joelhos do amante repousando,

Herodias sorri. De espaço a espaço,

Gracioso escanção, ágil travesso,

Demônio de malícia em tenra idade,

As taças de ouro que a seus pés reluzem

De excitante falerno enche, dizendo

Imodestos gracejos. Nenhum pajem

Do mais devasso camarim do império

O vencera em audácia e desvergonha!

Entretanto, meu Deus! É uma menina,

No albor da adolescência, rósea, loira,

Olhos azuis brilhantes, lábios de anjo!

E esta menina é filha de Herodias!...

XIII

Mas, pouco e pouco, se entibia e passa.

O ardor da saturnal. Ébrios e fartos,

Estiram-se e bocejam sonolentos

Os heróis do festim: a vil preguiça

Vence a voraz e crassa intemperança...

Então, como entendendo os pensamentos

Que da mãe tediosa a fronte nublam,

Corre a menina astuta, a sala deixa,

Deixa os vestidos leves que trajava,

Cinge de rosas a gentil cabeça,

Desnuda os seios, a cintura enfeita

De perfumadas e vistosas faixas.

Toma um ebúrneo tamboril, coberto

Dos mais finos e artísticos lavores,

E, do espelho fiel se despedindo,

Volta faceira à sala do banquete.

XIV

Os tangedores, avisados, rompem

Nas mais doces e ternas harmonias;

Os convivas levantam-se surpresos:

Derramam servos nos braseiros ricos

Perfumes sem iguais. Senta-se Herodes,

Estremece Herodias. Entretanto,

Escrava da cadência, mas senhora

Dos requebrados, lânguidos meneios,

Sobre as flores dos séricos tapetes,

Mais ligeira que a leve borboleta,

Mais bela que os espíritos errantes

Que à noite brincam nos rosais cheirosos,

Ela volteia, a doida bailadeira!

Na dança figurada, aos ágeis passos

Mistura os garridos movimentos,

Os gestos mais lascivos. Arquejante,

Às vezes para do salão no centro,

Suspira e cerra os olhos... vai e, quem sabe?

Sucumbir de cansaço! Mas engano!

Reanima-se, ri, levanta os braços,

Flexível como a serpe encurva o corpo,

E num rápido giro se aproxima

Do fascinado Herodes, sacudindo

Sobre seus pés as rosas da grinalda,

Entre os aplausos mil dos assistentes.

Depois, qual passarinho caprichoso,

Que das nuvens descendo, em tarde estiva,

Modera o vôo, quando a terra avista,

Ela os passos afrouxa, e segue a medo

Os mais lento tanger dos instrumentos.

Imita a corça, quando alegre salta,

Quando corre veloz; é viva abelha

Sobre os lírios dos vales adejando...

Mimoso colibri, quando descansa,

Tão leve, que não dobra das alfombras

A mais delgada flor! Por largo tempo

Assim deleita a vista dos convivas;

Ofegante por fim, extenuada,

Faz um último esforço, e mansamente

Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.

XV

-Oh!... Pede-me o que quiseres, não vaciles!

Inda que sejam meu governo e o erário,

Juro que t'os darei! Grita enlevado

O romano senhor; eia, responde!

Então do ódio escuro e escuro gênio

Aos ouvidos murmura de Herodias:

-Lembra-te do Batista! Estranho lume

Da régia libertina inflama os olhos,

Vivo rubor lhe sobe ao lindo rosto,

Chama a filha imprudente, ao colo a estreita,

E um conselho cruel lhe dá baixinho.

XVI

-Ó rei! Diz a volúvel dançarina,

Se a promessa que parte de teus lábios

Um gracejo não fosse... - Pelos deuses,

E deusas imortais! Herodes brada,

Seja eu ludíbrio do plebeu mais rude

Se alguma coisa te negar! -Desculpa,

Se duvidei de ti; pois bem, atende:

Sabes quantas afrontas recebemos

Do protervo Batista, diz a moça;

Que punição lhe deste? Descuidoso

Nos terrados de vasta fortaleza,

Em risonha colina levantada

Escarnece de ti!... Agora escuta,

E cumpre, como um rei, o que juraste:

-Dá-me a cabeça do Batista! Herodes

Treme, os olhos abaixa, e não responde

-Hesitas?... E da mesa do banquete

A filha de Herodias se aproxima,

Lança mão de uma salva primorosa

Que ao tirano apresenta: -Nesta salva

Quero a cabeça do Batista. O bárbaro

Chama o chefe da guarda que o servia:

-Escutaste? -Escutei. -Parte, e obedece!

Eis meu anel, te servirá de senha.

O sinistro emissário a sala deixa.

Canto VIII

[Episódio da Última Ceia]

V

Iluminada estava a bela sala,

A sala do festim; servida a mesa:

Adornadas de palmas as pilastras,

Quando Jesus chegou. Mágico efeito

Produzia o clarão dos brancos círios

Sobre as ricas alfaias e cortinas

Das mais vistosas sedas, que mudavam

As vivas cores sob a luz imprópria.

Suave aroma de resinas brandas

Embalsamava o ar; vago mistério,

Secreto encanto que os altares cerca,

E banha os santuários, quando mudos

No silêncio da noite refletimos

No templo do Senhor, e nosso espírito

Julga presente Aquele que invocamos;

Os eflúvios, talvez, de um outro mundo,

O claro espaço enchiam, consagrado

Da liberdade aos últimos momentos,

Da caridade às práticas sublimes,

E da esperança às vívidas promessas!

Convidando os humildes companheiros,

Sentou-se à mesa o Salvador; à destra

Tomou lugar o cândido discípulo,

Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!

Ocuparam os mais ambos os lados.

Como não fosse o gosto dos banquetes,

Nem a paixão das finas iguarias

Que os reunira ali, mas o respeito

Das priscas tradições e os atrativos

Da fraterna união, passava o tempo,

E os felizes consócios discorriam

Sobre as divinas leis. Silencioso

Até então Jesus se conservava;

Mas, elevando a voz, grave e solene

Deste modo falou: -Ó meus amigos!

Desejei, com afã, entre vós outros

A páscoa celebrar antes da morte;

E crede, vos afirmo, doravante

Nenhum sustento levarei à boca

Até que ela se cumpra gloriosa

No reino de meu Pai! Houve uma pausa

De curta duração; o amado Mestre

Tomou então um cálice de prata,

Em cujas faces primoroso artista

Esculpira o sublime sacrifício

Do pio e manso Isaac, e lentamente

O encheu de rubro e generoso vinho.

-Bebei, disse, entregando-o aos companheiros,

Que não mais provarei da vide o fruto,

Enquanto não vier o Reino eterno!

Depois ergueu-se e se afastou da mesa,

Despiu as vestiduras, e cingiu-se

De alva toalha do mais fino linho,

Tomo uma bacia, encheu-a d'água,

Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.

Esta insólita e nova cerimônia

Lançou a confusão nas almas simples

Dos simples aldeões: surpreendidos

Olhavam para Cristo e não ousavam

Um gesto aventurar; porém tranqüilo

Prosseguia Jesus: nas finas dobras

Da macia toalha os pés molhados

Enxugava ao penúltimo. Entretanto,

O velho Pedro esquivo se escondera,

E, chegando-lhe a vez, o grande Mestre

Chamava-o com instância. -Em tal não penses,

O lhano galileu, gritou medroso;

Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo,

Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! Não quero

Nem o deves querer! -Se te recusas,

Responde o Salvador, não és comigo;

Da santa comunhão não fazes parte!

-Não! Não me negarei, atalha Pedro,

Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto,

Lava-me o coração! Torna-me puro

Como a luz, como o céu, como a verdade!

-Porém, disse Jesus, o que está limpo

Só deve os pés lavar, os pés somente,

E vós outros sois limpos.. ah! Não todos!...

Se os sócios do Senhor não conhecessem

A índole de Judas, bastaria

Para entender a dúbia referência

Olhar para o traidor! Tinha no rosto,

Na fealdade horrenda de um demônio,

A sinistra expressão de um condenado.

Findo o humilde servo, o Mestre exímio

Pôs de lado a toalha, e satisfeito,

Tomando as investiduras, assentou-se

No lugar que deixara junto à mesa,

E assim continuou: -Pobres amigos!

Senhor e Mestre me chamais, é certo

Que sou Mestre e Senhor, os pés vos lavo,

O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo,

Lavar os pés também, mas uns aos outros.

Então, tomou o pão, lançou-lhe a benção

E nome de seu pai, e, erguendo o rosto

Nesse momento esplêndido de graças,

Distribuiu aos mansos companheiros

O sagrado alimento. -Eis o meu corpo,

Dado por vosso amor... Depois, enchendo

O cálice de vinho, apresentou-lhes:

-Eis o meu sangue, o sangue da inocência,

O da Nova Aliança ardente sangue,

Que por vossa intenção será vertido...

Comei, pois, e bebei!... entre os convivas

Deste festim divino, entre os eleitos

Que o maná verdadeiro, a hóstia santa,

O vinho milagroso recebiam,

Achava-se o precito que vendera

A carne e o sangue do celeste amigo!...

Cristo suspirou baixando os olhos,

Depois assim falou: -Sombrio arcano!

Desgraça inevitável! No futuro,

Sem que a suprema lei domine os atos

Da liberdade humana, eu vejo claro

O que há de suceder! Mesquinhos seres!

Sentados junto a mim, tratais-me agora

Com respeitoso amor, vossas palavras

São da fidelidade a viva cópia...

E, contudo, um de vós, há de trair-me!

E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato,

Há de entregar-me aos bárbaros verdugos

Que meu sangue reclamam, como a herança

De seus perversos pais! -Senhor, que dizes!

- Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam

Os pobres aterrados. -Ora, vede,

Prossegue o Redentor, dos que me cercam,

O que a meu prato leva a mão comigo,

Aquele a quem eu der o pão molhado,

É ele o delator. Junto de Cristo,

À destra, estava João, o mais discreto,

O mais moço também e o mais formoso

Da caridosa grei; entristecido

Ao ouvir estas lúgubres palavras,

Escondera a cabeça graciosa

No seio de Jesus; e as loiras ondas

Dos lustrosos cabelos anelados,

Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam

As abundantes lágrimas. Bem cedo

Cumpira-se o mistério: várias vezes,

Por simples distração ou grosseria,

No prato do Senhor tocara o ímpio,

Mais claro ainda o caso ia tornar-se;

Já ninguém conversava: então o mestre

Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas!

-Senhor! Senhor, que fazes!... Porventura

Me julgas o traidor? - Tu o disseste,

Tu o disseste, Judas! Lhe responde

Cristo magoado. O que receias?

Vai, as horas escoam-se ligeiras,

E o que tens a fazer, faze-o depressa!

Um momento depois em vão buscavam

Na sala do banquete o fementido:

Ele os tinha deixado, e estava longe.





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GONÇALVES DIAS

Ainda uma vez -- Adeus
I

Enfim te vejo! -- enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias -- bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

VII

Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

X

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!

XI

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

XII

Enganei-me!... -- Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!

XIII

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
C'o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

XIV

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII

Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; -- e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, -- de compaixão.

Canção do exílio
(Coimbra, julho de 1843)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar -- sozinho, à noite --
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

I-Juca Pirama

I

No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos -- cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d'altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão.

São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio,
As armas quebrando, lançando-as ao rio,
O incenso aspiraram dos seus maracás:
Medrosos das guerras que os fortes acendem,
Custosos tributos ignavos lá rendem,
Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

No centro da taba se estende um terreiro,
Onde ora se aduna o concílio guerreiro
Da tribo senhora, das tribos servis:
Os velhos sentados praticam d'outrora,
E os moços inquietos, que a festa enamora,
Derramam-se em torno dum índio infeliz.

Quem é? -- ninguém sabe: seu nome é ignoto,
Sua tribo não diz: -- de um povo remoto
Descende por certo -- dum povo gentil;
Assim lá na Grécia ao escravo insulano
Tornavam distinto do vil muçulmano
As linhas corretas do nobre perfil.

Por casos de guerra caiu prisioneiro
Nas mãos dos Timbiras: -- no extenso terreiro
Assola-se o teto, que o teve em prisão;
Convidam-se as tribos dos seus arredores,
Cuidosos se incumbem do vaso das cores,
Dos vários aprestos da honrosa função.

Acerva-se a lenha da vasta fogueira,
Entesa-se a corda de embira ligeira,
Adorna-se a maça com penas gentis:
A custo, entre as vagas do povo da aldeia
Caminha o Timbira, que a turba rodeia,
Garboso nas plumas de vário matiz.

Entanto as mulheres com leda trigança,
Afeitas ao rito da bárbara usança,
O índio já querem cativo acabar:
A coma lhe cortam, os membros lhe tingem,
Brilhante enduape no corpo lhe cingem,
Sombreia-lhe a fronte gentil canitar.

II

Em fundos vasos d'alvacenta argila ferve o cauim;
Enchem-se as copas, o prazer começa, reina o festim.
O prisioneiro, cuja morte anseiam, sentado está,
O prisioneiro, que outro sol no ocaso jamais verá!

A dura corda, que lhe enlaça o colo, mostra-lhe o fim
Da vida escura, que será mais breve do que o festim!
Contudo os olhos d'ignóbil pranto secos estão;
Mudos os lábios não descerram queixas do coração.

Mas um martírio, que encobrir não pode, em rugas faz
A mentirosa placidez do rosto na fronte audaz!
Que tens, guerreiro? Que temor te assalta no passo horrendo?
Honra das tabas que nascer te viram, folga morrendo.

Folga morrendo; porque além dos Andes revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos da fria morte.
Rasteira grama, exposta ao sol, à chuva, lá murcha e pende:
Somente ao tronco, que devassa os ares, o raio ofende!

Que foi? Tupã mandou que ele caísse, como viveu;
E o caçador que o avistou prostrado esmoreceu!
Que temes, ó guerreiro? Além dos Andes revive o forte,
Que soube ufano contrastar os medos da fria morte.

III

Em larga roda de novéis guerreiros
Ledo caminha o festival Timbira,
A quem do sacrifício cabe as honras.
Na fronte o canitar sacode em ondas,
O enduape na cinta se embalança,
Na destra mão sopesa a ivirapeme,
Orgulhoso e pujante. -- Ao menor passo

Colar d'alvo marfim, insígnia d'honra,
Que lhe orna o colo e o peito, ruge e freme,
Como que por feitiço não sabido
Encantadas ali as almas grandes
Dos vencidos Tapuias, inda chorem
Serem glória e brasão d'imigos feros.

"Eis-me aqui, diz ao índio prisioneiro;
"Pois que fraco, e sem tribo, e sem família,
"As nossas matas devassaste ousado,
"Morrerás morte vil da mão de um forte."

Vem a terreiro o mísero contrário;
Do colo à cinta a muçurana desce:
"Dize-nos quem és, teus feitos canta,
"Ou se mais te apraz, defende-te." Começa
O índio, que ao redor derrama os olhos,
Com triste voz que os ânimos comove.

IV

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Já vi cruas brigas,
De tribos imigas,
E as duras fadigas
Da guerra provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei.

Andei longes terras,
Lidei cruas guerras,
Vaguei pelas serras
Dos vis Aimorés;
Vi lutas de bravos,
Vi fortes -- escravos!
De estranhos ignavos
Calcados aos pés.

E os campos talados,
E os arcos quebrados,
E os piagas coitados
Já sem maracás;
E os meigos cantores,
Servindo a senhores,
Que vinham traidores,
Com mostras de paz

Aos golpes do imigo
Meu último amigo,
Sem lar, sem abrigo
Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Sereno e composto,
O acerbo desgosto
Comigo sofri.

Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d'espinhos
Chegamos aqui!

O velho no entanto
Sofrendo já tanto
De fome e quebranto,
Só qu'ria morrer!
Não mais me contenho,
Nas matas me embrenho,
Das frechas que tenho
Me quero valer.

Então, forasteiro,
Caí prisioneiro
De um troço guerreiro
Com que me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja -- dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou.

Ao velho coitado
De penas ralado,
Já cego e quebrado,
Que resta? - Morrer.
Enquanto descreve
O giro tão breve
Da vida que teve,
Deixa-me viver!

Não vil, não ignavo,
Mas forte, mas bravo,
Serei vosso escravo:
Aqui virei ter.
Guerreiros, não coro
Do pranto que choro;
Se a vida deploro,
Também sei morrer.

V

Soltai-o! -- diz o chefe. Pasma a turba;
Os guerreiros murmuram: mal ouviram,
Nem pode nunca um chefe dar tal ordem!
Brada segunda vez com voz mais alta,
Afrouxam-se as prisões, a embira cede,
A custo, sim; mas cede: o estranho é salvo,
-- Timbira, diz o índio enternecido,
Solto apenas dos nós que o seguravam:
És um guerreiro ilustre, um grande chefe,
Tu que assim do meu mal te comoveste,
Nem sofres que, transposta a natureza,
Com olhos onde a luz já não cintila,
Chore a morte do filho o pai cansado,
Que somente por seu na voz conhece.
-- És livre; parte.
-- E voltarei.
-- Debalde.

-- Sim, voltarei, morto meu pai.

-- Não voltes!

É bem feliz, se existe, em que não veja,
Que filho tem, qual chora: és livre; parte!
-- Acaso tu supões que me acobardo,
Que receio morrer!
-- És livre; parte!

-- Ora não partirei; quero provar-te
Que um filho dos Tupis vive com honra,
E com honra maior, se acaso vencem,
Da morte o passo glorioso afronta.

-- Mentiste, que um Tupi não chora nunca,
E tu choraste!... parte; não queremos
Com carne vil enfraquecer os fortes.
Sobresteve o Tupi: - arfando em ondas
O rebater do coração se ouvia
Precipite. - Do rosto afogueado
Gélidas bagas de suor corriam:
Talvez que o assaltava um pensamento...
Já não... que na enlutada fantasia,
Um pesar, um martírio ao mesmo tempo,
Do velho pai a moribunda imagem
Quase bradar-lhe ouvia: - Ingrato! ingrato!
Curvado o colo, taciturno e frio,
Espectro d'homem, penetrou no bosque!

VI

-- Filho meu, onde estás?

-- Ao vosso lado;
Aqui vos trago provisões: tomai-as,
As vossas forças restaurar perdidas,
E a caminho, e já!

-- Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste,
E frouxo o seu calor já sinto agora!

-- Sim, demorei-me a divagar sem rumo,
Perdi-me nestas matas intrincadas,
Reaviei-me e tornei; mas urge o tempo;
Convém partir, e já!

-- Que novos males
Nos resta de sofrer? -- que novas dores,
No outro fado pior Tupã nos guarda?
-- As setas da aflição já se esgotaram,
Nem para novo golpe espaço intacto
Em nossos corpos resta.

-- Mas tu tremes

-- Talvez do afã da caça...

-- Oh filho caro
Um quê misterioso aqui me fala,
Aqui no coração; piedosa fraude
Será por certo, que não mentes nunca!
Não conheces temor, e agora temes?
Vejo e sei: é Tupã que nos aflige,
E contra o seu querer não valem brios.
Partamos!... -- E com mão trêmula, incerta
Procura o filho, tateando as trevas
Da sua noite lúgubre e medonha.
Sentindo o acre odor das frescas tintas,
Uma idéia fatal correu-lhe à mente...
Do filho os membros gélidos apalpa,
E a dolorosa maciez das plumas
Conhece estremecendo: -- foge, volta,
encontra sob as mãos o duro crânio,
Despido então do natural ornato!...
Recua aflito e pávido, cobrindo
Às mãos ambas os olhos fulminados,
Como que teme ainda o triste velho
De ver, não mais cruel, porém mais clara,
Daquele exício grande a imagem viva
Ante os olhos do corpo afigurada.
Não era que a verdade conhecesse
Inteira e tão cruel qual tinha sido;
Mas que funesto azar correra o filho,
Ele o via; ele o tinha ali presente;
E era de repetir-se a cada instante.
A dor passada, a previsão futura
E o presente tão negro, ali os tinha;
Ali no coração se concentrava,
Era num ponto só, mas era a morte!

-- Tu prisioneiro, tu?

-- Vós o dissesses.

-- Dos índios?

-- Sim.

-- De que nação?

-- Timbiras

-- E a muçurana funeral rompeste,
Dos falsos manitôs quebraste a maça...

-- Nada fiz... aqui estou.

-- Nada! --

Emudecem;

Curto instante depois prossegue o velho:

-- Tu és valente, bem o sei; confesso,
Fizeste-o, certo, ou já não foras vivo!

-- Nada fiz; mas souberam da existência
De um pobre velho, que em mim só vivia...

-- E depois?...

--Eis-me aqui.

--Fica essa taba?

-- Na direção do sol, quando transmonta.

-- Longe?

-- Não muito.

-- Tens razão: partamos.

-- E quereis ir?...

-- Na direção do ocaso.

VII

"Por amor de um triste velho,
Que ao termo fatal já chega,
Vós, guerreiros, concedesses
A vida a um prisioneiro.
Ação tão nobre vos honra,
Nem tão alta cortesia
Vi eu jamais praticada
Entre os Tupis -- e mas foram
Senhores em gentileza.

"Eu porém nunca vencido,
Nem os combates por armas
Nem por nobreza nos atos;
Aqui venho, e o filho trago.
Vós o dizeis prisioneiro,
Seja assim como dizeis;
Manda! vir a lenha, o fogo,
A maça do sacrifício
E a muçurana ligeira:
Em tudo o rito se cumpra!
E quando eu for só na terra,
Certo acharei entre os vossos,
Que tão gentis se revelam,
Alguém que meus passos guie;
Alguém, que vendo o meu peito
Coberto de cicatrizes,
Tomando a vez de meu filho,
De haver-me por pai se ufane!"

Mas o chefe dos Timbiras,
Os sobrolhos encrespando,
Ao velho Tupi guerreiro
Responde com torvo acento:
-- Nada farei do que dizes:
É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto. --
Do velho Tupi guerreiro
A surda voz na garganta
Faz ouvir uns sons confusos,
Como os rugidos de um tigre,
Que pouco a pouco se assanha!

VIII

"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!

"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.

"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde festas como asco e terror!

"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E o oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.

"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d'argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sé maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

IX

Isto dizendo, o meserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservara,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho para.
O grito que escutou é voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
-- Esse momento só vale apagar-lhe
Os tão compridos transes, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem.
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.

-- Basta! clama o chefe dos Timbiras,
-- Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. -
O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!

"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
"Corram livres as lágrimas que choro,
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."

X

Um velho Timbira, coberto de glória,
guardou a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro
cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente, como era, chorou sem ter pejo;
parece que o vejo,
Que o tenho nest'hora diante de mim.

"Eu disse comigo: Que infâmia d'escravo!
Pois não, era um bravo;
Valente e brioso, como ele, não vi!
E à fé que vos digo: parece-me encanto
Que quem chorou tanto,
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"

Assim o Timbira, coberto de glória,
guardava a memória
Do moço guerreiro, do velho Tupi.
E à noite nas tabas, se alguém duvidava
do que ele contava,
Tomava prudente: "Meninos, eu vi!"
Minha Terra!
(Paris, 1864)
Quanto é grato em terra estranha
Sob um céu menos querido,
Entre feições estrangeiras,
Ver um rosto conhecido;

Ouvir a pátria linguagem
Do berço balbuciada,
Recordar sabidos casos
Saudosos -- da terra amada!

E em tristes serões d'inverno,
Tendo a face contra o lar,
Lembrar o sol que já vimos,
E o nosso ameno luar!

Certo é grato; mais sentido
Se nos bate o coração,
Que para a pátria nos voa,
P'ra onde os nossos estão!

Depois de girar no mundo
Como barco em crespo mar,
Amiga praia nos chama
Lá no horizonte a brilhar.

E vendo os vales e os montes
E a pátria que Deus nos deu,
Possamos dizer contentes:
Tudo isto que vejo é meu!

Meu este sol que me aclara,
Minha esta brisa, estes céus:
Estas praias, bosques, fontes,
Eu os conheço -- são meus!

Mais os amo quando volte,
Pois do que por fora vi,
A mais querer minha terra,
E minha gente aprendi.

O Soldado Espanhol

I

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
E a terra era a noiva que bem se arreava
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semelhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela;
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: -- Vês o céu? --
E ela disse: -- Vejo, sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. --
Torna-lhe ele... (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!)

-- Por entre os vidros pintados
D'igreja antiga, a luzir
Não vês luz? -- Vejo. -- E não sentes
De a veres, meigo sentir?
-- É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

-- E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
-- É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
-- Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

-- E eu também acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

-- E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

-- És tu só meu Deus, meu tudo.
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. --
Com ela repete o amante:
-- És tu só meu puro amar! --

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!

II

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

"Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai.

"Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t'eu deixar;
Não chores que assim me custa
O pranto meu sofrear.

"Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha."

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
-- Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

"Como o Cid, oh! crua sorte!
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d'Espanha!

"Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

"Como é doce o romper d'alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d'estrela
De noite -- o meigo luzir.

"Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

"Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor,
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

"Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai."

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que triste não chorava
Dizendo assim.

III

"Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu'é promessa de grande caçada
Fresca aurora d'amigo verão.

"Quero tudo luzindo, brilhante
-- Curta espada e venáb'lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

"E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venáb'lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

"Eia, avante! -- dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
-- Eía, avante! -- e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa; -- já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbios o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê! -- latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
Na torre castelã batendo acaso,
Nas seteiras acaso sibilando
Do castelo feudal, deserto agora.

IV

Já o sol se escondeu; cobre a terra
Belo manto de frouxo luar;
E o ginete, que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar.

Da coutada nas ínvias ramagens
Vai sozinho o mancebo infanção;
Vai sozinho, afanoso trotando
Sem temores, sem pajens, sem cão.

Companheiros da caça há perdido,
Há perdido no aceso caçar;
Há perdido, e não sente receio
De sozinho, nas sombras trotar.

Corno ebúmeo embocou muitas vezes,
Muitas vezes de si deu sinal;
Bebe atento a resposta, e não ouve
Outro som responder-lhe; -- lnda mal!

E o ginete que esporas atracam,
Nitre e corre sem nunca parar;
Já o sol se escondeu, cobre a terra
Belo manto de frouxo luar.

V

Silêncio grato da noite
Quebram sons duma canção,
Que vai dos lábios de um anjo
Do que escuta ao coração.

Dizia a letra mimosa
Saudades de muito amar;
E o infanção enleado,
Atento, pôs-se a escutar.

Era encantos voz tão doce,
Incentivo essa ternura,
Gerava delícias n'alma
Sonhar d'havê-la a ventura.

Queixosa cantava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu...

Parou!... escutando ao perto
Responder-lhe outra canção!...
Era terna a voz que ouvia,
Lisonjeira -- do infanção:

"Tenho castelo soberbo
Num monte, que beija um rio,
De terra tenho no Doiro
Jeiras cem de lavradio;

"Tenho lindas haquenéias,
Tenho pajens e matilha,
Tenho os melhores ginetes
Dos ginetes de Sevilha;

"Tenho punhal, tenho espada
D'alfageme alta feitura,
Tenho lança, tenho adaga,
Tenho completa armadura.

"Tenho fragatas que cingem
Dos mares a linfa clara,
Que vão preando piratas
Pelas rochas de Megara.

"Dou-te o castelo soberbo
E as terras do fértil Doiro,
Dou-te ginetes e pajens
E a espada de pomo d'oiro.

"Dera a completa armadura
E os meus barcos d'alto-mar,
Que nas rochas de Megara
Vão piratas cativar.

"Fala de amores teu canto,
Fala de acesa paixão...
Ah! senhora, quem tivera
Dos agrados teus condão!

"Eu sou mancebo, sou Nobre,
Sou nobre moço infanção;
Assim pudesse o meu canto
Algemar-te o coração,
Ó Dona, que eu dera tudo
Por vencer-te essa isenção!"

Atenta escutava a esposa
Do guerreiro que partiu,
Largos anos são passados,
Missiva dele não viu;
Mas da letra que escutava
Delícias n'alma sentiu.

VI

E noutra noite saudosa
Bem junto dela sentado,
Cantava brandas endechas
O gardingo namorado.

"Careço de ti, meu anjo,
Careço do teu amor,
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor.

"Prazeres que eu nem sonhava
Teu amor me fez gozar;
Ah! que não queiras, senhora,
Minha dita rematar.

O teu marido é já morto,
Notícia dele não soa;
Pois desta gente guerreira
Bastos ceifa a morte à toa.

"Ventura me fora ver-te
Nos lábios teus um sorriso,
Delícias me fora amar-te,
Gozar-te meu paraíso.

"Sinto aflição, quando choras;
Se te ris, sinto prazer;
Se te ausentas, fico triste,
Que só me falta morrer.

"Careço de ti, meu ardo,
Careço do teu amor,
Como da gota d'orvalho
Carece no prado a flor."

VII

Era noite hibernal; girava dentro
Da casa do guerreiro o riso, a dança,
E reflexos de luz, e sons, e vozes,
E deleite, e prazer: e fora a chuva,
A escuridão, a tempestade, e o vento,
Rugindo solto, indómito e terrível
Entre o negror do céu e o horror da terra.
Na geral confusão os céus e a terra
Horrenda simpatia alimentavam.

Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,
E fora a tiritar, fria, medonha,
Marcha a vingança pressurosa e torva:
Traz na destra o punhal, no peito a raiva,
Nas faces palidez, nos olhos morte.
O infanção extremoso enchia rasa
A taça de licor mimoso e velho,
Da usança ao brinde convidando a todos
Em honra da esposada: -- À noiva! exclama

E a porta range e cede, e franca e livre
Introduz o tufão, e um vulto assoma
Altivo e colossal. -- Em honra, brada,
Do esposo deslembrado! -- e a taça empunha
Mas antes que o licor chegasse aos lábios,
Desmaiada e por terra jaz a esposa,
E a destra do infanção maneja o ferro,
Por que tão grande afronta lave o sangue,
Pouco, bem pouco para injúria tanta.
Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue
D'ampla ferida no sinistro lado,
E ao pé da esposa o assassino surge
Co'o sangrento punhal na destra alçado.

A flor purpúrea que matiza o prado,
Se o vento da manhã lhe entorna o cálix,
Perde aroma talvez; porém mais belo
Colorido lhe vem do sol nos raios,
As fagueiras feições daquele rosto
Assim foram também; não foi do tempo
Fatal o perpassar às faces lindas.

Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios,
Os curtos lábios que lhe deram vida,
Longa vida de amor em longos beijos,
Qual jamais não provou; e as iras todas
Dos zelos vingadores descansaram
No peito de sofrer cansado e cheio,
Cheio qual na praia fica a esponja,
Quando a vaga do mar passou sobre ela.

Num relance fugiu, minaz no vulto:
Como o raio que luz um breve instante,
Sobre a terra baixou, deixando a morte.

Seus olhos

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, -- mais doce que o nauta
De noite cantando, -- mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; -- causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranqüilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa -- a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Soneto
(Rio de Janeiro, 1848)

Pensas tu, bela Anarda, que os poetas
Vivem d'ar, de perfumes, d'ambrosia?
Que vagando por mares d'harmonia
São melhores que as próprias borboletas?

Não creias que eles sejam tão patetas.
Isso é bom, muito bom mas em poesia,
São contos com que a velha o sono cria
No menino que engorda a comer petas!

Talvez mesmo que algum desses brejeiros
Te diga que assim é, que os dessa gente
Não são lá dos heróis mais verdadeiros.

Eu que sou pecador, -- que indiferente
Não me julgo ao que toca aos meus parceiros,
Julgo um beijo sem fim cousa excelente.

O canto do Piaga

I

Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

Esta noite -- era a lua já morta --
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.

Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vi!
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.

O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro -- ossos, carnes -- tremi,
Frio horror me coou pelos membros
Frio vento no rosto senti.

Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!


II

Por que dormes, ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.

Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?

Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem -- vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?

E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!



III

Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, e vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente
--Brenha espessa de vário cipó --
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é só!

Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando --lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja ...
Esse monstro. . . -- o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade --
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracá.

Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se.
Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

Marabá

Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
-- "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"

-- Meus olhos são garços, são cor das safiras,
-- Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
-- Imitam as nuvens de um céu anilado,
-- As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços",
Responde anojado, "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

-- É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
-- Da cor das areias batidas do mar;
-- As aves mais brancas, as conchas mais puras
-- Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
-- "És alva de lírios",
Sorrindo responde, "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

-- Meu colo de leve se encurva engraçado,
-- Como hástea pendente do cáctus em flor;
-- Mimosa, indolente, resvalo no prado,
-- Como um soluçado suspiro de amor! --

"Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira",
Então me respondem; "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

-- Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
-- O oiro mais puro não tem seu fulgor;
-- As brisas nos bosques de os ver se enamoram
-- De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"

--------

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

Leito de folhas verdes

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.

Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flor que desabrocha ao romper d'alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.

Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertaram.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!










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A Confederação dos Tamoios (trechos) - Gonçalves de Magalhães

Canto Primeiro
"(...) quero primeiro
Que em torno destas pedras assentados
Me contes se em combate, ou de que modo
O bravo Comorim perdeu a vida."

"Ai! exclama o Cacique, nenhum homem
Morreu ainda por mais nobre causa!
Era meu filho!... E como morreria
Senão lutando tão audaz guerreiro!

"Apenas há três sóis que uns Emboabas,
Dos que talvez na Bertioga habitam,
Naquela praia embaixo apareceram.
Comorim e Iguaçu também andavam
Nesse dia fatal por lá caçando.
Quem podia prever um mal tão grande?
Enquanto num momento, não cuidoso,
Pelo bosque meu filho se entranhara,
Após um caititu que lhe fugia,
Sua irmã, que aqui vês, linda e garbosa,
Que vence o saixé na gentileza,
E excede o sabiá no meigo canto,
Cantando andava só toda entretida
A colher uns ingás pela restinga.
(...)
Aqueles maus a viram, tão sozinha,
E assim que a viram, cobiçando-a logo,
Quiseram agarrá-la. Ela, gritando,
Coitada, como a rola perseguida,
No mato se internou. Após correram,
Cercando-a, quais jaguaras esfaimadas;
Mas ela, pelo irmão chamando sempre,
Rompendo as bastas, enleadas ramas,
Mais ligeira do que eles lhes fugia.
Um mais audaz já quase a segurava,
Quando o meu Comorim aparecendo,
Já com o arco entesado, e a flecha no alvo,
Com pronta morte atravessou-lhe o peito.
Outro, que vinha após, co'o braço alçado
Para lhe disparar troante bala,
Varado o braço, ali caiu bramando.
Era a última flecha; e já meu filho
Daquele inútil braço ia arrancá-la,
E mandá-la de novo a outro ousado,
Que vira mais além por entre os ramos,
Que dous por detrás o aferraram,
E seus punhais nas costas lhe embeberam.
Comorim, mesmo assim preso e ferido,
Curvou-se um pouco, e súbito saltando,
O corpo sacudiu, e os rijos braços,
E por terra atirou os dois contrários:
Como ligeiro e forte era meu filho!
E agarrando-os depois pelos cabelos,
Deu co'a cabeça de um contra a do outro,
Que batendo quebraram-se estalando,
Como estalam batendo as sapucaias!
Nenhum mais se mostrou, os mais fugiram.
Entretanto Iguaçu vinha gritando,
Até que ao longe viu alguns Tamoios,
Que a seus gritos pungentes acudiram,
E sabendo do caso, sem demora
Seguindo-a, foram dar pronto socorro
Ao seu valente irmão. Porém, oh mágoa!
Já longe do lugar da feroz luta
O acharam quase exangue e semimorto.
(...)

Canto Segundo

Bravos são os Tamoios, e descendem

Da nação dos Tupis, que em tribos várias

Todo este imenso litoral brasílio

Numerosa povoa. Eles não erram

Sem tabas, nos sertões, como os terríveis,

Ferozes Aimorés, raça Tapuia.

Natural, inspirada poesia

De todos os distingue, e os enobrece,

E tratáveis os torna, inda que altivos,

Crêem eles que esse dom, e as doces vozes,

Às puras águas devem do Carioca.

Vasta extensão ocupam do terreno

Que banha a Guanabara. As suas tribos

Se estendem desde as longas serranias

Que um órgão fingem, donde o nome tiram,

Até o Cairuçu, terror dos nautas

Tabas formando, que entre si traficam,

Um Deus adoram, que dispara o raio,

E que pelo trovão aos homens fala;

Tupã se ele nomeia; os seus ministros

São os Pajés, que solitários vivem,

E crêem que acima de Tupã, primeiro

E único, Monam tudo criara.

Leis escritas não têm; mas lhes não faltam

Herdadas de seus pais. O mais valente

É na guerra por chefe respeitado,

E um conselho de anciãos na paz os rege.

Já todos os guerreiros se apercebem

De tacapes e maças de pau-ferro,

Arcos robustos, lisos, e lustrados

Pelas lixosas folhas de embaíba;

Carcases cheios de emplumadas flechas

De ligeiras ubás, tendo por pontas

Dentes de tubarões, e ossos buídos,

Seguros como tucum, de icica untado

Que mais o fio aperta, e seca o esmalta.

Canto Terceiro

Terminado o conselho: guerra, guerra,

Os Tamoios uníssonos bradaram,

Como se todos eles não formassem

Senão um homem só, uma só boca.

Já dos escuros bosques e altos montes

Projetavam-se as sombras no oriente;

E a doce viração embalsamada,

Que da tarde os ardores refrigera,

Por entre os verdes ramos sussurrando,

Vinhas suaves sopros espargindo.

Brilhavam no ocidente argênteas nuvens

Sobre as ondas de ouro e purpurinas faixas,

Como um campo de opalas cambiantes,

E as aves renovavam seus gorjeios

Em despedida ao Sol, que transmontava.

Era o tempo em que o bejo cajueiro,

Cujos ramos o chão frondosos tocam,

Se ia tornando avaro de seus frutos,

Que ostentam do carmim e do ouro as mesclas,

E de verdes castanhas se coroam.

Chorava o tronco seu lágrimas de âmbar,

Que umas sobre outras em cristais pendiam,

Desta resina o pó n'água solvido

É para os índios grata medicina

De balsâmico odor; dos pingues frutos,

Que sucosos a sede refrigeram,

Fabricam destros precioso néctar;

E quem mais talhas tem deste áureo vinho,

Mais rico se reputa entre os selvagens.
Canto Quarto
[Canto de Iguaçu]

(...)

Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:

"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.

"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!

"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"

E os ecos responderam -- desgraçada!

"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."

E os ecos responderam -- melhor fora!

"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."

E os ecos responderam -- morre... morre!

Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.

(...)

"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.

(...)

Canto VI

[S.Sebastião falando a Jagoanharo]

Índio! Se amas a terra em que nasceste,

E se podes amar o seu futuro,

A verdade da Cruz aceita e adora.

Que importa quem a traz ser inimigo,

Se o bem fica, e supera os males todos!

Bons e maus, tudo serve à Providência!

Como de um fruto pútrido, lançado

Sobre a terra, a semente germinando,

Nova árvore produz, e novos frutos;

Assim desses cruéis, corruptos homens,

Que vos flagelam hoje, um santo germe

Aqui produzirá filhos melhores.

Invencível poder tem a verdade,

Que o Cristo do Senhor, na cruz morrendo,

Legou aos homens todos - que se amassem!

Amor é igualdade, paz, justiça,

Fraternal união, e caridade:

Estas são as lições que a cruz nos dita.

Canto VIII

(...)

Ali, aos pés do altar, co'os companheiros,

Humilde estava Anchieta, que pregando

Nesse dia dissera: -"Quando ouvirdes

Nesta noite fatal, entre lampejos,

Horrenda arrebentar a tempestade,

Que a cólera do céu sobre nós manda;

Vós, mulheres, crianças indefesas,

Vinde, vinde, correi à santa Igreja,

Pedir por vossos pais, por vossos filhos,

E por vossos maridos e parentes.

São gratas ao Senhor as flébeis vozes

Dos pobres inocentes, misturadas

Co'as súplicas das mães que o pranto afoga.

Canto X

(...)

Cantava Anchieta; e que ao fazer podia,

Que mais grato ao céu fosse em tal soidade,

Em horas tais que o vulgo ócio entrega?

A própria Natureza tão formosa,

Com quem simpatizava essa bela alma

Mais o dispunha a difundir-se em hinos.

Mas quem ali seus cantos entendia?

O céu puro, o puro céu a quem cantava;

Esse céu que o inspirava; e após, mais tarde,

Bíblicos salmos inspirou a Caldas,

E a São Carlos os cantos numerosos

Da sidérea Assunção da Sacra Virgem:

Esse céu, onde os Anjos já sabiam

Os nomes de Durão, dos Alvarengas,

De Basílio, e de Cláudio, e de outros vates,

Que em séculos futuros assomando,

A terra do Cruzeiro honrar deviam.

Inspire-me esse céu, que viu-me infante,

Nos braços maternais, beber co'a vida

Este amor da harmonia que afagou-me;

E possa ouvir meu canto derradeiro

E o meu suspiro extremo, nessas terras

Do saudoso Carioca, onde descansam

Os ossos de meus pais. E Deus conceda

Que junto aos ossos seus meus osso

jazam.





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Domingos José Gonçalves de Magalhães

(Rio de Janeiro RJ 1811 - Roma Itália 1882)

Formou-se médico em 1832, no Rio de Janeiro, mesmo ano em que publicou Poesias. Ainda em 1832 estudou Filosofia com Monte Alverne, no Seminário Episcopal de São José, Rio de Janeiro RJ. No ano seguinte viajou para a Europa, onde fez o curso de Filosofia de Jouffroy, em Paris, França. Ingressou, em 1834, como sócio-correspondente do Instituto Histórico de França. Em 1936 fundou, em Paris, Niterói - Revista Brasiliense, com Torres-Homem e Porto Alegre, e publicou Suspiros Poéticos e Saudades, marco inicial do Romantismo no Brasil. Nas décadas seguintes publicou ensaios filosóficos, históricos e literários e dedicou-se ao teatro, traduzindo e produzindo peças. De volta ao Brasil, foi professor de Filosofia no Colégio Pedro II, entre 1838 e 1841, no Rio de Janeiro RJ. Em 1838 tornou-se membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Fundou, em 1843, a Revista Minerva Brasiliense. Ligado a D. Pedro II, ocupou vários cargos políticos, entre os quais o de deputado geral pelo Rio Grande do Sul, em 1846. Nos anos seguintes foi cônsul na Itália, ministro-residente na Áustria e enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do Brasil nos Estados Unidos e na Argentina. Autor de A Confederação dos Tamoios, poema épico editado por D. Pedro II, Gonçalves de Magalhães é um dos principais nomes do Romantismo no Brasil.

SUSPIROS POÉTICOS E SAUDADES

(Prefácio)

lede

Pede o uso que se dê um prólogo ao livro, como um pórtico ao edifício; e como este deve indicar por sua construção a que Divindade se consagra o templo, assim deve aquele designar o caráter da obra. Santo uso de que nos aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este livro se elevem em alguns espíritos apoucados.

É um livro de poesias escritas segundo as impressões dos lugares; ora assentados entre as ruínas da antiga Roma, meditando sobre a sorte dos impérios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um átomo no espaço; ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus, e os prodígios do Cristianismo; ora entre os ciprestes que espalham sua sombra sobre túmulos; ora enfim refletindo sobre a sorte da Pátria, sobre as paixões dos homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as cenas da Natureza, diversas como as fases da vida, mas que se harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anéis de uma cadeia; poesias d'alma e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado com o bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silêncio da noite, cansado de fadiga, elevou até a Deus uma alma piedosa, e verteu lágrimas amargas sobre a instabilidade das cousas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na história da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas ações; esse achará um eco de sua alma nestas folhas que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonize com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, três cousas revela notar: o fim, o gênero, e a forma.

O fim deste livro ao menos aquele a que nos propusemos, que ignoramos se o atingimos, é o de elevar a Poesia à sublime fonte donde ela emana, como o eflúvio d'água, que da rocha se precipita, e ao seu cume se remonta, ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanas do vulgo, indicando apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d'alma, deve de contínuo subir ao Senhor; som acorde da inteligência deve santificar as virtudes, e amaldiçoar os vícios. O poeta, empunhando a lira da Razão, cumpre-lhe vibrar as cordas eternas do Santo, do Justo, e do Belo.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos líricos, tão cheio de saber, e que pudera ter sido o reformador da nossa Poesia nos seus primores d'arte, nem sempre se apoderou desta idéia. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traduções; e quando ele é original causa mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferência ao homem civilizado, como se aquele a este superasse, como se a civilização não fosse obra de Deus, a que era o homem chamado pela força da inteligência, com que a Providência dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de falar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decência!

Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua beleza, embalado pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo de batalha; se ele é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encontrar os sentidos, vibrar as cordas do coração, e elevar o pensamento nas asas da harmonia até às idéias arquétipas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos aí procuram aplacar a sede.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquela que nos ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou o mundo moderno, aquela que ilumina a Europa , e a América: e só este bálsamo sagrado devem verter os cânticos dos poetas brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o gênero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado: fingida era a inspiração, e artificial o entusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração se a Mitologia podia, ou não, influir sobre nós. Contanto que dissessem que as Musas do Hélicon os inspirava, que o Febo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras tais e quejandas imagens tão usadas, cuidavam que tudo tinham feito, e que como Homero emparelhavam; como se pudesse perceber belo quem achasse algum velho manto grego, e com ele se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguém honram.

Quanto à forma, isto é, a construção, por assim dizer, material das estrofes, e de cada cântico em particular, nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéias como elas se apresentaram, para não destruir o acento da inspiração; além de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rimas, e a simetria das estâncias produz uma tal monotonia, e dá certa feição de concertado artifício que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orquestra só com sons doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem própria, seus sons imitativos, e períodos explicativos.

Quando em outro tempo publicamos um volume das Poesias da nossa infância, não tínhamos ainda assaz refletido sobre estes pontos, e em quase todas estas faltas incorremos; hoje porém cuidamos ter conseguido melhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, se não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste livro que nos dicionários portugueses se não encontram; mas as línguas vivas se enriquecem com o progresso da civilização, e das ciências e uma nova idéia pede um novo termo.

Eis as necessárias explicações para aqueles que lêem de boa fé e se aprazem de colher uma pérola no meio das ondas; para aqueles, porém que com olhos de prisma tudo decompõem, e como as serpentes sabem converter em veneno até o néctar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?... Eis mais uma pedra onde afiem suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escárnio.

Este livro é uma tentativa, é um ensaio; se ele merecer o público acolhimento, cobraremos ânimo, e continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aqueles que fazer poderemos com o tempo.

É um novo tributo que pagamos à Pátria, enquanto lhe não oferecemos cousa de maior valia; é o resultado de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a atenção descansa, fatigada pela seriedade da ciência.

Tu vais, ó livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade abala todos os nossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, exceto o egoísmo; tu vais, como uma folha no meio da floresta batida pelos ventos de inverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito no meio da tempestade.

Vai; nos te enviamos, cheio de amor pela Pátria, de entusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em Deus, e no futuro.

ADEUS!

Paris, junho de 1836.

Napoleão em Waterloo
Tout n'a manqué que quand tou avait

Réussi

Napoleão em S. Helena (memorial).

Eis aqui o lugar onde eclipsou-se

O Meteoro fatal às régias frontes!

E nessa hora em que a glória se obumbrava,

Além o sol em treva se envolvia!

Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!

Dois astros ao ocaso caminhavam;

Tocado ao seu zênite haviam ambos;

Ambos iguais no brilho; ambos na queda

Tão grandes como em horas de triunfo!

Waterloo!... Waterloo!... Lição sublime

Este nome revela à Humanidade!

Um Oceano de pó, de fogo, e fumo

Aqui varre o exército invencível,

Como a explosão outrora do Vesúvio

Até seus tetos inundou Pompéia.

O pastor que apascenta seu rebanho;

O corvo que sangüíneo pasto busca,

Sobre o leão de granito esvoaçando;

O eco da floresta, e o peregrino

Que indagador visita estes lugares:

Waterloo!... Waterloo!... dizendo, passam.

Aqui morreram de Marengo os bravos!

Entretanto esse Herói de mil batalhas,

Que o destino dos Reis nas mãos continha;

Esse Herói, que co'a ponta de seu gládio

No mapa das Nações traçava as raias,

Entre seus Marechais ordens ditava!

O hálito inflamado de seu peito

Sufocava as falanges inimigas,

E a coragem nas suas acendia.

Sim, aqui estava o Gênio das vitórias,

Medindo o campo com seus olhos de águia!

O infernal retintim do embate de armas,

Os trovões dos canhões que ribombavam,

O sibilo das balas que gemiam,

O horror, a confusão, gritos, suspiros,

Eram como uma orquestra a seus ouvidos!

Nada o turbava! -Abóbadas de balas,

Pelo inimigo aos centos disparadas,

A seus pés se curvavam respeitosas,

Quais submissos leões; e nem ousando

Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.

Oh! Por que não venceu? - Fácil lhe fora!

Foi destino, ou traição? - A Águia sublime

Que devassava o céu com vôo altivo

Desde as margens do Sena até ao Nilo,

Assombrando as Nações co'as largas asas,

Por que se nivelou aqui co'os homens?

Oh! Por que não venceu? - O Anjo da glória

O hino da vitória ouviu três vezes;

E três vezes bradou: - É cedo ainda!

A espada lhe gemia na bainha,

E inquieto relichava o audaz ginete,

Que soía escutar o horror da guerra,

E o fumo respirar de mil bombardas.

Na pugna os esquadrões se encarniçavam;

Roncavam pelos ares os pelouros;

Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;

Encruzadas espadas, e as baionetas,

E as lanças faiscavam retinindo.

Ele só impassível como a rocha,

Ou de ferro fundido estátua eqüestre,

Que invisível poder mágico anima,

Via seus batalhões cair feridos,

Como muros de bronze, por cem raios;

E no céu seu destino decifrava.

Pela última vez co'a espada em punho,

Rutilante na pugna se arremessa;

Seu braço é tempestade, a espada é raio!...

Mas invencível mão lhe toca o peito!

É a mão do Senhor! Barreira ingente;

Basta, guerreiro! Tua glória é minha;

Tua força em mim está. Tens completado

Tua augusta missão. - És homem; - pára.

Eram poucos, é certo; mas que importa?

Que importa que Grouchy; surdo às trombetas,

Surdo aos trovões da guerra que bradavam:

Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;

O teu Imperador aqui te aguarda.

Ah! Não deixes teus bravos companheiros

Contra a enchente lutar, que mal vencida

Uma após outra em turbilhões se eleva,

Como vagas do Oceano encapelado,

Que furibundas se alçam, lutam, batem

Contra o penedo, e como em pó recuam,

E de novo no peito se arremessam.

Eram poucos, é certo; e contra os poucos

Armadas as Nações aqui pugnavam!

Mas esses poucos vencedores foram

Em Iena, em Montmirail, em Asterlitz.

Antes o Tabor, e os Alpes curvos

Viram passar as águias vencedoras!

E o Reno, e o Manzana, e o Adige, e o Eufrates

Embalde à sua marcha se opuseram.

Eram os poucos que jamais vencidos

Os dias seus contavam por batalhas,

E de cãs se cobriram nos combates;

O sol do Egito ardente assoberbaram,

A peste em Jafa, a sede nos desertos,

A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;

Poucos que se não rendem; - mas que morrem!

Oh! Que para vencer bastantes eram!

A terra em vão contra eles pleiteara,

Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.

Dia fatal, de opróbio aos vencedores!

Vergonha eterna à geração que insulta

O Leão que magnânimo se entrega.

Ei-lo sentado em cima do rochedo,

Ouvindo o eco fúnebre das ondas,

Que murmuravam seu cântico de morte:

Braços cruzados sobre o largo peito,

Qual náufrago escapado da tormenta,

Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;

Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.

Que grande idéia o ocupa, e turbilhona

Naquela alma tão grande como o mundo?

Ele vê esses Reis, que levantara

Da linha de seus bravos, o traírem.

Ao longe mil pigmeus rivais divisa,

Que mutilam sua obra gigantesca;

Como do Macedônio outrora Império

Entre si repartiram vis escravos.

Então um riso de ira, e de despeito

Lhe salpica o semblante de piedade.

O grito ainda inocente de seu filho

Soa em seu coração, e de seus olhos

A lágrima primeira se desliza.

E de tantas coroas que ajuntara

Para dotar seu filho, só lhe resta

Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!

Ah! Tudo ele perdeu! A esposa, o filho,

A pátria, o mundo e seus fiéis soldados.

Mas firme era sua alma como o mármor,

Onde o raio batia, e recuava!

Jamais, jamais mortal subiu tão alto!

Ele foi o primeiro sobre a terra.

Só, ele brilha sobranceiro a tudo,

Como sobre a coluna de Vendôme

Sua estátua de bronze ao céu se eleva.

Acima d'ele Deus, - Deus tão somente!

Da Liberdade foi o mensageiro.

Sua espada, cometa dos tiranos,

Foi o sol, que guiou a Humanidade.

Nós um bem lhe devemos, que gozemos;

E a geração futura agradecida:

Napoleão, dirá, cheia de assombro.

Waterloo, 18 de Junho de 1836.

Soneto à Vista dos Belos Quadros do Sr. Manuel de Araújo Porto-Alegre

Que mágico pincel, mimo de Apolo,
Com muda locução, com vivas cores,
Faz da Pátria passar os Defensores
Desde o pólo do Sul do Norte ao pólo?

Quem tanto esmalta o Brasileiro solo?
Estes belos painéis, tão faladores
Mais encantos possuem que os Amores
Quando da terna mãe se erguem do colo.

Rafael do Brasil, eu te saúdo.
Tu serás entre nós das Belas Artes
Um novo vingador, um forte escudo.

Honra à Pátria não dão feroces Martes,
Mas Artistas quais tu! Elmano, eis tudo
Porque atroam do mundo as quatro partes.

Publicado no livro Poesias (1832).

O Dia 7 de Setembro, em Paris

Longe do belo céu da Pátria minha,
Que a mente me acendia,
Em tempo mais feliz, em qu'eu cantava
Das palmeiras à sombra os pátrios feitos;
Sem mais ouvir o vago som dos bosques,
Nem o bramido fúnebre das ondas,
Que n'alma me excitavam
Altos, sublimes turbilhões de idéias;
Com que cântico novo
O Dia saudarei da Liberdade?

Ausente do saudoso, pátrio ninho,
Em regiões tão mortas,
Para mim sem encantos, e atrativos,
Gela-se o estro ao peregrino vate.
Tu também, que nos trópicos te ostentas
Fulgurante de luz, e rei dos astros,
Tu, oh sol, neste céu teu brilho perdes.

(...)

Dia da Liberdade!
Tu só dissipas hoje esta tristeza
Que a vida me angustia.
Tu só me acordas hoje do letargo
Em que esta alma se abisma,
De resistir cansada a tantas dores.
Ah! talvez que de ti poucos se lembrem
Neste estranho país, onde tu passas
Sem culto, sem fulgor, como em deserto
Caminha o viajor silencioso.

Mas rápidos os dias se devolvem;
E tu, oh sol, que pálido me aclaras
Nestas longínquas plagas,
Brilhante ainda raiarás na Pátria,
E ouvirás meus hinos
Em honra deste Dia, não magoados
Co'os fúnebres acentos da saudade.
Ode à Despedida de Mr. J. B. Debret Regressando para França
Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça

Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.

De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.

Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.

Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.

Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?

Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.

Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.

Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.

Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.

(...)

Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.

(...)

Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.

Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.

Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.

Apólogo: O Carro e o Burro

Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.

Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.

Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.

Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.

-- A que vás lá? -- Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. --

"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."

Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.

Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.

Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.

Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.

O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.

Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.

Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?

Entr'ato

(...)

"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.

"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.

"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício

"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.

(...)

"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!

(...)

O Anagrama

Dos vates a antiga usança
Quis respeitoso seguir,
Ensaiando em anagrama
Teu doce nome exprimir;
Mas a mente em vão se cansa,
No desejo que me inflama
Nada me vem acudir.

Não desistindo da idéia,
Volto a ela sem cessar;
Diversos nomes invento,
Sem nenhum poder achar,
Que seja nome de idéia,
E se preste ao meu intento,
Sem o teu muito ocultar.

Vendo alfim que não podia
Teu anagrama fazer;
Que quantos eu inventava
Nada queriam dizer;
Uma idéia à fantasia,
Quando já nada esperava,
Me veio enfim socorrer.

Foi idéia luminosa,
Direi quase inspiração,
Pois que senti de repente
Palpitar-me o coração.
Sua força imperiosa
Foi tal, qu'eu obediente
Dei-lhe pronta execução.

De papel em uma fita
Teu lindo nome escrevi;
Pondo as letras separadas,
Co'a tesoura as dividi.
Cada solta letra escrita
Enrolei, e baralhadas,
Numa caixinha as meti.

Tudo ao acaso deixando,
Da sorte o cofre agitei;
E tirando-as de uma em uma,
Uma após outra as tracei.
Oh prodígio! Oh pasmo! Quando
Esta maravilha suma
De um mero acaso esperei?

Já Urânia -- escrito estava!
Foi Amor quem o escreveu!
Não, não foi obra do acaso;
Teu nome veio do céu!
Aquele -- já -- me ordenava
Que da Urânia do Parnaso
Fosse o nome agora teu.

Que para mim renascida
A Musa Urânia serás.
Que ao céu e a Deus minha mente
Tu sempre levantarás.
Musa real, não fingida,
Unida a mim ternamente,
Celeste amor me terás.








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A MORENINHA - JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

PERSONAGENS:

Felipe: estudante de medicina, irmã de Carolina;

Augusto: estudante de medicina;

Fabrício: estudante de medicina;

Leopoldo: estudante de medicina;

Carolina: a moreninha, paixão de infância de Augusto;

D. Ana: avó de Carolina; ela vazia votos do namoro de Carolina e Augusto , sem saber do juramento de infância;

O dia de Sant'Ana se aproxima e o estudante de medicina, Filipe, convida seus colegas: Leopoldo, Fabrício e Augusto para a comemoração na ilha, onde mora sua avó, D.Ana, de 60 anos. Os alegres estudantes aceitam o convite com entusiasmo, exceto Augusto. Filipe, para atraí-lo à ilha, faz referência ao baile de domingo, em que estarão presentes suas primas: a pálida, Joana, de 17 anos, Joaquina, loira de 16 e sua irmã, D.Carolina, uma moreninha de 15.

Augusto acaba concordando, mas adverte sobre sua inconstância no amor, dizendo jamais se ocupar de uma mesma moça durante 15 dias. Os rapazes apostam que o amigo ficará apaixonado durante 15 dias por uma única mulher. Se isso ocorrer, terá de escrever um romance, caso contrário, Filipe o escreverá, narrando a inconstância.

Antes da partida, Fabrício envia uma carta a Augusto, pedindo-lhe ajuda para se livrar da namorada, a prima feia e pálida de Filipe, Joana. Durante a estadia, Augusto deve persegui-la e, Fabrício, fingindo ciúmes, termina o romance. Ao se encontrarem na ilha, o colega nega o auxílio e, à hora do jantar, Fabrício torna pública a inconstância amorosa do amigo.

Mais tarde, Augusto conta a D.Ana que seu coração já tem dono; uma menina que, por acaso, encontrou aos 13 anos, numa praia. Nesse dia, auxiliam a família de um pobre moribundo que lhes dá um breve como sinal de eterno amor; o da menina contém o camafeu de Augusto e o dele o botão de esmeralda da garota. O rapaz não a esquece e, como não sabe seu nome, passa a tratá-la por minha mulher. Enquanto narra a história, pressente que alguém o está escutando. Avista à distância a irmã de Filipe, um sucesso entre os rapazes, em especial, Fabrício, apaixonado pelos gestos e peraltices da doce Moreninha.

Chegada a hora das despedidas, Augusto não consegue pensar em outra coisa senão em D.Carolina. Recorda-se da meiguice da menina, quando esta lavava os pés da escrava, que passou mal na ilha por ter bebido além da conta. Retorna no domingo, acertando novo encontro para o final da semana. A Moreninha corresponde a todos os galanteios, ansiando pela volta. Contudo o pai do rapaz, ao visitá-lo, resolve impedir o retorno à ilha; quer vê-lo estudando, trancado no quarto.

Augusto fica tão abatido que, durante a semana, não consegue deixar o leito, sendo necessária a presença de um médico. Na ilha, a Moreninha, inconformada, se desespera até saber que o rapaz está doente. No domingo, coloca-se no rochedo, esperando o barco, enquanto canta a balada da índia Ahy sobre o amor da nativa pelo índio Aiotin. Na canção, a bela índia tamoia de 15 anos narra que o amado, vindo à ilha para caçar, jamais nota sua presença, mesmo quando lhe recolhe as aves abatidas ou refresca a fronte do guerreiro, adormecido na gruta. Tudo isso retira a alegria de viver da menina que, cansada de ser ignorada, chora sobre o rochedo, formando uma fonte. O índio, dormindo na gruta, acaba bebendo as lágrimas da jovem e passa, primeiro a percebê-la no rochedo, depois a ouvir seu canto e, finalmente, quando bebe da fonte, por ela se apaixona. Um velho frade português traduz a canção de Ahy para a nossa língua, compondo a balada que a Moreninha canta.

De repente, Carolina localiza Augusto e o pai no barco que se aproxima da ilha. D.Ana convida-os para o almoço e a Moreninha, pedida em casamento, dá um prazo de meia hora para dar a resposta, indo para a gruta do jardim, onde há a fonte de Ahy. O rapaz pergunta se deseja consultar a fonte, mas D.Ana, certa da resposta, pergunta-lhe se não deseja, também, refletir no jardim e ele parte imediatamente.

Encontra a menina que, cruelmente, lhe recorda a promessa feita, na infância, junto ao leito do moribundo. Censura-o por faltar ao amor daquela a quem chama de sua mulher. Angustiado, o rapaz a contesta, afirmando se tratar de um juramento feito na infância e de desconhecer o paradeiro da menina. A Moreninha diz que incentivou seu amor por vaidade de moça e por saber de sua inconstância. Lutou para conquistá-lo e deseja saber, agora, quem ganhou, o homem ou a mulher. Augusto responde que a beleza. Carolina conta ter ouvido a história narrada a D.Ana e insiste no cumprimento da promessa.O rapaz desesperado, prefere fugir da ilha, abandonar a cidade e o país. Mesmo que encontrasse a menina, lhe pediria perdão por ter se apaixonado por outra. Repentinamente, arranca de debaixo da camisa o breve com a esmeralda para espanto da Moreninha.

O casal chora pateticamente, Carolina pede a Augusto para procurar "sua mulher" e lhe explicar o ocorrido e, só, então, retornar. Ele concorda, mas não sabe onde ela está. A Moreninha diz que, certa vez, também, ajudou a um moribundo e sua família, recebendo pelos préstimos um breve, contendo uma pedra que daria o que se deseja a quem o possuísse. Passa o breve ao rapaz, para ajudá-lo na busca, pedindo que o descosa e retire a relíquia. Rapidamente, ele o desfaz e dando com seu camafeu, atira-se aos pés da amada. D.Ana e o pai de Augusto entram na gruta, encontrando-o de joelhos, beijando os pés de Carolina, perguntam o que está ocorrendo.A menina responde que são velhos conhecidos, enquanto o moço repete que encontrou sua mulher.

Filipe, Fabrício e Leopoldo retornam à ilha para as preparações do casamento e, recordando que um mês havia se passado, lembram a Augusto do romance e ele lhes responde já tê-lo escrito e que se intitula A Moreninha.







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A LUNETA MÁGICA - Joaquim Manuel de Macedo.

Trecho:

Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, míope física e moralmente.
Miopia física: -- a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: -- sou sempre escravo das idéias dos outros; porque nunca pude ajustar duas idéias minhas.
E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.
Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!... mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito.
Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados que não têm dez por cento de capital da inteligência que ostentam, e com que negociam na praça das coisas públicas.
- Mas esses varões não quebram, negociando assim?... perguntei-lhe.
-- Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram quebradas.
-- E eles?...
-- Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e sempre se apresentam como boas firmas.
Na cândida inocência da minha miopia moral não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A Luneta Mágica. São Paulo: Saraiva, 1961. p. 01-02.

Enredo:
No romance A Luneta Mágica, Macedo nos conta a história de Simplício, um rapaz que padece de um mal terrível: uma dupla miopia.

Miopia física: que o impede de ver ou distinguir qualquer coisa a duas polegadas de distância dos seus olhos.
Miopia moral: o impede de entender ou distinguir as idéias alheias ou de ajustar suas próprias idéias. (trata-se de um parvo, ingênuo...)

Simplício ficou órfão aos 12 anos de idade e, desde então, vive com o mano Américo, que administra sua herança, com a devota tia Domingas e com a prima Anica. Certo dia, apesar de sua miopia, foi convidado para fazer parte de um júri. Lá conhece o Sr. Nunes que lhe fala do Reis, um gravador de vidros, capaz de resolver seu problema de miopia.

Depois de muitas tentativas, de lentes do mais alto grau, Reis reconhece que não pode ajudar Simplício, sua miopia é muito forte. Condoído, no entanto, com a dor do rapaz fala-lhe do Armênio - um artista de habilidades mágicas trazido da Europa pelo próprio Reis para trabalhar em sua oficina.

O desejo de Simplício de ver era tão grande que ele acaba aceitando ir visitar o Armênio. Este promete-lhe uma luneta mágica, mas avisa-lhe também que em pouco tempo o rapaz vai ter a convicção de que é melhor ser cego do que ver demais.

Assim, depois de pensar muito sobre tudo o que o Armênio havia lhe falado e consultar sua família, Simplício vai ao encontro do mágico no horário marcado, a meia-noite. Lá presencia o ritual de construção da luneta. Depois de muitas luzes, fogos e palavras mágicas, finalmente o mago entrega-lhe o objeto mágico, mas não antes de lhe avisar sobre os poderes e perigos da luneta: Simplício não deveria fixá-la mais de 3 minutos sobre qualquer objeto ou ser humano, pois assim passaria a ter a visão do mal [vingança da salamandra presa no vidro] e, além disso, não deveria também fixá-la em nada além de 13 minutos, pois esta seria a visão do futuro e, neste caso, para própria proteção do rapaz, a luneta se quebraria.
Ansioso com a possibilidade de enxergar, Simplício volta para casa e espera o amanhecer para experimentar a luneta. Maravilhado com a visão da aurora, acredita que será impossível ver qualquer coisa má nesta cena e decide, portanto, fixar sua luneta por mais de 3 minutos. De repente, fica horrorizado com o que vê: '-Meu Deus!...como a aurora é enganadora e falsa!...e como o sol é feio, terrível e mau!!!'. Concorda com o Armênio e diz que basta a visão da superfície e das aparências, a felicidade do homem está nas ilusões dos sentidos, nos enganos da alma, quer ser feliz e, portanto, não fará mais uso da visão do mal. No entanto, nosso jovem ingênuo, acaba por não resistir à visão do mal e começa a fixar sua luneta sobre tudo e todos.

A visão do mal permite-lhe ver a 'verdade' sobre: prima Anica, moça fria, sem sentimentos, mulher-cálculo, incapaz de amizade, interessada em casar Américo ou com Simplício por causa da fortuna; mano Américo, ambicioso avarento, rouba a família na administração dos bens; tia Domingas, invejosa, fofoqueira, sovina, deseja o casamento da filha com Américo pela fortuna,...

Estas descobertas deixam Simplício horrorizado e decepcionado fazendo-o decidir procurar um advogado para administrar seus bens e uma esposa para formar uma nova família. Procura o Nunes para que este o ajude com seus planos. No entanto, ao fixar sua luneta sobre o velho, descobre um farsante e interesseiro.
Passa-se um mês e ele só encontra decepções, ninguém em quem confiar, nada em que acreditar. Os amigos são todos interesseiros, exploradores, as moças são todas falsas e impuras.

De repente, a cidade inteira comenta sua loucura e ele passa a ser perseguido e execrado em todos os locais. A família decide que ele está doente, tranca-o em casa e quer destruir sua luneta. A visita de um médico, no entanto, impede que ele seja declarado louco. Todos concordam que ele foi iludido pela magia e que com amor e carinho conseguirá superar tudo.

Ainda assim, Simplício não entrega a luneta e sabe que, embora não seja considerado louco será visto como um maníaco, portanto não há salvação. Decide, então, que a única coisa que poderá salvá-lo será a visão do futuro. Ele quer saber qual o seu futuro e por isso decide fixar a luneta nele mesmo [no espelho] por mais de 13 minutos. Entretanto, antes de chegar na visão do futuro, chega à visão do mal e se descobre um infame, caluniador, um inimigo da família, um homem capaz de maldizer todas as criações de Deus, um maldito...Antes de chegar na visão do futuro, a luneta quebra-se em suas mãos.

De novo, Simplício acha-se na escuridão, arrependido de ultrapassar a visão da superfície e das aparências, descobre-se, agora, sem nada, sem qualquer possibilidade de ver.

Depois de 8 dias enclausurado em casa, decide que já pode sair, as pessoas não lembrarão de mais nada - 'Não há atividade de opinião que resista à extensão, à eternidade de oito dias na nossa capital'.

Durante o passeio, reencontra o Reis que lhe conta sobre as fofocas do Nunes e o convence a, novamente, procurar o Armênio. Assim, fica combinado um novo encontro, a meioa-noite, no gabinete do mágico.

Mais uma vez Simplício presencia todo o ritual de construção da nova luneta e ouve os alertas do Armênio sobre o uso correto da lente. Dessa vez, se fixada por mais de três minutos, ela lhe dará a visão do bem. Ao voltar para casa, esperançoso e feliz com a possibilidade de ver novamente, Simplício decide que escreverá a todos os jornais e falará sobre as maravilhas de que o Armênio é capaz. Ele não entende a descrença do Reis nas potencialidades mágicas. Acredita que o Armênio poderá ajudar muitas outras pessoas e que, portanto, não faz sentido manter tudo isso em segredo.

Depois de se questionar sobre que mal poderia haver na visão do bem, mais uma vez Simplício desobedece o mágico e fixa sua luneta por mais de três minutos. Começa por enxergar a prima Anica, um anjo de inocência e de candura; tia Domingas, a devoção e a piedade personalizada; o mano Américo, a pura dedicação fraternal.

'-Eu tinha a febre da felicidade. O mundo e a vida me festejavam o coração; eu desejava rir, divertir-me, folgar'.
Maravilhado com a visão do bem, apaixona-se pela prima Anica e por mais trinta e tantas outras moças, inclusive por Esmeralda, uma conhecida prostituta do 'Alcasar Lírico'. Reconhece a bondade e a pureza de coração em todos que dele se aproximam, ajuda a todos, paga jantares, dá esmolas, contribui para fundos de caridades através dos 'amigos', que são cada vez em maior número. Reencontra o Nunes, visita-lhe a família, apaixona-se por sua filha, salda suas dívidas. Enfim, passa a ser explorado e ridicularizado por todos sem perceber. Quando alguns tentam lhe avisar sobre o que está acontecendo, fica confuso, pois descobre a verdade na boca destas almas boas, mas não entende como isso pode ser possível. Mais uma vez desesperado e angustiado, descobre que a visão do bem é um martírio.

Com a alma atormentada, presencia um funeral e percebe a beleza, a felicidade da morte. Decide, portanto, que o melhor que tem a fazer é morrer. Como não tem armas ou veneno, nem meios para consegui-los, sobe até o alto do Corcovado para se jogar de lá de cima. Antes, porém, pensa uma vez na visão do futuro, dá uma última olhada através da luneta mágica para cidade, a capital do Império do Brasil. Passa-se os treze minutos e a luneta se quebra em suas mãos. Mais uma vez nas trevas, Simplício não hesita e se joga do para peito...Duas mãos possantes, no entanto, suspenderam-lhe pelas orelhas - era o Armênio.

Depois de conversarem sobre tudo o que havia acontecido, o mágico fala-lhe sobre as lições das lunetas:
'Exagerar é mentir.' 'No mundo há o bem e o mal, como há na vida o prazer e a dor.'

'Mas o bem é o bem, o mal é o mal como são e não podem deixar de ser para humanidade que é imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela.'

'A imperfeição e a contingência da humanidade são as únicas idéias que podem fundamentar um juízo certo sobre todos os homens...Cada qual é o que é e cada qual tem as suas qualidades, e seus defeitos.'

Depois desta conversa, o Armênio decidiu dar-lhe uma última luneta mágica - A Luneta do Bom Senso. Desta vez, no entanto, Reis faz Simplício prometer segredo sobre o assunto.




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Lucíola - José de Alencar - Resumo

Lucíola é o quinto romance de Alencar e o primeiro da trilogia que ele denominou de "perfis de mulheres" (Lucíola, Diva e Senhora). Situa-se entre seus romances urbanos que representam um levantamento da nossa vida burguesa do século passado mais considerável do que o levado a efeito por Machado de Assis, na opinião de Heron de Alencar. Fixam o Rio de Janeiro da época, com a sua fisionomia burguesa e tradicional, com uma sociedade endinheirada que freqüentava o Teatro Lírico, passeava à tarde na Rua do Ouvidor e à noite no Passeio Público, morava no Flamengo, em Botafogo ou Santa Teresa e era protagonista de dramas de amor que iam do simples namoro à paixão desvairada.
Em todos os romance urbanos, Alencar aborda o amor como tema central. Ou, para ser mais exato, "aborda a situação social e familiar da mulher, em face do casamento e do amor" segundo Heron de Alencar. Mas o amor como o entendia a mentalidade romântica da época, "um amor sublimado, idealizado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de heroísmos e até de crimes, mas redimindo-se pela própria força acrisoladora de sua intensidade e de sua paixão." (Oscar Mendes, in José de Alencar - romances urbanos, Rio de Janeiro, Agir, 1965, Col. Nossos Clássicos - p.10).

Baseando-se na enorme aceitação de Alencar junto ao público, Antônio Cândido comprova a existência de pelo menos dois Alencares:

O Alencar dos rapazes, heróico, altissonante, criando heróis como Peri, Ubirajara, Estácio Correia (As Minas de Prata), Manuel Canho (O Gaúcho), Arnaldo Louredo (O Sertanejo).

O Alencar das mocinhas, gracioso, às vezes pelintra, outras, quase trágico, criador de mulheres cândidas e de moços impecavelmente bons, que dançam aos olhos do leitor uma branda quadrilha, ao compasso do dever e da consciência, mais fortes que a paixão. As regras desse jogo bem conduzido exigem inicialmente um obstáculo, que ameace a união dos namorados, sem contudo destruí-la. Todavia, há pelo menos um terceiro Alencar, o que se poderia chamar dos adultos, formado por uma série de elementos pouco heróicos e pouco elegantes, mas detonadores dum senso artístico e humano que dá contorno aquilino a alguns dos seus perfis de homem e de mulher. Este Alencar, difuso pelos outros livros, se contém mais visivelmente em Senhora e, sobretudo, LUCÍOLA, únicos livros, em que a mulher e o homem se defrontam num plano de igualdade, dotados de peso específico e capaz daquele amadurecimento interior inexistente nos outros bonecos e bonecas." (in Formação da Literatura Brasileira, 4ª ed., São Paulo, Martins, 1971, 2º vol. P.222).

O AMOR DE LÚCIA E PAULO

LUCÍOLA, publicado em 1862, é um romance de amor bem ao sabor do Romantismo, muito embora uma ou outra manifestação do estilo Realista aí se faça presente. Trata-se de um romance de "primeira pessoa", ou seja, o narrador da história é um personagem importante da mesma, Paulo Silva. E ele a narra em cartas dirigidas a uma senhora, G. M. (pseudônimo de Alencar), que as publica em livro com o título de LUCÍOLA.

Paulo Silva, o personagem-narrador, é um rapaz de 25 anos, pernambucano, recém-chegado ao Rio de Janeiro, em 1855, com a intenção de aí se estabelecer.

No dia mesmo de sua chegada à corte (Rio de Janeiro), após o jantar, sai em companhia de um amigo para conhecer a cidade. Na rua das Mangueiras vê passar em um carro uma jovem muito bela. Um imprevisto faz parar o carro, dando a Paulo a oportunidade de repará-la melhor. Dia após, em companhia de outro amigo, o Dr. Sá, Paulo participa da festa de N. Senhora da Glória, quando lhe aparece a linda moça. Informando-se do amigo, fica sabendo tratar-se de Lúcia, a prostituta mais bela, requintada e disputada da cidade. Mas ele se impressiona com a "expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelam a cortesã franca e impudente."
Mais ou menos um mês após sua chegada, Paulo vai à procura de Lúcia, levado, é claro pelo desejo de possuir aquela linda mulher. Após longa e agradável conversa, acaba se surpreendendo com o "casto e ingênuo perfume que respirava de toda a sua pessoa". A um mínimo lance de seus seios, "ela se enrubesceu como uma menina e fechou o roupão" discretamente. E ele, que fora quente de desejos, agora, na rua, se acha ridículo por não haver ousado mais. Além do que, o Dr. Sá lhe confirmara que "Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância."
No dia seguinte Paulo está de volta à casa da heroína. Ao seu primeiro ataque, Lúcia se opõe com duas lágrima nos olhos. Supondo ser fingimento, mostra-se aborrecido e ela reage atirando-se completamente nua em seus braços, já que era isso que Paulo queria. Mas no auge do prazer do sexo, Paulo percebe algo diferente nas carícias de Lúcia: mesmo no clímax do gozo, parece que ela sofria. Sente, na hora, um imenso dó, ao que ela corresponde cinicamente: "- Que importa? Contanto que tenha gozado de minha mocidade! De que serve a velhice às mulheres como eu?" Ele quer pagar-lhe, ela rejeita com um meigo aperto de mão. E ele retira-se realmente confuso com "a singularidade daquela cortesã, que ora levava a impudência até o cinismo, ora esquecia-se do seu papel no simples e modesto recato de uma senhora".

E as informações que lhe chegam a seu respeito são as piores. O Cunha diz que ela é "a mais bonita mulher do Rio e também a mais caprichosa e excêntrica. Ninguém a compreende. "Nunca fica muito tempo com o mesmo amante, "pois não admite que ninguém adquira direitos sobre ela." Além do mais, é avarenta. Vende tudo o que ganha. Até roupas. Para Paulo, no entanto, ela parece ser ao contrário de tudo isso. Afinal, ela finge para ele ou já o ama? Paulo fica em dúvida atroz.

Por aqueles dias, numa ceia em casa do Sá, com pessoas (Lúcia, Paulo, Sr. Couto, Laura, Nina, Rochinha, etc...) maldosamente convidadas para transformar a ceia em bacanal, Lúcia desfila toda nua, imitando as poses lascivas dos quadros que estavam nas paredes, ante os olhares voluptuosos dos presentes. Depois, em lágrimas, nos jardins da casa, ela se explica a Paulo. Fez aquilo por desespero, pois ele havia zombado dela momentos antes: "se o Senhor não zombasse de mim, não o teria feito por coisa alguma deste mundo..."E depois porque teria sido uma decepção total, afinal o que Sá pretendia era mostrar a seu amigo Paulo quem era Lúcia. "Não foi para isso que se deu essa ceia?! - explicou Lúcia. E os dois se amaram profundamente, lá mesmo no jardim, á luz da lua, até de madrugada.
Decorridos alguns dias, Paulo de certo modo passa a morar com Lúcia, e, apesar das prevenções e restrições, mais e mais se liga a ela por afeto. Lúcia, por sua vez, já ama Paulo e se entrega e ele como a um dono e senhor. Há momentos de atritos entre ambos. Passageiros, e todos causados pelo egoísmo e incompreensão de Paulo que não entende as profundas transformações que o seu afeto operou nela. E a tal ponto , que ela não suportaria mais a idéia de se lhe entregar na cama, pois sente por ele um amor muito puro e profundo. E ele, levado mais por desejo que por afeto, não consegue aceitar esse comportamento sublime.

As más línguas já comentam que Paulo, além de viver à custa de Lúcia, ainda a proíbe de freqüentar a sociedade. Lúcia que já então procurava viver mais retraída dispõe-se a voltar à vida mundana apenas para salvar-lhe a reputação. Mas Paulo - complicado, sádico, estúpido e chato - não compreende.
Lúcia já não vibra como outrora. Mesmo quando excitada por Paulo. É a doença que já se faz sentir. Paulo não entende essa frieza e por vezes se exaspera. Ela sofre calada pois reconhece que "o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe!". O grande sentimento que os unia, arrefece, dando lugar a uma amizade simplesmente.

O comportamento de Lúcia é cada vez mais sublime e heróico. Já não existe mais nada da antiga cortesã. E Paulo, por fim, entende essa nobreza de caráter e compreende o porquê das suas recusas. Ela lhe recusava o corpo porque o amava em espírito. E também porque já está doente. Paulo promete respeitá-la de ora em diante.

Lúcia um dia lhe revela todo o seu passado. Chamava-se Maria da Glória. Era uma menina feliz de 14 anos e morava com os pais, quando, em 1850, sobreveio a terrível febre amarela. Seus pais, os três irmãos, uma tia caíram de cama, Ela ficou só. No auge do desespero, resolveu pedir ajuda a um vizinho rico, Sr. Couto, que em troca de algumas moedas de ouro tirou-lhe a inocência. "o dinheiro ganho com a minha vergonha salvou a vida de meu pai e trouxe-nos um raio de esperança." Seu pai, porém, sabendo da origem do dinheiro, e supondo ter a filha um amante, a expulsou de casa. Sozinha, sem ter aonde ir, foi acolhida por uma mulher, Jesuína, que, quinze dias depois, à conduziu à prostituição, estipulando pela beleza de seu corpo um alto preço. O dinheiro, ela o usava para cuidar do que restava da família: "e eu tive o supremo alívio de comprar com a minha desgraça a vida de meus pais e de minha irmã".
Uma colega de infortúnio foi morar com ela. Chamava-se Lúcia. Tornaram-se amigas. Lúcia morreu pouco depois. No atestado de óbito, a heroína fez constar que a falecida se chamava Maria da Glória, adotando para si o nome da amiga morta. "Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída." E todo dinheiro que ganhava, destinava-o à preparação de um dote para sua irmã, Ana, a qual passou a manter num colégio interno depois da morte dos pais.

Agora Paulo compreende ainda melhor as atitudes misteriosas e contraditórias que Lúcia tomava como cortesã. É que esse gênero de vida lhe parecia sórdido e abjeto. Ela suportava como a um martírio, uma autopunição, uma maneira de reparar o seu pecado. Conhecido se passado heróico, ele passa a sentir por Lúcia uma grande ternura e um amor sincero.

Seguem-se dias tranqüilos. Lúcia muda-se para uma casinha modesta e Ana mora com ela. "isto não pode durar muito! É impossível!" É o pressentimento da morte. Lúcia tenta convencer Paulo a se casar com Ana, que já o ama também. Seria uma maneira de perpetuar o amor de ambos, já que ela se julga indigna do puro amor conjugal. Paulo rejeita com veemência em nome do amor que não sente por Ana.
Lúcia aborta o filho que esperava de Paulo. Ela se recusa a tomar remédio para expelir o feto morto, dizendo "Sua mãe lhe servirá de túmulo". E já no leito de morte, recebe o juramento de Paulo prometendo-lhe cuidar de Ana como sua filha. E morre docemente nos braços de seu amado, indo amá-lo por toda a eternidade.




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Resumo de Iracema - José de Alencar

PERSONAGENS:

Iracema: cabelos negros e longos, era a virgem dos lábios de mel;

Martim Soares Moreno: guerreiro branco que representa o colonizador europeu, era amigo dos pitiguaras, habitantes do litoral, adversários dos Tabajaras. Os pitiguaras lhe deram o nome de Coatiabo;

Moacir: filho de Iracema representa no livro o primeiro brasileiro;

Araquém: o feiticeiro da tribo Tabajara e pai de Iracema;

Caubi: irmão de Iracema;

Poti: índio Pitiguara, que se considerava irmão de Martim;

Batuirité: avô de Poti;

Jacaúna: irmão de Poti;

Irapuã: chefe dos Tabajaras; apaixonado por Iracema;

Obra escrita em terceira pessoa, onde existe um narrador-observador, isto é, um narrador que caracteriza os personagens a partir do que pode observar de seus sentimentos e comportamento.

Durante uma caçada, Martim se perdeu dos companheiros pitiguaras e se pôs a caminhar sem rumo durante três dias. No interior das matas pertencentes à tribo dos tabajaras, Iracema se deparou com Martim. Surpresa e amedrontada, a índia feriu o branco no rosto com uma flechada. Ele não reagiu. Arrependida, a moça correu até Martim e ofereceu-lhe hospitalidade, quebrando com ele a flecha da paz.

Martim foi recebido na cabana de Araquém, que ali morava com a filha. Ao cair da noite, Araquém havia deixado seu hóspede sozinho, para que ele fosse servido pelas mais belas índias da tribo. O jovem branco estranhou que entre elas não estivesse Iracema, a qual lhe explicou que não poderia servi-lo porque era quem conhecia o segredo da bebida oferecida ao pajé e devia prepará-la.

Naquela noite, os tabajaras recepcionavam festivamente seu grande chefe Irapuã, vindo para comandar a luta contra os inimigos pitiguaras. Aproveitando-se da escuridão, Martim resolveu ir-se embora. Ao penetrar na mata, surgiu-lhe à frente o vulto de Iracema. Visivelmente magoada, ela o seguira e lhe perguntou se alguém lhe fizera mal, para ele fugir assim. Percebendo sua ingratidão, Martim se desculpou. Iracema pediu-lhe que esperasse, para partir, a volta, no dia seguinte, de Caubi, que o saberia guiar pela mata. O guerreiro branco voltou com Iracema e dormiu sozinho na cabana.

Na manhã seguinte, incitados por Irapuã, os tabajaras se prepararam para a guerra contra os pitiguaras, que estavam permitindo a entrada dos brancos. Martim foi passear com Iracema. Ele estava triste; ela lhe perguntou se eram saudades da noiva, que deixara para trás. Apesar da negativa de Martim, a moça o levou para um bosque silencioso e prometeu fazê-lo ver a noiva; deu-lhe gotas de uma bebida que ela preparou. Após tomá-las, Martim adormeceu e sonhou com Iracema; inconsciente, ele pronunciou o nome da índia e a abraçou; ela se deixou abraçar e os dois se beijaram. Quando Iracema ia se afastando, apareceu Irapuã, que declarou amor à assustada moça e ameaçou matar Martim. Diante da reação contrária dela, Irapuã se foi, ainda mais apaixonado. Apaixonada, porém, estava Iracema por Martim e passou a ficar preocupada pela vida dele.

Na manhã seguinte, Martim achou Iracema triste, ao anunciar-lhe que ele poderia partir logo. Para fazê-la voltar à alegria, ele disse que ficaria e a amaria. Mas a índia lhe informou que quem se relacionasse com ela morreria, porque, por ser filha do pajé, guardava o segredo da Jurema. Ambos sofriam com a idéia da separação.

Seguindo Caubi, Martim partiu triste, acompanhado por Iracema, também triste. Com um beijo, os dois se despediram e o branco continuou sua caminhada somente com Caubi. Irapuã, à frente de cem guerreiros, cercou os caminhantes para matar Martim. Caubi se opôs e soltou o grito de guerra, ouvido na cabana por Araquém e pela filha. Esta correu e assistiu à cena; Irapuã ameaçava Martim, que se mantinha calmo. A moça quis persuadi-lo a fugir; ele não aceitou a idéia, resolveu enfrentar Irapuã, apesar de Caubi provocar o enciumado tabajara para lutar com ele. Quando Irapuã e Caubi iam começar uma luta corpo a corpo, ouviu-se o som de guerra dos pitiguaras, que vinham atacar os tabajaras. Chefiados por Irapuã, os índios correram para enfrentar o inimigo. Só Iracema e Martim não se movimentaram.

Como não encontrasse os pitiguaras - provavelmente escondidos na mata, Irapuã achou que o grito de guerra fora um estratagema usado por Iracema para afastá-lo de Martim. Então foi procurá-lo na cabana de Araquém. Protegendo seu hóspede, o velho pajé ameaçou matar Irapuã se ele levantasse a mão contra Martim. Para afastar o irado chefe, Araquém provocou o ronco da caverna que os índios acreditavam ser a voz de Tupã quando discordava do que acontecia. Na verdade, esse ronco era um efeito acústico que Araquém forjava. Mediante isso, Irapuã se afastou.

No silêncio da noite, ouviu-se na cabana de Araquém o grito semelhante ao de uma gaivota. Iracema disse ser o sinal de guerra dos pitiguaras; Martim reconheceu o som que emitia seu amigo Poti. Iracema ficou com medo porque a fama da bravura de Poti era conhecida e temida: ele estaria vindo para libertar seu amigo, destruindo os tabajaras? A moça ficou triste, mas garantiu fidelidade a Martim, mesmo à custa da morte de seus irmãos de raça. O branco tranqüilizou-a, afirmando que fugiria, para evitar o conflito. A índia foi encontrar-se com Poti para lhe dizer que Martim iria com ele, escondido, a fim de evitar um conflito das tribos inimigas. Antes de sair, ela ouviu do pai, em segredo, a recomendação de que, se os camandados de Irapuã viessem matar Martim, ela o escondesse no subterrâneo da cabana, vedado por uma grande pedra. Não era prudente Martim afastar-se às claras porque poderia ser seguido. Nisso, apareceu Caubi para alertar a irmã e Martim de que os tabajaras tencionavam matar o branco. Iracema pediu ao irmão que levantasse a pedra para ela e Martim entrassem no esconderijo e que ele ficasse de guarda.

Irapuã chegou à porta da cabana, acompanhado de seus subordinados, todos bêbados, e discutiu com Caubi. Nesse instante, reboou o trovão de Tupã. O vingativo chefe não se acalmava. Reboou mais uma vez o trovão, que os índios entenderam como sendo a ameaça de Tupã. Cercaram o chefe e o levaram de lá, amedrontados.

No interior da caverna, Iracema e Martim ouviram a voz de Poti, embora sem vê-lo. Ele lhes declarou que estava vindo sozinho para levar Martim, seu irmãop branco. Por sugestão de Iracema, ficou combinado que Martim fugiria ao encontro de Poti só na mudança da lua, ocasião em que os tabajaras estariam em festa e assim ficaria mais fácil os dois evitarem o encontro com o irado Irapuã.

À noite, na cabana, ausente Araquém, Martim, ao lado de Iracema, não conseguia dormir: desejava-a, mas ela era proibida. Então, ele lhe pediu que trouxesse vinho para apressar o sono. Dormiu e sonhou com Iracema, chamando-a; ela acorreu acordada. Ainda dormindo, sonhou que se abraçavam, sendo que Iracema o abraçou de verdade. Na manhã seguinte, Martim se afastou da moça, dizendo que só podia tê-la em sonho. Ela guardou o segredo do abraço real e foi banhar-se no rio. Mal sabia Martim que Tupã havia acabado de perder sua virgem.

No final da tarde, quando a lua apareceu, os tabajaras se reuniram em torno do pajé, levando-lhe oferendas. Iracema dirigiu-se à cabana do pai para buscar Martim e conduzi-lo até Poti que o aguardava escondido a fim de levá-lo, livrando-o de Irapuã. Iracema os acompanhou até o limite das terras tabajaras. Quando Martim insistiu em que ela retornasse para a tribo, ela lhe revelou que não poderia fazer isso, porque já era sua esposa. Surpreso, Martim ficou sabendo que tinha sido realidade o que sonhara. Ao escurecer, interromperam a caminhada e Martim passou a noite na rede com Iracema. Ao raiar da manhã, Poti, preocupado, os chamou, alertando que os tabajaras já estavam na sua perseguição, informação que ele colheu escutando as entranhas da terra. Envergonhado, Martim pediu que Poti levasse Iracema e o deixasse só, pois ele merecia morrer. O amigo disse que não o largaria. Iracema apenas sorriu e continuou com eles.

Irapuã e seus comandados chegaram ao local onde estavam os fugitivos. Acorreram também os pitiguaras, sob a chefia de Jacaúna. Travou-se o inevitável combate. Jacaúna atacou Irapuã; Caubi, agora com ódio do raptor de sua irmã, atacou Martim, mas, a pedido de Iracema, o branco simplesmente se defendeu, pois ela disse que, se Caubi tivesse que morrer, isso aconteceria pelas mãos dela. Então, Martim deixou Caubi por conta de Poti, que já havia matado vários tabajaras, e enfrentou Irapuã, afastando Jacaúna. A espada de Martim espatifou-se no choque com o tacape. Quando Irapuã avançou contra o banco desarmado, Iracema arrojou-se contra o chefe tabajara e o impediu de prosseguir a luta. Nesse instante, soou o canto de vitória: Jacaúna e Poti haviam vencido. Os tabajaras fugiram, levando Irapuã com eles. Iracema chorou vendo seus irmãos de raça mortos.

Poti retornou à sua taba, às margens do rio, feliz por ter salvo seu irmão branco. Iracema estava triste por ficar hospedada na trigo inimiga de seu povo. Ciente disso, Martim resolveu procurar um lugar afastado para morarem. Puseram-se a caminho o casal e Poti, que fez questão de acompanhá-los. Acharam um local apropriado. Martim pensava em trazer seus soldados para se aliarem aos pitiguaras contra os tabajaras.

Na nova rotina diária, Poti e Martim caçavam, Iracema colhia frutas, passeava pelos campos, arrumava a cabana, sempre na expectativa da volta de Martim. Grávida, ela aguardava a hora do parto e já não sentia mais contrariedade por ter saído de sua nação. Com festas, Martim foi introduzido na tribo pitiguara adotando o nome de Coatiabo.

Com o passar do tempo, Coatiabo começou a entrar em depressão. Iracema não o fascinava tanto. Ele vivia mais afastado, tomado pelas lembranças do passado anterior à vida na selva. Ficava olhando as embarcações passando a longe no mar, sem dar muita atenção à índia.

Certo dia, chegou até à região dos três um índio que, a mando de Jacaúna, convocou Poti para a guerra: uns brancos haviam se aliado a Irapuã para combater os pitiguaras. Martim fez questão de ir com o amigo.

Os dois guerreiros partiram sem se despedir de Iracema. Ao caminharem ainda no território de sua nação, à beira de um lago, Poti fincou no chão uma flecha de Martim e atravessou nela um goiamum que ele acabara de abater, sabendo que a índia, ao ver a seta daquele jeito, entenderia o sinal de que o esposo havia partido. Martim entrelaçou nela uma flor de maracujá. De fato, quando Iracema foi se banhar no dia seguinte, viu a flecha, entendeu seu significado e chorou. Voltou triste para a cabana. Todos os dias ela retornava e tinha confirmação de que Martim estava longe. Seus dias passaram a ser muito tristes. Numa dessas manhãs, ouviu o som da jandaia que a acompanhava quando morava entre os seus. Comoveu-se, arrependeu-se de havê-la deixado para trás e de novo a tornou sua amiga de todas as horas.

Os dois guerreiros retornaram da batalha, vitoriosos. Graças à participação de Martim, que atuou eficazmente, os pitiguaras venceram, pois, sem a cooperação da raça branca, haveria o empate das forças indígenas adversárias.

De novo em sua cabana, Martim e Iracema se amaram como no início de seu relacionamento. Aos poucos, porém, ele voltou a se isolar triste, olhando para os horizontes infinitos do mar, com saudade de sua gente. Iracema se afastava, também triste. Martim sabia que, se voltasse para sua terra, ela o acompanharia; então, ele estaria tirando dela um pedaço de sua vida, que era a convivência com seus parentes e amigos nas selvas.

Martim negava que estivesse com saudade da namorada branca que deixara em sua terra, mas a tristeza de Iracema crescia porque ela não acreditava na negativa dele; então, a desconsolada índia prometia que sairia da sua vida tão logo nascesse o filho.

Um dia, apareceu no mar, ao longe, um navio dos guerreiros brancos que vinham aliar-se aos tupinambás para lutarem contra os pitiguaras. Poti e Martim armaram uma estratégia de defesa. Esconderam seus guerreiros e atacaram os inimigos de surpresa. A vitória foi retumbante.

Enquanto Martim estava combatendo, Iracema teve sozinha o filho, a quem chamou de Moacir, filho da dor. Certa manhã, ao acordar, ela viu à sua frente o irmão Caubi, que, saudoso, vinha visitá-la, trazendo paz. Admirou a criança, porém surpreendeu-se com a tristeza da irmã, que pediu a ele que voltasse para junto de Araquém, velho e sozinho.

De tanto chorar, Iracema perdeu o leite para alimentar o filho. Foi à mata e deu de mamar a alguns cachorrinhos; eles lhe sugaram o peito e dele arrancaram o leite copioso para voltar a amamentar. A criança estava se nutrindo, mas a mãe perdera o apetite e as forças, por causa da tristeza.

No caminho de volta, findo o combate, Martim, ao lado de Poti, vinha apreensivo: como estaria Iracema? E o filho? Lá estava ela, à porta da cabana, no limite extremo da debilidade. Ela só teve forças para erguer o filho e apresentá-lo ao pai. Em seguida, desfaleceu e não mais se levantou da rede. Suas últimas palavras foram o pedido ao marido de que a enterrasse ao pé do coqueiro de que ela gostava tanto. O sofrimento de Martim foi enorme, principalmente porque seu grande amor pela esposa retornara revigorado pela paternidade. O lugar onde se enterrou Iracema veio a se chamar Ceará.

Martim retornou para sua terra, levando o filho. Quatro anos depois, eles voltaram para o Ceará, onde Martim implantou a fé cristã. Poti se tornou cristão e continuou fiel amigo de Martim. Os dois ajudaram o comandante Jerônimo de Albuquerque a vencer os tupinambás e a expulsar o branco tapuia. De vez em quando, Martim revia o local onde fora tão feliz e se doía de saudade. A jandaia permanecia cantando no coqueiro, ao pé do qual Iracema fora enterrada. Mas a ave não repetia mais o nome de Iracema. "Tudo passa sobre a terra."

Filmes:

1) Iracema, a virgem dos lábios de mel

Helena Ramos, Tony Correia, Carlos Koppa, Francisco Di Franco, Alberto Ruschel, Mário Benvenuti Filho, , Ilma Conceição, Stael de Almeida, Lourdes de Souza, Lucy Furtado

Direção: Carlos Coimbra Roteiro: Carlos Coimbra, Zaé Júnior

2)Iracema uma Transa Amazônica




O filme é na realidade um auto-retrato da população da Transamazônica. Retrata realisticamente os problemas da região. Conta a história de uma menina do interior, que vai a Belém com a família para pagar promessa na festa do Sírio Nazaré. O novo meio e as companhias que encontra levam a menina à prostituição. Conhece num cabaré um motorista de caminhão Tião Brasil Grande, negociante de madeira. Influenciada pelas outras prostitutas ela quer ir para os grandes centros ( São Paulo e Rio) e pega carona com o motorista.

Ficha Técnica
Título Original: Iracema uma Transa Amazônica
Gênero: Documentário/Drama
Tempo de Duração: 90 min.
Ano de Lançamento (Brasil): 1981
Distribuição: Embrafilme
Direção: Jorge Bodanzky e Orlando Senna
Roteiro: Orlando Senna
Argumento: Jorge Bodanzky e Hermano Penna
Produção: Orlando Senna
Produtor associado: Wolfgang Gauer, Maku Alecar e Achim Tappen
Música: Jorge Bodanzky
Som: Achim Tappen
Fotografia: Jorge Bodanzky
Assistente de câmera: Francisco Carneiro
Desenho de Produção: Orlando Senna
Edição: Eva Grundman e Jorge Bodanzky

Elenco
Edna de Cássia (Iracema)
Paulo César Pereio (Tião)
Conçeicão Senna
Rose Rodrigues
Fernando Neves
Sidnei Piñon
Natal
Elma Martins
Wilmar Nunes
Lúcio dos Santos

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Resumo de O Guarani - José de Alencar

PERSONAGENS:

Dom Antonio de Mariz: fidalgo da nobreza de Portugal;

Álvaro: capataz de Dom Antônio;

Cecília: filha de Dom Antônio;

Peri: índio que "vigiava" Cecília com bravura e coragem;

Diogo: filho de Dom Antônio;

Isabel: criada e irmã bastarda de Cecília;

Loredano: traidor, que tenta destruir Dom Antônio raptando Cecília;

Aimorés: tribo inimiga;


- Gênero: romance histórico indianista
- Foco narrativo: 3ª- pessoa onisciente
- Tempo: 1604 -- época colonial (domínio espanhol)
- Espaço: Serra dos Órgãos (RJ) / Rio Paquequer / Rio Paraíba
- Ação folhetinesca: rapidez, surpresa, suspense e emoção
Temas
- conquista do sertão
- confronto de raças e de culturas
- imposição da cultura branca
- imposição do cristianismo
- assimilação do selvagem idealizado
- idealização da natureza (cor local)

Na primeira metade do século XVII, Portugal ainda dependia politicamente da Espanha, fato que, se por um lado exasperava os sentimentos patrióticos de um frei Antão, como mostrou Gonçalves Dias, por outro lado a ele se acomodavam os conservadoristas e os portugueses de pouco brio.

D. Antônio de Mariz, fidalgo dos mais insignes da nobreza de Portugal, leva adiante no Brasil uma colonização dentro mais rigoroso espírito de obediência à sua pátria. Representa, com sua casa-forte, elevada na Serra dos Órgãos, um baluarte na Colônia, a desafiar o poderio espanhol.

Sua casa-forte, às margens do Paquequer, afluente do Paraíba, é abrigo de ilustres portugueses, afinados no mesmo espírito patriótico e colonizador, mas acolhe inicialmente, com ingênua cordialidade, bandos de mercenários, homens sedentos de ouro e prata, como o aventureiro Loredano, ex-padre que assassinara um homem desarmado, a troco do mapa das famosas minas de prata.

Dentro da respeitável casa de D. Antônio de Mariz, Loredano vai pacientemente urdindo seu plano de destruição de toda a família e dos agregados. Em seus planos, contudo, está o rapto da bela Cecília, filha de D. Antônio, mas que é constantemente vigiada por um índio forte e corajoso, Peri, que em recompensa por tê-la salvo certa vez de uma avalancha de pedras, recebeu a mais alta gratidão de D. Antônio e mesmo o afeto espontâneo da moça, que o trata como a um irmão.

A narrativa inicia seus momentos épicos logo após o incidente em que Diogo, filho de D. Antônio, inadvertidamente, mata uma indiazinha aimoré, durante uma caçada. Indignados, os aimorés procuram vingança: surpreendidos por Peri, enquanto espreitavam o banho de Ceci, para logo após assassiná-la, dois aimorés caem transpassados por certeiras flechas; o fato é relatado à tribo aimoré por uma índia que conseguira ver o ocorrido.

A luta que se irá travar não diminui a ambição de Loredano, que continua a tramar a destruição de todos os que não o acompanhem. Pela bravura demonstrada do homem português, têm importância ainda dois personagens: Álvaro, jovem enamorado de Ceci e não retribuído nesse amor, senão numa fraterna simpatia; Aires Gomes, espécie de comandante de armas, leal defensor da casa de D. Antônio.

Durante todos os momentos da luta, Peri, vigilante, não descura dos passos de Loredano, frustrando todas suas tentativas de traição ou de rapto de Ceci. Muito mais numerosos, os aimorés vão ganhando a luta passo a passo.

Num momento, dos mais heróicos por sinal, Peri, conhecendo que estavam quase perdidos, tenta uma solução tipicamente indígena: tomando veneno, pois sabe que os aimorés são antropófagos, desce a montanha e vai lutar "in loco" contra os aimorés: sabe que, morrendo, seria sua carne devorada pelos antropófagos e aí estaria a salvação da casa de D. Antônio: eles morreriam, pois seu organismo já estaria de todo envenenado.

Depois de encarniçada luta, onde morreram muitos inimigos, Peri é subjugado e, já sem forças, espera, armado, o sacrifício que lhe irão impingir. Álvaro (a esta altura enamorado de Isabel, irmã adotiva de Cecília) consegue heroicamente salvar Peri. Peri volta e diz a Ceci que havia tomado veneno. Ante o desespero da moça com essa revelação, Peri volta à floresta em busca de um antídoto, espécie de erva que neutraliza o poder letal do veneno.

De volta, traz o cadáver de Álvaro morto em combate com os aimorés. Dá-se então o momento trágico da narrativa: Isabel, inconformada com a desgraça ocorrida ao amado, suicida-se sobre seu corpo. Loredano continua agindo. Crendo-se completamente seguro, trama agora a morte de D. Antônio e parte para a ação. Quando menos supõe, é preso e condenado a morrer na fogueira, como traidor.

O cerco dos selvagens é cada vez maior. Peri, a pedido do pai de Cecília, se faz cristão, única maneira possível para que D. Antônio concordasse, na fuga dos dois, os únicos que se poderiam salvar. Descendo por uma corda através do abismo, carregando Cecília entorpecida pelo vinho que o pai lhe dera para que dormisse, Peri consegue afinal chegar ao rio Paquequer. Numa frágil canoa, vai descendo rio abaixo, até que ouve o grande estampido provocado por D. Antônio, que, vendo entrarem os aimorés em sua fortaleza, ateia fogo aos barris de pólvora, destruindo índios e portugueses.

Testemunhas únicas do ocorrido, Peri e Ceci caminham agora por uma natureza revolta em águas, enfrentando a fúria dos elementos da tempestade. Cecília acorda e Peri lhe relata o sucedido. Transtornada, a moça se vê sozinha no mundo. Prefere não mais voltar ao Rio de Janeiro, para onde iria. Prefere ficar com Peri, morando nas selvas. A tempestade faz as águas subirem ainda mais. Por segurança , Peri sobe ao alto de uma palmeira, protegendo fielmente a moça.

Como as águas fossem subindo perigosamente, Peri, com força descomunal, arranca a palmeira do solo, improvisando uma canoa. O romance termina com a palmeira perdendo-se no horizonte, não sem antes Alencar ter sugerido, nas últimas linhas do romance, uma bela união amorosa, semente de onde brotaria mais tarde a raça brasileira...

O Guarani
Autor Carlos Gomes, Antônio
O Guarani é a terceira ópera de Antônio Carlos Gomes - a primeira escrita em solo europeu - e a que o projetou internacionalmente. A ópera é dividida em quatro atos.
Com libreto de autoria de Antônio Scalvini, concluído por Carlo D"Ormeville, estreou em 19 de março de 1870 de forma triunfal no Scala de Milão. No Brasil, estreou no mesmo ano. Foi ouvida 32 vezes no Scala e depois seguiu para Florença, Gênova, Ferrara, Londres, Vicenza, Treviso, Turim, Palermo, Catânia, Reggio Emilia, Lugo, Buenos Aires, Varsóvia, Rio de Janeiro, Montevidéu, Paris, São Petersburgo e Moscou, num total de 231 apresentações em 8 anos.
Inspirada no romance homônimo de José de Alencar, "O Guarani", transcorre no Brasil de 1560, no litoral do Rio de Janeiro, onde vive Dom Antônio de Mariz, um velho fidalgo português.
Sob o ponto de vista romântico, a história gira em torno de sua filha Cecília (Cecy), que desperta paixão, simultaneamente, em quatro homens: Gonzales, aventureiro espanhol que a cobiça; Dom Álvaro, nobre português a quem Cecília foi prometida em casamento; o Cacique Aymoré, que deseja desposá-la; e Pery, por quem Cecy também se apaixona. Para os dois quase adolescentes - Cecy tem 16 anos e Pery, 18 -, é a descoberta do amor de forma pura, que começa com a amizade e se desenvolve de forma arrebatadora, transpondo as diferenças étnicas e culturais do casal.
O Guarani, contudo, permite outros tipos de leitura. A ópera também retrata a história verídica da dizimação dos índios Aymorés. Igualmente, mostra o interesse econômico de Espanha na colônia portuguesa na figura do aventureiro Gonzales - embora deseje Cecy, ele tem como principal objetivo dominar a todos para poder explorar uma mina de prata, cuja existência e localização são mantidas em segredo.
Além disso, a ópera evidencia a vida difícil dos primeiros colonizadores portugueses em terras brasileiras e relata, através da personagem Cecília, o vertiginoso processo de amadurecimento que os jovens estrangeiros eram obrigados a enfrentar. Cecília, que no primeiro ato mostra-se uma adolescente frágil, amadurece durante o espetáculo. Convivendo com perdas, medos e insegurança, transforma-se numa portuguesa forte, capaz de tomar decisões difíceis e disposta a enfrentar qualquer dificuldade. Seu desenvolvimento é proposto claramente pelo compositor também no amadurecimento musical das peças cantadas pela personagem.
Ao final do quarto ato todos os personagens morrem, restando vivos apenas a portuguesa Cecília e o índio Pery. Este final carrega todos os elementos simbólicos da formação da Nação Brasileira.
Primeiro Ato
O início da ópera se dá com o retorno dos aventureiros espanhóis, liderados pelo vilão Gonzales, e também por Dom Álvaro - o prometido de Cecy -, à casa de Dom Antônio de Mariz. Ao chegar ao local, ficam sabendo que alguns empregados de Dom Antônio mataram, por engano, uma jovem índia da tribo Aymoré e que os indígenas já revidaram, tentando matar Cecy.
Os aventureiros ficam surpresos ao descobrirem que Cecy foi salva pelo índio Pery - um jovem guerreiro guarani, chefe de sua tribo -, e que ele está instalado na casa de Dom Antônio. Todas estas revelações acontecem no momento em que Pery entra na sala onde estão Dom Antônio e os outros, para informar que os Aymorés querem vingança e que vão atacar a casa do fidalgo.
Paralelamente, os aventureiros conspiram contra Dom Antônio - e Pery ouve. Em seguida chega Cecy e todos rezam, liderados pelo fidalgo. Esta é uma das passagens mais bonitas da ópera.
A sós, Pery relata a Cecy que vai embora. A jovem pede que o índio fique. Durante o dueto em que os dois desenvolvem a conversa, Pery afirma não ser digno da portuguesa. Neste momento os dois se descobrem apaixonados. Pery decide: vai embora, para descobrir quem são os traidores e como vão agir para denunciá-los.
Segundo Ato
O início do segundo ato tem uma das passagens mais difíceis para o tenor que interpreta Pery. Sozinho na gruta onde acontecerá o encontro dos inconfidentes, Pery reflete sobre a sua situação. Através da ária conclui que, à sua forma, ele também é um nobre e merece o amor que Cecy lhe dedica.
Chegam os conspiradores. Gonzales propõe que todos se aliem a ele para explorar a mina de prata. Pery aparece e luta com o vilão. O índio prefere não matar o espanhol, ao ouvir dele a promessa de que iria embora. Gonzales não cumpre o prometido e acerta com seus comparsas a morte de toda a família de Cecy, à exceção dela, que deve ser preservada para ficar com ele.
Sem saber de nada, Cecy está no seu quarto lembrando histórias de príncipes e pensando em Pery. Com o passar do tempo, ela adormece. Gonzales, que está à espreita, entra no quarto para tentar levá-la. Ele parte para cima dela, que tenta se defender. Gonzales é ferido na mão por uma flecha lançada por Pery, que está vendo a cena da janela.
Ao ouvir os gritos de Cecy, Dom Antônio, Dom Álvaro e outras pessoas da casa entram no quarto. Pery também entra e denuncia o traidor, usando como prova o ferimento na mão causado por sua flecha. Começa a luta entre os grupos fiéis a Dom Antônio e a Gonzales. Mas a briga é interrompida pela notícia de que os Aymorés estão atacando. Os rivais se unem para derrotar os índios.
Terceiro Ato
Os Aymorés, que venceram a luta contra os europeus, chegam à taba, levando Cecy como prisioneira. Ao conhecer a jovem portuguesa, o Cacique também se apaixona por ela e decide tê-la como mulher, obrigando-a a incorporar alguns signos indígenas à sua indumentária.
Um tumulto envolve a chegada de Pery. O Cacique quer saber como um jovem bravo, esperto e valente, deixou-se capturar. Descobre então que ele se entregou. Pery admite que foi à aldeia para matar o Cacique e é condenado à morte.
Seguindo a tradição dos Aymorés, Pery, depois de morto, deverá ser devorado pelo Cacique e pelos anciãos da tribo. O sacrifício é precedido de rituais de preparação, iniciados com uma dança. Na seqüência, Pery exerce o direito de ficar por uma hora com a mulher mais linda da tribo, escolhida pelo Cacique - ou seja, Cecy.
Neste momento em que os dois ficam a sós, é cantado o segundo dueto dos protagonistas. Pery conta a Cecy que o pai dela está a salvo e revela seu plano: pretende se envenenar, para que sua carne contaminada mate os índios Aymorés. Cecy implora para que ele abandone o plano, mas ele toma o veneno. Ela se desespera. Os Aymorés retornam e, para iniciar o sacrifício, fazem uma oração. Chefiados por Dom Álvaro, os portugueses atacam e libertam Cecy.
Quarto Ato
O último ato da ópera começa no calabouço da casa de Dom Antônio, onde ele armazena pólvora. O fidalgo está escondido, ouvindo a conversa entre os aventureiros, que decidem manter o plano de matar a todos, menos Cecy.
No momento em que o fidalgo está pronto para atear fogo ao calabouço, Pery, que todos imaginavam morto, retorna à cena. Além de relatar que conseguiu escapar da morte graças a um antídoto que tomou para anular o efeito do veneno, conta que a casa está toda cercada e garante que conseguiria fugir levando uma única pessoa: Cecy.
Dom Antônio, embora queira salvar Cecy, reluta em autorizá-la a ir com Pery, pois ele é pagão. Faz uma imposição: que ele seja batizado naquele momento. Pery aceita.
Cecy, que não estava presente, chega e sabe das decisões do pai e do jovem índio. Ela insiste em ficar com o pai. Dom Antônio ordena que ela fuja com Pery para o Rio de Janeiro. Ela decide ir. Os aventureiros chegam e Dom Antônio põe fogo na pólvora, explodindo a casa. Sobrevivem somente Cecy e Pery.




Filme: O GUARANI - VHS - SEM LEGENDA
Titulo Original: O Guarani
País: Brasil
Gênero: Nacional
Diretor: NORMA BENGEL
Elenco: MARCIO GARCIA, TATIANA ISSA, GLORIA PIRES
Ano: 1996
Duração: 91 min



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Ubirajara - José de Alencar (resumo)

Produzido em 1874, Ubirajara é parte fundamental do conjunto de obras indianistas de José de Alencar, nosso maior prosador romântico, que produziu, também, romances urbanos (de costumes), regionalistas e históricos.

O romance revela, do ponto de vista de José de Alencar, o caráter da nação indígena, um relato dos costumes e da própria índole do selvagem - o bom selvagem - oposto àquilo que informam os textos de missionários jesuítas e viajantes aventureiros. Trata-se de uma releitura do homem nativo. O próprio romancista afirma, na "Advertência" que abre o romance:

"Este livro é irmão de Iracema. Chamei-lhe lenda como ao outro. Nenhum título responde melhor pela propriedade, como pela modéstia, às tradições da pátria indígena.

Quem por desfastio percorrer estas páginas, se não tiver estudado com alma brasileira o berço de nossa nacionalidade, há de estranhar em outras coisas a magnanimidade que ressumbra no drama selvagem a formar-lhe o vigoroso relevo.

Como admitir que bárbaros, quais nos pintaram os indígenas, brutos e canibais, antes feras que homens, fossem suscetíveis desses brios nativos que realçam a dignidade do rei da criação? [...]"

A temática amorosa revela tanta importância quanto a temática da honra. Durante todo o romance o amor supera todas as dificuldades.

O romance é narrado em terceira pessoa, por um narrador todo-poderoso que sabe e vê tudo ao seu redor. A história passa-se no século XV, o que podemos ver no fato da ausência do homem branco. Apresenta como espaço a natureza selvagem de um Brasil primitivo.

A ação externa é a que predomina a obra. O romance com tom épico é dividido em nove capítulos:

I. O caçador - Jaguarê sai de sua taba em busca de um inimigo para conseguir o título de guerreiro.

II.O guerreiro - Tendo vencido Pojucã, Jaguarê adota o nome guerreiro de Ubirajara, senhor da lança.

III. A noiva - Jandira, noiva de Ubirajara, espera por ele, mas ele não a procura. Informa ao povo sua intenção de não ficar com ela e vai em busca de Araci, filha do chefe da nação tocantim.

IV. A hospitalidade - Mudando o nome para Jurandir, para não se deixar reconhecer, Ubirajara hospeda-se na taba dos tocantins.

V. Servo do amor - Ubirajara, ainda como Jurandir, revela suas intenções e é aceito na casa de Itaquê para servi-lo e adquirir o direito de combater para ganhar a mão de Araci.

VI. O combate nupcial - Jurandir (Ubirajara) compete com os demais e ganha o direito de casar-se com Araci.

VII. A guerra - O cunhado de Ubirajara, Pojucã, torna-se seu prisioneiro de guerra, por isso terá de matá-lo. Ubirajara então se identifica, desencadeando a guerra entre araguaias e tocantins.

VIII. A batalha - Quando Ubirajara chega com o seu povo, os tocantins são atacados pelos tapuias.Uma criança tapuia cega o chefe tocantim e ficam sem liderança.

IX - União dos arcos - Ubirajara consegue dobrar o arco de Itaquê e torna-se assim o novo chefe da nação de Pojucã e Araci, fazendo com isso a união das nações de guerreiros.

Personagens

Ubirajara: Protagonista. No início do romance seu nome é Jaguarê.Herói romântico, forte, corajoso e bonito.

Jandira: Virgem araguaia, prometida para Jaguarê, em casamento, e desprezada por ele.

Araci: Virgem filha do chefe dos Tocantins.

Pojucã: Guerreiro tocantim, filho de Itaquê.

Itaquê: Chefe da nação tocantim e pai de Pojucã e Araci.

Jacamim: Mulher de Itaquê.

Camacã: Pai de Ubirajara.

Canicram: terrível chefe dos tapuias.

Pahã: Filho mais moço de Canicram, chefe dos tapuias.

Resumo:

Jaguarê, jovem caçador araguaia, procura em outras terras um inimigo com quem possa lutar, pois levando um prisioneiro para sua taba ele conseguiria o título de guerreiro. Mas ao invés de um guerreiro, ele encontra uma índia tocantim de nome Araci, que era filha do chefe da tribo. Ela diz que em sua nação existem cem guerreiros que vão disputá-la em casamento e Jaguarê é convidado a ser mais um deles. Jaguarê prefere dizer a Araci que ela mande todos eles para combater com ele e assim ela fez.

Logo aparece Pojucã para combater com Jaguarê e é vencido por ele. Jaguarê torna-se então Ubirajara, o senhor da lança.

Sendo levado para a taba de Ubirajara, Pojucã tem a oportunidade de ficar com a antiga prometida à Jaguarê, a jovem Jandira. Esta se recusa ficar com Pojucã e foge para a floresta.

Ubirajara chega à taba de Araci e, como permite a lei da hospitalidade, não se identifica, adotando o nome de Jurandir, o que veio trazido da luz.

Compete com os demais pretendentes de Araci e ganha a mão da jovem tocantim em casamento, mas antes de casa-se é obrigado a identificar-se. Faz-se ali uma situação constrangedora, pois seu prisioneiro é Pojucã, irmão de Araci.

Estava assim declarada a guerra. Pojucã é libertado para que pudesse lutar junto com o seu povo, os tocantins.

Quando os araguaias vão atacar, surgem os tapuias, que têm o direito de atacar antes dos araguaias, que têm que esperar.

Itaquê, chefe dos tocantins, vence o chefe dos tapuias mas fica cego perdendo assim a liderança de seu povo.

Para que possa haver uma sucessão os guerreiros tocantins devem pegar o arco de Itaquê, dobrá-lo e atirar com ele. Nenhum guerreiro tocantim consegue o feito, inclusive Pojucã, filho de Itaquê. Por isso convidam Ubirajara para fazê-lo.

Este o faz com tal destreza e habilidade que emociona Itaquê.

Ubirajara enfim, une os dois arcos das duas nações, araguaia e tocantim, dando origem à nação Ubirajara.

Comentário:

Ubirajara é um romance que narra a história de um índio guerreiro, que por sua força e garra conquistava tudo que queria. O autor começa a narração falando das nações indígenas existentes na época, e que Ubirajara era irmão de Iracema. Sua primeira atividade foi a caça, e como obtinha muito sucesso nesta atividade, recebeu o nome de Jaguaré, tipo de onça feroz que não deixava escapar suas presas.

Era admirado por todos, e as virgens disputavam o seu amor, mas havia uma moça que se chamava Jandira, que fora prometida para ele seu nome Jandira, tinha o significado "Jandaíra" relativo a um tipo de abelha.

Um dia, Jaguaré, estava caçando e encontrou outra virgem muito bela, que pertencia a tribo Tupi, e logo apaixonou-se por ela, seu nome era Araci, que significa estrela do dia. Ela também gostou dele e lançou um desafio para a sua conquista: aquele que fosse melhor guerreiro teria o seu amor. Jaguaré, aceitou o desafio, e quando se preparava para a luta, encontrou um guerreiro da tribo tupi e travou com ele uma luta que durou muitas horas, porém Jaguaré, saiu vencedor e levou seu inimigo preso para ser morto no tempo certo. Todos da tribo Araguaia, festejaram a vitória de Jaguaré.

Depois ele voltou para lutar pela Araci, na tribo dos Tocantins. Lá foi recebido com honras, como qualquer hóspede, os anciões deram-lhe o nome de Jurandi, que significa "aquele que veio da luz ou trazer luz".

Logo ele viu Araci, e ambos ficaram encantados; Jurandi revelou a seu pai que queria a virgem por esposa, e foi lançado as provas de coragem entre todos os pretendentes e Jurandi venceu todas e obteve o consentimento do pai, mas quando Jurandi, revelou sua verdadeira identidade, tudo ficou complicado, porque o guerreiro inimigo que era seu prisioneiro, era o irmão de Araci. Foi aí que a luta seria maior. Ubirajara voltou à sua tribo, libertou o prisioneiro, e convocou a todos os guerreiros de seu povo para atacar os Tocantins, mas quando eles se preparavam para a batalha, souberam que os tapuias, estavam em guerra com os Tocantins e ofereceram ajuda aos araguaias, porém Ubirajara mandou um recado que não precisava de nenhum aliado para vencer aos dois grupos.

Na guerra dos tapuias com os Tocantins, resultou na morte do maior guerreiro dos tapuias e o chefe dos Tocantins perdeu a visão. Quando os araguaias chegaram na tribo tupi, Ubirajara pediu ao guerreiro cego que lançasse seu arco e duas setas se cruzaram no espaço e a paz foi feita entre as duas tribos, e assim Araci, foi com o seu marido para as núpcias em sua cabana, ela rompeu a liga da virgindade e colocou-a no braço do marido. Estendeu a rede nupcial e foi buscar Jandira, que fora dada a ela por escrava pelo Ubirajara, e deu ao marido como esposa, as duas se tornaram esposas do maior guerreiro Araguaia Tocantins.

A união dessas duas nações resultou no surgimento de uma nova nação que recebeu o nome de Ubirajara, eles dominaram o deserto, por muito tempo.




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RESUMO DE O SERTANEJO DE JOSÉ DE ALENCAR

Um dos romances, bastante brasileiro, em que Alencar dá expansão ao seu gênero de pincelador retratando com belas e radiantes cores a paisagem do sertão um destemido vaqueiro a serviço capitão-mor Arnaldo Campelo que enfrenta os mais sérios riscos na esperança de constar a simpatia da filha do fazendeiro. Arnaldo tem destaque nas cavalhadas a maneira medieval de Ivone famosas liças. Marcos Fragoso se faz seu único rival. Afinal Dona Flor é prometida a Leandro Barbilho. No instante casamento, surgem os inimigos de Campelo. Encerra o tiroteio, morre Leandro Barbalho, Dona Flor lamente enquanto Arnaldo tenta consolá-la.

O trecho selecionado permitirá a análise do relacionamento existente entre Arnaldo e D. Flôr. Possibilitando-nos a comparação com o trecho de Inocência. "Já tinham soado no sino da capela as últimas badaladas do toque de recolher. Por toda a fazenda da Oiticica, sujeita a um certo regime militar, apagavam-se os fogos e cessava o burburinho da labutação quotidiana. Só nas noites de festa dispensava o capitão-mor essa rigorosa disciplina, e dava licença, que então por desforra atravessavam de sol a sol. Era uma noite de escuro; mas como o são as noites do sertão, recamadas de estrelas rutilantes, cujas centelhas se cruzam e urdem como a finíssima teia de uma lhama acetinada. A casa principal acabava de fechar-se e das portas e janelas apenas escapavam-se pelos interstícios, uma réstia de luz, que iam a pouco extinguindo-se . Nesse momento um vulto oscilou na sombra, e coseu-se, à parecer que olhava para o nascente. Era Arnaldo. Resvalando ao longo do outão, chegara à janela do camarim de D. Flôr, e uma força irresistível o deteve ali. No gradil das rótulas recendia um breve perfume, como se por ali tivesse coado a brisa carregada das exalações da baunilha. Arnaldo adivinhou que a donzela antes de recolher-se, viera respirar a frescura da noite e encostara a gentil cabeça na gelosia, onde ficara a fragrância de seus cabelos e de sua cútis acetinada. Então o sertanejo, que não se animaria nunca a tocar esses cabelos e essa cútis, beijou as grades para colher aquela emanação de D. Flôr, e não trocaria decerto a delícia daquela adoração pelas voluptuosas carícias da mulher mais formosa. Aplicando o ouvido percebeu o sertanejo no interior do aposento um frolico de roupas, acompanhado pelo rumor de um passo breve e sutil. D. Flôr volvia pelo aposento. Naturalmente ocupada nos vários aprestos do repouso da noite. Um doce sussurro,como da abelha ao seio do rosal, advertiu a Arnaldo que a donzela rezava antes de deitar-se e involuntariamente também ajoelhou-se para rogar a Deus por ela. Mas acabou suplicando a Flôr perdão para a sua ternura. Terminada a prece a donzela aproximou-se do leito. O amarrotar das cambraias a atulharem-se indicou ao sertanejo que Flor despia as suas vestes e ia trocá-las pela roupa de dormir. Através das abas da janela, que lhe escondiam o aposento, enxergou com os olhos d'alma a donzela, naquele instante em que os castos véus a abandonavam; porém seu puro o céu azul ao deslize de uma nuvem branca de jaspe surgisse uma estrela. A trepidação da luz cega; e tece um véu cintilante, porém mais espesso do que a seda e o linho. Cessaram de todo os rumores do aposento, sinal de que D.Flôr se havia deitado/ Ouvindo um respiro brando e sutil como de um passarinho, conheceu Arnaldo que a donzela dormia o sono plácido e feliz. Só então afastou-se para acudir ao emprazamento que recebera






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JUNQUEIRA FREIRE

Luís José Junqueira Freire

(Salvador BA 1832 - idem 1855)

Entrou para o Mosteiro de São Bento da Bahia, da Ordem Beneditina, em 1851, passando a se chamar Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire após a ordenação. Em 1854 afastou-se do monastério, permanecendo sacerdote. No ano seguinte publicou Inspirações do Claustro, seu primeiro livro de poesia, em Salvador BA. Em 1869 ocorreu a publicação póstuma do livro Elementos de Retórica Nacional, no Rio de Janeiro RJ. A poesia de Junqueira Freire pertence à segunda geração do Romantismo, e foi escrita no Monastério; seus versos projetam a angústia e as dúvidas sobre a vocação monástica que o autor sentiu enquanto lá esteve. Para o crítico Antonio Candido, o poeta "desejou confessar-se através do verso, desvendando ao leitor uma sensibilidade tumultuosa e um doloroso drama íntimo quase em estado bruto - propósito incompatível com a poética por ele adotada".

À Morte de Garrett
No doce arranco
Que o céu lhe abrira,
Garrett ouvia
Seus próprios carmes
De terno amor.

E aos brancos lábios
Franco, improviso,
Lhe veio um riso
Em vez de angústias,
Em vez de dor.

Morreu poeta,
Ledo e gostoso:
Morreu ditoso,
Cingido, ornado
Dos cantos seus.

Lá foi com os anjos,
Que o inspiraram,
Que o sublimaram,
Cantar saudades
Ao pé de Deus.

Cantai, donzelas
Da pátria dele,
Cantai aquele
Hino de amores,
Hino gentil.

Ouvi que entoam
Seu hino etéreo
Em som funéreo
As belas virgens
Do meu Brasil.

(...)

Martírio

Beijar-te a fronte linda:
Beijar-te o aspecto altivo:
Beijar-te a tez morena:
Beijar-te a rir lascivo:

Beijar o ar, que aspiras:
Beijar o pó, que pisas:
Beijar a voz, que soltas:
Beijar a luz, que visas:

Sentir teus modos frios:
Sentir tua apatia:
Sentir até repúdio:
Sentir essa ironia:

Sentir que me resguardas:
Sentir que me arreceias:
Sentir que me repugnas:
Sentir que até me odeias:

Eis a descrença e crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!

Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger de dentes,
Eis o penar do inferno!

Morte

(Hora de delírio)

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
-- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

(...)

Amei-te sempre: -- e pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra -- esse elemento;
Que não se sente dos vaivéns da sorte.

Para tua hecatombe de um segundo
Não falta alguém? -- Preenche-a tu comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Miríadas de vermes lá me esperam
Para nascer de meu fermento ainda.
Para nutrir-se de meu suco impuro,
Talvez me espera uma plantinha linda.

Vermes que sobre podridões refervem,
Plantinha que a raiz meus ossos ferra,
Em vós minha alma e sentimento e corpo
Irão em partes agregar-se à terra.

E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, -- esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

(...)

O Hino da Cabocla

(Canção nacional)

Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
-- É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! -- que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!

Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.

Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!

Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha -- quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!

Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.

Sou índia, não nego: -- meus finos cabelos
-- Qual juba ferina -- bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! -- ou é de um leão!

(...)

O Jesuíta

Era longe -- bem longe: e eu vim primeiro
Cindindo as ondas desse mar profundo.
E por amor da Cruz vaguei sozinho
Nas ínvias matas desse novo mundo.

O tamoio gentil ervava as setas,
Quando pelos vergéis, tão seus, me via:
E co'os olhos fosfóricos ardendo
A taquara fatal a mim tendia.

E tendia a taquara, -- mas ao ver-me
Quão sem temor e quão inerme estava,
Trocando em doce o seu olhar fogoso,
O arco e a seta pelo chão rojava.

De mim as tribos bárbaras, indômitas,
De mim o verbo do evangelho ouviram.
E ergui a cruz nos píncaros dos montes,
E após o verbo os povos me seguiram!

Eu disse às tribos: -- Todas vós sois ricas,
-- Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.
Sois ricas tribos, -- mas não sois felizes,
Porque uma crença de um só Deus vos falta.

E eu dei às tribos uma crença doce,
Qual uma chuva de maná celeste:
E as tribos foram desde então felizes,
Qual flor pomposa que os jardins reveste.

E quando os reis da terra se esqueceram
Das tribos dadas a seu cetro forte,
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,
-- O povo geme: Transmudai-lhe a sorte. --

Eternos templos eu ergui sozinho,
Eternos como a duração da terra.
E sozinho sagrei altares tantos
Ao Deus que aos ímpios c'o trovão aterra.

Eu dei às tribos uma crença doce,
Eu levantei alcáceres eternos.
Deram-me os homens proscrição e morte,
Deram-me em prêmio as fezes dos infernos.
Sonho
Era um bosque, um arvoredo,
Uma sagrada espessura,
-- Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem um pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.

Ali pensei que sonhava
Com a donzela que me inspira,
Que põe-me nas mãos a lira,
Que põe-me o estro a ferver;
Que me acalenta em seu colo,
Que me beija a vasta crente,
Que me obriga a ser mais crente
No Deus que ela julga crer.

Sonhei com a visão dourada,
Que todo o poeta sonha,
-- Idéia gentil, risonha,
Tão poucas vezes real!
Que só, com o peito abafado,
Se vai de noite em segredo
Contar no denso arvoredo
Ao cipreste sepulcral.

Mas, despertando do sonho,
Que aos homens não se revela,
Achei comigo a donzela,
Me apertando o coração,
E ainda presa a meus lábios,
Entre um riso, entre um gemido,
Murmurou-me ao pé do ouvido
-- Que não era um sonho, não. --

E não mais, enquanto vivo,
Deixarei esta espessura,
-- Mitológica pintura
Que o romantismo não faz.
Era um sítio tão formoso,
Que nem o pincel romano,
Nem Rubens, nem Ticiano
Copiariam assaz.

Teus Olhos

Que lindos olhos
Que estão em ti!
Tão lindos olhos
Eu nunca vi...

Pode haver belos
Mas não tais quais;
Não há no mundo
Quem tenha iguais.

São dois luzeiros,
São dois faróis:
Dois claros astros,
Dois vivos sóis.

Olhos que roubam
A luz de Deus:
Só estes olhos
Podem ser teus.

Olhos que falam
Ao coração:
Olhos que sabem
Dizer paixão.

Têm tal encanto
Os olhos teus!
-- Quem pode mais?
Eles ou Deus?

Vai

Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.

(...)

Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, -- que eu vejo
Teu exemplar castigo.

Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.

E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.

E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.

Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!

Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. -- Mas corre,
Corre depressa, -- que amanhã teu riso
Já não será tão grande.

Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.

O Arranco da Morte

Pesa-me a vida já. Força de bronze

Os desmaiados braços me pendura.

Ah! Já não pode o espírito cansado

Sustentar a matéria.

Eu morro, eu morro. A matutina brisa

Já não me arranca o riso. A rósea tarde

Já não me doura as descoradas faces,

Que gélidas se encovam.

O noturno crepúsculo caindo

Já não me lembra o escurecido bosque

Onde me espera a meditar prazeres

A bela que eu amava.

A meia-noite já não traz-me em sonhos

As formas dela - desejosa e lânguida -

Ao pé do leito, recostada em cheio

Sobre meus braços ávidos.

A cada instante o coração vencido

Diminui um palpite; o sangue, o sangue,

Que nas artérias férvido corria,

Arroxa-se e congela.

Ah! É chegada a minha hora extrema!

Vai o meu corpo dissolver-se em cinza;

Já não podia sustentar mais tempo

O espírito tão puro.

É um cena inteiramente nova.

Como será? - Como um prazer tão belo,

Estranho e peregrino, e raro, e doce,

Vem assaltar-me todo!

E pelos imos ossos me refoge

Não sei que fio elétrico. Eis! Sou livre!

O corpo que foi meu, que lodo impuro!

Caiu, uniu-se à terra.










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JUVENAL GALENO

Juvenal Galeno da Costa e Silva

(Fortaleza CE 1836 - idem 1931)

Formou-se em Humanidades, no Liceu do Ceará, em Fortaleza CE, em 1854. No ano seguinte viajou para o Rio de Janeiro RJ, com o objetivo de observar a cultura cafeeira. No Rio, teve contato com Francisco de Paula Brito, Machado de Assis, Quintino Bocaiúva e Joaquim Manuel de Macedo. Seu primeiro livro de poesia, Prelúdios Poéticos, foi publicado em 1856. Seguiram-se A Machadada (1860), Porangaba (1861), Lendas e Canções Populares (1865), Canções de Escola (1871), Lira Cearense (1872) e Folhetins de Silvanus (1891), entre outros. Tornou-se Deputado Estadual em 1859, em Fortaleza; no mesmo ano, iniciou amizade com Gonçalves Dias, então integrante da Comissão Científica de Exploração em visita ao Ceará. Em 1887 tornou-se membro-fundador do Instituto Histórico do Ceará. Foi ainda Diretor da Biblioteca Pública de Fortaleza, entre 1889 e 1906. Juvenal Galeno pertence à segunda geração do Romantismo. Suas obras foram admiradas por grandes escritores do período, como José de Alecar, que escreveu, sobre Lira Cearense: "creia-me, livro tão original ainda não se escreveu entre nós e o Ceará deve lisonjear-se de ter quem lhe dê na literatura pátria um lugar que não têm outras províncias mais ricas e adiantadas em progresso material."

A Jangada
Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Tu queres vento de terra,

Ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,

Das verdes ondas do mar,

És como que pensativa,

Duvidosa a bordejar!

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Saudades tens lá das praias,

Queres n'areia encalhar?

Ou no meio do oceano

Apraz-te as ondas sulcar?

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Sobre as vagas, como a garça,

Gosto de ver-te adejar,

Ou qual donzela no prado

Resvalando a meditar:

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Se a fresca brisa da tarde

A vela vem te oscular,

Estremeces como a noiva

Se vem-lhe o noivo beijar:

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Quer sossegada na praia,

Quer nos abismos do mar,

Tu és, ó minha jangada,

A virgem do meu sonhar:

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Sé à liberdade suspiro,

Vens liberdade me dar;

Se fome tenho - ligeira

Me trazes para pescar!

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

A tua vela branquinha

Acabo de borrifar;

Já peixe tenho de sobra,

Vamos à terra aproar:

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

Ai, vamos, que as verdes ondas,

Fagueiras a te embalar,

São falsas nestas alturas

Quais lá na beira do mar:

Minha jangada de vela,

Que vento queres levar?

A Moda

O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
-- Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: --
Eis a minha opinião!

Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! --
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? --
(...)

Batinas e polonaise,
Hoje, bico -- amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!

Alface

A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.

Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.

Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.

As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.
O Caipora
-- No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!

E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.

Os Barões

I

Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.

(...)

III

Que ativo contrabandista
Foi outrora, -- e ainda o é --
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...

Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!

As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;

E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!

E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!

Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...

(...)

As Formas de Governo

Logo após a independência
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro -- um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a -- federação!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel -- só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não -- mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...

Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!

O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...

Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!

(...)










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Laurindo Rabelo (L. José da Silva R.), médico, professor e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 8 de julho de 1826, e faleceu na mesma cidade, em 28 de setembro de 1864. É o patrono da Cadeira n. 26, por escolha do fundador Guimarães Passos.

Era filho do oficial de milícias Ricardo José da Silva Rabelo e de Luísa Maria da Conceição, ambos mestiços e gente humilde do povo carioca. Pretendendo seguir a carreira eclesiástica, cursou as aulas do Seminário São José e recebeu as ordens, mas abandonou o seminário por intrigas de colegas. Fez estudos na Escola Militar, outra vez tentando em vão fazer carreira. Ingressou no curso de Medicina no Rio, concluindo-o na Bahia, em 1856, vindo porém defender tese na cidade natal. Em 1857, ingressou como oficial-médico no Corpo de Saúde do Exército, servindo no Rio Grande do Sul, até 1863. Neste ano voltou ao Rio, como professor de história, geografia e português no curso preparatório à Escola Militar. Em 1860, casara-se com D. Adelaide Luiza Cordeiro, e só a partir de então pôde livrar-se da pobreza que lhe marcou a existência. Atacado por uma afecção cardíaca, faleceu, aos 38 anos de idade.

Obras: Trovas (1853); Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856); Poesias do dr. Laurindo da Silva Rabelo, colig. por Eduardo de Sá Pereira de Castro (1867); Compêndio de gramática da língua portuguesa, adotado pelo Governo Imperial para o uso das escolas regimentais (1867; reed. em 1872); Obras completas (poesia, prosa e gramática), org., intr. e notas por Osvaldo Melo Braga (1946).

O QUE SÃO MEUS VERSOS
Se é vate quem acesa a fantasia

Tem de divina luz na chama eterna;

Se é vate quem do mundo o movimento

C'o movimento das canções governa;

Se é vate quem tem n'alma sempre abertas

Doces, límpidas fontes de ternura,

Veladas por amor, onde se miram

As faces da querida formosura;

Se é vate quem dos povos, quando fala,

As paixões vivifica, excita o pasmo,

E da glória recebe sobre a arena

As palmas, que lhe of'rece o entusiasmo;

Eu triste, cujo fraco pensamento

Do desgosto gelou fatal quebranto;

Que, de tanto gemer desfalecido,

Nem sequer movo os ecos com meu canto;

Eu triste, que só tenho abertas n'alma

Envenenadas fontes d'agonia,

Malditas por amor, a quem nem sombra

De amiga formosura o céu confia;

Eu triste, que, dos homens desprezado,

Só entregue a meu mal, quase em delírio,

Ator no palco estreito da desgraça,

Só espero a coroa do martírio;

Vate não sou, mortais; bem o conheço;

Meus versos, pela dor só inspirados, --

Nem são versos -- menti -- são ais sentidos,

Às vezes, sem querer, d'alma exalados;

São fel, que o coração verte em golfadas

Por contínuas angústias comprimido;

São pedaços das nuvens, que m'encobrem

Do horizonte da vida o sol querido;

São anéis da cadeia, qu'arrojou-me

Aos pulsos a desgraça, ímpia, sanhuda;

São gotas do veneno corrosivo,

Que em pranto pelos olhos me transuda.

Seca de fé, minha alma os lança ao mundo,

Do caminho que levam descuidada,

Qual, ludíbrio do vento, as secas folhas

Solta a esmo no ar planta mirrada.

A MINHA RESOLUÇÃO

O que fazes, ó minh'alma?
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração sê mais sensato,
Busca outro coração!

Corre o ribeiro suave
Pela terra brandamente,
Se o plano condescendente
Dele se deixa regar;
Mas, se encontra algum tropeço
Que o leve curso lhe prive,
Busca logo outro declive,
Vai correr noutro lugar.

Segue o exemplo das águas,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Nasce a planta, a planta cresce,
Vai contente vegetando,
Só por onde vai achando
Terra própria a seu viver;
Mas, se acaso a terra estéril
As raízes lhe é veneno.
Ela vai noutro terreno
As raízes esconder.

Segue o exemplo da planta,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Saiba a ingrata que punir
Também sei tamanho agravo:
Se me trata como escravo,
Mostrarei que sou senhor;
Como as águas, como a planta,
Fugirei dessa homicida;
Quero dar a um'alma fida
Minha vida e meu amor.

DOIS IMPOSSÍVEIS

Jamais! Quando a razão e o sentimento
Disputam-se o domínio da vontade,
Se uma nobre altivez nos alimenta
Não perde de todo a liberdade.

A luta é forte: o coração sucumbe
Quase nas ânsias do lutar terrível;
A paixão o devora quase inteiro,
Devorá-lo de todo é impossível!

Jamais! a chama crepitante lastra,
Em curso impetuoso se propaga,
Lancem-lhe embora prantos sobre prantos,
É inútil, que o fogo não se apaga.

Mas chega um ponto em que lhe acena o ímpeto
Em que não queima já, mas martiriza,
Em que tristeza branda e não loucura
À razão se sujeita e harmoniza.

É nesse ponto de indizível tempo
Onde, por misterioso encantamento,
O sentir à razão vencer não pode,
Nem a razão vencer ao sentimento.

No fundo de noss'alma um espetáculo
Se levanta de triste majestade,
Se de um lado a razão seu facho acende
Do outro os lírios seus planta a saudade.

Melancólica paz domina o sítio,
Só da razão o facho bruxuleia
Quando por entre os lírios da saudade
Do zelo semimorto a serpe ondeia!

Dois limites então na atividade
Conhece o ser pensante, o ser sensível:
Um impossível -- a razão escreve,
Escreve o sentimento outro impossível!

Amei-te! os meus extremos compensaste
Com tanta ingratidão, tanta dureza,
Que assim como adorar-te foi loucura,
Mais extremos te dar fora baixeza.

Minh'alma nos seus brios ofendida
De pronto a seus extremos pôs remate,
Que, mesmo apaixonada, uma alma nobre,
Desespera-se, morre, não se abate.

Pode queixar-se inteira felicidade
De teu olhar de fogo inextinguível,
Acabar minha crença, meu futuro,
Aviltar-me! jamais! É impossível!

Mas a razão que salva da baixeza
O coração depois de idolatrar-te,
Me anima a abandonar-te, a não querer-te,
Mas a esquecer-te, não: sempre hei de amar-te!

Porém amar-te desse amor latente,
Raio de luz celeste e sempre puro
Que tem no seu passado o seu presente,
E tem no seu presente o seu futuro.

Tão livre, tão despido de interesse,
Que para nunca abandonar seu posto,
Para nunca esquecer-te, nem precisa
Beber, te vendo, vida no teu rosto.

Que, desprezando altivo quantas graças
No teu semblante, no teu porte via
Adora respeitoso aquela imagem
Que delas copiou na fantasia.

(Obras completas, 1946.)

À MORTE DE JUNQUEIRA FREIRE

Do retiro claustral cisne sagrado

O vôo desprendeu!

Enchendo os ares pátrios de harmonias

Cantou, depois morreu!

Mistério! -- Ave criada entre os altares,

Acaso a turba impura

Do mundo com seu bafo envenenado

Abriu-te a sepultura?!

Punindo-te o desprezo de seus lares

O Anjo de Sião

Por ordem do Senhor tão presto deu-te

A morte, em punição?!

Preso o espírito, acaso, nas cadeias

Do voto eterno e forte

Teve, na luta acerba espedaçando-as,

Por liberdade a morte?!

Mistério! -- Respeitemos nesta campa

Decretos divinais!

Sobre as cinzas do morto ao vivo toca

O pranto e nada mais!

Rei que fora! -- Era um servo que devia

A vida ao Senhor seu!

Seu Senhor o chamou, a voz ouviu-lhe

E pronto obedeceu!

Duvidais do que digo? -- Erguei a campa...

Esse corpo o que é?!

E negareis ainda que era um servo?!

Aí tendes a libré!

Viveu como poeta, de poeta

Deixou o canto e a fama.

Inda no crânio morto tem -- bem vedes --

Do louro verde a rama!

Leste-lhe a poesia? Eram arquejos

D'um coração aflito!

De uma alma que ensaiava na matéria

Os vôos do infinito!

Voou!... Cisne de luz, adeja livre

Mau grado a humanidade!

Os hinos dos arcanjos são seus hinos

Seu mundo -- a eternidade!

BANDO

Eia, Baianos, raiar

Vai na terra do Cruzeiro

Esse dia tão jucundo,

Que, apesar de ser segundo,

Há de sempre ser primeiro!

Não deixes despercebido

O rei dos dias passar,

Mostrai que não sois escravos,

Mostrai que o dia dos bravos

Inda sabeis festejar!

Se o misérrimo que sofre

Da escravidão os rigores,

Às vezes repete a história

Dos seus passados de glória

Nas senzalas dos senhores;

Nós livres, a quem escravos

Inda não pôde fazer

O furor do despotismo,

Nossos feitos de heroísmo

Não devemos esquecer.

Não devemos esquecer

Esse dia, a cuja luz

Os deus dos Americanos

Escreveu -- morte aos tiranos --

Nos braços da Santa-Cruz.

Esse dia que provou

Com solene majestade

Ao vil tirano atrevido,

Quanto pode um povo unido,

Quando grita -- liberdade --

Com as frontes coroadas

De louros vamos cantar

Hinos aos fortes soldados,

Que valentes, denodados,

Nos souberam libertar.

Todos os ódios se esqueçam,

Demo-nos todos as mãos,

E empenhemos nosso orgulho

Em festejar dous de julho,

Em um banquete d'irmãos!

Nem receeis que algum braço,

Que para nos esmagar

Ocultamente trabalha,

Da nossa mesa a toalha

Venha com sangue manchar.

Não, que tem a liberdade

Seus amores neste dia,

E, temendo as iras dela,

Se atormenta, se arrepela,

Mas não fala a tirania.

Comece pois o festim,

E nas galas sem rival

Entre as ledas comitivas,

Impelido pelos vivas

Rode o carro triunfal.

Saia à noite, que não há de

Cobri-lo da noite o véu;

Brandões hão de iluminá-lo,

De luzes hão de banhá-lo

Os candelabros do céu!

Nele do dia dos livres

Veja o formoso arrebol,

Essa cabocla engraçada

Que tem a face tostada

Dos beijos que deu-lhe o sol!

E quando voltar dirão

Com toda a gente os louvores,

O mar por canhões bradando,

Os ares vivas troando,

A terra brotando flores!

Seja então tudo prazer,

Tudo sonoras canções,

Tudo banquete de bravos,

Tudo remorsos de escravos

Que inda desejam grilhões!

Eia, Baianos, raiar

Vai na terra do Cruzeiro

Esse dia tão jucundo,

Que, apesar de ser segundo,

Há de sempre ser primeiro.

Não deixeis despercebido

O rei dos dias passar,

Mostrai que não sois escravos,

Mostrai que o dia dos bravos

Inda sabeis festejar.

A UM INFELIZ

SONETO III

Geme, geme, mortal infortunado,

É fado teu gemer continuamente:

Perante as leis do Fado és delinqüente,

Sempre tirano algoz terás no Fado.

Mas para não ser mais envenenado

O fel que essa alma bebe, e o mal que sente,

Não te iluda o falaz riso aparente

De um futuro de rosas coroado.

Só males o presente te afiança:

Encrustado de vermes charco imundo

Se te volve o passado na lembrança.

Busca, pois, o da morte ermo profundo:

Despedaça a grinalda da esperança:

Crava os olhos na campa, e deixa o mundo.
O JORNALEIRO
É igual a ti mesmo, a ti somente

(Do poema O ganhador)

Quando ousado o poeta a voz levanta,

Em punho tendo o látego da sátira,

P'ra castigar hipócritas malvados,

É a voz da verdade a voz que soa!

Desmascarar falsários intrigantes,

O vício espezinhar, punir tartufos,

Velhacos suplantar, caluniadores,

São atos que de austera probidade

Louvor sincero e atenção merecem.

Armados pois, de um retorcido relho,

A um negro covil -- talvez o inferno --

Por um forte cabresto bem seguro,

Eu vou buscar um torpe Jornaleiro,

Que entre sujos papéis escrevinhados

(Que só p'ra guardanapo têm valia)

Sentado em tamborete junto à banca,

Tendo nas garras de algum corvo a pena,

Baldões, insultos contra a honra atira!

Trazer pretendo o ganhador escriba

Qual jumento manhoso à praça pública

E expô-lo às apuradas dos moleques,

Por quem apedrejado ser devia...

Quem não conhecerá o Miguelista,

Escória dos sandeus de quem eu falo?!...

Chicanista imoral, doutor em nada,

Insosso prosador -- alto pedante --

Que estudar foi na estranja -- patacoadas

Para dizer-se aqui homem de letras?

Quem não conhecerá o sábio lente,

Que num certo colégio desta Corte

Ciência geográfica ensinava?

Quem não conhecerá -- o que na escola,

Onde quer se instruir jovem guerreiro,

Explicando o direito ensina o torto?!...

O homem que insultava adversários,

Alcunhando-os heróis das "vacas gordas",

E que agora sedento -- a grossa teta

Bem agarrado, chupitar procura?!

Homens raros assim todos conhecem!...

Eu não preciso retratá-lo ao vivo,

Descrever-lhe o carão, onde grudados

-- Nos olhos -- tem pedaços de vidraça,

O corpo infame, o bojo monstruoso,

Qual um balão de fedorentos gases;

E mostrar o letreiro que na fronte

-- Em letras garrafais -- diz "Ganhador"!

Todos bem sabem de que peça falo:

O trabalho me tira a grande fama

Que por falso, impudente tem ganhado.

Sim, ó grão-Redator (a ti me volvo)

Ao público amador -- quero mostrar-te,

P'ra que faça a justiça que mereces...

És qual tarpéia rocha inabalável

Em teu princípio firme-o da calúnia --

És herói dos heróis, quando se trata

De vis aduladores intrigantes!

Um singular portento és na mentira!

Tu és grande! és enorme!! porque arrumas

Patadas, couces mil, no mundo inteiro!!

A natureza pasma ao contemplar-te,

Julgando que não és uma obra sua!

Embasbaca-se o gênio das trapaças

Vendo brilhar o teu saber ingente!

Té o demo -- de gosto -- pinoteia,

-- E berrando que tu, seu protegido,

Que és glória sua comunica à terra!...

E no entanto ninguém teu pai se julga!...

Nem o podem dizer, porque não sabem...

Quem te acendeu nos cascos esses fogos

Que tudo abrasam, sem queimar-te a bola?

Quem és pois? de onde vens? P'ra onde te atiras?!...

És abutre -- que mágica do Averno --

Em homem transformou p'ra da calúnia

O instrumento ser aqui na terra?

És do zoilo invejoso a alma errante,

Ou um sopro de negra, imunda harpia?

Onde encontraste o ser? a origem tua?...

Veste por acaso do planeta

Que Vulcano por lei dizem chamar-se?

Onde fixaste o norte de teu rumo,

Ó ente singular, teu paradeiro?

Para onde irás tu, quando partires

Deste imenso teatro em que tens feito

O papel mais infame que se pode?!

Abutre, harpia ou sopro, ou quer que sejas,

-- És igual a ti mesmo, a ti somente! --

Cansa-se a pena a enumerar teus feitos!

Envergonha-se aquele que o censura,

Olhando para ti, vendo que és homem,

Na figura somente... em nada mais!...

Imortal, Redator do papelucho

A quem um respeitável nome deste

(Sim que o nome da Pátria, para o probo,

Que não p'ra ti, é nome respeitável),

É tempo de voltar ao antro escuro,

Ou p'ra o lugar -- ignoro donde hás vindo!

Já muito por aqui de mal tens feito...

As cinzas venerandas revolveste

De um dos heróis da "Independência" nossa!...

Tua missão cumpriu-se!... é tempo, volta...

Era minha intenção trazer-te à praça;

Mas desisto da empresa!... A puros homens

É um crime mostrar torpes figuras,

Negros quadros, que infâmias representam!

Vai-te! foge daqui! do vate a destra

Só cordas vibra de doiradas liras:

Se indignado empunha o forte relho

Para surrar hipócritas malvados,

Envergonha-se logo do que há feito!

É nobre o fim p'ra que o Poeta nasce;

E não para amansar bestas bravias

Ou corrigir sicários sevandijas!...

[Glosas]

Mote

Quebrou amor por despeito

As cordas da minha lira.

Glosa

Porque me não viu sujeito

De Marília aos ternos braços,

De minha ventura os laços

Quebrou amor por despeito.

Com isto não satisfeito,

Cego nume aceso em ira,

Do estro o fogo me tira

E desde o fatal momento

Rebentaram sem alento

As cordas da minha lira.

Um cartucho de confeito,

Num dia de patuscada,

Nas ventas da minha amada,

Quebrou amor por despeito.

Ela, vendo o tal sujeito,

Com uma pedra lhe atira;

Mas amor, p'ra que o não fira,

Faz o corpo desviar

E a pedra foi quebrar

As cordas da minha lira.

Mote

Pagode sem bebedeira

Não é coisa de rapazes.

Glosa

O meu bem em certa feira

Em que comigo se achava,

Disse que não adotava

Pagode sem bebedeira.

Repreendendo-a da asneira

Lhe disse: "Márcia, o que fazes?"

Ela então, fazendo as pazes,

Respondeu-me com carinho;

"Gentes, pagode sem vinho

Não é coisa de rapazes."

EPIGRAMAS

A um calvo pretensioso

Cabeça, triste é dizê-lo!

Cabeça, que desconsolo!

Por fora não tem cabelo,

Por dentro não tem miolo.

Outras versões

Vejam só esta cabeça!

Oh! meu Deus, que desconsolo!

Por fora não tem cabelo,

Por dentro não tem miolo.

Cabeça!... Que desconsolo!

Cabeça!... Força é dizê-lo

Por fora não tem cabelo,

Por dentro não tem miolo.

Dizem que a Morte e Maurício

Andaram na mesma escola:

A Morte mata somente;

Maurício mata e esfola.

Cravo, rosa, em jarra fina

De ver tenho tido ensejo.

Mas, senhora, flor em tina

É a primeira vez que vejo.

Deus, para provar aos homens

Toda a sua autoridade,

Enviou-nos um bom tempo

Que é pior que a tempestade.

Causa pena e causa espanto,

E até mesmo causa dó

Ver morder a tanta gente

Um homem de um dente só.

Para mostrar que é um sábio

E filho de boa gente

E dos passados ministros

Ser em tudo diferente,

Sua Excelência da Guerra

Em tudo o que der à luz

Em vez de assinar de nome

Pretende assinar de cruz.

A peça Degolação

Foi mui bem representada.

Entre os muitos inocentes

Foi a peça degolada.

Cada um de nós no mundo

Fazemos nossa figura;

Tu entisicas as partes

Eu me encarrego da cura.

MODINHAS

FOI EM MANHÃ DE ESTIO

Foi em manhã de estio

De um prado entre os verdores,

Que eu vi os meus amores

Sozinha a cogitar.

Cheguei-me a ela,

Tremeu de pejo...

Furtei-lhe um beijo,

Pôs-se a chorar.

Eram-lhe aquelas lágrimas

Na face nacarada

Per'las da madrugada

Nas rosas da manhã.

Santificada

Naquele instante,

Não era amante,

Era uma irmã.

Dobrados os joelhos

Os braços lhe estendia,

Nos olhos me luzia

Meu inocente amor.

Domina a virgem

Doce quebranto,

Seca-se o pranto,

Cresce o rubor.

Nestes teus lábios

De rubra cor,

Quando tu ris-te

Sorri-se amor.

Dos lindos olhos,

Tens o fulgor,

Se p'ra mim olhas

Raios de amor.

De teus cabelos

De negra cor,

Forjam cadeias

Brincando amor.

Neles p'ra sempre,

Servo ou senhor,

Viver quisera

Preso de amor.

Rosas que tingem

Fresco rubor

Nas tuas faces

Espalha amor.

Se de minh'alma

Com todo o ardor,

Chego a beijá-las

Morro de amor.

Tua alma é pura

Celeste flor,

Só aquecida

Por sóis de amor.

Já em ternura,

Já em rigor,

Dá vida e morte,

Ambas de amor.

Quando a perturba

Casto pudor,

Encolhe as asas

Tremendo amor.

Se do ciúme

Sente o fulgor,

Em mar de chamas

Se afoga amor.

Se me concedes

Terno favor

Terei por lume

Somente amor.

Porém no templo

Mandarei pôr

O teu retrato

Em vez de amor.












ORFEU SPAM APOSTILAS

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LUIZ GAMA

Luiz Gonzaga Pinto da Gama

(Salvador BA, 1830 - São Paulo SP, 1882)

Era filho de escravos, e foi vendido pelo pai, em 1840, por causa de uma dívida de jogo. Comprado em leilão pelo alferes Antonio Pereira Cardoso, passou a viver em cativeiro em Lorena SP. Em 1847 foi alfabetizado por Antonio Rodrigues do Prado Júnior, hóspede de Antonio Pereira Cardoso. No ano seguinte fugiu da fazenda e foi para São Paulo SP. Lá casou-se, por volta de 1850, e freqüentou o curso de Direito como ouvinte, mas não chegou a completá-lo. Em 1864 fundou o jornal Diabo Coxo, do qual foi redator. O periódico era ilustrado pelo italiano Angelo Agostini, considerado marco da imprensa humorística em São Paulo. Entre 1864 e 1875 colaborou nos jornais Ipiranga, Cabrião, Coroaci e O Polichileno. Fundou, em 1869 o jornal Radical Paulistano, com Rui Barbosa. Sempre utilizou seu trabalho na imprensa para a divulgação de suas idéias antiescravistas e republicanas. Em 1873 foi um dos fundadores do Partido Republicano Paulista, em Itu SP. Nos anos seguintes, teve intensa participação em sociedades emancipadoras, na organização de sociedades secretas para fugas e ajuda financeira a negros, além do auxílio na libertação nos tribunais de mais de 500 escravos foragidos. Por volta de 1880, foi líder da Mocidade Abolicionista e Republicana. Os poemas de Luís Gama estão vinculados à segunda geração do Romantismo. Entretanto, segundo o crítico José Paulo Paes, "distanciando-se dos literatos da época pelo seu realismo de plebeu, Luiz Gama deles se distanciava também pela concepção que tinha da literatura. Para ele, ser poeta não era debruçar-se sobre si mesmo, num irremediável narcisismo, mas voltar-se para o mundo, medi-lo com olhos críticos, zurzir-lhe os erros, as injustiças, as falsidades.".

Serei Conde, Marquês e Deputado
Pelas ruas vagava, em desatino,

Em busca do seu asno que fugira,

Um pobre paspalhão apatetado,

Que dizia chamar-se - Macambira.

A todos perguntava se não viram

O bruto que era seu, e desertara;

Ele é sério (dizia), está ferrado,

E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina,

Um esperto, ardiloso capadócio,

Dos que mofam da pobre humanidade,

Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta

O pobre do matuto, agoniado;

"Por aqui não passou o meu burrego

Que tem ruço o focinho, o pé calçado?"

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:

"O seu burro, Senhor, aqui passou,

Mas um guapo Ministro fê-lo presa,

E num parvo Barão o transformou!"

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,

Da cabeça tirando o seu chapéu)

Se me pilha o Ministro, neste estado,

Serei Conde, Marquês e Deputado!...

A Cativa

Nos olhos lhe mora,
Uma graça viva,
Para ser senhora
De quem é cativa.
CAMÕES

Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.

Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina,
De Anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.

Em carmim rubro esgastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúlios bardos matutinos.

Seus ingênuos pensamentos
São de amor juras constantes;
Entre as nuvens das pestanas
Tinha dois astros brilhantes.

As madeixas crespas, negras,
Sobre o seio lhe pendiam,
Onde os castos pomos de ouro
Amorosos se escondiam.

Tinha o colo acetinado
-- Era o corpo uma pintura --
E no peito palpitante
Um sacrário de ternura.

Límpida alma -- flor singela
Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.

Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-mas -- não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
-- Tanto pode o amor ardente!

Não te afastes, lhe suplico,
És do meu peito rainha;
Não te afastes, neste peito
Tens um trono, mulatinha!...

Vi-lhe as pálpebras tremerem,
Como treme a flor louçã
Embalando as níveas gotas
Dos orvalhos da manhã.

Qual na rama enlanguescida
Pudibunda sensitiva,
Suspirando ela murmura:
Ai, senhor, eu sou cativa!...

Deu-me as costas, foi-se embora
Qual da tarde ao arrebol
Foge a sombra de uma nuvem
Ao cair a luz do sol.

Lá Vai Verso!

Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS

Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.

As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.

Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.

Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões -- aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!

Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo --
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.

Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas -- chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.

Caducas Tartarugas -- desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos -- sem juízo,
Irrisórios fidalgos -- de improviso,
Finórios traficantes -- patriotas;

Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.

Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote --
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes --
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.

Junto à Estátua

(No Jardim Botânico da Cidade de S. Paulo)

Já a saudosa Aurora destoucava
Os seus cabelos de ouro delicados,
E as boninas nos campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava.
CAMÕES - Soneto

Em plácida manhã serena e pura,
Sentado à borda de espaçoso lago;
O corpo recostado em frio marmor,
Tórridos membros sobre a terra quedos.

Qual túmido Tritão de amor vencido,
Transpondo as serras, iracundos mares,
D'Aurora o berço perscrutando ousado,
Dolorosos suspiros exalava
Meu frágil peito, da natura escravo,
Já nas fúlgidas portas do Oriente,
Trajando púrpura, majestoso assoma
Luzeiro ardente, que expandindo os raios,
Deslumbra os olhos, e a razão sucumbe,
E, com furtiva luz, pálidas fogem
Notívagas esferas cintilantes.

(...)

Longe do mundo, das escravas turbas,
Que o ouro compra de avarentos Cresos,
A minh'alma aos delírios se entregava,
À sombra de ilusões -- de aéreos sonhos.

Formosa virgem de nevado colo,
De garços olhos, de cabelos louros;
Sanguíneos lábios, elegante porte,
Mimoso rosto de Ericina bela,
Curvando o seio de alabastro fino,
Mimosa imprime nos meus lábios negros
Gostoso beijo de volúpia ardente! --
Vencido de prazer, nadando em gozos,
Já temeroso pé movendo incerto,
Vôo com ela às regiões etéreas
Nas tênues asas de ternura infinda.
....................................

Rasgando o véu das ilusões mentidas,
Que est'alma frágil seduzir puderam,
Imóvel terra, cambiantes flores,

Viram meus olhos no romper da Aurora;
E d'entre os braços, que cerrados tinha,
Gelada estátua de grosseiro mármore!...

Cândidas boninas
E purpúreas rosas,
Violetas roxas
Do luar saudosas;

Verdejantes murtas,
Redolentes cravos,
Lindas papoulas
Da donzela escravos,

Ao soprar da brisa,
Em balanço undoso,
O mortal encantam
Num sonhar gostoso.

Mas fugindo as nuvens
-- Que a ilusão fulgura,
Só vagueia à sombra
Da infernal ventura.
O Barão da Borracheira
Quando pilho um desses nobres,
Ricos só d'áureo metal
Mas d'espírito tão pobres
Que não possuem real,
Não lhes saio do costado,
-- Sei que é trabalho baldado,
Porque a pele dura têm;
Mas eu fico satisfeita,
Que o meu ferrão só respeita
A virtude, e mais ninguém!
F.X. DE NOVAIS - A Vespa

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo -- Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou -- Número -- X -- ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!...

O Rei Cidadão

(Dois Metros de Política)

O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos

É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
-- Que o Rei da mista forma é velhacão.

No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
-- Reina o Rei, não governa -- é o problema;
-- Mas, se reina, governa: eis o dilema!
-- Não só reina, governa e administra --
É suprema doutrina monarquista.

De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão -- republicano!

(...)

Pacotilha

Não ralhem, não façam bulha,
Que eu não sei se isto é pulha.
Polca

(...)

Se trôpego velho
De queixo caído,
Dengoso e rendido,
Com moça se liga;
Lá quando mal cuida
Na fronte lhe saltam,
Relevos que esmaltam,
Em forma de espiga.

Se rapa o que pode
Finório empregado,
Campando de honrado,
Cuidando que brilha;
Em dia aziago
Tropeça, baqueia,
E vai, na cadeia,
Juntar-se à quadrilha.

Se impinge nobreza
Brutal vendilhão,
Que sendo Barão,
Já pensa que é gente;
Aqueles que o viram
Cebolas vendendo
Vão sempre dizendo --
Que o lorpa é demente.

Se em peitos que fervem
Infâmias tremendas
Avultam comendas
E prêmios de honor;
É que, com dinheiro,
Os rudes cambetas
Se levam das tretas
E mudam de cor.

Se fino larápio
De vícios coberto,
Com foros d'esperto,
De honrado se aclama;
É que a ladroeira.
Banindo o critério,
Firmou seu império
C'o gente de fama.

Se audaz rapinanto,
Fidalgo ou Barão,
Por ser figurão,
Triunfa da Lei;
É que há Magistrados
Que empolgam presentes
Fazendo inocentes
Os manos da grei.

Mulato esfolado,
Que diz-se fidalgo,
Porque tem de galgo
O longo focinho;
Não perde a catinga,
De cheiro falace,
Ainda que passe
Por bráseo cadinho.

E se eu que pretácio,
D'Angola oriundo,
Alegre, jucundo,
Nos meus vou cortando;
É que não tolero
Falsários parentes,
Ferrarem-me os dentes,
Por brancos passando.

Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom

(...)

Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu -- apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!

Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados -- mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas -- que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!

(...)








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Memórias de um Sargento de Milícias
A obra conta as aventuras de Leonardo ou Leonardinho, filho ilegítimo dos portugueses Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça. Como os pais não desejassem criá-lo, Leonardo fica por conta de seu padrinho (um barbeiro) e de sua madrinha (uma parteira), após a separação dos de seus progenitores.
Sempre metido em travessuras, desde cedo Leonardo mostra-se um grande malandro. Já moço, apaixona-se por Luisinha, mas põe o romance a perder quando se envolve com a mulata Vidinha. A primeira decide, então, casar-se com outro.

Tempos depois, Leonardo é preso pelo Major Vidigal, enfrenta diversos problemas, mas acaba sargento de milícias. Quando da viuvez de Luisinha, reaproxima-se da moça. Os dois casam-se e Leonardo é reabilitado. Leia resumo por capítulos:


Primeira Parte

Capítulo I

Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça embarcam para o Brasil. Entre pisadelas e beliscões os dois jovens portugueses enamoram-se, envolvem-se e da união, nasce Leonardinho, o protagonista do romance, sete meses mais tarde. É, estranhamente, um menino gordo e grande, apesar de ter nascido tão cedo. A parteira e o barbeiro são seus padrinhos de batismo.

Capítulo II

Leonardo Pataca descobre-se traído por Maria e surra a mulher. O amante que estava com ela desaparece. Leonardinho rasga uns documentos que o pai esquecera sobre a mesa. O pai dá-lhe um pontapé que o manda longe. O menino vai viver com o padrinho. Maria da Hortaliça já não se encontra com o marido, pois fugira para Portugal com o capitão de um navio.

Capítulo III

O padrinho protege Leonardo. A madrinha cobra energia do barbeiro. Acha que Leonardo precisa ser castigado, já que é levado demais. O padrinho quer o afilhado padre, pois anda apreensivo com o futuro do pequeno.

Capítulo IV

Apaixonado por uma cigana que não o quer, Leonardo Pataca acaba preso, por recorrer a bruxarias, a fim de conquistá-la. Quem o prende é o Major Vidigal.

Capítulo V

O narrador fala de Vidigal, um homem temido e influente, apesar de parecer mole e lento. Ele é cruel com os que não trabalham e não tem piedade dos criminosos. Todos os que participavam da cerimônia de feitiçaria com Leonardo são chicoteados, para que dancem, até que não mais agüentem. Leonardo Pataca acaba na cadeia.

Capítulo VI

A comadre consegue libertar Leonardo Pataca. Leonardinho dorme em um acampamento cigano depois de seguir a procissão.

Capítulo VII

Fala da comadre, de seus momentos de esperteza e dos de inocência, da profissão de parteira, de suas benzedeiras, cochichos e rezas.

Capítulo VIII

A Comadre pedira a um tenente-coronel seu conhecido que conseguisse do rei algum benefício para Leonardo Pataca.

Capítulo IX

Conta-se a história do padrinho, que se apossou das economias de um capitão, às portas da morte, ao invés de entregá-las à filha do falecido, conforme prometera. O dinheiro proporciona-lhe uma vida boa e confortável.

Capítulo X

Leonardo fora libertado, porque o tenente-coronel tinha um filho que seduzira Maria da Hortaliça em Portugal, deflorando-a e abandonando-a, em tempos passados, e ajudar Pataca foi uma forma de pagar pelo mal cometido pelo filho.

Capítulo XI

Leonardinho não tem vocação para padre e é lerdo para aprender. O padrinho preocupa-se por ele. A vizinha briga com o petiz, que a imita. O padrinho que já discutira com ela, por causa da desavença com o pequeno, diverte-se com a imitação feita.

Capítulo XII

Na escola, Leonardinho é punido constantemente com a palmatória, pois só faz travessuras. Termina abandonando os estudos, depois de muito fugir da escola.

Capítulo XIII

Leonardinho fica amigo de um garoto que é coroinha e diz ao padrinho que também gostaria de servir na Igreja, como o outro. Em verdade, por ser malandro demais e não gostar dos estudos, o menino pretende encontrar um meio de fazer mais peraltices. Como o barbeiro tem vontade que o pequeno siga a carreira sacerdotal, imagina que será bom que ele comece a conviver no meio eclesiástico. Sabe que, apesar de tê-lo feito freqüentar a escola novamente, o afilhado não se empenha e vive fugindo das aulas. Os meninos, que se tornaram amigos em uma das fugas de Leonardinho, vingam-se da vizinha com a qual o padrinho brigara, jogando fumaça de insenso em seu rosto e também lhe entornando um pouco de cera na mantilha que estava usando.

Capítulo XIV

A cigana com a qual Leonardo Pataca se havia envolvido é amante de um padre que exerce a função de mestre de cerimônias da Igreja da Sé. Ele deverá proferir o sermão, por ocasião de uma festa que ocorrerá na igreja em questão. Um capuchinho italiano toma-lhe o lugar no púlpito, quando o padre se atrasa para a cerimônia. Em realidade, o grande responsável pelo problema é Leonardinho, que lhe informa o horário do acontecimento com uma hora de diferença do que deveria ser. Acaba sendo mandado embora, pelo que fez.

Capítulo XV

Chico-Juca é contratado para comparecer a uma reunião festiva que ocorrerá na casa da cigana da qual Pataca gosta. É a forma que o pai de Leonardinho arranja, para se vingar dela e do padre com o qual se envolvera. Não satisfeito com o que já programara, Pataca complementa sua vingança, avisando o Major Vidigal do que está ocorrendo. O padre vai parar na cadeia, para a satisfação de Leonardo.

Capítulo XVI

As coisas encaminham-se muito mal para o padre flagrado pelo Major. Arrependido e humilhado, ele toma a decisão de deixar a amante cigana. Mesmo desagradando a comadre, que tanto o ajudara, Leonardo Pataca retoma o relacionamento com a traidora e é recriminado por sua atitude. Chocada, a comadre o repreende.

Capítulo XVII

A gorda D.Maria simpatiza com Leonardinho. Ela aprecia demais as demandas ou ações judiciais. Quando acontece a procissão recebe o Compadre, em sua casa, além do afilhado. Também estão lá a Comadre e a vizinha, que tem a saia pisada pelo pequeno peralta, enquanto todos falam a respeito das traquinagens que ele faz o tempo todo. Leonardinho rasga a saia da mulher e continua a centralizar o assunto da conversa, já que trocam idéias sobre seu futuro. Para a velha senhora dona da casa, em toda a sua bondade e amor pelos menos afortunados, o menino deve-se tornar um "procurador de causas", pois seria o melhor para ele.

Capítulo XVIII

Mais velho, Leonardo Pataca junta-se a Chiquinha, filha da Comadre, com quem acabará tendo uma filha. Quanto a Leonardinho, torna-se, segundo o narrador, um "vadio-mestre", um "vadio-tipo". Vão por água abaixo os planos feitos para ele pelo compadre, pois não se torna padre. Tão pouco segue os desejos da Comadre ou de Dona Maria. Sem trabalho, sem preocupações, leva a vida aventureira que lhe é tremendamente agradável. Faz visitas a D. Maria, acompanhando o padrinho. A velha senhora vencera mais uma de suas demandas, tornando-se tutora de uma sobrinha órfã chamada Luisinha. A moça veio da roça e é uma pessoa desengonçada, alta e magricela. Sua herança havia sido de mil cruzados. Leonardinho tem dificuldade em controlar o riso, quando a conhece, em um longo vestido de chita roxa, muito deselegante. E sempre se ri, quando se lembra dela. E sempre se lembra dela.

Capítulo XIX

Leonardinho e Luisinha aproximam-se gradativamente e o amor entre eles começa a brotar.

Capítulo XX

Depois que acontece a Festa do Divino, o casal torna-se mais unido e íntimo, fortalecendo os sentimentos que nutrem um pelo outro.

Capítulo XXI

Visitando D. Maria, padrinho e afilhado vêem-se diante do Sr. José Manuel, um velhaco de primeira, que adula a velha, para conseguir chegar até Luisinha. Suas pretensões visam à herança que a moça deverá receber com a morte de D.Maria, já que será a única beneficiária da tutora.

Capítulo XXII

A Comadre une-se ao Compadre, a fim de traçarem seus planos, para desarmar a tramóia de José Manuel e auxiliar o afilhado.

Capítulo XXIII

Leonardinho já se apercebeu das intenções de José Manuel e sente vontade de cortar-lhe o pescoço com uma navalha do Compadre. Seu padrinho, entretanto, aconselha-o e procura acalmar-lhe os ciúmes. O rapaz, muito desajeitado, consegue se declarar a Luisinha, após idas e vindas bastante cômicas, tremores e dúvidas, risos nervosos e um extremo desgaste.

Segunda parte

Capítulo I

Leonardo Pataca, pai de Leonardinho, tem uma filha com Chiquinha e a Comadre responsabiliza-se em fazer o parto. A menina será tranqüila e risonha, o avesso do irmão.

Capítulo II

A Comadre, como excelente fuxiqueira que é, leva ao conhecimento de D.Maria histórias que se contam sobre uma determinada ocorrência policial bastante comentada naquele tempo. Diz que ficou sabendo que José Manuel havia sido responsável pelo roubo de uma jovem e de uma bolsa com dinheiro. Facilitam-se os planos feitos por ela , o Compadre e o afilhado, tendo em vista que José Manuel se desvaloriza demais, perante Dona Maria, que é uma mulher honesta e não suporta falta de caráter.

Capítulo III

José Manuel não desiste de Luisinha, apesar dos pesares. Deseja saber quem o intrigou com D. Maria.

Capítulo IV

O Mestre de Rezas é cego e tem fama de ser um bom arranjador de casamentos. Ajuda José Manuel a se aproximar de Luisinha e procura descobrir quem falara mal do rapaz para D.Maria.

Capítulo V

Com a morte do padrinho, Leonardinho torna-se seu único herdeiro. Leonardo Pataca sabe disso, por intermédio da Comadre, e prontifica-se a tomar conta do filho, por puro interesse. O rapaz não consegue esquecer o pontapé que o pai, um dia, lhe dera. Não o agrada viver com um homem que vira tão poucas vezes. Sem opção, porém, acaba indo morar com o pai, Chiquinha e a irmãzinha.

Capítulo VI

Apesar de ter herdado "um bom par de mil cruzados", Leonardinho acaba escurraçado da casa do pai, que o persegue com um espadim em punho, em mais um dia de brigas entre o moço e Chiquinha, a mulher do pai. Tudo acontece, porque Leonardinho não vê Luisinha na casa de D.Maria, quando vai até lá e, por este motivo, irrita-se.

Capítulo VII

Leonardinho conhece Vidinha, mulata que gosta de tocar viola e cantar suas modinhas, quando reencontra um ex-sacristão seu amigo, que o chama para fazer companhia a ele e ao bando de amigos que o segue naquela ocasião. Agrada-o ouvir Vidinha, com seus dentes brancos e os lábios umedecidos, cantar entre eles. Tomás da Sé leva-o para a casa na qual também vive Vidinha e Leonardinho ali permanece, ligando-se à moça.

Capítulo VIII

As viúvas e seus filhos vivem na mesma casa. Leonardinho passa a conviver com a família. Vidinha é uma das três moças que lá moram. Além delas, existem três rapazes. Os moços são funcionários da estrada de ferro. A idade dos jovens todos está por volta dos vinte anos.

Capítulo IX

José Manuel procura desfazer a má impressão que as intrigas haviam deixado em D.Maria a respeito dele. A madrinha procura o afilhado, sem conseguir encontrá-lo em lugar algum. Quando vai até a casa de D.Maria, leva uma reprimenda, por tudo o que dissera a respeito de José Manuel, já que o pretendente de Luisinha conseguira livrar-se das acusações, auxiliado pelo Mestre de Rezas. A Comadre pede desculpas a D.Maria, já que não tem meios de ajudar Leonardinho naquele momento.

Capítulo X

Vidinha é o pomo da discórdia em sua casa, pois desperta o interesse do primo e também o de Leonardinho. Acontece uma briga e o rapaz deseja partir. As viúvas e Vidinha estão a favor dele.É convencido a permanecer com a família. A Comadre consegue achá-lo logo após a briga.

Capítulo XI

A Comadre e as viúvas conversam. Leonardinho fica. Quando está em um piquenique, divertindo-se, acaba prisioneiro do Major Vidigal, por vadiagem.

Capítulo XII

José Manuel ganha uma das demandas para D.Maria e, desta forma, consegue o sim da velha senhora, ao seu pedido de casamento. Luisinha está bastante acabrunhada com o desaparecimento de Leonardinho, que não mais a procurara. Sem qualquer entusiasmo, aceita casar-se. O noivo vive a fazer os cálculos de quanto irá lucrar com o enlace. Casam-se os noivos e é feita uma grande festa.

Capítulo XIII

O Major Vidigal acaba desmoralizado, pois Leonardinho serve-se de uma agitação que ocorria na rua por onde passava aprisionado e foge. Volta para a casa da mulata Vidinha. Como jamais nenhum safado lhe escapara e por não estar acostumado com falta de respeito, Vidigal irrita-se como nunca e procura-o incansavelmente, em companhia dos granadeiros.

Capítulo XIV

Encontrar o fujão é uma questão de honra para o Major. Quer se vingar, pois não aceita ter sido alvo de chacotas. A Comadre, por sua vez, implora a Vidigal pelo afilhado, sem saber que ele já não está mais na prisão. Chega a chorar, ficando de joelhos, mas riem de sua atitude.

Capítulo XV

Sabendo que o afilhado está em liberdade e desejando salvá-lo da ira do Major Vidigal, a Comadre vai até a casa ds viúvas, passa uma descompostura em Leonardinho e exige que ele comece a trabalhar. Consegue-lhe um emprego na despensa ou ucharia real, local em que estão depositados mantimentos. Para Vidigal, essa é uma notícia ruim, pois seu perseguido deixa de ser um vadio, não havendo mais motivo para prendê-lo. Leonardinho, porém, não toma jeito. Rouba provisões da ucharia, levando-as para Vidinha. Envolve-se com a mulher de um dos empregados do Paço Real - o toma-largura -, visitando-lhe a mulher, na ausência deste, pois a moça é bela e desperta-lhe o interesse. O toma-largura acaba encontrando o maroto tomando um caldo com sua mulher e, desconfiado, persegue-o. Leonardinho acaba na rua, sem emprego.

Capítulo XVI

Vidinha, que já andava abandonada pelo moço, acaba sabendo do que acontecera, pois as notícias correm de boca em boca. Movida pelo ciúme e pela raiva, toma satisfações com a mulher do toma-largura e aproveita para fazer desfeita para o pobre coitado. Leonardinho, que seguira a jovem até a ucharia, termina em poder de Vidigal.

Capítulo XVII

O toma-largura e a mulher não reagem, ante os desacatos de Vidinha. O homem, ao contrário, interessa-se por ela e procura saber onde mora, depois que ela se vai. Quer conquistá-la, ter uma aventura e vingar-se daquele que o ultrajara.

Capítulo XVIII

Ninguém consegue encontrar Leonardinho, que está devidamente oculto por Vidigal. Procuram-no, mas é em vão. Nem na Casa da Guarda pode ser encontrado. A família de Vidinha chega à conclusão de que ele não deseja que o encontrem. Tirada essa conclusão, todos passam a detestá-lo. A Comadre é outra que perde seu tempo inutilmente, pois não consegue achar o afilhado. Somente quando o Major Vidigal surge, em uma reunião festiva, em que o toma-largura se excede, após beber demais, em companhia dos familiares de Vidinha, é que o desaparecimento de Leonardinho se esclarece. Em realidade, Vidigal fizera-o granadeiro e seu auxiliar, a fim de aproveitar-lhe a sabedoria em malandragem. Como o toma-largura ficasse rondando a casa de Vidinha, a família dela terminou por convidá-lo para participar de uma "patuscada em Cajueiros", que foi exatamente onde o granadeiro Leonardo deu-lhe ordem de prisão.

Capítulo XIX

Leonardinho, granadeiro do Regimento Novo por ordem de Vidigal, sentara praça assim que saíra da prisão. O Major vê que não se enganara com relação ao moço, pois este se mostra competente em suas funções. No entanto, continua a fazer suas peraltices, o que não lhe permite cumprir completamente com as funções que lhe haviam sido atribuídas.

Capítulo XX

Em casa de Leonardo Pataca acontece uma comemoração. Teotônio - jogador, tocador e cantor - está presente, entoando suas melodias. Entretanto, ele irrita o Major Vidigal, ao lhe imitar os trejeitos na presença de todos, despertando-lhes o riso. Vidigal inconforma-se com a brincadeira e dá ordens a Leonardinho, para que aprisione o outro. O granadeiro segue até a casa do pai, para cumprir as ordens recebidas. É acolhido com simpatia e gosta de Teotônio, o que o leva a revelar-lhe a missão que lhe haviam destinado. Ele e Teotônio, então, resolvem tapear o Major Vidigal e, para tanto, traçam um plano adequado.

Capítulo XXI

Um amigo desmascara Leonardinho diante de Vidigal, ao cumprimentá-lo pela façanha que tramara com Teotônio. O Major percebe-se enganado e mais uma vez prende o maroto. A madrinha consegue libertá-lo, ao descobrir uma antiga namorada do Major, por meio de D.Maria. José Manuel revela seu verdadeiro caráter, quando chega ao fim a lua-de-mel.

Capítulo XXII

Auxiliadas por Maria Regalada, a Comadre e a tia de Luisinha tentam libertar o moço. Regalada e a Comadre procuram obter um relaxamento de prisão para ele. O Major não quer ceder, porém a ex-namorada segreda-lhe, ao ouvido, algo que o faz mudar de idéia, soltar o moço e ainda ajudá-lo no que é possível.

Capítulo XXIII

Concluem-se os fatos iniciados no capítulo anterior.

Capítulo XXIV

O sargento Leonardo e Luisinha reencontram-se durante o velório de José Manuel, que falecera devido a um ataque do coração, causado por uma demanda que D.Maria havia movido contra ele. Ao rever a moça, Leonardo admira-a e é correspondido nisto.

Capítulo XXV

O namoro de ambos é retomado, assim que termina o luto da jovem pelo falecido. Como o granadeiro não pode se casar, por ser um sargento de linha, o casal recorre ao Major, pedindo sua intervenção. Vidigal vive com Maria Regalada, que cumprira o que lhe prometera, para que libertasse Leonardinho anteriormente. É ela, mais uma vez, quem interfere e convence o Major a passar Leonardo de granadeiro a Sargento de Milícias, a fim de que possa se casar com Luisinha. De posse da herança que o padrinho lhe deixara e que o pai, Leonardo Pataca, acabara por devolver-lhe, o moço desposa Luisinha finalmente. Fecha-se o romance, noticiando-se a morte de D.Maria e a de Leonardo Pataca, além de vários acontecimentos tristes, que o narrador diz preferir poupar o leitor de conhecer.

Personagens

Leonardo ou Leonardinho - o anti-herói ou herói picaresco do romance, vadio, malandro, que adora fazer estripulias e criar problemas. Mulherengo, quase perde seu amor, por ser inconsciente. É criado pelo padrinho, já que os pais se separam e não têm paciência para lhe suportar as traquinagens. Chega a ser preso, torna-se granadeiro e Sargento de Milícias. Casa-se e torna-se assentado.

Luisinha - moça com a qual Leonardo se casa. Em princípio é desengonçada e estranha, depois melhora. Casa-se com José Manuel, por influência da tia, arranjando um marido que só deseja seus bens. É órfã. Fica viúva e une-se a Leonardo.

Vidinha - mulata jovem, bonita e animada, toca viola e canta modinhas. Cativa Leonardo, que vive em sua casa por algum tempo.

O Compadre - barbeiro de profissão, cria Leonardo, protege-o e acaba deixando-lhe uma herança que surripiou do comandante de um navio.

A Comadre - defende e acompanha Leonardo em qualquer circunstância. Adora o afilhado.

D. Maria - doida por uma demanda judicial, ganha a guarda de Luisinha, quando ela perde os pais.

José Manuel - salafrário e calculista, casa-se com Luisinha por dinheiro e morre.

Major Vidigal - militar que persegue Leonardo, até conseguir integrá-lo às forças milicianas. Calcado em uma figura real.

Leonardo Pataca - pai de Leonardo, acaba casado com Chiquinha, depois que abandona o filho com o compadre.

Maria da Hortaliça - mãe do personagem, portuguesa, trai o Pataca e foge com outro para Portugal.
Chiquinha - casa-se com Leonardo Pataca. É filha da Comadre.

Há ainda, o toma-largura, sua esposa, Maria Regalada, as viúvas ...






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MANUEL DE ARAÚJO PORTO-ALEGRE

Manuel de Araújo Porto Alegre (Rio Pardo RS 1806 - Lisboa, Portugal 1879). Pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor, escritor. Em 1816 muda-se para Porto Alegre, onde inicia seus estudos de pintura e desenho com o pintor francês François Thér e com os cenógrafos Manoel José Gentil e João de Deus. Em 1827, no Rio de Janeiro, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, e tem aulas com Debret (1768-1848) e Grandjean de Montigny (1823-1887). Em 1831 acompanha Debret em seu retorno a Europa. Em Paris, freqüenta o ateliê do Barão Jean-Antoine Gros (1771-1835) e a École National Superiéure des Beaux-Arts [Escola Nacional Superior de Belas Artes]. Viaja para a Itália e em Roma estuda com o arqueólogo Antonio Nibby (1792-1839). Em 1835 viaja para a Inglaterra e Bélgica com o poeta Gonçalves de Magalhães (1811-1882), com quem funda a revista Niterói em 1836, um dos marcos iniciais do movimento romântico na literatura brasileira. No ano de 1837 realiza as primeiras caricaturas feitas no país e assume a cadeira de pintura histórica na Aiba, que ocupa até 1848. Nesse ano pede transferência para a Escola Militar, trabalhando como professor de desenho. Em 1840 é nomeado pintor da Câmara Imperial, sendo responsável pelos trabalhos de decoração para a coroação do imperador Dom Pedro II (1825-1891) e para o seu casamento com D. Teresa Cristina (1822-1889). Executa ainda diversos projetos arquitetônicos no Rio de Janeiro, dos quais destacam-se as obras realizadas no Paço Imperial, o plano arquitetônico da antiga sede do Banco do Brasil, da Escola de Medicina e do prédio da Alfândega. Funda e dirige os periódicos Minerva Brasiliense (1843), Lanterna Mágica (1844), primeira revista ilustrada com caricaturas, e Guanabara (1849). Considerado o fundador da história e da crítica de arte brasileira, escreve diversos artigos, como Memória sobre a Antiga Escola Fluminense, publicado no ano de 1841. Entre as obras literárias de sua autoria destacam-se os livros de poesia, As Brasilianas (1863), e Colombo (1866). Como diretor da Aiba, entre 1854 e 1857, promove a ampliação da área construída da instituição anexando o Conservatório de Música e a Pinacoteca estabelecendo uma série de reformas no currículo e nos métodos de ensino da academia. Em 1860 inicia carreira diplomática no exterior e, no ano de 1874, o imperador D. Pedro II confere-lhe o título de Barão de Santo Ângelo.

A Destruição das Florestas (trecho)
Na mão do escravo acicalado ferro

Brilha, reflete do africano vulto

Sorriso delator de interno gozo!

E sôfrego acudindo à voz do íncola,

Que na córnea buzina o madrugara,

Antes que a aurora os montes contornasse,

Na frondente floresta se aprofunda.

Brada contente a parceiral caterva,

Pronta agitando as foices e os machados

Que no ar lampejam, qual sinistros raios,

Mede co'a vista os seculares troncos,

Desses gigantes que laceram nuvens;

Que tantas estações, e tantas eras,

Os céus e a terra em porfiada lide

Donosos empregaram na estrutura

Que tem por coração cerne de ferro,

Onde verazes os anais do mundo

Em multíplices rolos se recatam.

Prorrompe o capataz com gesto fero,

Afras canções do peito borbotando,

Que alentam do machado o golpe; troa

O hino devastador, que em curta quadra

Lança por terra mil possantes troncos,

Timbre de evos, pompa da natura.

Nos largos botaréus, que a base escoram,

E no solo se entranham tripartidos,

Como ingentes jibóias no profundo,

Talha o machado corpulenta crosta.

Tremo o chão, treme o ar, geme e se esfolha

A cup'la verde-gai do amplo madeiro,

E convulso largando os verdes frutos,

Graniza o bosque com medonho estrondo,

Que as aves manda ao céu, e à toca as feras;

Rija celeuma de confusas vozes

Aplaude a queda dos pujantes lenhos.

Como uma anta feroz, sibilo agudo

Arma c'os dedos os sovados lábios

O ledo capataz, e açula a turba,

Com novo metro e variado modo,

A de um golpe extinguir o parque excelso,

Que incólume surgiu do cataclismo!

As foices e os machados manobrando,

Vão amputando o peristilo umbroso

De verde tenda, monumento inculto,

Que de indômitas feras fora asilo,

E os acentos canoros de mil aves

Nas perfumadas folhas embebera;

E onde em bárbaro coro a símia astuta

Outrora se embalava, até que a frecha

De certeiro Tamoio, o ar fendendo,

Co'a ponta ervada lhe enfiasse a morte.

Como colunas de arruinados templos

Jazem prostradas em confuso enleio

As grossas hastes, desmedidas, fortes,

Dessas umbelas, que subindo aos astros

No regaço do sol fruíam ávidas

Os puros raios de vital conforto!

A prenhe sombra de fragrância e fresco,

Que cem plantas mimosas protegia,

Não mais amparará bolhão ruidoso,

Que a estiva sede dissipava às feras.

Oh! Que espetác'lo grandioso e triste

Meus olhos, abarcando, contemplaram!

O ferro iconoclasta retalhando

A verdejante clâmide da terra,

O seu manto sem par, e cuidadoso

Poupar avaro inúteis esqueletos

De eivados troncos, carcomidos galhos,

Aonde a viridente primavera

Em vão tentara, em contumazes lustros,

Nos podres garfos de raiz anosa

Seu insuflo vital verter benigna!

Ruínas sacras, que eu lastimo e adoro,

Das aves trono, e odeon harmonioso!

Hoje achanado teu sublime porte

Rola na terra os postilhões soberbos

De odoros acrotérios, onde a arara,

O brilho apavonando de seu manto

Como uma flor alada resplendia.

COLOMBO

I

O TRIUNFO

Troam na Ibéria os hinos da vitória
Que Fernando e Isabel do Mouro houveram.
Jaz vencida Granada! A Cruz guerreira
Da moderna cruzada resplandece
No rubro cimo da atalaia altiva,
Que domina de Alhambra os régios muros,
E os zimbórios vidrados das mesquitas
Assentadas no grêmio augusto e belo
Da abatida sultana do ocidente!
Jaz vencido o corão: no santo aprisco

Repousa a Espanha à sombra do Evangelho.
Na ridente esplanada, ovantes, firmes,
Como troncos de ferro, ao sol fulguram
Pautados esquadrões, lúcidas armas.
Rebombam no horizonte em densas nuvens
Os estrondos da rouca artilheria,
Que dos rinchos equinos aumentados,
E do rijo clangor das marciais tubas,
D'alto a baixo as montanhas estremecem!
Sobre o crânio hibernal das Alpuzarras
Estala o diadema eterno e frígido
De níveas carambinas: geme a terra;
Revolve o Darro o antigo leito, e mescla
De áureas palhetas as sangrentas águas,
Onde exangues cadáveres flutuam.
Retremem os zimbórios esmaltados
Dos islâmicos templos! Pavorosa
A sombra de Almansor, banhada em sangue,
Do poento jazigo em que dormia,
Se ergue, e lá foge ao funeral de um trono,
Que o seu braço escudara em cem batalhas.

Jaz vencida Granada! A Providência
Quebra a espada de Islã nos frágeis muros
De Santa Fé, erguida após o incêndio.
O drama porfiado, que oito séculos
Ensangüentara a Hespéria, se desfecha;
Cai aos pés de Israel estrebuchando
O orgulhoso colosso desse império
Que o braço de Fernando avassalara.
Na incude marcial não bate o malho
Do mourisco alfageme; acerbas lágrimas
O ferro mal temperam; só ressoa
Através desses muros derrocados,
O tinir das cadeias dos escravos,
Em cuja mente a liberdade antiga
Não ousa aos céus erguer dúbia esperança.
No régio acampamento o afã redobra:
Preliba a festa a marcial falange
Aprestando mil jogos. Sobre carros
Rolam selvas dos flancos das montanhas,
E os tardos bois e os férvidos cavalos
Movem acervos de pesados troncos.
Rangem as serras, os machados talham.
Cava-se o chão, e os artefatos sobem.
No regaço gentil, nas mãos mimosas
Das felizes donzelas se engrinaldam
Odoras flores e lauréis virentes;
E em seus dedos a agulha industriosa
Nos pendões e divisas emblemava
Com empenho amoroso imos arcanos.
Séricas tendas, pavilhões heráldicos,
No ar tremulam as douradas franjas.
Ascendentes palanques contorneiam
O precinto faustoso da estacada,
Que o arauto firmara em torno à liça,
Onde em breve travando as áureas lanças,
Há de em preito amoroso, em destros jogos,
Turba heróica ostentar valor e arte,
Domina a teia o cadafalso régio,
Adornado de telas brasonadas,
Que feitos e vitórias preconizam
Dessa prole de heróis à cruz votada,
Que o crescente eclipsou co'a destra invicta!

Era no dia em que o cristão memora
A maga epifania. Ao som festivo
Das ibérias trombetas, fronticurvo,
Da tarima real descia o Mouro,
Vendo em seu trono o desengano e a morte,
E a glória avita como um sonho iluso!
O férreo guante do espanhol pesava
Sobre as ameias do rendido alcáçar.
Consumado era tudo! Escravo o bronze,
Que inda há pouco nas hostes inimigas
A morte vomitava, aguarda o mando
De seu novo Senhor, que ovante marcha,
E às portas bate da purpúrea Alhambra.
[...]

FALA DE BOADBIL

Mais desvaira a fortuna!.. Estava escrito,
Escrito estava, oh Rei! Na casa de Hércules,
Desde o berço da Ibéria, mão oculta
Fatídico papiro aferrolhara,
Em que Alá prescreveu nossas conquistas.
Não foi o braço humano, não decerto,
Quem do céu despejou centos de raios,
Que o pó e cinzas com assombro do orbe
O templo reduziram! Foi Rodrigo,
O pecador que surdo à voz celeste,
Insano profanou com ímpia destra
Esse altar onde os evos ocultavam
O aresto que fez ruir seu trono,
Seu plaustro deseixar-se, e o cetro avito
Quebrar-se eternamente sobre as margens
Do rico Guadalete, em face a Xeres.
Stava escrito!... Não foram vossas armas
Que meu trono abateram; foi o fado!
Aben-Hassan, meu pai, Deus o ampare,
Viu a par da derrota a estrela mesta
Do infortúnio pousar sobre o meu berço,
Predisse o céu meu fim; fatal decreto
Da morada de Alá baixou à terra.
Aqui mesmo, Senhor, nesta atalaia,
Berço e sepulcro da grandeza humana,
Uma horrenda visão teve ele um dia,
Dia nefasto dos anais da hégira.

"Mergulhava no mar o limbo ardente
O sol; suave tarde a primavera
De andaluzas delícias revestia;
Sobre o bafo de meiga e fresca brisa
De nardo e lume um oceano etéreo
Vinha os lábios ungir de almos encantos
E o astro do profeta a prumo ao cimo
Desta imensa guarita das vigias,
Brilhava puro e calmo, como a face
Da Huri que nectariza eternamente
Os lábios do escolhido. De repente
O céu se enluta, e as cândidas estrelas
Em verdes flamas se convertem, cruzam,
Trovejando no espaço ronco horrendo!
Mais vermelho que o sol da terra surge
Um rompente leão! Lança-se ao astro,
E o devora de um trago! A natureza
Parecia reentrar no caos informe,
E em trevas sepultar-se!.. Só a imagem
No céu se via da medonha fera
Sacudindo da juba ensangüentada
Um granizo de fogo sobre os tetos
Desta infausta cidade!.. Meu pai, trêmulo,
Sentiu da morte a mão premer-lhe o seio,
E ardente desfiar-se de seus olhos
Sobre a nívea marlota sangue em bagas
Horrorizado foge, titubeante,
E o pátio dos leões assim varando,
Ouve um gemido que lhe vara o peito.
Da bacia de marmor, que no centro
Espadanas de sangue trasbordava
Sobre o dorso marmóreo dessas feras,
Já com sangue cristão assás banhadas,
Um espectro fosfórico o assalta!
Como ardentes carvões chameja a larva
Em muda exprobação olhar satânico!
Tira do seio ensangüentada espada,
E nos lábios cruéis a limpa, e cospe
No rosto de meu pai mancha indelével...
Convulsivo sacode a fronte hirsuta,
E com ela lhe atira espedaçada
A coroa augusta de Granada às plantas;
E após sumiu-se o agoureiro espectro!..
Como um ébrio que vê fundir-lhe o raio
A taça de ouro, que emborcava aos lábios
Em louca libação, gelado fica.
Assim ficou meu pai!... Soa um vagido
Nos régios aposentos, que o desperta!
Outro soa maior! foge, e procura
Lenitivo ao terror no casto seio
De minha terna mãe; e o que ele encontra?!
Era eu, vindo à luz naquele instante!
Era eu, que à desgraça destinado,
Vinha ao mundo da dor, do desengano!
Era eu, que dos olhos desprendia
A lágrima primeira, e nela ao vivo,
De um círio à luz que o tálamo aclarava,
Viu meu pai com assombro refletir-se
A imagem pavorosa das exéquias
Do trono de Granada!... Estava escrito!
Os braços granadis ora algemados,
Aos braços dos cristãos em força igualam,
E as águas do Genil dão gume ao ferro
Para o ferro cortar de vossas armas...
Alá foi quem venceu!... Ante meus olhos
Julianos e Oppas, refratários
Às juras do corão, patentes vejo!
Nem a esposa me resta, que o mau fado
Me fez repudiar, cobrir de opróbrio,
Negando seu amor!... Sangue, só sangue,
Avancerrage sangue em toda a parte
Minha esperança para sempre afoga!
Nasci em dia aziago... Eis vossas chaves.
Uma graça, Senhor! sede piedoso:
Tolerai o corão: ele é do Mouro
Um roteiro do céu. Inda outra graça:
Mandei que um alvanel a porta mure
Por onde Boadbil desceu do trono."
Disse: e o despeito brota-lhe nos lábios
Espessa espuma. Não lhe verga o ânimo
Da despegada esposa o riso odioso,
Nem as faces traidoras dos escravos
Que nele viam perecer a pátria;
Antes, rolando os inflamados olhos,
Um por um os confunde, e rei se mostra!
FERNANDO E ISABEL

Convulsivo tremor a face augusta
Da formosa Isabel percorre, e estampa
Em seu terno semblante a piedade.
Fernando, ao lado dela, oculta o júbilo
Que em seu peito referve; e os olhos fitos
Na alcantilada torre, aguarda ansioso
Ver erguido o sinal, a cruz argêntea
Na mão de Talavera, e glorioso
Engolfar-se nos brados da vitória.

"Santo lago!" do alto da atalaia
Três vezes brada o bispo; e Santo Iago!
Vezes três pela veiga inda reboa
Em prolongado som, que dobra em força.
Como a onda que os flancos arremessa
Em lisa praia, e recuando engrossa
Em marouço, que estoura reboando.

"Castela e Aragão!" grita o rei d'armas,
Floreando três vezes o estandarte
Do Apóstolo guerreiro, cujo nome
A fé robora, e acende o amor da glória.
Responde a artilharia, rufam caixas,
E no campo flutuam férreas massas,
Dardos de fogo rutilando em nuvens.
Fernando beija a terra; ao som das harpas
Grave Te Deum se entoa, a que respondem
Toda a corte, guerreiros, e cantores.

FUGA DE BOADBIL

Ei-lo, o fero Boadbil, sobre alto monte,
Fugindo desses hinos que concutem
Em seus tristes ouvidos sons funéreos,
E o sólio avito num saudário envolvem
De fumo e sangue. Em vão turbando intenta
Prender-se à doce imagem fugitiva
Da finada grandeza: é tudo baldo!
Nunca em seus olhos a amorosa Alhambra
Mais bela se estampou, nem sobre a terra
Granada alardeou tantos primores!

Sereno estava o céu, como o respiro
De puro infante, adormecido aos mimos
Da carinhosa mãe. E ele não via,
Nesses desejos da desgraça extrema,
Rolando os olhos no horizonte pátrio,
Erguer-se um fumo lampejando estrondos,
Sublevarem-se os seus, tinirem armas,
Romper-se a cruz ibéria, e novamente
O crescente raiar nos rotos muros,
Como um astro propício... Ah! nem via
Abrir-se a terra e submergir Granada,
Ferver em seu sepulcro um negro lago
Exalando mortíferos vapores.
Pela última vez sua alma adeja
Em seus olhos, e diz enternecida
Saudoso adeus à pátria escravizada,
Saudoso adeus ao trono, ao mando, e à glória;
Um suspiro o acompanha, longo, intenso,
Suspiro que concentra um reino, um mundo:
E após o suspirar viu-se em seus olhos
Do infortúnio rolar a fria lágrima...

Para ele volvendo a vista ardente,
Então a mãe que muda o acompanhava,
Com despeitoso orgulho assim lhe fala:
"Como fraca mulher, Príncipe, choras
O teu reino perdido?... Sim, pranteia-o,
Já que homem tu não foste em defendê-lo.
Inda há pouco teu vulto enchia a Espanha
De assombro e majestade! Ora abatido,
Nega-te a própria terra um canto, um pouso
Em que possas dormir!... E tu sabias
Que o manto de um plebeu não cobre a espadoa
Que um império sustenta; e tu me ouviste
Desde o berço dizer-te esta verdade:
Que não é rei quem rei morrer não sabe!"

Qual se adunco cilício o repassasse,
Ou se um raio estrugisse em seus ouvidos,
A voz apaixonada da Sultana
Fere sua alma, e lhe desnuda o mundo.
Um ermo tenebroso, áridas sirtes
Entre vagas que o céu fulmina irado,
A terra lhe parece. Amor do berço,
Delícias do consórcio, e a majestade
Em voragens profundas desparecem;
A morte é seu porvir, sua esperança!
Da pátria a terra e o céu infaustos cercam
Seu ser real proscrito. Encara os mares,
E nas rubras caligens africanas
Renasce-lhe a existência. Solta as rédeas
Ao fogoso corcel, e afasta os olhos
Do aflitivo painel que o dilacera.

ALHAMBRA

Penetram nas formosas galerias
Da encantadora Alhambra os vencedores;
O fero trote dos frisões recresce
Nas sonoras abóbadas. Fernando
Não pode clausurar num vão silêncio
A insólita impressão:
"Ah! vale o sangue
De meus nobres guerreiros esta régia
Tão bela e grandiosa, que escurece
Quantas conheço na afamada Espanha!
Por ela inda mais sangue eu verteria."

Descoberta da América

Mais um'hora velou. Deu meia noite,

Rendeu-se o quarto no maior silêncio.

Acalmada a emoção, e mais convicto,

Fez sinal, e a esquadra pôs a capa,

Sem que alguém da manobra visse a causa.

Sentado e enfraquecido por vigílias,

Ainda olhava, mas, cedendo ao corpo,

Ali mesmo dormiu, te que de um salto,

Erguido ao tom de festival bombarda

E da grita dos seus, que repetiam

Com Bermejo, na Pinta - Terra! Terra!... -

Sem olhar, convencido da verdade,

Por grato impulso, ajoelhou-se orando,

Antes que a terra lhe alegrasse a vista!

Vinha o dia rompendo e descobrindo

Sobre a linha do mar a terra ansiada!

Como ao empaste das fecundas tintas

A natura e a luz na tela fulgem,

Assim fulgia o ondulado aspecto

De frondente floresta, e pouco a pouco,

Ao sorriso das horas fugitivas,

No ar se abriam graciosas palmas,

Como guerreiros de emplumados elmos

Vindo à plaga a festejar as naves.

Com o prumo na mão, sondando a costa,

Entrou numa abra que no fundo tinha

Surgidouro seguro. Manda o chefe

A manobra da paz! E a um tempo viu-se

Cair o pano, atravessar a frota,

Morder o ferro a desejada areia.

Os descrentes então se convenceram

De que um homem de Deus vê mais que os outros.

Baixam dos turcos o ligeiro esquife

E o real escaler apendoado.

O prazer que remoça, agira o Nauta.

Larga o burel da devoção, e o peito

Da lúcida couraça veste; cinge

A espada de almirante, e sobre os ombros

Traça um manto escarlate, mimo régio.

Proteje a fronte co'um brilhante almafre,

De cujo cimo ponteagudo rompe

Trífica palma de recurvas plumas.

Toma o pacto real, feito em Granada

E o pendão de Isabel, o novo lábaro,

Que há de em breve vencer mais que o de Roma.

Descem com ele os empregados régios,

E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda

Do estandarte real. Acena ao mestre:

Alam as prontas vagas à ribeira;

Qual amplexo de amor, todos sentiram

O doce abalo do encontrão da praia.

De um salto juvenil pisa Colombo

A nova terra, e com seguro braço,

A bandeira real no solo planta.

Beija a plaga almejada, ledo e chora:

Foi geral a emoção! Disse o silêncio

Na mudez respeitosa mais que a língua.

Ao céu erguendo os lacrimosos olhos,

Na mão sustendo o Crucifixo disse:

"Deus eterno, Senhor onipotente,

A cujo verbo criador o espaço

Fecundado soltou o firmamento,

O sol, e a terra, e os ventos do oceano,

Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!

Sempre bendito em toda parte sejas.

Que se exalte tua alta majestade

Por haver concedido ao servo humilde

O teu nome louvar nestas distâncias.

Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,

Como primícias deste santo empenho,

A teu Filho Divino humilde of'reça

Esta terra, e que o mundo sempre a chame

Terra de Vera-cruz! E que assim seja".

Ergue-se e o laço do estandarte afrouxa:

Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem

De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro

As armas espanholas. Como assenso

Da divina mansão, esparge a brisa

Um chuveiro de flores sobre a imagem,

Flores não vistas da européia gente!

[Futuro do Brasil e o fim da escravidão]

Quanto a terra por livre mão lavrada

O crânio sepultar do último escravo

E do vil cativeiro as leis morrerem;

Quando o Brasil for livre; quando o engenho

Em regiões mais puras libertar-se

Da razoura fatal que ora achana,

E a cerviz conculcar de seus tiranos,

Então erguida, triunfante e nobre

A terra de Cabral, regenerada,

Há de às cortes prestar culto, solene,

E aos dons da inteligência, mor tributo.









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O Teatro de Martins Pena

MARTINS PENA (1815-1848)

VIDA: Nasceu no Rio de Janeiro, numa família sem posses. Órfão de pai, foi encaminhado pelos tutores à vida comercial. Ainda jovem freqüentou a Academia de Belas Artes, estudando desenho, arquitetura e música. Em 1838, teve sua primeira comédia (O juiz de paz na roça) encenada pela célebre companhia teatral de João Caetano. Neste mesmo ano ingressou no serviço diplomático, exercendo várias funções cargos até atingir a posição de adido. Enviado para Londres, em 1847, acabou contraindo tuberculose. Morreu no ano seguinte, em Lisboa quando retornava ao Brasil. Apesar de falecer com apenas 33 anos, Luís Carlos Martins Pena escreveu 20 comédias e seis dramas.

OBRAS PRINCIPAIS:

Comédias: O juiz de paz na roça (1842); Os três médicos (1845); O judas em sábado de aleluia (1846); O diletante (1846); Quem casa quer casa (1847); O noviço (1853); Os dois ou o inglês maquinista (1871).

A Comédia Brasileira

Em 1838 (mesmo ano da estréia de Antônio José ou o Poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães) era lançado O Juiz de Paz na Roça, obra de Martins Pena que marca o início da comédia brasileira. Pouco antes, Gonçalves de Magalhães havia chamado a atenção do público para o tema da nacionalidade, fator que iria criar, embora tardiamente, condições capazes de libertar o teatro brasileiro da influência esterilizante representada pelo cultivo de temas e situações divorciadas da cultura nacional. Indiretamente, Gonçalves de Magalhães teria ainda outro mérito: o de lançar, quando da encenação de Antônio José, o primeiro grande ator brasileiro,João Caetano dos Santos, autor de Lições Dramáticas, documento básico para a compreensão do teatro da época.

Martins Pena é na verdade o fundador da comédia de costumes brasileira, veio inesgotável - e talvez o mais fecundo - de toda a sua dramaturgia. Em sua carreira (morreu aos 33 anos de idade) figuram 20 comédias e seis dramas que, no dizer de Silvio Romero, constituem "o papel histórico da vida do país, na primeira metade do século XIX". Apesar disso, o teatro de Martins Pena não resiste, em termos estritos de crítica, a uma análise mais profunda. Embora dotado de agudo senso de carpintaria e tipificação, e de uma linguagem realmente popular, isenta de preciosismos eruditos e pieguices românticas, o autor mantém-se alheio à estrutura colonialista da época, perdendo-se muitas vezes em sátiras artificiais e gracejos já distantes da platéia de hoje. As qualidades, porém, superam os defeitos, e diretores hábeis tem remontado com êxito várias de suas peças, como O Noviço.

O Juiz de Paz na Roça - Martins Pena

Adapt. Do site Feranet 21(www.feranet21.com.br/livros/ resumos_ordem/o_juiz_de_paz_na_roca.htm)

O Juiz de Paz da Roça (1833) é obra de Luís Carlos Martins Pena (1815-1848), autor romântico que praticamente não evoluiu literariamente, ou seja, o que se encontra em sua estréia, justamente a peça em análise, é o mesmo das outras 25, como se se tivesse prendido à repetição de moldes. Haveria apenas uma diferenciação em O Noviço e O Judas em Sábado de Aleluia, nos quais se encontra o clímax do domínio da estruturação dramática. Ainda assim, seu mérito está na introdução da dramaturgia em nossa literatura, o que realizou com qualidade, tornando-se uma ilha em nosso contexto cultural. Dessa forma, é aproximado a Gil Vicente, que também gerou sua obra praticamente no vácuo. Além disso, traz também, sob a influência dos franceses - o que o faz ser chamado de Molière brasileiro -, o teatro que, por meio do riso (outro ponto de contato gilvicentino), a descrição e a crítica aos costumes do Rio de Janeiro de meados do século XIX. E tudo de forma simples, natural, espontânea, ágil.

A texto em questão, escrito quando Martins Pena tinha 18 anos, é considerado o nosso Monólogo do Vaqueiro, já que é o inaugurador, literariamente, de nosso teatro. Como seu título indica, a trama dedica-se a descrever os costumes da zona rural, o que era a preocupação das primeiras obras do autor. Depois de infeliz passagem para a tragédia, o dramaturgo voltaria às comédias, mas ambientadas na Corte. No entanto, como se verá, o foco de sua crítica não mudou.

Assim como nas peças de Gil Vicente, somos jogados de chofre no meio da história. Essa técnica recebe o nome de "in media res". Assim, por meio do diálogo de mãe (Maria Rosa) e filha (Aninha) sobre a labuta do pai (Manuel João), tomamos conhecimento de todo o sofrido universo de valores, costumes e tarefas da roça, como a necessidade de mais mão-de-obra escrava, atrapalhada por dificuldades econômicas. É interessante como essas preocupações por demais pragmáticas são apresentadas diante de um público romântico e com tendência à evasão e à idealização. Até que ponto estaria ocorrendo um desvio aos padrões estéticos burgueses?

Aninha, ciente da iminente chegada do pai, cansado do trabalho, lembra a mãe que este iria gostar de jacuba (um tipo de refresco). A senhora sai de cena, para a preparação da bebida. Tratava-se de um expediente da menina para que ficasse sozinha e recebesse seu namorado. Esses estratagemas são muito comuns no tipo de teatro que Martins Pena estava inaugurando. Dão mais agilidade à trama.

Aumentando a velocidade do texto, as cenas são curtas, tendo apenas a extensão necessária para o desenrolar dos fatos. Tudo é essencial, econômico, importante, inclusive as rubricas (marcações da cena), que são precisas e significativas até no vestuário. O autor demonstra aqui a consciência de que o teatro é encenação, é para ser visto principalmente. Isso explica a importância de se lembrar que o namorado de Aninha, José (note a simplicidade dos nomes) veste roupas brancas. Em plena roça, esses trajes reforçariam uma tendência, disseminada em outros momentos, da personagem a não enxergar que seu papel é trabalhar e não pensar em prazeres da vida apenas, como se fosse um bon vivant.

Nesta segunda cena ocorre o encontro amoroso entre José e Aninha. Nela se manifesta uma característica comum do autor, que é a utilização do exagero caricaturesco, percebido no instante em que Aninha recusa o abraço de seu amado. Só depois do casamento é que pode! E ainda alfineta dizendo que esse "abuso" fora causado pelos maus costumes adquiridos na Corte.

Há também nesta cena, por meio do diálogo dos namorados, um elemento que é crucial na obra do autor: o contraste entre a roça e a Corte. O rapaz, após a estranha explicação de que não sobrara vintém do bananal que recebera de herança - revelador, no mínimo, da imaturidade da personagem -, diz como pretende se arranjar com sua amada: vão-se casar às escondidas e se mudarão para a Corte. Para seduzir Aninha, faz uma descrição completamente distorcida da Capital, apegado apenas ao aspecto exótico, como se a vida lá fosse prazer, diversão. Isso é percebido no diálogo abaixo transcrito:

JOSÉ - Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.

ANINHA - Mas então o que é que há lá tão bonito?

JOSÉ - Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.

ANINHA - Oh, como é grande!

JOSÉ - Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!

ANINHA - O que é mágica?

JOSÉ - Mágica é uma peça de muito maquinismo.

ANINHA - Maquinismo?

JOSÉ - Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, e um homem vira-se em macaco.

ANINHA - Em macaco! Coitado do homem!

JOSÉ - Mas não é de verdade.

ANINHA - Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?

JOSÉ - Tem rabo, tem.

Essa visão distorcida provoca riso na platéia, composta de burgueses da Corte. No entanto, fica subentendida uma crítica de Martins Pena à mania desse grupo em tentar se equiparar à Europa, não se tocando de que é tão provinciana - trata-se de uma nação recente - quanto a roça. A maneira como Aninha imagina a Corte (em que acaba até comicamente misturando tudo o que José descreveu) deve ser a mesma maneira como enxergávamos e ainda enxergamos o Primeiro Mundo.

Enfim, o encontro é abreviado por causa da iminência da chegada de Manuel João. Assim, combinam o casamento para o dia seguinte, de manhã.

A chegada do pai serve para que mais uma vez entremos no cotidiano simples da classe baixa rural. Ficamos sabendo das lamentações por uma vida trabalhosa, das tarefas feitas e a serem realizadas e até da janta (carne seca, feijão e laranjas). Não se poupa nem mesmo a menção ao fato de já ter acabado carne seca. Lembra o esforço, muitas vezes fracassado, que algumas novelas globais tentam de retratar o dia-a-dia.

Ao bater da porta, mais uma vez o ridículo será utilizado, dessa vez por aspectos visuais (um procedimento também comum em Martins Pena, que remonta à tradição circense e que deu origem ao pastelão): Manuel João trata de esconder a comida e ainda - beiramos o grotesco - lambe os dedos. É pobreza extrema misturada a mesquinharia e sovinice.

Quem entra em cena é o Escrivão, que traz uma intimação do Juiz de Paz: Manuel João tem de levar até a cidade um prisioneiro como recruta para a revolta que estava havendo no Rio Grande do Sul. João não entende por que justo ele tem de realizar tal tarefa, o que representaria a perda de um dia de trabalho. As preocupações imediatas, ligadas à sobrevivência, entram mais uma vez em foco. O Escrivão informa que ninguém a aceitava. João mais uma vez protesta, dizendo que ele não tinha culpa nenhuma dos problemas arranjados pelo governo. Nem mesmo dá atenção ao argumento ligado a patriotismo. No entanto, cede, diante da ameaça de prisão.

Observe-se que há críticas fortes aqui que chegam a se chocar com o conjunto de valores burgueses. Seu efeito só não é de imediato fulminante porque tudo se dilui em meio ao humor e principalmente por estar na boca de uma personagem que age de forma tão estabanada.

A partida de Manuel João é feita em meio a inúmeras recomendações sobre as tarefas a serem feitas de ambos os lados, tanto para os que ficam, quanto para o que vai. Mais uma vez o cotidiano simples retratado de forma viva, natural e colorida. Destaque seja feito ao pedido que Aninha faz ao pai: já que vai à cidade, que lhe trouxesse sapatos franceses. Outra crítica que se dirige não à roça, mas à Corte e ao seu apego à ostentação das superficialidades do universo europeu.

A próxima cena é já na casa do Juiz de Paz, funcionário que tem a função de conciliador dos conflitos de sua jurisdição. É provavelmente o melhor momento da obra, por causa principalmente dos jogos de palavra que se estabelecem.

Em primeiro, ficamos sabendo de um presente recebido pela autoridade:

"Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um caicho de bananas maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à V. Sª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sª há de reparar na insignificância do presente; porém, Il.mo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas."

É saborosa a maneira com que o autor enfoca a simplicidade do povo, por meio, primeiro, de pleonasmos ("comer com a boca") e por expressões inadequadas, mas cômicas ("V. Sª Juíza", no lugar de "esposa do Juiz", e "Srs. Juizinhos", no lugar de "filhos do Juiz"). Há também a confusão que se faz entre o tom cerimonioso, adequado à situação, e o familiar, íntimo, inadequado. Mas há ainda uma crítica à corrupção do magistrado, pois Manuel André, a personagem que presenteia o juiz, participará, como se verá, de uma ação litigiosa. Além disso, olha a visão distorcida (será?) que se tem sobre os efeitos da Nova Constituição.

O primeiro caso a ser resolvido envolve Gregório, Inácio José e sua esposa Josefa Joaquina. A transcrição de um trecho apresenta elementos suficientes para análise:

JUIZ - É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

GREGÓRIO - É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

JOSEFA JOAQUINA - Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

JUIZ - Nada, nada, não é preciso; eu o creio.

Martins Pena manipula com eficiência e colorido os elementos dramáticos, reproduzindo com fidelidade não só a linguagem coloquial, mas também a psicologia das personagens. Prova disso é que Gregório e Joaquina desviam-se da resolução de sua contenda em meio a ofensas. Fica nítido, por exemplo, que o aspecto infantil do raciocínio de Joaquina, que, ao invés de apresentar argumentos na discussão, devolve ofensa, atacando a mãe do oponente.

O mais incrível é a decisão do Juiz, que, além de paternalista, é contraditória. Se por um lado dispensa Inácio e Joaquina, sob a alegação de que umbigada não constitui crime em nenhuma lei, por outro ameaça Gregório de aplicar a lei "às costas" se este continuar a praticar umbigadas. E arbitrariamente encerra o caso com um "Estão conciliados", o seu bordão.

Em seguida é lido um outro requerimento de Manuel André. E mais uma vez o suborno: na introdução do requerimento, antes de anunciado o assunto, avisa-se, meio que en passant, que um cacho de bananas será enviado ao Juiz. E novamente a mistura cômica do tom familiar com o solene.

Tratava-se de uma questão de divisa de terra. O Juiz delega ao suplente a decisão. O problema é que ambos estavam atarefados com seus próprios roçados. Note-se que o suborno não foi eficiente. Note-se também o descaso e incompetência no exercício das funções jurídicas.

Manuel André protesta. O Juiz ameaça com cadeia. O pleiteante faz lembrar a Constituição, fortemente desprezada pelo magistrado. Confusão é formada - mais um elemento de gosto popular no corpo da peça - e Manuel André acaba fugindo.

O outro caso é entre João de Sampaio e Tomás. O primeiro é dono de um leitão, que invadiu as terras do segundo. Estabelece-se uma briga até física - mais uma cena à pastelão, com os dois reclamos puxando, um de cada lado, o objeto de disputa. O problema é resolvido com a determinação do Juiz - um tanto egoísta - de ficar com o bicho. Ainda manda que seja trazida ervilha para a complementação de um prato que imaginara. E, pior, folgadamente determina que um dos contendores coloque o suíno no chiqueiro. Exibe-se a aplicação torta da lei, apenas para atingir interesses pessoais. No fim, o bordão: "estão conciliados".

Como um adendo, Sampaio quer que tudo seja citado na Assembléia Provincial. O Juiz não autoriza, achando o assunto irrelevante. Tomás convence-o do contrário, lembrando os votos que o magistrado havia-lhe pedido para os integrantes da tal instituição legislativa. Corrupção, troca de favores, compra de votos... Problemas de longa data!

O próximo caso é de Francisco Antônio, Rosa de Jesus e José da Silva. A transcrição abaixo do requerimento dá mais detalhes:

"Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. 'Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava tem um filho que é meu, peço a V. Sª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher'".

Observe-se como a manipulação da linguagem abre no texto uma ambigüidade saborosa, apesar de rasteira.

A decisão do Juiz seguiu o caminho que parecia mais lógico: em favor de Francisco e Rosa de Jesus. José da Silva protesta, diz que vai recorrer, mas o magistrado faz pouco caso - tem procedimentos jurídicos para invalidar os questionamentos. Há mais reclamações, sufocados quando o magistrado manda prender José da Silva e fazê-lo recruta. Diante do pior, o protestante abre mão das queixas.

Nesse momento, chega Manuel João para receber o preso. E, preocupado com coisas imediatas, obtém autorização para deixar em sua casa o prisioneiro, pois que já estava chegando a noite.

Na chegada à casa de Manuel João ocorre outro expediente típico da dramaturgia popular: a surpresa causada pela descoberta da identidade de uma personagem. Causa curiosidade o espanto de Aninha ao se deparar com o prisioneiro. Depois que pai e mãe saem, a filha solta o recruta e fica-se sabendo tratar-se de seu namorado, José. Havia sido preso, alega, de forma extremamente arbitrária: "Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar." Há um potencial de crítica aqui, que, diluído, não é aproveitado.

O casal foge para se casar. Quando os pais descobrem o que ocorreu, surge alvoroço, revolta e decepção, mas engraçadamente há espaço para um certo alívio de Manuel João, que estava livre da tarefa de levar o prisioneiro no dia seguinte. No fim, toda a culpa recai, comicamente, sobre a guerra que se processava no Rio Grande do Sul. A culpa é do Governo (como dizia uma antiga personagem humorística da televisão). Talvez por isso Manuel João resolva dar parte ao Juiz.

No entanto, é interrompido com a chegada do casal fugitivo, já casado. Tudo acaba em abraços. É essa explosão de felicidade (estamos indo na direção do desfecho da obra) que retira da obra um fôlego mais forte para se dedicar a uma ferrenha crítica social, no estilo do Realismo.

Resolvem, então, dar outra parte ao Juiz, agora de tom mais positivo.

A próxima cena é na casa do magistrado, que comunica ao escrivão a necessidade de consultar um letrado - deixa claro que não entende muito de leis. Antigamente, toda vez que surgia um problema cuja solução não conhecia, simplesmente usava um "Não tem lugar." e o empurrava. Deixou de utilizar esse expediente porque uma vez quase tinha sido suspenso. Esses são mais ingredientes para que possamos denegrir a imagem desse funcionário. O escrivão até pergunta se tudo isso não era motivo de vergonha. Resposta:

"Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz..."

Suas reflexões são interrompidas com a chegada de Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José, que lhe comunicam o casamento. Dessa forma, livra-se a personagem da obrigatoriedade de se tornar recruta.

A primeira reação do Juiz é desmoralizar José, chamando-o de biltre. Mas depois pede para perdoar a ofensa. O magistrado é de fato uma personagem rica em suas contradições, tornando-se extremamente humana, tanto que decide comemorar o matrimônio em sua casa, caindo todos na dança e na cantoria, conforme atesta o trecho final abaixo transcrito:

TOCADOR, cantando - Em cima daquele morro

Há um pé de ananás;

Não há homem neste mundo

Como o nosso juiz de paz.

TODOS - Se me dás que comê,

Se me dás que bebê,

Se me pagas as casas,

Vou morar com você.

JUIZ - Aferventa, aferventa!...

Tudo termina bem, em festança, em folguedo, afugentando todo e qualquer elemento (e os há na obra em grande quantidade) que pudesse desagradar os padrões do público burguês romântico.


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O Noviço - Martins Pena

Peripécias em uma comédia de costumes

Considerado o iniciador da Comédia Brasileira de Costumes, Martins Pena (1815-1848) focaliza os costumes do Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. Mostra a vida na província ou na capital, fixa as relações familiares e as formas como são providenciados os casamentos, ou entabulados os namoros, não lhe escapando os conflitos de gerações ou a denúncia de uma série de aspectos sociais. Da mesma forma, retrata com leveza e desprendimento certos tipos humanos, preferindo os inescrupulosos, os espertalhões, os trapaceiros ou aqueles que, por serem despretensiosos e humildes, carregam um dinamismo todo especial para dentro das cenas rápidas e cheias de qüiproqüós. O Noviço não escapa dessa forma de encarar o teatro do mais importante comediógrafo que o Romantismo nos legou. Peça em três atos, composta de várias cenas rápidas, foi encenada pela primeira vez em 15 de julho de 1845, no Teatro de São Pedro. Florência, influenciada pelo segundo marido, o vilão Ambrósio, segue a sugestão do finório de mandar filha (Emília) e sobrinho (Carlos) para o seminário. Não que houvesse vocação por parte de um ou de outro, mas tudo estava sendo planejado pelo inescrupuloso marido, que arquitetava planos para herdar sozinho toda a fortuna de Florência. Ele acreditava que os legítimos herdeiros ficariam longe da partilha se estivessem no seminário. No entanto, Carlos não se conformava, pois, além de estar apaixonado por Emília, não tinha uma gota de vocação. Suas peripécias são inúmeras, a ponto de descobrir a primeira esposa de Ambrósio, que revelará a todos a verdade sobre o caráter do bígamo. As ações de rápido desenvolvimento focalizam os personagens em situações muitas vezes constrangedoras ou incômodas, e, justamente por isso, hilariantes. Não faltam cenas em que homens aparecem travestidos de mulher e personagens ficam escondidos debaixo da cama ou no interior de armários, disfarces dos mais comuns na obra do autor. São esses recursos que tornam os equívocos o centro das cenas e deixam a platéia acompanhar admirada as peripécias dos envolvidos na trama.

O noviço traz basicamente a história de Carlos, rapaz endiabrado, que é enviado a um convento por decisão de sua tia e tutora. Não tendo vocação para a vida religiosa, Carlos foge do convento e dedica-se a desmascarar o ambicioso Ambrósio, segundo marido de sua tia. A seguir organiza-se a seqüência de ações que desenvolvem a essência dessa narrativa.

A peça inicia-se com Ambrósio Nunes em uma sala ricamente decorada. Preparando-se para ir à igreja com sua mulher Florência, o personagem afirma em tom cínico que mudara sua vida de homem pobre em oito anos. Fora miserável, mas valendo-se de determinação, perspicácia e destituído de qualquer escrúpulo tornara-se rico, condição que lhe conferia poder e lhe garantia plena impunidade. É interrompido por Florência que lhe apressa, dizendo que é necessário chegar cedo para sentarem-se nos primeiros bancos e, assim, poderem assistir confortavelmente à missa de Ramos. Ambrósio, com delicadeza de fala e gestos, pergunta à esposa como anda o projeto de encaminhar a enteada Emília para o convento e satisfaz-se com a notícia de que tudo corre como ele desejaria. Com muita habilidade, Ambrósio enfatiza a idéia de que a herança deixada pelo primeiro marido de Florência nunca o atraiu, revela que sua paixão sempre foi espontânea e pura e, de certo modo, lhe é até um tanto penoso administrar a fortuna do nobre falecido, no entanto, cabe ao marido zelar pela esposa amada. Desse modo, toma para si a incumbência de cuidar do dinheiro.

Florência cede às propostas aparentemente sinceras do marido e concorda em encaminhar não somente a filha para o claustro, mas também incentivar seu filho Juca de nove anos para ser frade, acreditando que dessa maneira estaria proporcionando aos dois uma vida virtuosa e verdadeiramente feliz. Ambrósio, com a intenção deliberada de controlar toda a situação familiar, mostra-se preocupado com a possibilidade de Carlos, sobrinho tutelado de Florência, vir a se revoltar contra o noviciado que lhe fora imposto há seis meses e causar aborrecimentos ao casal. Encerra-se a conversa. Ambrósio retira-se para acabar de vestir-se. Florência está a agradecer a Deus o marido que tem, quando Emília entra na sala. A mãe aproveita o momento para expor à filha as vantagens que a vida de freira proporciona, Emília chora e, contrariada, declara não ter inclinação para o claustro. A mãe, insensível à dor da filha, abandona a sala e sobe ao sótão para aprontar-se para a missa.

Inesperadamente, Carlos, vestido de frade, entra afobado e conta à Emília que havia fugido do convento, após discussão que acabara com uma barrigada no Abade Mestre. Irado, manifesta o desejo de ser militar, de envolver-se em lutas com espadas e não se submeter a jejuns prolongados e a coros e rezas infindáveis. A moça, comovida, ouve o relato dos martírios sofridos pelo noviço rebelde e lhe conta que também ela deverá entrar para um convento. Carlos revolta-se e declara o seu amor pela prima, acusa severamente Ambrósio de estar conspirando contra todos. Promete que não descansará enquanto não vingar-se do velhaco Ambrósio. Em meio a conversa, o garoto Juca, desajeitado em um hábito de frade, corre para o colo de Carlos, que percebe claramente o plano do marido da tia: filhos e enteados dedicados à vida religiosa seriam obrigados a fazer votos de pobreza, o que garantiria a posse de todos os bens por parte de Ambrósio. Emília e Juquinha saem da sala.

Batem à porta. Rosa entra na sala e com muita reverência dirige-se a Carlos, imaginando ser ele um frade. Conta-lhe que está à procura de seu marido Ambrósio Nunes, que há seis anos a abandonara em Maranguape, de posse de sua fortuna, a pretexto de investimentos lucrativos em Montevidéu. Sem notícias, ela chegou a pensar que ele tivesse morrido, mas uma pessoa informara-lhe de que estava o fujão na corte, e estava ela ali, no momento, após longa viagem e andanças pelo Rio de Janeiro. Carlos aproveita-se do engano da mulher e, fingindo ser bom capuchinho, investiga detalhes da história e recebe, como prova da veracidade dos fatos relatados, uma cópia da certidão de casamento de Rosa e Ambrósio. Promete ajudá-la e pede-lhe que aguarde alguns momentos em um quarto da casa. Florência, o marido e a filha, prontos para saírem, deparam-se com Carlos. Ambrósio cobra de Carlos obediência. O moço ironicamente desafia o marido da tia por meio de frases ambíguas, dando a entender que conhecia a história pregressa de Ambrósio. Este se enfurece e passa a fazer-lhe exigências. Carlos o toma pelo braço, abre a porta do quarto e mostra-lhe Rosa. O tio desorganiza-se, corre e arrasta violentamente para fora da casa mulher e enteada.

Carlos diverte-se com a aflição do cínico tio e expõe à Rosa a atual condição de Ambrósio. A mulher traída não resiste. Desmaia. Cria-se um alvoroço. Juquinha é chamado a ajudar; apanha um galheteiro, Carlos a faz cheirar vinagre, azeite, tentado-lhe restituir os sentidos. Em meio a intensa agitação, ouvem-se meirinhos aproximarem-se. Dirigem-se eles a casa para efetuarem a prisão do travesso noviço. Carlos faz a mulher acreditar que Ambrósio é poderoso e que os oficiais batiam à porta para prendê-la. Propõe a ela que trocassem vestimentas. Rosa vestiria seu hábito de religioso, e ele, suas vestes de mulher. Desse modo, estaria ela a salvo da fúria dos meirinhos e ele seria preso em seu lugar. Rosa ingenuamente aceita a proposta. Juca a encaminha para um quarto. Carlos, travestido de mulher, recebe dissimuladamente o Mestre de Noviços e os meirinhos. Faz-se passar por tia do noviço endiabrado, aponta o esconderijo e orienta a maneira segura de surpreender e prender o sobrinho. Os oficiais entram no quarto, capturam o falso noviço e o levam para o convento.

Carlos diverte-se imaginando a confusão que aconteceria quando o Abade percebesse que uma mulher fora presa em seu lugar. Pede a Juca que ficasse à janela e o avisasse da chegada do padrasto.

Ambrósio, perturbado, invade a sala. Havia deixado Florência e Emília na igreja. A sua agitação é tamanha que se dirige a Carlos, pensando ser ele Rosa. O sobrinho aproveita-se do engano e diverte-se, respondendo às perguntas de Ambrósio como sendo sua primeira esposa. Chega inclusive a atirar-se aos pés de Ambrósio em pranto exagerado. Nesse instante, o tratante Ambrósio percebe o equívoco. Irrita-se com o descaramento do sobrinho, que imediatamente lhe contém a fúria, mostrando a certidão que estava em seu poder. O tom da cena inverte-se: Ambrósio humilha-se, implora a Carlos que nada revele à Florência. Dono da situação, o rapaz faz algumas exigências: abandonará o noviciado, receberá a herança deixada pelo pai; Emília não será freira, e ele terá o consentimento para casar-se com a prima. Ambrósio, de joelhos, aceita as imposições e suplica piedade de Carlos.

Subitamente, Florência e Emília entram na sala e há novo equívoco: Florência acredita ter flagrado o marido em traição. Sente-se desgraçada e num assombro se dá conta de que é o sobrinho que subjuga Ambrósio. Pede explicações para aquela patifaria e, cinicamente, Carlos afirma que estavam encenando uma comédia para o sábado de Aleluia. A tia, atônita, ouve ainda o rapaz trapalhão declarar o acordo que fizera com Ambrósio. Este vai interrompendo a fala de Carlos com argumentos incontestáveis. Diz à mulher que fora um erro encaminhá-lo ao convento, pois não se pode impedir que os jovens possam realizar o amor tão genuíno que sentem. Carlos acrescenta que como prova de agradecimento cederá metade de seus bens em favor do tio bondoso e lhe entrega a certidão de casamento como se entregasse o termo de cessão de parte da fortuna. Ambrósio rasga o papel, dissimulando total desinteresse pela doação. Florência sente-se abençoada por ter casado com um homem tão honrado e chega a vangloriar-se da própria capacidade de distinguir o amante sincero entre tantos pretendentes que tivera logo após a viuvez. Elogia as qualidades do marido, que insiste não ser merecedor de tanta reverência.

Felizes, Emília e Carlos acertam o casamento para dali a quinze dias. Nem bem confirmam o enlace matrimonial, o Mestre dos Noviços surge para efetuar a prisão do noviço fujão. O religioso declara enraivecido o constrangimento que passara diante do Abade ao cair novamente em uma cilada de Carlos, quando levou ao convento uma mulher. Diante das declarações do Mestre, Ambrósio perturba-se e tenta saber do paradeiro da tal mulher. Florência desconfia das intenções do marido. A confusão está armada: o Mestre arrasta o noviço para fora da casa; a tia não consegue impedir a prisão do sobrinho, mesmo dizendo que Carlos abandonaria a vida religiosa e que ela mesma diria isso ao Abade.

O clima na casa é de confusão. Ambrósio mostra-se atordoado, Florência pede explicações para ter sido levada apressadamente para a igreja e ter sido lá deixada. Ambrósio rapidamente dissimula a própria aflição. Tenta abraçar a esposa que se revela arredia, exigindo que se esclareça a identidade da mulher que fora presa em lugar do sobrinho. Acuado, Ambrósio inventa ser a tal mulher uma antiga namorada, que não se conformara com o fato de ter ele se casado. Confessa o erro cometido ao envolver-se na juventude com aquela moça. Diz-lhe, no entanto, que a causa da separação fora o amor incontido que sentiu desde o primeiro momento que viu Florência. O discurso amoroso de Ambrósio é interrompido por Rosa, vestida de frade. Esta, entregando a certidão a Ambrósio, interpõe-se ao casal, gritando que aquele homem lhe pertencia. Ambrósio corre pela casa, tentando escapar. Nesse momento, ouve-se a ordem de prisão ao bígamo. Enquanto isso se passa, Florência, estarrecida, lê a certidão de casamento de Rosa Lemos e Ambrósio Nunes.

Muda-se o cenário. Florência, recolhida no quarto de Carlos, para evitar contato com o ambiente em que vivera momentos felizes ao lado do marido farsante, chora convulsivamente e é confortada pela filha. Está assim prostrada há oito dias. Nada a anima, nem mesmo os remédios receitados por um médico da família. Emília afirma ser necessário que a mãe reaja e, desse modo, vingue-se de tanta traição. Florência diz que seu procurador está encaminhando um mandado de prisão e que quer enviar uma carta ao Abade, explicando-lhe os fatos e pedindo-lhe o favor de mandar um representante do convento para que ela se justificasse pessoalmente pelos transtornos causados. Decide, então, que o criado José fosse o portador da carta.

Nova surpresa: Carlos mais uma vez havia fugido do claustro. Apressado, invade os fundos da casa, com o hábito roto e sujo, as mãos esfoladas, joelhos machucados. Entra em seu antigo quarto. Ouve a voz do padre-mestre, esconde-se embaixo da cama em que está deitada a tia. Emília acompanha o padre até os aposentos onde está Florência, que acorda meio atordoada. Estava ele incumbido novamente de efetuar a prisão do noviço indomável. Florência e Emília surpreendem-se com a notícia de que Carlos tivesse escapado novamente das grades do convento. Enquanto Florência expõe a sua decisão de livrar Carlos do noviciado, Emília percebe a presença do amado embaixo da cama. O padre-mestre retira-se da casa, aliviado por não ter mais que se haver com as diabruras de Carlos.

Florência lamenta-se da tragédia que lhe acometera. Emília se mostra comovida e comporta-se como se não soubesse o paradeiro do primo, mesmo este lhe puxando as saias e fazendo-lhes cócegas nas pernas. Chega a casa Ambrósio, trajando-se como um frade, seguindo o criado José até o quarto de Florência. Há novo equívoco. Florência imagina ser o frade o representante que requisitara ao Abade e passa a lhe contar a trama de que fora vítima. Ambrósio, não suportando ouvir tantas acusações, denuncia-se, retirando o capuz, revelando, assim, a sua real identidade. Revela à mulher que as portas da casa estão trancadas e que ninguém poderá lhe socorrer os gritos. Impõe que lhe entregue dinheiro e jóias, enfim, tudo que ela possuísse; caso contrário, só restaria a alternativa de matá-la. Nesse momento, se esclarece mais um mal-entendido: José, fiel a Ambrósio, não tinha enviado a carta ao Abade, na verdade, tinha facilitado os planos de seu patrão.

Florência corre aos gritos pela casa, esconde-se em um canto coberta por uma colcha. Ambrósio, na correria, encontra Carlos, puxa-lhe pelo hábito, pensando tratar-se das saias de Florência. Carlos revida com uma bofetada. A tia permanece imóvel, coberta por uma colcha. Em seguida, entram quatro homens armados e o vizinho Jorge que vinha em socorro aos gritos que da rua se ouviam. Florência diz que um ladrão travestido de frade tinha invadido a casa, mas já havia fugido. Os homens vasculham a casa e acabam dando com Carlos, que aos berros, sai debaixo da cama, e, tentando proteger-se das agressões, mete-se atrás de um armário e o atira ao chão. O vizinho, ferido na perna, grita à Florência que o ladrão se escondia no quarto e havia escapulido por uma porta. Emília desvencilha-se do vizinho, agradece a ajuda e mando-o embora. Insiste com a mãe que o frade era Carlos. A mãe retruca, afirmando que era o padrasto.

A tensão aumenta com a chegada de Rosa, que é recebida com certa amabilidade por Florência. As duas conversam a sós. Lamentam-se da inocência com que se entregaram ao vilão Ambrósio. Rosa apresenta à Florência a ordem de prisão contra o bígamo e queixa-se ao saber que Ambrósio há instantes escapara daquela casa. De modo inesperado, arrebenta-se uma tábua do armário e Ambrósio, quase asfixiado, põe a cabeça de fora. Ambas mulheres atacam-no aos socos e pauladas. O farsante, aos gritos, suplica compaixão às duas esposas.

Entra no quarto Carlos, preso por Jorge e os soldados. Florência desfaz o engano, dizendo que era seu sobrinho o que tomavam por ladrão. Ambrósio esconde-se novamente no armário. Rosa, acompanhada de oficiais de justiça, entrega o mandado lavrado de prisão. O bígamo é retirado do armário e recebe a sentença de prisão. O Mestre de Noviços retorna a casa com a permissão de livrar Carlos do convento. Antes de retirar-se, o religioso abençoa a futura união de Emília e Carlos. Ambrósio sai lamentando-se da punição recebida.





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NARCISA AMÁLIA

Vida:

1852 - Nasce Narcisa Amália de Campos, a 3 de abril, em São João da Barra, Rio de Janeiro, filha do poeta Jácome de Campos e da professora primária Narcisa Inácia de Campos.

1863 - Transfere-se para Resende com a família.

1866 - Casa-se com João Batista da Silveira, artista ambulante, de vida irregular, de quem se separa alguns anos mais tarde.

1872 - Publica seu primeiro e único livro de poesia, Nebulosas, que alcança grande repercussão nos meios literários. São poemas expressivos do Romantismo, que exaltam a natureza e a pátria e relembram a infância.

1874 - Publica Nelúmbia, contos.

Prefacia livro de Ezequiel Freire e é elogiada por Machado de Assis: "As flores do campo, volume de versos dado em 1874, tiveram a boa fortuna de trazer um prefácio devido à pena delicada e fina de D.Narcisa Amália, essa jovem e bela poetisa (...)".

1880 - Casa-se novamente, dessa vez com Francisco Cleto da Rocha, também chamado Rocha Padeiro, dono da "Padaria das Famílias", em Resende. Ajuda o marido nos primeiros anos, mas continua a receber os amigos literatos em sua casa. Frequentam seus saraus nomes famosos como Raimundo Correia, Luís Murat, Alfredo Sodré e, inclusive, o Imperador Pedro II, que por ocasião de sua visita a Resende, vai "visitar a sublime padeira, por estar ansioso por lhe provar... do pão espiritual", embora seja a poetisa fervorosa republicana abolicionista.

O segundo casamento também não dura muito e Narcisa é forçada a deixar a cidade que considerava sua terra, pressionada por campanha maledicente movida pelo marido enciumado.

No Rio de Janeiro, Narcisa Amália dedica-se ao magistério.

1884 - Em 13 de outubro funda um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitá que tinha, como subtítulo, "folha dedicada ao belo sexo".

Narcisa Amália foi a primeira mulher a se profissionalizar como jornalista, alcançando projeção em todo o Brasil com seus artigos em favor da Abolição da Escravatura, em defesa da mulher e dos oprimidos em geral.

1924 - Morre Narcisa Amália, a 24 de junho, cega e paralítica, sendo seu corpo sepultado no cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

VOTO
Ide ao menos de amor meus pobres cantos
No dia festival em que ela chora
com ela suspirar nos doces prantos!
Álvares de Azevedo

À MINHA MÃE

A viração que brinca docemente
No leque das palmeiras,
Traga à tu'alma inspirações sagradas,
Delícias feiticeiras.

A flor gentil que expande-se contente
Na gleba matizada,
Inveje-te a tranqüila e leda vida,
Dos filhos sempre amada

Só teus olhos roreje délio pranto
De mística ternura;
Omo silfos de luz cerquem-te gozos,
Enlace-te a ventura!

Os filhos todos submissos junquem
De rosa tua estrada;
E curvem-te os espinhos sob os passos
Da Mãe idolatrada!

Tais são as orações que aos céus envia
A tua pobre filha;
E Deus acolha o incenso, embora emane
De branca maravilha!

Sandness

"Still visit thus my nights, for you reserved,

And mount my soaring soul thougts like yours."

(James Thomson)

XX

Meu anjo inspirador não tem nas faces

As tintas coralíneas da manhã,;

Nem tem nos lábios as canções vivaces

Da cabocla pagã!

Não lhe pesa na fronte deslumbrante

Coroa de esplendor e maravilhas,

Nem rouba ao nevoeiro flutuante

As nítidas mantilhas.

Meu anjo inspirador é frio e triste

Como o sol que enrubesce o céu polar!

Trai-lhe o semblante pálido -- do antiste

O acerbo meditar!

Traz na cabeça estema de saudades,

Tem no lânguido olhar a morbideza;

Veste a clâmide eril das tempestades,

E chama-se -- Tristeza!...
Resignação
No silêncio das noites perfumosas,

Quando a vaga chorando beija a praia,

Aos trêmulos rutilos das estrelas,

Inclino a triste fronte que desmaia.

E vejo o perpassar das sombras castas

Dos delírios da leda mocidade;

Comprimo o coração despedaçado

Pela garra cruenta da saudade.

Como é doce a lembrança desse tempo

Em que o chão da existência era de flores,

Quando entoava o múrmur das esferas

A copla tentadora dos amores!

Eu voava feliz nos ínvios serros

Empós das borboletas matizadas...

Era tão pura a abóbada do elísio

Pendida sobre as veigas rociadas!...

Hoje escalda-me os lábios riso insano,

É febre o brilho ardente de meus olhos:

Minha voz só retumba em ai plangente,

Só juncam minha senda agros abrolhos.

Mas que importa esta dor que me acabrunha,

Que separa-me dos cânticos ruidosos,

Se nas asas gentis da poesia

Eleva-me a outros mundos mais formosos?!...

Do céu azul, da flor, da névoa errante,

De fantásticos seres, de perfumes,

Criou-me regiões cheias de encanto,

Que a luz doura de suaves lumes!

No silêncio das noites perfumosas

Quando a vaga chorando beija a praia,

Ela ensina-me a orar, tímida e crente,

Aquece-me a esperança que desmaia.

Oh! Bendita esta dor que me acabrunha,

Que separa-me dos cânticos ruidosos,

De longe vejo as turbas que deliram,

E perdem-se em desvios tortuosos!...

Por que Sou Forte

a Ezequiel Freire

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço

Ao fundo d'alma toda vez que hesito...

Cada vez que uma lágrima ou que um grito

Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço...

E toda assombro, toda amor, confesso,

O limiar desse país bendito

Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito!

O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,

Que o olhar do mundo não macula, a terna

Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,

A sinfonia da paixão eterna!...

- E eis-me de novo forte para a luta.






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Mateus e Mateusa - Qorpo Santo

Personagens
Mateus, velho de 80 anos
Mateusa, idem
Catarina, filha
Pêdra, filha e
Silvestra, filha
Barriôs, criado

ATO PRIMEIRO

CENA PRIMEIRA

MATEUS (caminhando em roda da casa; e Mateusa assentada em uma cadeira) - Que estão fazendo as meninas, que ainda as não vi hoje?!

MATEUSA (balançando-se) - E o Sr. Que se importa, Sr. Velho Mateus, com as suas filhas?

MATEUS (voltando-se para esta) - Ora é boa esta! A Sra. sempre foi, é, e será uma (atirando com a perna) - não só impertinente, como atrevida!

MATEUSA - Ora, veja lá, Sr. Torto (levantando-se), se estamos no tempo em que o Sr. A seu belo prazer me insultava! Agora eu tenho filhos que me hão de vingar.

MATEUS (abraçando-a) - Não; não, minha querida Mateusa; tu bem sabes que isso não passa de impertinências dos 80. Tem paciência. Vai me aturando, que te hei de deixar minha universal herdeira ( atirando com uma perna) do reumatismo que o demo do teu Avô torto meteu-me nesta perna! (atirando com um braço) das inchações que todas as primaveras arrebentam nestes braços! (abrindo a camisa) das chagas que tua mãe com seus lábios de vênus imprimiu-me neste peito! E finalmente (arrancando a cabeleira): da calvície que tu me pegaste, arrancando-me ora os cabelos brancos, ora os pretos, conforme as mulheres com quem eu falava! Se elas (virando-se para o público) os tinham pretos, assim que a sujeitinha podia, arrancava-me os brancos, sob o frívolo pretexto de que me namoravam! Se elas os tinham brancos, fazia-me o mesmo, sob ainda o frivolíssimo pretexto de que eu as namorava (batendo com as mãos, e caminhando). E assim é; e assim é, - que calvo! calvo, calvo, calvo, calvo, calvo (algum tanto cantando) calvô... calvô... calvô... ô...ô...ô!...

MATEUSA (pondo as mãos na cabeça) - Meu Deus! Que homem mais mentiroso! Céus!

Quem diria que ainda aos 80 este judeu-errante havia de proceder como aso quinze, quando roubava frutas do Pai!

MATEUS (com fala e voz muito rouquenha) - Ora, Sra.! Ora, Sra.!Quem, quem lhe disse essa asneira?! (Profere estas palavras querendo andar e quase sem poder. É este o todo do velho em todos os seus discursos.)

MATEUSA (empurrando-o) - Então para que fala de mim a todas as moças que aqui vêm, Sr., chino?! Para quê, hem? Se o Sr. não fosse mais namorador que um macaco preso a um cepo, certamente não diria - que sou velha, feia e magra! Que sou doente de asma; que tenho uma perna mais curta que a outra; que... que... finalmente, que já (voltando-se com expressão de terror) não lhe sirvo para os seus fins de (pondo a mão em um olho) de... O Sr. bem sabe! (esfregando com as costas da mão o outro [ olho] com voz de quem chora). Sim, se eu não fosse desde a minha mais tenra idade um espelho, tipo, ou sombra de vergonha e de acanhamento, eu diria (virando-se para o público): Já não quer dormir comigo! Feio! (saindo da sala) mau! velho! rabugento! Tãobém não te quero mais, fedorento!

MATEUS - Mas (voltando-se para o fundo), e as meninas, onde estão!? Onde? Onde? (Puxa a cabeleira.) Pêdra! Catarina! Silvestra! (Escuta um pouco.) Nenhuma aparece! Cruéis! Fariam o mesmo que a Mãe!? Fugiriam de mim!? Coitado! Pobre de quem é velho! As mulheres fogem, e as filhas desaparecem!

CENA SEGUNDA

PÊDRA (entrando) - O que é, Papaizinho? O que é que quer? O que tem? Sucedeu-lhe alguma cousa? Não? (Pegando-lhe no braço.)

MATEUS (como acordando-se de um sonho.) - Hem? (Esfregando os olhos.) Hem? O que é? Que é? Chegou alguém? Eu estava, aqui estava.

PÊDRA - Que tem, meu Pai?

MATEUS (assoando-se sem tocar no nariz, e olhando) - Vejam o que é ser velho! Menina, menina, já que estás aqui, dá-me um lenço; anda (pegando nos braços da filha), anda, minha queridinha; vê um lenço para o vosso velho paizinho! Sim; sim; vai; vai; anda. (Fazendo-a caminhar.)

PÊDRA (voltando-se) - Também este meu Pai cada vez fica mais porco! Por isso é que a

minha mãe já enjoou ele tanto, que nem o pode ver! (Saindo.) Eu já vou buscar! Espere um minuto (com as mãos, fazendo-o parar), já venho, Papai! Já venho, e vou buscar-lhe um dos mais lindos (com ar gracioso) que encontrar em meu guarda-roupa, ouviu, Papai? Ouviu?

MATEUS - Sim, sim; já ouvi. Tu sempre foste o encanto dos meus olhos; o sonho de todos os meus momentos... (Entra outra.) Esta menina (voltado para o povo) é os encantos da imaginação desta cabeça (batendo com as mãos, uma de cada lado da cabeça) e objeto que ao ver, me enche (apalpando o coração) este coração de alegria!

CATARINA - E eu, Papai? E eu, então não mereço alguma?!

MATEUS (voltando-se e olhando para Catarina) - Minha querida Filha! Minha querida Catarina! (Abraçando-a .) És tu, oh! Quanto me apraz ver-te! Se tu soubesses, queridíssima Filha, quão grande é o prazer que banha (inclinando-se e levando a mão ao peito) este peito! Sim (tornando a abraçá-la) , tu és um dos entes que fazem com que eu preze a velha existência, ainda por alguns dias! Sim sim, sim! Tu, tua sábia irmã Pêdra; e... e aquela que ainda hoje não tive a fortuna de ver, a tua mais que simpática irmã Silvestra; - são todas três os Anjos que me amparam; que me alimentam o corpo e a lama; por que, e para quem vivo; e morreria, se fosse mister!

(Entra Silvestra, aos pulinhos, e Pêdra, fazendo passos de dança.)

SILVESTRA - Papaizinho do meu coração! (abraçando-o pelas pernas.) Você é o meu tudo! Olhe, Papaizinho: eu sonhei que o Sr. queria um lenço, e corri! Tomei este que a mana Catarina lhe trazia, e lhe truce!

MATEUS - Quanto sou feliz! (Pega o lenço e enxuga os olhos.)

CATARINA (à parte, e com expressão de dor) - Ele disse que a outra era simpática; e de mim nem ao menos diz que sou formosa. Sempre é velho: não sabe agradar a todos!

PÊDRA - Papai! Eu não fui portadora do que me pediu, porque a Silvestra é muito velhaca, e muito ligeira! Assim que me viu com o lenço na mão, tomou-m'o, e correu para trazer-lhe primeiro que eu!

SILVESTRA - É porque eu quero (dando com a mão na irmã) mais bem ao Papai do que Você; aí está!

PÊDRA - Pois não! Não vê que a Sra. já pesou os graus de amor que em meu coração eu consagro a meu Pai...

SILVESTRA - Não preciso pesar! Olhe: no seu coração existe certa força ou quantidade de amor consagrado (afagando com as mãos) ao papaizinho! E em mim, todo o meu coração é puro amor a ele tributado!

PÊDRA - Vejam só (com aspecto impertinente, desgostoso; rosto franzido, pondo a cabeça de um lado, etc.) como é retórica! Não pensei que a Sra. estivesse tão adiantada! Não estudou; não se preparou hoje tãobém em seus velhos alfarrábios de filosofia!? Se não se preparou, para outra vez prepare-se, e veja se ganha mais um afeto do papai!

CATARINA (acomodando-as) - Meninas! (pegando no braço de uma e de outra) acomodem-se; vocês parecem nenês!

MATEUS - Meus anjos (tãobém querendo acomodá-las). Minhas santas; minhas virgens... não quero que briguem, porque isso me desgosta. Sabem que já sou velho e que os velhos são sempre mais sensíveis que os moços... Quero vê-las contentes; contentezinhas; ao contrário fico triste.

PÊDRA E CATARINA (formando com as mãos pegadas umas nas outras um círculo em roda do pai.) - Nosso Papaizinho! Não há de se desgostar; não há de chorar (dançando). Nós havemos de amparar o nosso querido Papai. (Umas para as outras: ) Vamos; pulemos; dancemos; e cantemos: todos! Todos a uma só voz. ( O Pai vira-se ora para uma, ora para outra, cheio do maior contentamento: o sorriso não lhe sai dos lábios; os olhos são ternos; a face se franze de prazer; quer falar, e apenas diz: ) Meu Deus! Eu sou; eu sou tão feliz! que... Sim, sou; sou muito feliz!

(As filhas cantam:)

Nós somos três anjinhos;
E quatro éramos nós,
Que do céu descemos;
E o amor procuremos:
- Mataremos ao algoz
Destes dois nossos paizinhos!

Sempre fomos bem tratadas
Quer deste, quer daquela:
Não queremos que a maldade,
Para nossa felicidade,
Maltrate a ele ou a ela...
Mataremos tresloucadas!

Não somos só anjos
Que assim pensamos;
Que assim praticamos;
Tãobém são os arcanjos!

De principados - exércitos
Temos tãobém de virtudes!
De tronos! Não mudes,
Papai! Vivam as ordens!

- Para debelarmos facínoras!
- Para triunfarem direitos,
- As armas temos nos peitos!
- A força de milhões d'espíritos!

(Terminado o canto, abraçarão todas o Pai, e este a elas, banhados todos na maior efusão de júbilo.)

PÊDRA ( para o pai) - Agora, Papai, vamos coser, bordar, fiar; fazer renda. (Para as irmãs:) Vamos, Meninas; a Mamãe já há de Ter a nossa tarefa pronta para nos dar trabalho!

CATARINA- Ainda é cedo; eu não ouvi dar oito horas; e o nosso trabalho sempre principia às nove.

SILVESTRA - Eu não sei o que fazer hoje: se bordar, se fiar, ou se crivar!

PÊDRA - Por bem de Deus, você nunca sabe o que há de fazer!

SILVESTRA (olhando-a com certo ar de indiferença) - Se te parece, minha querida Maninha, chama-me de preguiçosa!

PÊDRA - Não; isso eu não digo, porque a Sra. deu as mais delumbrantes provas de que há de vir a ser lá... (elevando a mão) para o futuro uma moça das mais trabalhadoras que eu conheço! E ainda hoje disso deu segurança no jardim do quintal, em que não ficava flor que não fosse pela Sra. cultivada!

SILVESTRA - Inda bem que a Sra. sabe, e faz-me o obséquio de dizer! E se eu o não fora ainda, não era de admirar; pois não conto mais de nove a dez anos de idade.

MATEUS (voltando-se para Silvestra) - Pois a Sra. esteve no quintal?

SILVESTRA - Pois então, Papai; eu não havia de ir cortar, arrancar todas as ervas perniciosas, que crescendo destroem as plantas, as flores preciosas ?

MATEUS (com muita alegria, pegando a filha) - Filha! Filha minha! Vem a meus braços! (Abraça-a e beija-a muitas vezes.) Fazes, minha muito amada Silvestra, o que Deus faz aos Governos! O que os bons Governos fazem aos Governados! Prendem; castigam; melhoram; ou inutilizam os maus - para que não ofendam, nem prejudiquem os bons! E vocês (para as outras), o que faziam, durante o tempo em que minha inteligente Silvestra procedia com tanto acerto, praticando uma tão meritória ação e digna dos maiores elogios?

PÊDRA E CATARINA (quase ao mesmo tempo) - Eu regava as plantas e flores, com a mais fresca e cristalina água, a fim de que crescessem e dasabrochassem - perfeitas e puras! ( Isto disse Catarina)

PÊDRA - Eu, Papai, mudava algumas e plantava outras.

MATEUS - Já vejo que todas trabalharam muito! Hei de fazer a cada uma das Sras. O mais lindo presente! (Movendo a cabeça - inclinando- a.) Isto é, quando eu sair à rua! Pois bem sabem que eu aqui não tenho com que lhes presentear.

PÊDRA - Eu quero... quero: o que há de ser? (Levantando algum tanto a cabeça.) Uma

boneca de cera, do tamanho da (apontando) Silvestra! E toda vestida de seda, ouviu, Papai? Com brincos, adereço... O Sr. sabe como se vestem as moças que se casam; assim é que eu quero! Não se esqueça; não se esqueça de comprar e me trazer assim. Olhe ( batendo- lhe a mão no braço), se na loja do Pacífico não tiver, tem na do Leite, na do Rodolfo, ou do Paradeda.

SILVESTRA - Eu me contento com menos! Quero um vestido de seda, lavrada a barra, e as mangas a fio de ouro; com blonds, e tudo o mais que se usar, do mesmo fio, ou daquilo que for mais moderno.

MATEUS (para Silvestra) - Contentas-te só com isso? Não queres sapatos de seda, botinhas de veludo tãobém bordadas de ouro, ou enfeite fino para a cabeça?

SILVESTRA - Não, Papai; basta o vestido; o mais tudo eu tenho muito bom, e em estado de poder servir com o lindo vestido que lhe peço. Sempre gostei da economia; e sempre aborreci a prodigalidade!

MATEUS - Estimo muito; é o mais fiel retrato da moral do velho Mateus! (Para Catarina:)E a Sra., que está tão calada! Então, não pede nada?

CATARINA - As manas já pediram tanto, que eu não sei o que lhe hei de pedir; parece que tudo há de custar tanto dinheiro, que se o Sr. não tivesse ainda há pouco tirado a sorte grande na loteria do Rio de Janeiro, eu acreditaria - que teria de vender a cabeleira, para satisfazer tantos pedidos!

MATEUS - Não; não, menina! O que elas pedem custa pouco comparativamente aos meus e vossos rendimentos. Diga, diga: o que mais estimará que eu lhe traga, para comprar e trazer-lhe?!

CATARINA - Pois bem; em vou dizer-lhe: mas V. Mcê não se há de zangar.

MATEUS - Não; não; peça o que quiser, que eu com muito prazer lhe trago!

CATARINA - Pois então, visto que tem gosto em me fazer um presente... Até se eu não tivesse de ir a um batizado à casa da minha amiga e comadre D. Leocádia das Neves Navarro e Souto, eu não diria o que mais preciso, e quero que me dê... É um ramalhete das mais delicadas flores que se costumavam vender nas lojas das modistas francesas e alemãs.

MATEUS - E levou tanto tempo para pedir uma cousa de tão pouco valor!?

CATARINA - Não é de muito pequeno valor! O que eu quero é de uns muito mimosos, cujo preço sobe a dez ou doze mil-réis!

MATEUS - Pois então, isso é muito barato! Mas como é o que me pede, fique certa que há de ser servida, tanto mais que tem a intenção de se apresentar com ele em um baile, batizado, ou não sei que festa!

CATARINA - É quanto basta; e com ele ficarei muito contente!

MATEUSA (entra rengueando, revirando os olhos, e fazendo mil trejeitos; as filhas que a observam dizem umas para as outras) - Aí vem a Mamãe! - (Quase em segredo, rapidamente:) Olhem a Mamãe! Vamos! Vamos! Já são nove horas! (Para o pai:) Papai! Não se esqueça das nossas encomendas, como nós não nos esquecemos d'orar a Deus para que prolongue seus dias; e que estes sejam felizes! Até logo à hora do jantar ( e fazendo uma profunda cortesia, depois de lhes beijarem a mão, pegando nas saias dos vestidos), que é quando poderemos ter o inexprimível prazer de passar alguns preciosos momentos em sua estimável companhia.

CENA TERCEIRA

MATEUSA (aproximando-se às filhas) - Vão meninas, vão fazer a sua costura! Está tudo marchando! Cada uma das Sras. Tem na sua almofada o pano, a linha, a agulha; e tudo o mais que é necessário para trabalhar até às 2 da tarde. O que é de abordar para a Pêdra, está desenhado a lápis; os picados para a Catarina, estão alinhavados; e a costura lisa, a camisa deste velho feio ( batendo no ombro do marido) está começada. Tenham cuidado: façam tudo muito bem feitinho.

CATARINA, PÊDRA E SILVESTRA - Como sabe, somos obedientes filhas; deve por isso contar que assim havemos de fazer. (Saem.)

MATEUSA (para o marido, batendo-lhe no ombro) - Já sei que está repassado de prazer! Esteve com suas queridas filhinhas mais de duas horas! E eu lá, sofrendo as maiores saudades!

MATEUS - É verdade, minha querida Mateusa (batendo-lhe também no ombro), mas, antes de te dizer o que pretendia, confessa-me: Por que não quiseste tu o teu nome de batismo, que te foi posto por teus falecidos Pais?

MATEUSA - Porque achei muito feio o nome Jônatas que me puseram; e então preferi o de Mateusa, que bem casa com o teu!

MATEUS - Sempre és mulher! E não sei o que me pareces depois que ficaste velha e rabugenta!

MATEUSA (recuando um pouco) - És bem atrevido! De repente, e quando não esperares, hei de tomar a mais justa vingança das grosserias, das duras afrontas com que costumas insultar-me!

MATEUS (aproximando-se e ela recuando)

MATEUSA - Não se chegue para mim ( pondo as mãos na cintura e arregaçando os punhos) que eu não sou mais sua! Não o quero mais! Já tenho outro com quem pretendo viver mais felizes dias!

MATEUS (correndo a abraçá-la apressadamente) - Minha queridinha; minha velhinha! Minha companheirinha de mais de 50 anos (agarrando-a), por quem és, não fujas de mim, do vosso velhinho! E as nossas queridas filhinhas! Que seriam delas, se nós nos separássemos; se tu buscasses, depois de velha e feia, outro marido, ainda que moço e bonito! Que seria de mim? Que seria de ti? Não! Não! Tu jamais me deixarás. (Tanto se abraçam; agarram; pegam, beijam-se, que cai um por cima do outro.) Ai! Que quase quebrei uma perna! Esta velha é o diabo! Sempre mostra que é velha e renga! (Querem erguer-se sem poder.) Isto é o diabo!...

MATEUSA ( levantando-se, querendo fazê-lo apressadamente e sem poder, cobrindo as pernas que, com o tombo, ficaram algum tanto descobertas) - É isto, este velho! Pois não querem ver só a cara dele? Parece-me o diabo em figura humana! Estou tonta.. Nunca mais, nunca mais hei de aturar este carneiro velho, e já sem guampas! (Ambos levantaram-se muito devagar; a muito custo; e sempre praguejando um contra o outro. Mateusa, fazendo menção ou dando no ar ora com uma, ora com outra mão: ) Hei de ir-me embora; hei de ir; hei de ir!

MATEUS - Não há de ir; não há de ir; não há de ir porque eu não quero que vá! Você é minha mulher; e pelas leis tanto civis como canônicas, tem obrigação de me amar e de me aturar; de comigo viver, até eu me aborrecer! (Bate com um pé.) Há de! Há de! Há de!

MATEUSA - Não hei de! Não hei de! Não hei de! Quem sabe se eu sou sua escrava!? É muito gracioso, e até atrevido! querer cercear a minha liberdade! E ainda me fala em Leis da Igreja e civis, como se alguém fizesse caso de papéis borrados! Quem é que se importa hoje com Leis ( atirando-lhe com o 'Código Criminal') , Sr. banana! Bem mostra que é filho dum lavrador de Viana! Pegue lá o Código Criminal, - traste velho em que os Doutores cospem e escarram todos os dias, como se fosse uma nojenta escarradeira!

MATEUS (espremendo-se todo, abaixa-se levanta o livro e diz à mulher) - Obrigado pelo presente: adivinhou ser cousa de que eu muito necessitava! (Mete-o na algibeira. À parte: ) Ao menos servirá para algumas vezes servir-me de suas folhas, uma em cada dia que estas tripas (pondo a mão na barriga) me revelarem a necessidade de ir à latrina.

MATEUSA - Ah! já sabe que isso não vale cousa alguma; e principalmente para as Autoridades - para que tem dinheiro! Estimo muito; muito; e muito! (Pega em um outro - a "Constituição do Império" e atira-lhe na cara.)

MATEUS (gritando) - Ai! cuidado quando atirar, Sra. D. Mateusa! Não continuo a aceitar seus presentes, se com eles me quiser quebrar o nariz! (Apalpa este, e diz: ) Não partiu, não quebrou, não entortou! ( E como o nariz tem parte de cera, fica com ele assaz torto. Ainda não acaba de endireitá-lo, Mateusa atira-lhe com outro de 'História Sagrada', que lhe bate numa orelha postiça, e que por isso com a pancada cai; dizendo-lhe: ) Eis o terceiro e último que lhe dou para... os fins que o Sr. quiser aplicar!

MATEUS (ao sentir a pancada, grita) - Ai que fiquei sem orelha! Ai! Ai! Ai! Onde cairia? (Atirando os livros na velha e com raiva. ) Por mais que recomendasse a esta endemoninhada que não queria presentes caros, este demônio havia de quebrar-me o nariz e pôr-me fora uma orelha! Ó Mateusa do diabo! Com quê, partes desta casa sem eu ir amanhã ao baile masquê, visitar as Pavoas!? e...

MATEUSA (batendo o pé) - Cachorro! Ainda me fala em pavoas, e em baile masquê!? Traste! Ordinário! Já... rua, seu maroto!

MATEUS (voltando-se para o público) - Já se viu que escaler velho mais impertinente! Esperem que eu lhe boto cavernas novas! (Procurando uma bengala. ) Achei! ( Com a bengala em punho) Já que a Sra. não faz caso da lei escrita! falada! e jurada! há de fazer da lei cacetada! paulada! ou bengalada! (Bate com a bengala no chão.)

MATEUSA - Ah! dessa lei, sim, tenho medo. (À parte.) Mas ele não pode comigo, porque eu sou mais leve que ele; tenho melhor vista ; e pulo mais. (Pega em uma cadeira e dá-lhe com ela, dizendo: ) Ora tome lá! (Ele apara a pancada com a bengala, encolhendo-se todo; enfia esta na cadeira; empurram para lá, empurram para cá.)

CATARINA, PÊDRA E SILVESTRA (aparecendo na porta dos fundos; umas para as outras) - Vai lá! (Empurrando. Outra: ) Vai tu apartar! (Outra: ) Eu, não; quando eles estão assim, eu tenho medo, porque sou pequenina!

MATEUS - Ai! eu caio! Quem me acode! Perdi o queixo!

MATEUSA (gritando e correndo) - Ai! eu esfolei um braço, mas deixo-lhe a cadeira enfiada na cabeça! (Quer assim fazer e fugir, mas Mateus atira-lhe a cadeira às pernas; ela tropeça e cai; ele vai acudi-la; quer correr; as filhas convidam-se a fugir; ele cai aos pés da velha).

BARRIÔS (o criado) - Eis, Srs., as conseqüências funestas que aos administrados ou como tais considerados, traz o desrespeito das Autoridades aos direitos destes; e com tal proceder aos seus próprios direitos: - A descrença das mais sábias instituições, em vez de só a terem nesta ou naquela autoridade que as não cumpre, nem faz cumprir! - A luta do mais forte contra o mais fraco! Finalmente, - a destruição em vez da edificação! O regresso, em vez do progresso!

FIM DA COMÉDIA

Porto Alegre, maio 12 de 1866.

Beco do Rosário, sobrado de 3 janelas, nº 21.

PELO RIO-GRANDENSE -

JOSÉ JOAQUIM DE CAMPOS LEÃO, QORPO-SANTO; AOS 37 ANOS DE IDADE.



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AS RELAÇÕES NATURAIS - Qorpo Santo

comédia em quatro atos

PERSONAGENS

Impertinente

Consoladora

INTÉRPRETA

Júlia,

Marca e

Mildona - mulheres da vida

Um indivíduo

Truquetruque

Mariposa

Inesperto, criado

Malherbe

Rapazes

ATO PRIMEIRO

Cena Primeira

IMPERTINENTE - Já estava admirado; e consultando a mim mesmo, já me parecia grande felicidade para esta freguesia o não dobrarem os si..... E para eu mesmo não ouvir os tristes sons do fúnebre bronze! Estava querendo sair a passeio; fazer uma visita; e já que a minha ingrata e nojenta imaginação tirou-me um jantar, pretendia ao menos conversar com quem m'o havia oferecido. Entretanto não sei se o farei! Não sei porém o que me inspirou continuar no mais improfícuo trabalho! Vou levantar-me; continuá-lo; e talvez escrever em um morto: talvez nesse por quem agora os ecos que inspiram pranto e dor despertam nos corações dos que os ouvem, a oração pela alma desse a cujos dias Deus pôs termo com a sua Onipotente voz ou vontade! E será esta a comédia em 4 atos, a que denominarei - As Relações Naturais.

(Levanta-se; aproxima-se de uma mesa; pega uma pena; molha em tinta; e começa a escrever:)

São hoje 14 de maio de 1866. Vivo na cidade de Porto Alegre, capital da Província de S. Pedro do Sul; e para muitos, - Império do Brasil... Já se vê pois que é isto uma verdadeira comédia! (Atirando com a pena, grita:) Leve o diabo esta vida de escritor! É melhor ser comediante! Estou só a escrever, a escrever; e sem nada ler; sem nada ver (muito zangado). Podendo estar em casa de alguma bela gozando, estou aqui me incomodando! Levem-me trinta milhões de diabos para o Céu da pureza, se eu pegar mais em pena antes de ter... Sim! Sim! Antes de ter numerosas moças com quem passe agradavelmente as horas que eu quiser. (Mais brabo ainda.) Irra! Irra! Com todos os diabos! Vivo qual burro de carga a trabalhar! A trabalhar! Sempre a me incomodar! E sem nada gozar! - Não quero mais! Não quero mais! E não quero mais! Já disse! Já disse! E hei de cumpri-lo! Cumpri-lo! Sim! Sim! Está dito! Aqui escrito (pondo a mão na testa); está feito; e dentro do peito! (Pondo a mão neste.) Vou portanto vestir-me, e sair para depois rir-me; e concluir este meu útil trabalho! (Caminha de um para outro lado; coça a cabeça; resmunga; toma tabaco ou rapé; e sai da sala para um quarto; veste-se; e sai o mais jocosamente que e possível.) Estava (ao aparecer) eu já ficando ansiado de tanto escrever, e por não ver a pessoa que ontem me dirigiu as mais afetuosas palavras! (Ao sair, encontra uma mulher ricamente vestida, chamada Consoladora.)

Cena Segunda

CONSOLADORA - Onde vai, meu caro Sr.? Não lhe preveni eu de que hoje teria em seu palácio a mais bela das damas de São...

IMPERTINENTE - Ora, ora, Sra. Não vê que eu já estou aborrecido das mulheres! (À parte:) É preciso dizer-lhe o contrário do que penso! Como a sra. se abalança ainda a falar em damas na minha presença!? Só se são damas de folgar... São?

CONSOLADORA (mostrando-se indignada, e batendo um pé no assoalho) Bárbaro! Cruel! Não vives a pedir uma mulher jovem, formosa, asseada e bela para tua companhia?! Pensas que ignoro o que pensas; o que fazes!? Não vês; não sabes; não conheces que sou mágica!? Atrevido! Não te lembras que ainda ontem ou anteontem olhaste para mim, e achaste que eu era no Céu o mais lindo, o mais belo e mais agradável planeta que lá habitava? Não me pediste que eu guiasse teus passos; tuas ações; tuas palavras, Audaz! Pensas que eu não sei que ias atrás de mulheres! Para que queres mulher!? Não vives tão bem, não comes, não bebes, não dormes tão descansado?!

IMPERTINENTE - (virando-se para o público) Já se viu que sarna gálica me atormenta! Cruzes! (Benzendo-a.) Cruzes! Eu te desconjuro!

CONSOLADORA - Já disse: o Sr. não sai daqui! (Pega uma cadeira e põe perto da porta de sair.)

IMPERTINENTE - Senhora, se continua deste modo, fique certa que me mato! É preciso ter juízo! Ao contrário, nem serei eu, nem a Sra. minha!

CONSOLADORA - Ah! (levantando-se) Sim: quer ir! Pois vá; mas há de ir sem casaca! (Avança-se a ele, e tira-lhe a casaca; ficando ele de sobre-casaca).

IMPERTINENTE - Ah! Ainda deixa-me a sobrecasaca! Pois irei com ela (Faz uma cortesia a ela e quer sair.)

CONSOLADORA - Sim! Ficou ainda vestido! Pois há de ir sem chapéu. (Avança-se a ele para o tirar; e depois de alguns saltos, consegue fazê-lo; fica-lhe um boné de forma piramidal. Olha, e diz:) Este homem é o diabo! Tiro-lhe as calças... (Vai dirigir-se para tal fim; ele agarra com uma mão em cada perna; e sai aos pulos dizendo:) Se és planeta, eu sou cometa!

CONSOLADORA - (muito triste) E não foi o tal cometa brilhar noutro hemisfério! Nunca mais atendo às petições de amparo, guia, ou proteção a mais cometa algum.

Cena Terceira

(Entra ele com uma menina de 16 anos a quem conhecemos por Intérpreta pelo braço.)

IMPERTINENTE - (para ela, ao transpor a porta) Cuidado! Não se pise nestes tapetes, que já estão um tanto velhos! (Para o público, andando para a frente:) Já se vê que a escolha que fiz hoje, e que pretendo fazer de uma em cada mês, é a... (Para ela:) Digo? Digo?

INTÉRPRETA - Se quiser, pode dizer!

IMPERTINENTE - É uma das melhores que se podia encontrar nos maiores rebanhos desta...

INTÉRPRETA - Pois chama rebanhos às famílias que habitam esta cidade!?

IMPERTINENTE - Pois o que é mais triste que um grande rebanho de ovelhas merinas!?

INTÉRPRETA - Eu sempre considerei de outro modo: sempre entendo que a mulher como o homem é um ente que deve ser por todos respeitado, como a segunda primorosa obra do Criador; e que assim não sendo, só milhares de males e transtornos se observarão na marcha geral da humanidade!

IMPERTINENTE - Há! Há! Há! A menina está no mundo da lua! Ainda crê nas caraminholas que lhe encaixam na cabeça, de seu avô torto, visto que segundo as últimas participações espirituais que tivemos, o direito há muito que é morto!

INTERPRETA - (à parte) Em que caí eu, acompanhando este mono! Isto, é um monte de carne, sem lei, sem moral, sem religião! Mas ainda é tempo! Quando menos pensar, desapareço de sua presença, como a escuridão ao brilhar da lua! Não me logras, velho enjoado!

IMPERTINENTE - (para ela) Minha queridinha! Temos aqui um quarto cheio de roupa! (Apontando) Ali um outro repleto de comestíveis! Acolá um guarda-louça; naquele canto a cozinha.

INTERPRETA - (aproximando-se; olha; e nada vê; voltando-se para ele) Sabes que mais? Eu nunca me sustentei de palavras, e muito menos de mentiras! (Sai.)

IMPERTINENTE - (querendo pegÁ-la) Meu anjo! Minha deusa! Aonde vai! Venha cá!

INTERPRETA - Já lhe disse: vou-me embora; e aqui não entro mais; o Sr. enganou-me: quis enganar-me; mas enganou~e a si próprio! (Sai)

IMPERTINENTE - (voltando-se) É a trigésima, vigésima e décima vez que me prega estes carões! Diabo! Diabo! e Diabo!

ATO SEGUNDO

Cena Primeira

TRUQUETRUQUE - (batendo em uma porta) Estará ou não em casa? A porta está fechada não vejo (vigia no buraco da chave) se é por dentro se é por fora que está a chave; o caso é (dando com a cabeça), e verdadeiro, que a Sra. D. Gertrudes Guiomar da Costa Cabral Mota e MeIo, se está é às escuras! Sem dúvida a esta hora, noite de teatro, noite de retreta, noite de novena, não é possível deixar de ter ido a alguns destes divertimentos: se à Igreja, já se sabe - por devoção! Se ao Templo, por oração! E finalmente, se... não digo (Caminhando para o centro). Para que hei de mostrar (abrindo os braços) que sou um grande dialeta, retórico, filósofo! Etc. Etc. Pode ser que ficassem depois com inveja; e em vez de alimento para eu continuar a brilhar com o meu grande talento a todo o momento, darem-me envenenamento! Com o qual eu, muito contra a minha vontade e vontade santíssima! possa ir fazer a viagem... eterna ao fundo de algum dos maiores infernos que lá por baixo da terra devem existir! Ainda se me metessem aqui, e eu saíra lá no ponto oposto onde habitam os nossos... também não sei se são nossos, ou se são só meus! (Para o público:) Como chamam estes cujos pés fazem... quando estão lá em pé têm as solas dos sapatos, se não andam de botas, voltadas para a sala dos nossos? Hein? Anfíbios, não! Isto é cousa que anda no mar, e em terra! Hermafroditos! não; isto também é outra cousa, é o que é macho e fêmea! Cabrito não é. Não me posso lembrar. Enfim dizia eu que se lá fosse habitar quando entre na terra com esses cujos pés estão virados para os nossos, que teria muito prazer; mas como é de supor que a minha habitação por envenenamento seja a mais completa e trivial destruição - declaro que não aceito, que não quero; que não concordo!

Cena Segunda

Abre-se de repente uma porta; aparecem por ela, e por diversas outras, três ou quatro mulheres, umas em saias, outras com os cabelos desgrenhados; pés no chão, etc.

UMA DELAS - (para um indivíduo) - Que quer o Sr. aqui?

OUTRA - (puxando-o por um braço) O que faz?

OUTRA - Quem o mandou cá?

OUTRA - Não sabe que sempre foi um homem honesto quanto a... e que nós somos todas prostitutas!? É um tolo! Safe-se daqui para fora, Sr. maroto! Senão, olhe (mostrando-lhe o punho) - havemos de esmurrá-lo com esta mão de pilão!

ELE - Minhas santinhas; (com muita humildade) minhas santinhas, eu queria dormir com vocês esta noite.

ELAS - (dando uma grande gargalhada) Ah! ah! ah!

UMA (para outra) Não queres ver, Mana, o desaforo, a petulância deste estúrdio!? Querer passar conosco a noite, quando nós sabemos que ele é conde e tem filhos carnais!

OUTRA - Ah! ah! ah! Se fossem só os carnais era nada (batendo no ombro da que primeiro fala) - os espirituais é que é; que não têm conta.

OUTRA - Ele já está esquecido que os discípulos o fizeram padre eterno; e que por isso não deve tocar em carne.

OUTRA - (apontando com o mostrador) Já, seu maroto, rua! senão...

ELE - Isto é o diabo! Estas mulheres chamam-me com o espírito quando estou em casa; e quando saio à rua, com as palavras, com as mãos, com os dedos, com a cabeça, com os olhos, e se as encontro fora, então é até com seus remexidos! Mas se lhes venho à casa, é isto que se vê! Cruzes! (Cuspindo em todas elas.) Abrenúncio! Eu as desconjuro para nunca mais as ver! Não olharei mais para estas tigras! (Sai.)

:

Cena Terceira

UMA DELAS - (Olhando-se) Ora; ora; ainda agora é que reparo! Estou quase em fraldas de camisa! Vejam este maluco como me pôs também maluca!

OUTRA - (alisando os cabelos) E eu com os cabelos todos desgrenhados! Se ele cair em vir cá outra vez, hei de enforcá-lo com uma destas tranças, e pendurá-lo no vácuo deste salão.

OUTRA - E que bonito ele há de ficar, mana, se qual lontra aqui o pusermos! Havemos de enche-lo de livros; será... - um centro! Como um sol que dardejará seus raios para todos os cantos desta casa, para todos os cantos do hemisfério que alumia!

OUTRA - Mas isto é dar muita importância a esse Judas, fazê-lo centro de tudo.

AS PRIMEIRAS - O que tem? Esse diabo já o tem sido de luz espiritual, agora que o seja também de luz material!

UMA DELAS - Sabem o que mais? - Vamos vestirmo-nos e pôr-mo-nos às janelas à espera de vermos os nossos namorados!

TODAS - Apoiado! Não percamos nossos costumes por causa de um maluco! Vamos! Vamos! (Entram todas para os quartos d'onde saíram.)

Cena Quarta

VELHA MARIPOSA - (entrando toda cheia de dengosidade, pegando os vestidos como quem quer dançar, e comete outros numerosos atos, que indicam a pregoeira gaiata da presente época) Ainda há cinco minutos, era esta sala um teatro de moças quase nuas! Acompanhadas de certo individuo de meia idade, que parece mais um velho bem doente, que um homem são, valente e cheio de... certa cousa... certa força que eu não quero dizer, porque não é tão decente como convém a tão ilustre assembléia! (Olhando para diversos lados.) Onde estão estas meninas? Júlia! Júlia!

JÚLIA - Sra.? Sra.?

MARIPOSA - Vem cá, menina! Chama as tuas irmãs!

JÚLIA - Ora, Mamãe; eu ainda não estou vestida!

MARIPOSA - Entra, chama uma das tuas Irmãs!

JÚLIA - Está bom, Mamãe; eu já vou.

MARIPOSA - Muito custa a criar filhas! Ainda mais acomodar; muito mais casar; e ainda pior aturá-las! Pilham-se moças, e o que querem é namorar!

JÚLIA - (entrando e sacudindo os vestidos) Acabava eu agora mesmo...

MARIPOSA - Já sei; acabas de... Basta; não prossigas! Tu és, eu sei o quê!

JÚLIA - (pondo as mãos) Por piedade, minha querida Mãe! Não faça de mim o menor mau juÍzo! Sabe que sempre fui uma de suas melhores filhas, obediente e respeitosa, e mais que tudo - amorosa!

MARCA - (irmã de Júlia, entrando mui ligeiramente, ou fazendo alguns passos de dança até chegar perto da Mãe; ao chegar, ajoelha-se, pega-lhe na mão e beija-a) Minha - mais que todas as mulheres, Querida Mãe! Eis-me prostrada a seus pés, para pedir-lhe perdão de quantos pecados hei cometido, ou guisados hei comido! Perdoa, Mamãezinha, perdoa, sim?

MARIPOSA - Sim; sim. Está perdoada; pode levantar-se. Mas não torne a cair em outra! Eu conheço seus crimes.

MARCA - (levantando-se) Sim; sim. Quanto sou feliz! A minha querida mãe quanto é boa! Ainda pela quinta vez quis perdoar à sua mais desobediente, cruel, ou mesmo - tirana filha!

MARCA - Eu não sei deles. Vossa Mercê bem sabe que moro sozinha no meu quarto; a mana é que há de saber!

MARIPOSA - Onde estão? Não me diz? Ainda não me vieram tomar a bênção, sendo entretanto mais de oito horas! (Entram os outros filhos.)

ELES - (estendendo as mãos) Sua bênção, minha Mãe.

MARIPOSA - (fazendo sinal com a mão) Deus abençoe a todos, que eu o faço em particular a cada um. Sim, meninas, são horas de missa; vamos cobrir nossos véus, e sigamos a orar ao Senhor - por nós e por nossos avós!

TODOS - Prontos a obedecê-la, a segui-la. (Saem todos).

ATO TERCEIRO

Cena Primeira

INESPERTO - (criado) Por mais que arrume (atirando com uma bota para um lado; com um livro para outro; com uma bandeja no chão; com um espanador para um canto; e assim com tudo o mais que se achava arrumado), sempre encontro esta sala, este quarto, ou como o quiserem chamar... câmara, dormitório, ou não sei que mais - desarrumado! Nada, nada, isto não pode continuar assim! Ou hei de deixar de ser criado desta casa, ou as cousas hão de conservar-se nos lugares em que eu arrumo! São honras que a ninguém eu cedo... O que porém é mais notável é que além de me não respeitarem, nem obedecerem - não pagam-me também nem a quinta parte dos salários comigo contratados! Mas nada me hão de ficar a dever! Quando retirar-me, hei de levar o dobro do que houver licitamente ganho, a fim de que paguem-me os prêmios, pois não estou resolvido a perdê-los!

Cena Segunda

MALHERBE - (amo muito espantado, entrando)

Que é isto, Judas!? Enlouqueceste-o, Inesperto? Onde está tua Ama?

INESPERTO - Qual enlouqueci... Todos os dias arrumo esta casa; e em todos os dias nela acho que arrumar; e ainda pergunta-me por minha ama, mulher feia, velha e má! Se há de ainda ir ver as moças, este tagarela, é isto todos os dias... Ainda coisa mais mol, mais ruim, que este meu amo (para o amo, dando com a mão): Vá-se embora daqui para fora, senão - o matam, seu Judeu Errante!

MALHERBE - Este diabo está hoje com o demo nas tripas!... Ó Judas, dize-me: o que comeste hoje? Bebeste vinho? champanha, vinagre, água-forte? Que diabo tens tu hoje? Estás bêbado?

INESPERTO - Qual bêbado, nem meio bêbado: nunca estive eu em meu tão perfeito estado de juízo ou de mais completa saúde!

MARIPOSA - (entrando) Ih!... que espalhafato fez o Judeu hoje! (Querendo arrumar tudo; para o marido:) Senhor, tome juízo; despeça esse maldito, que não faz senão o que está vendo! O Sr. parece-me cego. Embalde (metendo os dedos nos olhos do marido) tem dois fogões nesta cara; tu não enxergas.

MALHERBE - Tu, teu criado, e tuas filhas, não são entes da espécie humana. São malditas feras que aqui habitam para flagelar-me! (Para ambos:) Fora daqui! Se demoram pego em tudo isto (agarrando as mesas) e penduro quais rosários nas cabeças de vocês dois!.

MARIPOSA - (para o criado) Sabes o que convém fazer: é safarmo-nos! O homem hoje está resoluto a matar, ou

mostrar-nos que é Senhor desta casa.

INESPERTO - Diz bem, minh'ama; vamos nós saindo em boa paz! (Enfia o braço na ama.) É melhor - velha, feia, má, que nenhuma! (Abanando com a mão.) Adeus, Sr. estúrdio! Adeus, até mais ver! (Saem.)

Cena Terceira

MALHERBE - (só) 'Estes diabos têm tentado devorar-me por todos os modos! Mas eu os hei de pôr no estado o mais deplorável que se pode imaginar! Deixemos, deixemos; eles para cá hão de vir (dando alguns passeios, coçando a barba, compondo o cabelo etc.)

MILDONA - (entrando) Que saudades eu tinha de meu querido Pai!

MALHERBE - Ah! és tu, minha querida Mildona? Quanto é doce vermos feitos de nossos trabalhos de longos anos!? Um abraço, minha estimadÍssima, minha mesmo queridíssima filha!

MILDONA - O Sr. não reparou bem; eu não sou a sua encantadora filha; mas a jovem a quem o Sr. em vez de amizade, sempre há confessado tributar amor!

MALHERBE - Ah! onde estava eu!? Sonhava; pensava em ti; via, e não te enxergava! Sim, sois minha; és minha; e serás sempre minha por todos os séculos dos séculos, Amém! (Saem.)

Cena Quarta

O CRIADO - (entrando, pé-ante-pé) Amolei tudo! Não pensem que farão espadas, facas, punhais, ou lanças! Mas os amáveis que desprezando todos os direitos dos cidadãos brasileiros, matavam e roubavam a seu belo prazer! O tal meu amo entendia que cada botina que comprava, e que calçava, era uma mulher que condenava ao matadouro dos seus desejos! E a tal minha ama procedia do mesmo modo quanto ao xales que a cobria; dizia (pegando, e pondo um xale:) isto é masculino, está portanto relacionado com um homem; é novo; e por isso, assim como eu me cubro com ele, também há de me cobrir esta noite um bom moço! E assim é que não havia Pai, nem filho; Mãe ou filha que pudesse, nem por cinco minutos, ter descanso e tranqÜilidade em suas habitações!

MALHERBE - (entrando de bengala) Ah! ainda estás aqui! Toma! (Dá-lhe com a bengala até que sai disparando por uma das portas, gritando:) Não quero mais servi-lo! Não quero! Não quero! já disse.

Cena Quinta

(A moça [Mildona] sai do quarto; e entra apressadamente na sala; para o amigo:)

Que é isto, que é isto, Sr.? Que é isto...! Entrou aqui algum ladrão! Algum assassino! O Sr., de bengala, gritando e dando pancada!

MALHERBE (muito terno) Não é cousa alguma, menina; foi apenas uma lição que quis dar a este mariola, que tem o título de meu criado: quis fazer-se de amo! Agora porém que já lecionei, podemos gozar tranqüilos de uma existência feliz! (Dão dois ou três passeios pela sala, e sentam-se em um sofá; conversam sobre várias cousas; ouvem bater; levanta-se a moça; vai à porta, e foge espavorida; entra assim para um dos quartos. Levanta-se ele cheio de espanto; chega também à porta, dá um grito de dor, diz:) São eles! São eles! São eles! (Cai desfalecido, e assim termina o segundo ato. Milhares de luzes descem e ocupam o espaço do cenário.)

ATO QUARTO

Cena Primeira

Tudo corre; tudo grita (mulher; filhos; marido; criado, que por um dia foi amo do amo).

Incêndio! Incêndio! Incêndio! Venham bombas! Venha água! (É um labirinto, que ninguém se entende, mas o fogo, a fumaça que se observa, não passa, ou o incêndio não real, mas aparente).

Pegam em barris dágua, em canecas e outros vasos; e todos atiram água para o ar; chega uma bomba pequena, e com ela também atiram água, por espaço de alguns minutos; mas o incêndio parece lavrar com mais força até que se extingue ou desaparece.

MALHERBE - (depois de todos tranqüilos) Sempre a desordem nas casas sem ordem! Sempre as perdas; os desgostos; os incômodos de todas as espécies! Santo Deus! por que não crucificais aqueles que desrespeitam vossos santos preceitos!? Mas, que digo? Se continuo, estas mulheres são capazes de pendurar-me naquela travessa, e aqui deixarem-me exposto, por não querer acompanhá-las em seus modos de pensar e de julgar! O melhor é retirar-me! Vou descansar por alguns minutos. (Sai.)

Cena Segunda

ELAS - (umas para as outras) Preparemo-nos para pregar um susto neste mariola! Já que ele não quer obedecer aos nossos chamados espirituais, e aos das outras mulheres; já que é preguiçoso, vaidoso, ou orgulhoso; ao menos preguemos-lhe um susto!

TODAS - Apoiado! Apoiadíssimo! Ou ele há de ser obediente às Leis, ou havemos de enforcá-lo, ainda que seja só por alguns momentos e divertimento! Deixemos ele vir. (Preparam uma corda; e tudo o mais que as pode auxiliar para tal fim; conversam sobre os resultados e conseqüências de sua empresa, e o que farão depois; entretanto entra o criado com ele em figura forte de papelão, abraçado para poder acompanhá-lo; e é esta a 3.ª Cena.). Cumprimentam-se todos muito alegremente; e conversam.

UMA DELAS - (para o criado) Ora muito bem! Já se vê quanto é bom viver conforme as relações naturais. Eu gosto de mingau de araruta ou de sagu, por exemplo - como; e porque está relacionado com certo jovem a quem amo; ele aqui me aparece, e eu o gozo! Já se vê pois que, vivendo conforme elas, é em duplicata!

OUTRA - É verdade, mana; eu, como a comida de que mais gosto é coco; e porque este se relaciona com certo amigo de meu Pai, ele aqui também virá, e o meu prazer não será só de paladar, mas também aquele que provém do amar!

OUTRA - Pois eu, como o que mais aprecio é chocolate, bebê-lo-ei, bebê-lo-ei; e por idênticas razões gozarei dele e de quem não quero dizer! Mas o diabo é que assim ficam sem cousa alguma!

MARIPOSA - Pois eu, como gosto muito do meu criado, e ele é mel de abelha, já se sabe o que eu de hoje em diante hei de sempre comer ou beber! (Para o marido de papelão:) E o Sr., Sr. Tralhão, que não quis acompanhar-nos nas relações naturais, importando-se sempre com direitos; não vendo que o próprio direito autoriza, dizendo que cada um pode viver como quiser e com quem quiser; há de ficar aqui pendurado para eterna glória das mulheres, e exemplo final dos homens malcriados! Contamos (para o criado) com teu auxílio.

INESPERTO - Não precisamos ter trabalho, porque ele está dormindo, com certa flor que lhe dei a cheirar!

ELAS - Oh! então melhor! Venham as cordas! (Para o criado:) Vê uma escada; trepa lá; sobe naquela trave; leva esta corda, que nós cá o amarremos pelo pescoço, e depois tu o sungas.

INESPERTO - Sim; mas como diabo há de ser! Ah! é preciso a Sra. pegar nele para não cair.

MARIPOSA - Eu seguro!

INESPERTO - (pega a escada, põe em lugar próprio, sobe, levando a corda, e depois desce.) (À parte:) Estas mulheres não vêem que não se pode ainda andar com as relações naturais; que se umas querem, outras não querem; que se umas podem, outras não podem; que... enfim, são o diabo! Mas elas agora vão conhecer que eu sou homem, e que por isso mesmo hei de defender e amparar aqueles a quem elas quiserem crucificar! (Amarra a corda ao pescoço da figura; e diz:) Está bem atada! Agora vou sungá-lo! (Sobe a escada, monta na trave, e puxando:) Pesa como o diabo! Não terá dez arrobas? Mas quinze eu juro que pesa! Irra! (Puxando.) Irra! Arriba! Agora, agora já está seguro!

ELAS - (umas para as outras) Há de ficar pendurado! Ah! ah! ah! Há de, há de! (Batem palmas.) Que triunfo! Viva! Viva! Agora, maninha; já enforcamos este, havemos de enforcar também certo grilo; e andar com as relações à vontade dos corações!

TODAS - Apoiado! Apoiado! Enforquemos tudo quanto é autoridade que nos quer estorvar de gozar, como se estivéssemos em um paraíso terreal!

INESPERTO - (depois de haver prendido o corpo da figura na trave) Pois não! Não vê que meu amo havia de ser enforcado, para as Sras. fazerem quando quisessem! Boas! Lá vai bola! Relações, metralha (Arranca um braço, atira numa delas.)

MARCA - Ah! traidor! (Encolhe-se.)

INESPERTO - Lá vai um estilhaço. Toma relação! (Atira outro braço noutra).

JÚLIA - Bárbaro! Louco!

INESPERTO - Mais outro! (Arranca a cabeça, ou o chapéu, e atira em outra, dizendo:) Querem mais!? Se quiserem, venham buscar cá em cima, que eu vou juntar-me ao meu muito respeitável amo. (Levanta-se em cima da trave, e sai ou desaparece.)

ELAS - (uma para as outras a enxugarem os olhos:) Que tirano! Que cruel! Que bárbaro! Que assassino! De modo que assim sendo, se pode ainda hoje fazer... Cantemos todas;

1.º

- Não nos meteremos

Mais com relações;

Maridos procuremos;

Pois temos corações!

2.º

A nenhum mais tentaremos

Destruir seus sentimentos!

A um só nós serviremos,

P'ra não ter duros tormentos!

3.º

Com nenhum nos contentarmos,

Ou a todos não querermos;

É assim querer matar-nos,

Pondo todos quase enfermos.

4.º

Tenhamos pois juÍzo!

Cada qual com seu esposo!

Se não, não há paraíso!

Tudo inferno! - nenhum gozo!

5.º

Para comermos;

Para bebermos,

Não precisamos

De certos dramas!

6.º

De andar,

Sempre a matar,

Os corações

Com as relações!

7.º

Os que só querem

(Que desesperem!)

Por relações

São veros ladrões!

8.º

Basta o trabalho,

Certo, não falho;

Para vivermos;

E mil gozos termos.

Fim do 4.º ato, e da comédia escrita em 14 de maio de 1866, por José Joaquim de Campos Leão, Qorpo-Santo, em a cidade de Porto Alegre, sala n.º 21, no Beco do Rosário.








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SOUSÂNDRADE

Joaquim de Sousa Andrade

(Vila dos Guimarães, atual Guimarães MA, 1833 - São Luís MA, 1902)

Formou-se em Letras pela Sorbonne e em Engenharia de Minas, em Paris (França), entre 1853 e 1857. Publicou seu primeiro livro de poesia, Harpas Selvagens, em 1857. Viajou por vários países até fixar-se nos Estados Unidos, onde publicou a obra poética O Guesa, sucessivamente ampliada e corrigida nos anos seguintes. No período de 1871 a 1879 foi secretário e colaborador do periódico O Novo Mundo, dirigido por José Carlos Rodrigues em Nova York (EUA). Republicano, em 1890 foi presidente da Intendência Municipal de São Luís MA. Realizou a reforma do ensino, fundou escolas mistas e idealizou a bandeira do Estado. Foi candidato a senador, em 1890, mas desistiu antes da eleição. No mesmo ano foi presidente da Comissão de preparação do projeto da Constituição Maranhense. Lecionou Língua Grega no Liceu Maranhense, também em 1890. Sua obra poética inclui ainda Harpa de Oiro, 1889/1899, publicado postumamente, em 1969, e Inéditos, publicado em 1970. Sobre sua poesia, o poeta Augusto de Campos afirmou: "no quadro do Romantismo brasileiro, mais ou menos à altura da denominada 2ª geração romântica (conceito cronológico), passou clandestino um terremoto. Joaquim de Sousa Andrade, ou Sousândrade, como o poeta preferia que o chamassem, agitando assim, já na bizarria do nome, aglutinado e acentuado na esdrúxula, uma bandeira de guerra." Foi um poeta extremamente inovador para seu tempo, cuja obra apenas recentemente passou a ser estudada.

O Guesa
Canto Primeiro

Eia, imaginação divina!
Os Andes
Vulcânicos elevam cumes calvos,
Circundados de gelos, mudos, alvos,
Nuvens flutuando -- que espetac'los grandes!

Lá, onde o ponto do condor negreja,
Cintilando no espaço como brilhos
D'olhos, e cai a prumo sobre os filhos
Do lhama descuidado; onde lampeja

Da tempestade o raio; onde deserto,
O azul sertão, formoso e deslumbrante,
Arde do sol o incêndio, delirante
Coração vivo em céu profundo aberto!

.............................................

"Nos áureos tempos, nos jardins da América
Infante adoração dobrando a crença
Ante o belo sinal, nuvem ibérica
Em sua noite a envolveu ruidosa e densa.

"Cândidos Incas! Quando já campeiam
Os heróis vencedores do inocente
Índio nu; quando os templos s'incendeiam,
Já sem virgens, sem ouro reluzente,

"Sem as sombras dos reis filhos de Manco,
Viu-se... (que tinham feito? e pouco havia
A fazer-se...) num leito puro e branco
A corrupção, que os braços estendia!

"E da existência meiga, afortunada,
O róseo fio nesse albor ameno
Foi destruído. Como ensanguentada
A terra fez sorrir ao céu sereno!

"Foi tal a maldição dos que caídos
Morderam dessa mãe querida o seio,
A contrair-se aos beijos, denegridos,
O desespero se imprimi-los veio, --

"Que ressentiu-se, verdejante e válido,
O floripôndio em flor; e quando o vento
Mugindo estorce-o doloroso, pálido,
Gemidos se ouvem no amplo firmamento!

"E o Sol, que resplandece na montanha
As noivas não encontra, não se abraçam
No puro amor; e os fanfarrões d'Espanha,
Em sangue edêneo os pés lavando, passam.

"Caiu a noite da nação formosa;
Cervais romperam por nevado armento,
Quando com a ave a corte deliciosa
Festejava o purpúreo nascimento."

Assim volvia o olhar o Guesa Errante
Às meneadas cimas qual altares
Do gênio pátrio, que a ficar distante
S`eleva a alma beijando-o além dos ares.

E enfraquecido coração, perdoa
Pungentes males que lhe estão dos seus --
Talvez feridas setas abençoa
Na hora saudosa, murmurando adeus.

* * *

Canto Segundo

Opalescem os céus -- clarões de prata --
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio --
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)

Canto Segundo

-O Tatuturema

(MUXURANA, histórica:)

-- Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.

(...)

(Coro dos Índios:)

-- Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.

(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)

-- Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
-- Maranduba, abaré!...

(...)

(Alvissareiras no areial:)

-- Aos céus sobem estrelas,
Tupã-Caramuru!
É Lindóia, Moema
Coema,
É a Paraguaçu;

-- Sobem céus as estrelas,
Do festim rosicler!
Idalinas, Verbenas
De Atenas,
Corações de mulher;

-- Moreninhas, Consuelos,
Olho-azul Marabás,
Palidez Juvenílias,
Marílias
Sem Gonzaga Tomás!

(...)

(Netuno:)

-- Os poetas plagiam,
Desde rei Salomão:
Se Deus cria -- procriam,
Transcriam --
Mafamed e Sultão

(...)

(Cunhãmas e Cunhãtans:)

-- Lamartine é sagrado?
-- Se não tem maracás,
Ô, ô, ô! -- vibram arcos
Macacos,
Tatus-Tupinambás.

(...)

Canto terceiro


As balseiras na luz resplandeciam --
oh! que formoso dia de verão!
Dragão dos mares, -- na asa lhe rugiam
Vagas, no bojo indômito vulcão!
Sombrio, no convés, o Guesa errante
De um para outro lado passeava
Mudo, inquieto, rápido, inconstante,
E em desalinho o manto que trajava.
A fronte mais que nunca aflita, branca
E pálida, os cabelos em desordem,
Qual o que sonhos alta noite espanca,
"Acordem, olhos meus, dizia, acordem!"
E de través, espavorido olhando
Com olhos chamejantes da loucura,
Propendia p'ra as bordas, se alegrando
Ante a espuma que rindo-se murmura:
Sorrindo, qual quem da onda cristalina
Pressentia surgirem louras filhas;
Fitando olhos no sol, que já s'inclina,
E rindo, rindo ao perpassar das ilhas.
-- Está ele assombrado?... Porém, certo
Dentro lhe idéia vária tumultua:
Fala de aparições que há no deserto,
Sobre as lagoas ao clarão da lua.

Imagens do ar, suaves, flutuantes,
Ou deliradas, do alcantil sonoro,
Cria nossa alma; imagens arrogantes,
Ou qual aquela, que há de riso e choro:
Uma imagem fatal (para o ocidente,
Para os campos formosos d'áureas gemas,
O sol, cingida a fronte de diademas,
índio e belo atravessa lentamente):
Estrela de carvão, astro apagado
Prende-se mal seguro, vivo e cego,
Na abóbada dos céus, -- negro morcego
Estende as asas no ar equilibrado.

Canto Quinto

Noite. Está reclinado o Guesa Errante,
Olhando, -- as grandes selvas se aclararam
À fogueira que acesa foi distante...
-- Gritam das ruínas! as soidões gritaram!

E luzente na noite, para as chamas
Voa longo sibilo, serpentinos,
No ar desatando laços repentinos,
Fósfor nas bruno-lúcidas escamas,

E à fogueira lançou-se, do ar alado,
Surucucu-de-fogo! -- árido ouvidos
Eram crebos funestos estalidos
Dos seus dúcteis anéis, o incêndio ateado!

Oh! quanto a chama e a cobra, tormentosas,
Uma à outra envolviam-se raivando
Por mútua antipatia! e mais lutando,
Mais, deslocando-se achas resinosas,

Em labareda as chamas se laceram,
Que ao meio delas, rúbida, convulsa,
S'esmalta a cobra e relampeia e pulsa,
Desdobrada espiral! -- Emudeceram

Do Guesa os servos, que dispersos foram
E brandando e bradando amedrontados;
Grupam-se ao longo; enquanto os apagados
Incêndios vêem braseiros que descoram.

Mas, desondeando pela terra o açoite,
A cobra, em todo o orgulho de serpente,
Alça o colo; e ciciando, e lentamente,
O Guesa a vê passar través da noite;

E luminosa e qual se então se houvesse,
Vencidas chamas, acendido nelas,
Traço de luz, lhe nota as malhas belas
Do vermelhão, que às iras resplandece.

Ora apagou-se; e dum brunido umbrio,
Penetrou das ruínas na caverna:
Lá, viva tocha o crânio, vela eterna;
Os viandantes a vêem -- quem nunca a viu?

Umbrosa e tarda, à do silêncio guarda,
Oh! paz e amor ao gênio bom dos lares,
Que a luz ofende, que importuna acende
Pródigo filho, a dor destes lugares!

E esta Equidade eterna, que aos céus dera
O raio serpentino, deu à terra
A serpente radiante -- açoite e açoite,
Ou relâmpago, ou ação fugaz da noite.

A dor foi longa, viu-se a pausa que houve --
E continua a Guesa, tristemente
A fronte a alevantar, que tão pendente
Taciturna caía --
...........................................

Canto Décimo

-O Inferno de Wall Street

(O GUESA, tendo atravessado as ANTILHAS, crê-se livre dos
XEQUES e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos
desertos:)

1
-- Orfeu, Dante, Enéias, ao inferno
Desceram, o Inca há de subir...
-- Ogni sp'ranza lasciate,
Che entrate...
-- Swedenborg, há mundo porvir?
2
(Xeques surgindo risonhos e disfarçados em Railroad-
managers, Stockjobbers, Pimpbrokers, etc., etc.,
apregoando:)

-- Harlem! Erie! Central! Pennsylvania!
-- Milhão! cem milhões!! mil milhões!!!
-- Young é Grant! Jackson.
Atkinson!
Vanderbilts, Jay Goulds, anões!

3
(A Voz mal ouvida dentre a trovoada:)

-- Fulton's Folly, Codezo's Forgery...
Fraude é o clamor da nação!
Não entendem odes
Railroads;
Paralela Wall-Street à Chattám...

4
(Corretores continuando:)

-- Pigmeus, Brown Brothers! Bennett! Stewart!
Rotschild e o ruivalho d'Astor!!
-- Gigantes, escravos
Se os cravos
Jorram luz, se finda-se a dor!...

5
(Norris, Attorney; Codezo, inventor; Young; Esq.,
manager; Atkinson, agent; Armstrong, agent; Rodhes,
agent; P. Offman & Voldo, agents; algazarra, miragem; ao
meio, o GUESA:)

-- Dois! três! cinco mil! se jogardes,
Senhor, tereis cinco milhões!
-- Ganhou! ha! haa! haaa!
-- Hurrah! ah!...
-- Sumiram... seriam ladrões?...
(...)

22

(Hino de Sankey chegando pelo telefono a Steinway Hall:)

-O Lord! God! Almighty Policeman!

O mundo é ladrão, beberrão,

Burglar e o vil vândalo

Escândalo

Freevole... e 'í vem tudo ao sermão!

(...)
50
(Comissários em Filadélfia expondo a CARIOCA
de PEDRO AMÉRICO, QUAKERS admirados:)

-- Antedilúvio 'plesiosaurus,'
Indústria nossa na Exposição...
-- Oh Ponza! que coxas!
Que trouxas!
De azul vidro é o sol patagão!
(...)

73

(Fletcher historiando com chaves de São Pedro e pedras de São Paulo:)

-Brasil é braseiro de rosas;

A União, estados de amor:

Floral... sub espinhos

Daninhos;

Espinhal... sub flor e mais flor.

(...)

106

(Procissão internacional, povo de Israel, Orangianos, Fenianos,

Budas, Mórmons, Comunistas, Niilistas, Farricocos,

Rail-road-Strikers, All-brokers, All-jobbers, All-saints,

All-devils, lanternas, música, sensação; Reporters:

Passa em London o 'assassino' da Rainha e

Em Paris 'Lot' o fugitivo de Sodoma:)

-No Espírito-Santo d'escravos

Há somente um Imperador;

No dos livres, verso

Reverso,

É tudo coroado Senhor!

(...)

176

(Magnético handle-organ; ring d'ursos sentenciando à pena-última

o arquiteto da farsália; Odisseu fantasma nas chamas

dos incêndios d'Albion:)

-Bear,,, Bear é ber'beri, Bear... Bear...

=Mammumma, mammumma, Mammão!

-Bear... Bear... ber'... Pegásus...

Parnasus

=Mammumma, mammumma, Mammão.

Harpa XXIV

- O Inverno

(...)

Salve! felicidade melancólica,
Doce estação da sombra e dos amores-
Eu amo o inverno do equador brilhante!
A terra me parece mais sensível.
Aqui as virgens não se despem negras
À voz do outono desdenhoso e déspota,
Ai delas fossem irmãs, filhas dos homens!
Aqui dos montes não nos foge o trono
Dessas aves perdidas, nem do prado
Desaparece a flor. A cobra mansa,
Cor d'azougue, tardia, umbrosa e dúctil,
No marfim do caminho endurecido
Serpenteia, como onda de cabelos

Da formosura no ombro. À noite a lua,
Qual minha amante d'inocente riso,
Co'a face branca assenta-se nas palmas
Da montanha estendendo os seus candores,
Mãe da poesia, solitária, errante:
O sol nem queima o céu como os desertos,
Simpáticas manhãs é sempre o dia.

Geme às canções d'aldeia apaixonadas
Mui saudoso violão: as vozes cantam
Com náutico e celeste modulado.
Chama às tácitas asas o silêncio
Ao repouso, aos amores: as torrentes
Prolongam uma saudade que medita:
Vaga contemplação descora um pouco
O adolescente e o velho: doce e triste
Eu vejo o meu sentir a natureza
Respirar do equador, selvagem bela
De olhos alados de viver, à sombra
Adormecendo d'árvore espaçosa.

(...)

Harpa XXVI

- Fragmentos do Mar

(...)

Meneia a larga cauda e as barbatanas
Limoso leviatã cheio de conchas
Com dorso de rochedo que ondas cercam;
Cristalinos pendões planta nas ventas,
De brilhantes vapores, que em bandeiras
Íris enrolam de formosa sombra.
Negra fragata lá circula as asas
Sobre a nuvem dos peixes voadores.
Agora rompe a nau lençóis infindos
Que o mar tépido choca, e vindo a aurora
Já salta a criação d'escamas belas.

(...)

Harpa XXXII

Dos rubros flancos do redondo oceano
Com suas asas de luz prendendo a terra
O sol eu vi nascer, jovem formoso
Desordenando pelos ombros de ouro
A perfumada luminosa coma,
Nas faces de um calor que amor acende
Sorriso de coral deixava errante.
Em torno a mim não tragas os teus raios,
Suspende, sol de fogo! tu, que outrora
Em cândidas canções eu te saudava
Nesta hora d'esperança, ergue-te e passa
Sem ouvir minha lira. Quando infante
Nos pés do laranjal adormecido,
Orvalhado das flores que choviam
Cheirosas dentre o ramo e a bela fruta,
Na terra de meus pais eu despertava,
Minhas irmãs sorrindo, e o canto e aromas,
E o sussurrar de rúbida mangueira --
Eram teus raios que primeiro vinham
Roçar-me as cordas do alaúde brando
Nos meus joelhos tímidos vagindo.
Ouviste, sol minha'alma tênue d'anos
Toda inocente e tua, como o arroio
Em pedras estendido, em seus soluços
Andando, como o fez a natureza:
De uma luz piedosa me cercavas
Aquecendo-me o peito e a fronte bela.
Inda apareces como antigamente,
Mas o mesmo eu não sou: hoje me encontras
À beira do meu túmulo assentado
Com a maldição nos lábios branquecidos,
Azedo o peito, resfriada cinza
Onde resvalas como em rocha lôbrega:
Escurece essa esfera, os raios quebra,
Apaga-te p'ra mim, que tu me cansas!
A flor que lá nos vales levantaste
Subindo o monte, já na terra inclina.

Eu vi caindo o sol: como relevos
Dos etéreos salões, nuvens bordaram
As cintas do horizonte, e nas paredes
Estátuas negras para mim voltadas,
Tristes sombras daquelas que morreram;
Logo depois de funerais cobriu-se
Toda amplidão do céu, que recolheu-me.
(...)

Harpa XXXIV

- Visões

(...) Eu despertava em meu delírio
Ante a realidade! a virgem morta,
Pálida e fria a reconheço, eu rujo!
E de homem ver-me, comecei chorar.
-- Quis seu corpo aquecer sobre o meu corpo;
Uni sua boca à minha, a voz lhe dando,
Que o túmulo não guarda. Em verdes folhas
Nua deitei-a, as mãos postas, e as tranças
Escorreram-lhe em torno. Dias, dias
Preso a seus pés levei a contemplá-la!
Grandes e abertos sobre mim ficaram
Seus olhos fixos e vidrados, longos
Como a meditação de uma sentença!

(...)
Eu vi! -- seu corpo transparente inchando;
Perderem-se os seus olhos nas suas faces;
Humor fétido escoa-se da carne,
Tão pura e fresca, tão cheirosa inda ontem,
Que ela amou apertar em mim, d'insonte
Frenética de amor, nervosa e trêmula!
Formosa ondulação das castas ancas,
Dos seios virginais, da alva cintura
Bela voluptuosa... disformou-se
Em repugnante, (quem a vira e amara!)
Em nojenta, esverdeada, monstruosa
Onda de podridão! Zumbiam moscas,
Famintos corvos sobre mim se atiram,
Recurvas unhas regaçando e abrindo
Negras asas e o bico, triunfantes
Soltando agouros! Eu a defendia
Da ave e do inseto, que irritados vêem-me.

(...)

(...) Eu quis limpá-la
Desses monstros horríveis, que a comiam
Diante mim! porém, tudo era imundícia,
Oh! quantas vezes me lancei sobre ela,
Julgando tudo amores, tudo encantos
Dela emanando em límpidos arroios!
Fujo de nojo... de piedade eu volto...
Depois, como as enchentes pluviais
Escoando, que os troncos já se amostram,
Seus ossos vão ficando descobertos.
Oh! mirrado eu fiquei do sofrimento,
De tanta dor curtir! E tu, ó Deus,
Que tudo acabas, sofrerás também?
Porque tão miseráveis nos fizeste,
Deus d'escárnio? teus filhos nós não somos...
Que sorte de alimento ou de deleite
Encontras na desgraça desumana?

Belo horror da existência -- formosura,
Filha da natureza engrandecida
No seu pecado e morte, meteoro
Enganoso da noite, flor vermelha
Em veneno banhada, mulher bela!
-- Tudo ali 'stá! -- ó mundo! mundo... mundo...

(...)
Embalde interroguei mudo cadáver,
E os ossos amarelos nem respondem!
Mas, aqui a mulher não é perjura:
Só lembrança de amor santo evapora --
A beleza se forma ao pensamento,
À saudade suas véstias se derramam.

(...)

Harpa XXXV

- Visões

..........................................
Mas, o rio que passa azul, vermelho,
Conforme a cor do céu, quem foi que o fez?
Quem é que do despenho alcantilado
Leva-o saudar os campos e esses vales?
E este vento que me açoita as faces
De condenado e arranca-me os cabelos?
E este coro florestal da terra,
Solene e cheio, como dos altares,
Vozes, órgãos, incenso todo o templo?
Este meu pensamento pressuroso
Rolando dentro em mim? este meu corpo
Ninho dessa ave de tão vastas asas?...
Quanto é sublime todo este universo!
Quem te negara o ser? -- quando houve tempo
Quando nada existiu, que tudo fez-se!
Mas, o infinito compreender não posso.
Donde saíste, Deus, onde vivias,
Rodeado do espaço? ele gerou-te
Por dominá-lo sol onipotente?
Mais ele fora. Não. Acaso o caos,
Revolvido incessante às tempestades,
Estalado em lascões, lavas brilhantes
Outras térreas, librando-se embaladas
Nas asas da atração fraterna entre elas,
Qual presas pelas mãos por não perderem-se,
Ordenou-se por si? ou fora acaso
A criação fatal, tudo se erguendo
Segundo as circunstâncias? Oh, inferno
Da obscura razão -- mofa, ludíbrio
Com que Deus pisa o homem! Um Deus fez tudo!
Um Deus... palavra abstrata, incompreensível...
Mas a sinto tão ampla, que me perde!
-- E então, quem aos mares suspendidos
A verdura defende, e que se atirem
Uns astros sobre os outros? Deus...um Deus
Ao sol dá cetro e luz, asas ao vento,
Leito às águas dormir, delírio ao homem
Quando queira abraçá-lo. Dorme o infante
Sob os pés de sua mãe, que ama e não sabe:
A natureza ao Criador se humilhe.
Não tenho alma infinita, porque é cega
À verdade imortal: visse ela o eterno --
Quanto eu amara! quanto -- Eu sou bastardo,
Não sei quem são meus pais... se amar não posso,
A existência me enfada: enjeito-a, e morro!

(...)

Elogio do Alexandrino

Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

Harpa de Ouro

1889-1899

República é Menina Bonita

Diamante Incorruptível

1

Entre os astros, sagrados montes

Feliz asilo da paixão:

Puros jardins, sonoras fontes,

E virginal um coração

Vibrando aos claros horizontes

E encantado à etérea soidão.

2

Quis ser em chegar, primeirinha:

Oh! A gentileza do lar!

A tudo dispor; pra onde vinha

Sem dizer e onde a s'encontrar

Fé, por sugestão que adivinha,

Alma que espera.

"Hei de, he de a(...)

3

"Doces miragens, adeus! Vejo

Na profundez do coração,

O interno oceano do desejo,

D'Heleura a ideal solidão:

Vos deixo a Deus. Deixai-me o beijo

Preço da livre sem senão:

4

"Doutra dona... oh, a inteligência

Dona... mas, cetim branco e flor!

'Menina e moça', áurea existência

Musa cívica a Musa-Amor!

Já fotografara-te o pensamento

Que um pensamento houve a transpor".

5

Das cinzas fênix renascida,

Arte divina a retratar

Anos treze - quão parecida!

Ela era; hei de noutra a encontrar

Helê que dos céus é descida,

Céus! A borboleta solar!

6

"A metamorfose sagrada

De jovem pátria e o cidadão

Oiro de lei, Virgínia honrada

Por todo o nobre coração:

Ditando diga: eu sou a amada,

A amante Luz, o Amor

e o Pão."









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Inocência - Visconde de Taunay

1 - O REGIONALISMO DE VISCONDE DE TAUNAY

Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras. Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil.

Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube conjugar as ca-racterísticas fundamentais da estética romântica com grande acuidade na construção de tipos e na descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas.

É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa.

2. O REGIONALISMO EM INOCÊNCIA:

1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de Inocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor.

2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas.

3. Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então.

4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no quarto", "é bom não se canhar as-sim", "sestiando", "Nhor-sim", "quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta.

5. Reforça-se uma das principais características do Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado amor, cuja impossibilidade de realização leva os protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência definitiva do amado.

6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão mato-grossensse, que são identificados desde elementos do vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem.

7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os sertanejos têm sobre as mulheres.
8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o homem por quem Inocência morre.


9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e infalível característica o homem é produto do meio ou seja, as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam.

10. Predomina a emoção sobre a razão, além da supervalorização do amor.


3. ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS

· INOCÊNCIA: Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história.

· MANECÃO: Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza.

· PEREIRA: Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador.

· TICO: Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar Inocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma.

· MEYER: Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito.

· PADRINHO: Aparece no romance com a desculpa de ajudar, mas não chega a tempo de sal-var Cirino, era a única pessoa que poderia ter feito algo para ajudar o casal de apaixonados.
5. RESUMO

O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Órfã de mãe desde o nascimento, Inocência é criada pelo pai, Pereira, um mineiro afetuoso, um sujeito conservador, durão, para quem os valores da palavra, da honra estão acima de tudo, até da felicidade da filha que ele ama.

Pereira decide casar Inocência com Manecão Doca, homem honrado, trabalha-dor, rude e que acumulou fortuna.

A história conta sobre Cirino, um prático de enfermagem que se apresentava como médico (curandeiro) que errava pelo sertão e acaba na casa de Pereira. Ele cura Inocência, filha deste, de malária e apaixona-se. Cirino foi o primeiro homem a despertar realmente as emoções do amor, criando nela uma grande perturbação íntima, pois estava prometida a Manecão. Aparece depois Meyer, um naturalista alemão, que viajava em busca de insetos, que após inocentemente elogiar a beleza de Inocência, passa a ser vigiado incessantemente por Pereira, dando oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com a moça.

Meyer fica por lá por que trazia uma carta de recomendação de Francisco (Chico) irmão de Pereira e sai mais tarde de volta a Saxônia para apresentar uma nova espécie de rara beleza que encontrou, à qual dá o nome de Papilio Innocentia (uma borboleta). Tinha também o anão Tico, espécie de cão de guarda de Inocência.

Com a partida de Meyer, as coisas se complicam, aumentando o medo de Inocência, que teme uma reação violenta do pai caso venha a saber do romance. A jovem instrui Cirino a procurar seu padrinho para que ele convença Pereira a concordar com o rompimento do compromisso com Manecão.

Inocência herdeira da teimosia do pai, não abre mão de seu amor, então comunica ao pai a intenção de não se casar, inventa que sonhou com a mãe e esta lhe disse que o casamento não deveria se realizar. A jovem quase consegue atingir seus objetivos, quando derruba sua história. Ela, não conheceu a mãe, portanto não sabia que ela tinha um sinal no rosto, então ela pede desculpas ao pai, que declara que prefere vê-la morta a vê-la desonrada.

Na ausência de Cirino, porém, o romance é descoberto através de Tico.

Enquanto Cirino está fora Inocência e Manecão, se encontram e ela se recusa a viver com ele. A suposta desonra leva Manecão a perseguir e matar Cirino, que morrendo encontra o padrinho de Inocência que vinha lhe ajudar. Inocência também morre, só que de tristeza em face da ausência definitiva do amado.

Resumo de Jussara Flores de Oliveira

Filme:




Ficha Técnica
Título Original: Inocência
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 115 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 1983
Estúdio: Embrafilme
Distribuição: Embrafilme
Direção: Walter Lima Jr.
Roteiro: Walter Lima Jr., baseado em romance do Visconde de Taunay
Produção: Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto
Música: Wagner Tiso
Fotografia: Pedro Farkas
Figurino: Diana Eichbauer
Edição: Raimundo Higino


Elenco
Édson Celulari (Cirino)
Fernanda Torres (Inocência)
Sebastião Vasconcelos (Martinho Pereira)
Fernando Torres (Cesário)
Rainer Rudolph (Meyer)
Ricardo Zambelli (Manecão)
Chico Diaz
Chica Xavier


Sinopse
No Brasil imperial, um médico itinerante (Édson Celulari) em suas andanças conhece uma moça acometida de malária (Fernanda Torres) por quem se apaixona, sendo correspondido. Entretanto, o pai da jovem a prometeu para um rico fazendeiro da região e não admite ter sua vontade contestada.






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A RETIRADA DA LAGUNA - VISCONDE DE TAUNAY

Para entender a "Retirada da Laguna"

Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoio às tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3.000 homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2.000 soldados, atingida pela fome e enfermidades.

Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista.

Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia.

As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.

Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas.

Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada.


Índice

CAPÍTULO I - Formação de um corpo de exército destinado a atuar, pelo norte, sobre o Alto Paraguai. Distâncias e dificuldades de organização
CAPÍTULO II - Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda a Nioac
CAPÍTULO III - Nioac. O coronel Carlos de Morais Camisão. O guia José Francisco Lopes
CAPÍTULO IV - Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho de guerra.
CAPÍTULO V - Reconhecimento. Rebate falso. Regresso de cativos escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!
CAPÍTULO VI - Em marcha. Formatura da coluna. À vista da fronteira
CAPÍTULO VII - Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupação da Machorra
CAPÍTULO VIII - Ocupação de Bela Vista. Devastações dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociações. Seu malogro. Tornam-se os víveres escassos. Marcha sobre Laguna.
CAPÍTULO IX - Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário. O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves. Surpresa e tomada de acampamento paraguaio da Laguna
CAPÍTULO X - Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuças e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamento a coluna
CAPÍTULO XI - Rebate falso. Últimas ilusões. O tenente Batista. Passagem do Apa. Volta ao território brasileiro.
CAPÍTULO XII - Ataque vigoroso do inimigo. Nós o repelimos, mas, com o fragor de combate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo de batalha. A preta Ana. O ferido paraguaio. Vão os víveres faltar
CAPÍTULO XIII - Deliberação sobre o caminho a seguirmos. Primeiro incêndio no campo
CAPÍTULO XIV - Continua a marcha. Temo o inimigo à frente. Novo sacrifício de bagagens. Faltam os víveres. Incêndios e temporais. Escaramuças incessantes
CAPÍTULO XV - Incerteza do rumo. Novo incêndio e novo ataque dos paraguaios. Penúria da coluna. Acertamos novamente com o caminho. Passagem do rio das Cruzes. Recomeça a marcha. Nova travessia do rio. Fome. As mulheres da coluna
CAPÍTULO XVI - Lampejo de esperança que se desvanece logo. A cólera. Reaparece o inimigo. O incêndio sempre. Recrudesce a cólera. Um recurso: os palmitos. Terrível passagem de um pântano. O tenente Santos Sousa. Acampamento. Conseguimos acender fogo
CAPÍTULO XVII - Chegada às divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastações da cólera. Perplexidade do coronel Camisão. Abandonamos os enfermos. A separação. Ao tenente-coronel Juvêncio e ao coronel Camisão salteia a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a marcha. Chegada à fazenda de Lopes; morre este ali de cólera. Seu túmulo.
CAPÍTULO XVIII - Chegada às margens do Miranda. Mantém-se o inimigo afastado para evitar o contágio da cólera. O Miranda não dá vau. Alguns homens o atravessam, entretanto, a nado, trazendo a boa notícia da existência de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caçadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no. Morte do tenente-coronel Juvêncio. Morte do coronel Camisão. Susbtitui-o, no comando, o major José Tomás Gonçalves. Instala-se um vaivém sobre o rio. Chegam abundantes as laranjas. Seu efeito benéfico sobre os esfaimados e coléricos.
CAPÍTULO XIX - Renasce a confiança. Restabelece-se a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhões. Ainda o inimigo. Tomamos-lhe alguns bois que oferecem ótimo recurso. Marcha forçada. Vencemos sete léguas! Canindé
CAPÍTULO XX - Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas léguas. O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco
CAPÍTULO XXI - Nioc. Decepção; encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruída pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente. Regresso pacífico do corpo de exército. Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.

Prefácio da Décima Terceira Edição

Em seis anos divulgaram-se cerca de seis mil exemplares da Retirada da Laguna da última edição impressa.
Mostra tal fato quanto os leitores brasileiros se interessam pela história pungentíssima deste episódio da Guerra do Paraguai, que figura entre as mais belas e notáveis coisas da tradição de nosso pais.
Razão de sobra lhes assiste: não receia ele confronto com os mais elevados feitos dos anais militares das nações do Ocidente.
É que poucas tropas - com tamanha intrepidez e espírito de abnegação patriótica - sofreram o que suportaram os nossos soldados da Constância e do Valor.
A esta edição anexei três documentos honrosíssimos para o autor da Retirada da Laguna e sua obra (ver pág. 12). É o primeiro a carta pela qual Caxias lhe agradece a oferta de um exemplar da Retirada, manifestando-lhe o seu louvor ao livro e o apreço em que tinha o seu autor.
Assim, mais uma vez e mais largamente se divulga uma das vozes mais antigas de aplauso que a narrativa xenofôntica mereceu. De que prestígio se reveste este depoimento! Partiu do grande e invicto cabo-de-guerra, expressamente ao ofertante do livro quanto o seu relato vinha robustecer-lhe a convicção, de que as forças empenhadas na campanha de Mato Grosso e na Retirada da Laguna, parte do exército de que era generalíssimo, "cumprira sempre seu dever, sustentando sempre a gloria das Armas Brasileiras".
Assim de início teve a épica narrativa da campanha de maio de 1867 a consagração do aplauso do magno Pacificador, gênio tutelar da nossa unidade nacional, broquel do Brasil agredido exteriormente e ínclito patrono do Exército Brasileiro.
O segundo dos documentos veio a ser a mensagem por Taunay merecida de seus irmãos de armas, quando em 1885 e em virtude de circusntâncias políticas incômodas, se não desagradáveis de sua carreira de homem público e parlamentar, deixou o serviço do Exército.
Mais honrosas palavras de despedida seria impossível redigir do que as que encerraram esta manifestação subscrita por centenas de oficiais-generais, oficiais superiores e outros menos graduados, de toda a hierarquia militar da época, partindo de um marechal de exército e ajudante-general do exército aos simples alferes e cadetes.
Constituem estes apelidos um rol do mais alto significado. Nele surgem muitos dos mais glorioso nomes de servidores do Brasil, já então, aureolados pela reputação de seus feitos, e outros ainda no início de suas grandes carreiras.
O último dos três documentos refere-se à manifestação que várias centenas de oficiais-generais, superiores e outros pertencentes à guarnição do Rio de Janeiro, fizeram ao então major Taunay em testemunho de gratidão da classe à sua atuação de parlamentar, como membro que fora da Câmara dos Deputados em duas legislaturas. À sua iniciativa devia haverem-se incorporado à legislação do país medidas de alta benemerência como fossem: a imprescritibilidade dos direitos das viúvas dos militares ao meio soldo, o reajustamento das tabelas de soldos e etapas, a contagem em dobro do tempo de serviço em campanha, entre outras medidas de menor alcance.
Ofereceram-lhe os manifestantes, encabeçados por um dos mais ilustres e prestigiosos oficias daquele tempo, o heróico Antonio Tibúrcio Ferreira Sousa, magnífico retrato a óleo, de tamanho natural.
Em todo o Brasil provocou a passagem do primeiro centenário natalício do autor de Retirada da Laguna, a ocorrência de consideráveis demonstrações de apreço à memória do soldado escritor.
Partiram as primeiras do Exercito Nacional. Por intermedio de generosa ordem do dia, determinou o então Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, que todas as guarnições do pais festivamente celebrassem a efemérides de 22 de fevereiro de 1943 em altamente significativas cerimonias. Em largos artigos recordou a Imprensa Brasileira o que fora a vida e era a obra do militar, do escritor, do parlamentar, do nacionalista apaixonado, do administrador. E vários dos seus mais prestigiosos órgãos a tal fim consagraram largas colunas e paginas de suas edições como sobretudo o fizeram o "Jornal do Comercio" e "O Estado de São Paulo".
Magníficas cerimonias votivas realizaram-se no Rio de Janeiro, por parte do Exercito, do Instituto Histórico Brasileiro, da Irmandade de Santa Cruz dos Militares, de numerosas e prestigiosas associações militares, de numerosas e prestigiosas associações militares, literárias e Histórico de São Paulo e seus congêneres de diversos Estados, sobretudo no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, promoveneo sessões especiais as mais honrosas.
Em todo o Brasil, de extremo a extremo, pode-se afirma-lo, a memória do autor da Retirada envolveu uma onda de simpatia e apreço que aos filhos do reverenciado trouxe a mais grata emoção de despertou-lhes a mais reconhecida saudade.
Assumindo a Presidência da Republica, o Exmo. Sr. General Eurico Gaspar Dutra entendeu, ele e seu Ministro da Guerra, Exmo. Sr. General Canrobert Pereira da Costa, coroar as manifestações de 1943 do modo mais dignificante.
Para patrono do Batalhão-Escola de Engenharia escolheram o soldado historiador da Retirada da Laguna.
Assim, mais uma vez, quero, de publico, em nome próprio e no de meus irmãos, e de quantos pelo sangue se prendem a Alfredo D´Escrognolle Taunay, testemunhar aos dois eminentes oficiais-generais, autores de tão alta homenagem, quanto ela nos sensibilizou e desvaneceu.
Mais nobre, mais eloqüente formula não se poderia encontrar para, em perene rememoração, perante a nação, recordar os serviços de sangue e de paz prestados a Pátria Brasileira pelo historiador do inesquecível feito daqueles guerreiros seus irmãos de armas, de cujos sacrifícios foi comparte. Desses soldados da Constância e do Valor, que, acabrunhados por inexcedíveis privações, perseguidos por inimigo cruel e incomparavelmente mais forte, cercados pelo incêndio, dizimados pela cólera e os combates, exinanidos de forcas mas nunca de animo, salvaram as bandeiras e os canhões que o Brasil lhes confiara...
São Paulo, 25 de maio de 1952

Affonso de E. Taunay.

A Sua Majestade o Senhor Dom Pedro II Imperador do Brasil

Senhor,

Ao se render Uruguaiana, inaugurou Vossa Majestade, na América do Sul, a guerra humanitária, a que aos prisioneiros poupa e salva, trata feridos inimigos com os desvelos dispensados aos compatriotas, a que, considerando a efusão de sangue humano deplorável contingência, aos povos apenas impõe os sacrifícios indispensáveis ao solido estabelecimento da paz.
E principalmente sob este pontuo de vista que ouso achar-me autorizado a colocar sob o augusto patrocínio imperial a desataviada narrativa da Retirada da Laguna, obra de constância e da disciplina, em que os oficiais de Vossa Majestade, devendo defender, por entre obstáculos os mais diversos, as bandeiras e os canhões a eles confiados, jamais cessaram, quanto lhes foi possível, de conter o legitimo desforço de bizarros soldados, exasperados pelo furores do inimigo, e obstar à crueldade tradicional de auxiliares índios, vingativos como soem ser.
É este reflexo de um grande ato de iniciativa soberana, a mais bela recordação que jamais poderemos entre camaradas invocar; cabe-nos a honra de a Vossa Majestade dedicá-la.

De Vossa Majestade Imperial
Súdito e servidor, muito humilde e obediente,

Alfredo d`Escragnolle Taunay..

Prólogo

É o assunto deste volume a serie de provações por que passou a expedição brasileira, em operações ao Sul de Mato Grosso, no recuo efetuado desde a Laguna, a três e meia léguas do rio Apa, fronteira do Paraguai, ate o rio Aquidauana, em território brasileiro, trinta e nove léguas, ao todo, percorridas em trinta e cinco dias de dolorosa recordação.
Devo esta narrativa a todos os meus irmãos de sofrimento, aos mortos ainda mais do que aos vivos.
Em todos as épocas largo interesse se ligou às retiradas, não só por constituírem operações de guerra difíceis e perigosas, como nenhuma outra, mas ainda porque os que as executam, já sem entusiasmo nem esperanças, freqüentemente entregues ao desanimo, ao arrependimento de erros ou das conseqüências de erros, precisam arrancar ao espirito, assim preocupado, os meios de enfrentar a fortuna adversa, que a cada passo os ameaça, com todos os seus rigores. Em tais contingências requer-se o verdadeiro cabo de guerra: ali há de se lhe revelar o caracterisco essencial: a inabalável constância.
Vive a Retirada dos Dez Mil em todas as memórias. Colocou Xenofante na plana dos primeiros capitães. Nos tempos modernos vários ocorreram não menos notáveis: a de Altenheim, pelo marechal de Lorge, após a morte de Turenne, seu tio, e que ao grande Condé fez declarar que lha invejava; a de Praga, enaltecedora da nomeada do conde de Belle Isle: a de Plaffenhofen, por Moreau, tida como um dos mais belos jeitos d´armas, efetuados por Turenne; já em nossos dias: a de Talavera, que levou Lorde Wellington, triunfante, a Lisboa; a que honrou o funesto regresso de Moscou e em que o Príncipe Eugênio e o Marechal Ney rivalizaram, em heroísmo; a de Constantina pelo Marechal Clausel e outras menos célebres; mas que, no entanto, pela variedade dos perigos e das misérias, chamam a atenção da história.
Resta-nos solicitar a maior indulgência para esta narrativa cujo único mérito pretende ser o dos fatos expostos. Tiramo-los de um diário escrito em campanha.
Assim nela hão de abundar as incorreções, demasias e repetições; cremos dever deixá-las; são indícios da presença da verdade.

Alfredo D'Escragnolle Taunay.

Rio de Janeiro, outubro de 1868.

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