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terça-feira, 7 de abril de 2009

Romantismo

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EURICO, O PRESBÍTERO - ALEXANDRE HERCULANO
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Resumo da Trama:
Eurico e Hermengarda amam-se, entretanto, embora ele seja um gardingo (nobre, entre os visigodos), não tem a permissão do pai da moça, Favila, duque da Cantábria, que proíbe o relacionamento. Abandonando a corte de Toletum (Toledo), Eurico refugia-se na religião para esquecer o sofrimento amoroso, torna-se presbítero (sacerdote), passando a viver retirado em Cartéia, pequena cidade perto de Calpe (Gibraltar). Torna-se um bispo famoso, autor de hinos religiosos conhecidos em todos os mosteiros e conventos. Por essa época, os árabes invadem a Península, e Eurico que passeava uma tarde por ali, presencia o desembarque dos árabes chefiados por Tárique e descobre que Juliano, conde de Septum é um traidor. Eurico envia uma carta a Teodomiro, duque de Córduba para que se organize as tropas para a defesa do reino visigodo. O exército visigodo é derrotado às margens do rio Críssus, depois de feroz batalha, em que os traidores do rei Roderico se mostram passando para o lado dos árabes (Sisebuto, Opas – bispo de Hispális, além de Juliano). Roderico morre, Teodomiro foge e faz um armistício com os árabes e Pelágio, irmão de Hermengarda organiza a resistência nas montanhas das Astúrias. Nessa grande batalha um cavaleiro misterioso, vestido de negro, é o último a se retirar, lutando com tal ímpeto e coragem, que os árabes, mesmo vitoriosos, passam a temê-lo, supersticiosamente, acreditando ser ele a personificação de Ibliz, um demônio infernal. É o presbítero de Cartéia, que, sempre incógnito, une-se posteriormente, nas montanhas, à resistência chefiada por Pelágio, o irmão de Hermengarda. Esta, por sua vez, fora aprisionada pelos árabes durante o ataque ao convento em que se refugiara, onde apesar da tentativa de resistência dos visigodos chefiados por Atanagildo, este vê-se forçado a entregar o convento e as religiosas optam pelo suicídio antes de cair nas mãos dos árabes, mas Hermengarda é capturada viva e entregue nas mãos de Abdulaziz, grande chefe árabe.. O cavaleiro negro, chefiando doze homens de Pelágio, consegue resgatá-la do acampamento de Abdulazis, o amir que a tomara por escrava. O amir ordena a perseguição aos homens de Pelágio. Eurico revela, enfim, sua identidade, mas está impedido de unir-se a Hermengarda devido aos votos sacerdotais, sente-se um homem dividido entre o amor carnal e a religião. Na batalha de Auseba, num cenário de floresta e montanhas, Pelágio organiza a resistência. Eurico desaparece entre os árabes, não sem antes matar os traidores Opas e Juliano e de intencionalmente deixar-se ser degolado pela espada de Mugite afirmando: “Meu Deus! Meu Deus! Possa o sangue do mártir remir o crime do presbitero!”. Seu crime era a paixão por Hermengarda. Já bastante atormentada por longos sofrimentos, Hermengarda não suporta as emoções da revelação e enlouquece.
EURICO O PRESBÍTERO
1. Ação
Eurico, nobre gardingo, mas sem bens de fortuna, fora impedido de casar com Hermengarda, filha do orgulhoso Fábila. Trocou então a armadura de guerreiro valente que era, pela batina de sacerdote. Dedicou-se à vida paroquial em Carteia, terreola insignificante, situada nas proximidades de Gibraltar.
Os primeiros capítulos do romance, em bela prosa poética, são desabafos do coração do presbítero. Solitário, vagueia enregelado, altas horas da noite, pelas ribas do oceano. Lamenta a sua infelicidade amorosa e a condição decadente da sociedade goda. Prevê o avanço de nuvens negras sobre a Espanha cristã. O futuro de todos aparece-lhe desesperadamente sombrio.
Dá-se a invasão árabe. Nas hostes cristãs em debandada, sobressai o heroísmo do «cavaleiro negro», que ninguém sabe quem é.
Hermengarda, a filha do altivo Fábila, é aprisionada, quando fugia para as Astúrias com os últimos cristãos resistentes, comandados por seu irmão Pelágio, derradeira esperança dos Godos. Prestes a ser desonrada pelo comandante dos exércitos árabes, é salva espectularmente pelo «cavaleiro negro» e conduzida até Covadonga.
Os Árabes sofrem aí a primeira derrota e os cristãos cantam vitória pela primeira vez. Após esse dia maravilhoso, todos descansam. O «cavaleiro negro» -- espanto dos Mouros e admiração dos Cristãos -- identifica-se perante Hermengarda, que cai, louca de amor, em seus braços e lhe pede para no dia seguinte casar com ela. É Eurico, seu antigo noivo... Lembrando-se a tempo de que é sacerdote, o «cavaleiro negro», ululando como um leão ferido, desaparece, para não mais ser visto, e vai oferecer-se à morte, numa luta escusada com os últimos fugitivos do exército mourisco. Hermengarda enlouquece.
Em Eurico o Presbítero há uma intriga amorosa ao lado do enredo político-militar.
2. A estética do livro
O livro é poema, é crônica e é lenda romântica.
a) Poema romântico em prosa.
Nos capítulos IV, V e VI, há páginas repletas de sentidas expressões líricas. É aqui que Eurico é o perfeito «alter-ego» do autor. Sob a batina goda do presbítero temos de descortinar o filosófico engenho poético de Herculano, com a sua conhecida propensão para a meditação, para a reflexão profunda sobre os problemas do homem.
b) Crônica.
Além de poema este livro é crônica. Isso mesmo se depreende da cor local em que se desenrola a ação, e de certa fidelidade histórica que aflora à superfície de toda a obra, sobretudo no que respeita à vida pública dos Godos, que Herculano confessa conhecer muito bem.
Neste afã de pintar, o historiador não foi manietado pelo romancista, ao descrever os locais, as armas, as vestes, as traições, o evolucionar geral da história da Península num dos seus períodos mais nebulosos.
c) Lenda romântica
É também lenda romântica, como o documentam a paisagem, a hora dos acontecimentos e as personagens.
A paisagem é o belo-horrível dos românticos.
A hora dos acontecimentos é romântica.
As personagens são românticas também.
O «Cavaleiro Negro» é o típico herói do romantismo.
Note-se, porém, que a ação arrasta-se numa efabulação lenta e as personagens verdadeiramente diferenciadas são poucas. O enredo sentimental é diminuto e contrasta com majestosas descrições de paisagens e com os contínuos movimentos políticos e militares. Assim, teremos de considerar esta obra um romance mais de ação política e militar do que propriamente passional.
d) Visão subjetiva da realidade.
Nesta novela Herculano deu largas à sua imaginação romântica.
Descrevendo uma época de dissolução moral e política (as virtudes dos Godos atrofiadas por vícios provenientes dos decadentes Romanos), por ali semeia pessimismo social, estoicismo guerreiro, tensão espiritual, um certo saudosismo pelas glórias do passado, ascetismo profético, a crença num Deus justiceiro típico do Velho Testamento. Pretende, através do enredo sentimental, documentar a impossibilidade de se encontrar a paz do espírito no refúgio do misticismo; e que o sacrilégio, atentatório dos direitos do absoluto, tem de ser expiado pelo sacrifício cruento.
O celibato de Eurico conduz a ação, como é próprio da estética romântica, a uma situação de tragédia: se o presbítero se une a Hermengarda, será um precito (condenado); se a abandona, leva-a à loucura e mais não lhe resta senão procurar voluntariamente a paz entre os morto.
3. Estilo e linguagem
Algumas características do romance:
1. Na obra vislumbramos um misto de tragédia e de epopéia.
2. Uma história de amor contrariado.
3. A sede de vingança encarnada em algumas personagens, que se movem como autênticos monstros.
4. Gosto pelas aventuras cavaleirescas e insistência na gravidade do sacrilégio, expiado no remorso e na dor. Choque violento do espiritual com o temporal.
5. Digressões em apartes, ora sarcásticas, ora líricas, ora doutrinais.
6. Separação de gêneros literários na seqüência da ação.
Herculano, na estrutura do romance utiliza:
o diálogo, vertiginoso umas vezes e cheio de dramatismo, outras vezes enfático;
a descrição minuciosa de exteriores e interiores;
a narração de cenas ao ar livre (ou em interiores);
a dissertação sobre assuntos morais e políticos, religiosos, históricos e sociais, num jeito professoral muito próprio.
Estes gêneros não se interpenetram: freqüentemente encontram-se em capítulos sucessivos.
7. Narração de cenas movimentadas (o rapto de Hermengarda e a fuga e perseguição que se lhe seguiram). Nas frases acumulam-se então verbos como bater, correr, atacar, romper, avançar, retroceder, acometer, arremessar, galgar, derribar, ferver, ferir, encontrar e ainda o dinâmico infinito substantivado.
8. Exagero da solidão, do noturno, do crepuscular, do fúnebre.
9. Uma linguagem poética, em partes simétricas, com ritmo quase versificatório, cheia de nobreza, a exprimir-se num tom ora sonhador ora lamuriento, às vezes a assemelhar o Barroco, outras vezes o Ultra-romantismo.
PANORÂMA GERAL DA OBRA
Há que distinguir na multifacetada obra de Herculano diversos gêneros literários -- poesia, romance, história e polêmica.
Tendo vivido intimamente ligado ao movimento romântico, de que foi um dos mentores, a sua obra reflete intensamente as tendências gerais do romantismo.
A sua poesia tem geralmente por tema a meditação sobre a morte, o infinito, o finito, Deus e liberdade, em que participa a natureza, que dá um contributo para o estado de espírito do autor. Legou-nos também o testemunho poético da situação de crise social desencadeada pela instauração do Liberalismo.
Como romancista, Herculano foi o introdutor do romance histórico em Portugal, género consagrado por Walter Scott. Podemos dizer que foi do romance histórico que nasceu o moderno romance português. Pertencem a este gênero literário O Bobo, Eurico o Presbítero, O Monge de Cister e Lendas e Narrativas, obras em que perpassam as principais características do Romantismo, das quais ressalta como mais evidente a preferência por temas medievais e de reconstituição histórica.
Talvez a razão do pendor do autor para este gênero literário se devesse ao interesse pela história científica.
Como historiador tentou dar uma história de sociedades e não de indivíduos, apresentando o fator histórico e político como resultado da dinâmica social sempre existente numa comunidade.
A obra polêmica de Herculano distingue a querela com o clero pelas afirmações feitas na História de Portugal, a defesa de uma posição política conservadora e a luta por um ensino popular de caráter agrícola e técnico. Nesta atividade, a sua influência foi profunda entre os seus contemporâneos, sobretudo pelo tom solene que conferia aos assuntos de que tratava, dando mesmo ao caso pessoal o tom de «grande causa».
A obra foi editada em volume em 1844, um ano depois de ter saído em excertos no Panorama e na Revista Universal Lisbonense.
Faz o Eurico parte do Monásticon, conjunto formado por esta obra e por O Monge de Cister, em que fundamentalmente Herculano trata o problema do celibato monástico, integrando-o na problemática das duas formas de sagrado -- a santidade e a maldição.
O herói deste poema épico em prosa tem sido apresentado como o alter ego de Herculano e nele de fato o autor consubstancia grande parte das suas convicções, anseios, frustrações e mitos.
Eurico (Herculano) é o homem permanentemente dividido entre o barro terreno e o absoluto divino, é o ser aspirante ao sagrado, mas dilacerado interiormente pela renúncia, embora voluntária. Perfeitamente integrado no ideário romântico, o autor situa a obra no ambiente medieval, transpondo para a sua época os conflitos sociais e políticos descritos, que encontram eco na luta interior das personagens.
A solidão moral do celibato de Eurico poderá ser lida como o sacerdócio leigo de Herculano, que renunciou ao amor de juventude em prol duma dedicação total à causa social, política e literária.
Em Hermengarda reconhecemos o dramatismo duma Ofélia de Shakespeare, figura paradigmática ressuscitada e largamente utilizada pelos românticos como a «penitente do amor».
A construção da obra e a linguagem utilizada deixam-nos bem clara a intenção, aliás, confessado pelo autor, de lhe conferir um sopro épico que a aproxime, pelo conteúdo e pela forma, da canção de gesta.
Pela oposição sistemática entre o sublime e o grotesco, sagrado e profano, pelo tom melodramático, pela redescoberta da sociedade medieval, Eurico é exemplo flagrante da inserção inequívoca de Herculano no movimento romântico, ao qual deu valioso subsídio como poeta, historiador e romancista.



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Alexandre Herculano - O Bobo - Resumo
A história toda se passa no castelo de Guimarães ou nos seus arredores. O período é o da independência de Portugal e gira em torno dos antecedentes e dos acontecimentos da batalha de Aljubarrota (1136).
A trama se sustenta sobre personagens históricos: D. Tareja está recebendo em seu castelo a Fernando Peres, conde de Trava, com quem deve contrair matrimônio, porém, o filho, D. Afonso Henriques é contra a presença de Fernando Peres por considerá-lo um usurpador e um tirano.
Dom Bibas é um bobo da corte que vive no castelo de Guimarães. Dulce, uma das sobrinhas de D. Tareja tem uma paixão secreta por Egas Moniz, cavaleiro pobre que luta ao lado de Afonso Henriques.
No castelo existe um temor de que se desenrole uma batalha envolvendo o conde de Trava, que tem a seu dispor maiores e melhores tropas e Afonso Henriques, que tem o apoio de uns poucos nobres portugueses.
O Conde de Trava incentiva um jovem cavaleiro, Garcia Bermudez, a tentar desposar Dulce. Conta-se no castelo que a paixão do jovem cavaleiro pela moça é notória, porém, a moça não dá esperanças aos apelos do cavaleiro.
Dom Bibas é repreendido por ouvir conversas entre o Conde de Trava e o cavaleiro Garcia Bermudez, Dom Bibas, inclusive, caçoa com seus versos o nobre. O bobo é mandado ser açoitado e jura vingança. Após esse fato, ficamos sabendo que D. Bibas conhece uma passagem secreta que dá para fora do castelo de Guimarães, por meio dela, manda avisar a Afonso Henriques do que se desenrola no castelo. O Lidador, Gonçalo Mendes de Maia, está do lado de Afonso Henriques e planeja uma forma de ajudar o desafiante ao poder do Conde de Trava. Egaz Moniz, que estava com a tropa de Afonso Henriques vindo em direção do castelo de Guimarães trazendo uma mensagem de paz. Porém, o Conde de Trava ignora o pedido de paz e prende o emissário. Dulce ao saber da prisão do amado, consegue falar-lhe, porém, conta que para que o cavaleiro amado ficasse vivo fora obrigada a se casar com Garcia Bermudez. Egas Moniz não aceita a explicação e se considera traído no amor. Dom Bibas faz ver a Egaz Moniz - este desejoso de vingança - que seria melhor fugir pela passagem secreta e depois da batalha poderia vingar-se de Garcia Bermudez.
Não existe propriamente a narração da batalha no romance. A narrativa retoma já depois de ocorrida a batalha entre Afonso Henriques e Fernando Peres. Explica-nos o narrador que a vitória fora de Afonso Henriques e que nessa batalha Egaz Moniz matara Garcia Bermudez. Dulce, porém, não aprova a violência daquela morte, por entender que Egaz Moniz se tornara um homem violento e desejoso de vingança e então a jovem se mata. Egaz Moniz, depois, retira-se levando vestindo-se com as roupas de um frade. Dias depois, Egas Moniz aparece morto, vestido de frade sobre o túmulo de Dulce.
Dom Bibas viverá no castelo de Guimarães na corte de Afonso Henriques dias de tranqüilidade, uma vez que um dos grandes trunfos na batalha, fora a entrada secreta pela qual vários soldados de Afonso Henriques puderam passar.
As personagens do drama amoroso (Egas Moniz, Dulce e Garcia Bermudez) bem como o próprio Dom Bibas são personagens ficcionais. Um outro personagem que aparece na história é o jovem cavaleiro Tructesindo, que embora tenha um papel secundário, será relembrado por Eça de Queirós em A Ilustre Casa de Ramires. Outro personagem secundário é o Frei Hilarião, que morre de tanto comer.


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Almeida Garrett – O Arco de Sant’Ana
Resumo da Trama:
Do Volume I (por Oliveira Marreca):
“É no Porto. Reina D. Pedro Cru. É senhor temporal e espiritual do burgo o bispo D. Egídio (se a crônica lhe acerta com o nome). E este bispo, esquecido de sua esposa em Cristo, gosta de mulheres casadas, e das solteiras também. Aninhas, uma rapariga que mora no Arco de Sant’Ana, e tem ausente o marido, é requestada por ordem do prelado por Pero Cão, o mordomo ostensivo e mercúrio secreto de sua reverendíssima. Resiste; e como resiste, numa noite é raptada. Uma vizinha e amiga sua íntima, ao levantar-se de manhã seguinte, descobre o rapto, e, atinando com a origem dele, fez amotinar o povo. O povo amotinado corre em tumultos aos paços episcopais, vociferando palavras de indignação. O Bispo, paramentado para sair na procissão de S. Marcos, apresenta-se ao torpel dos populares com aspecto composto e imperturbável. Estes titubeiam. Mas depois de uns tropos momentâneos, renasce mais tremenda a sua irritação. Aparece então Paio Guterres, um clérigo muito benquisto e respeitado, e à sua voz persuasiva é dissipado o tumulto.
Contudo o rapto não ficara por vingar; por que se o grande reparador não se mostra ainda, já se adivinha. El Rei já está nas vizinhanças do Porto; vem punir o atentado do Bispo, por aviso que lhe deram. Levou-lho a instigações da amiga de Aninhas, um D. Vasco, estudante e (afilhado?) do Bispo. O segundo volume o dirá...”
(em: Teófilo Braga: “Elaboração do ‘Arco de Sant’Ana”, O Arco de Sant’Ana de Almeida Garrett. Rio de Janeiro, Ediouro, 1966, p. 17)
Do Volume II:
Vasco vai conversar com a “bruxa de Gaia”, mulher marginalizada e temida na cidade do Porto, que só não fora para a fogueira, como queria o bispo, por intercessão de Paio Guterres que a defendia das intenções inquisitoriais do bispo. Guiomar, diz ela se chamar, e conta a Vasco a história de sua vida, que este de algum tempo a conhecera e sobre ele exercia uma certa proteção. Conta, em prantos, o seu passado, que era filha de um judeu muito influente na política local, Abraão Zacuto, que era um grande físico (alquimista) ombreando com Avicena. Certa feita, um cavaleiro fora acolhido na casa desse Abraão por estar muito ferido de uma batalha. Quando já se recuperava, o cavaleiro, numa noite, aproveitando a ausência de Abraão Zacuto, violenta sua filha que o cuidara durante toda sua recuperação. Tendo vergonha de contar o acontecido, a filha foge de casa. Pouco tempo depois, sem encontrar a filha, Abraão Zacuto e sua mulher Sara morrem. A filha, que até se chamava Éster é recolhida pela família de Paio Guterres, que ainda muito jovem, dedica-se a cuidar da moça até que nasce seu filho. Guiomar, conta para Vasco que ela é Éster e que seu filho é ele, Vasco. Vasco pergunta sobre a identidade de seu pai, esse cavaleiro que desonrara sua mãe. Guiomar (Éster) nega-se a revelar sua identidade. Vasco volta para a cidade, onde é nomeado caudilho da revolta contra o domínio do Bispo pelos populares chefiados por Rui Vaz sob o Arco de Sant’Ana numa investidura semelhante à dos cavaleiros medievais, com o toque da espada sobre a cabeça. Vasco, Rui Vaz e os populares planejam os passos da revolta e conseguem a aprovação do “Senatus Populusque” que lhe concede o estandarte da cidade. Enquanto isso, o Bispo em sua fortaleza episcopal, bem guarnecida, tentava nos labirintos subterrâneos violentar Aninhas, esta consegue safar-se no momento derradeiro por intermédio da ajuda de Paio Guterres. A revolta popular se aproxima da fortaleza, inicia-se luta acirrada, com muitas mortes. Num momento decisivo, quando Vasco está prestes a vencer o Bispo, este usando de artimanhas, consegue um armistício até à meia-noite. Era uma cilada, para ganhar tempo, e numa rápida manobra recupera o domínio da situação. Porém, chega para recuperar seu poder, o rei D. Pedro o Cru, que domina o bispo e retira-lhe do bispado. Surgem nessa cena final, a mãe de Vasco que revela a identidade do pai do jovem caudilho, é o próprio bispo; Aninhas que é ovacionada pelo povo e Gertrudes, a amiga de Aninhas e amada de Vasco. Vasco pede pela vida do bispo. O Rei poupa a vida do desonesto bispo, mas lança-o ao exílio em Bruges. Vasco e Gertrudes se casam numa cerimônia sob o arco de Sant’Ana e Paio Guterres é nomeado o novo bispo que batiza Éster. Pero Cão surge enforcado numa figueira, ao que parece, num ato final, imitando o gesto de Judas.

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FOLHAS CAÍDAS (extracto) DE ALMEIDA GARRET
LIVRO PRIMEIRO
IGNOTO DEO
(D. D. D.)

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: – o que és não sei. Deriva
Meu ser do Teu: luz... e treva,
Em que – indistintas! – se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor – o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirado se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vás e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A Ti se dão, em Ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro – confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.

II
ADEUS!

Adeus, para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque não te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu... tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tão daninhos
Que o seu poder só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar a peçonha
Do ulcerado coração
Essa víbora medonha
Que por seu fatal condão
Há-de rasgá-lo ao nascer:
Há-de sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
Ciúme de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar – Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incêndio fatal! –
Mais negro e feio no inferno
Não chameja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou suportar
O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?
Enganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a ilusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lágrima verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
Nesta seara de abrolhos,
Que a fonte secou. Agora
Amarás... sim, hás-de amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas noutro hás-de sonhar
Os sonhos de oiro encantados
Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos encovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ela cegarei?
Se o nada dessas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Também eu sonhar... Perdida,
Perdida serás – perdida.

Oh! vai-te, vai, longe embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue frio,
Covarde, infame, vilão,
Gozar-te – mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Cometendo em cada beijo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do céu,
Que o desonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.
A imundo cerdo voraz
Essas pérolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada te há-de admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no vilão,
Que de ti há-de zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrela.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para entendê-la:
Alta está no firmamento
Demais, e demais é bela
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o encantamento
Com que a luz lhe fascinei.

Que volte a sua beleza
Do azul do céu à pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
Donde me vem sangue às veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra – e não cabe
Nele uma ideia dos céus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!



III
QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora que estou desperto,
Agora que a vejo fixar...
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas a dor não na conhecia...
.............................................

V
O ANJO CAÍDO

Era um anjo de Deus
Que se perdera dos céus
E terra a terra voava.
A seta que lhe acertava
Partira de arco traidor,
Porque as penas que levava
Não eram penas de amor.

O anjo caiu ferido
E se viu aos pés rendido
Do tirano caçador.
De asa morta e sem esplendor
O triste, peregrinando
Por estes vales de dor,
Andou gemendo e chorando.

Vi-o eu, n anjo dos céus,
O abandonado de Deus,
Vi-o, nessa tropelia
Que o mundo chama alegria,
Vi-o a taça do prazer
Pôr ao lábio que tremia
E só lágrimas beber.

Ninguém mais na terra o via,
Era eu só que o conhecia
Eu que já não posso amar!
Quem no havia de salvar?
Eu, que numa sepultura
Me fora vivo enterrar?
Loucura! Ai, cega loucura!

Mas entre os anjos dos céus
Cantava um anjo ao seu Deus;
E remi-lo e resgatá-lo,
Daquela infâmia salvá-lo
Só força de amor podia.
Quem desse amor há-de amá-lo,
Se ninguém o conhecia?

Eu só, – e eu morto, eu descrido,
Eu tive o arrojo atrevido
De amar um anjo sem luz.
Cravei-a eu nessa cruz
Minha alma que renascia,
Que toda em sua alma pus,
E o meu ser se dividia,

Porque ela outra alma não tinha,
Outra alma senão a minha...
Tarde, ai! tarde o conheci,
Porque eu o meu ser perdi,
E ele à vida não volveu...
Mas da morte que eu morri
Também o infeliz morreu.


VIII
ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... – foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

X
GOZO E DOR

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
– Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso do gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida – ou a razão.

XVI
OS CINCO SENTIDOS

São belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas,
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti – a ti!

Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti – a ti!

Respira – n' aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto, minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti – de ti!

Formosos – são os pomos saborosos,
É um mimo – de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti – de ti!

Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de d, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti – em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos,
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.


XVII
ROSA E LÍRIO

A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam – flor
D'amor,
Não sei.

A flor,
Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, – dor
Na cor
O lírio.

Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza – mor
Primor
A rosa:

No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: – cor
E ardor
É o meu.

A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.


XIX
CASCAIS

Acabava ali a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopram rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um céu na terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus! Como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim.
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai! sim foi a tragos largos,
Longos, fundos, que a bebi
Do prazer a taça: – amargos
Depois... depois os senti
Os travos que ela deixou...
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai! que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh, que fatais desenganos,
Ramo a ramo a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a terra!

Se o visse... não quero vê-lo
Aquele sítio encantado;
Claro estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.


XX
ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai! o negro dos montes erguidos,
Ai! o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos...
Que saudade; ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh! aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh! deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai! não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Diz à sombra dos montes erguidos,
Di-lo ao verde do triste pinheiro,
Di-lo a todos os sítios queridos
Desta rude, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos...
Oh! saudades que dele teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!


XXI
NÃO TE AMO

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n 'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.


XXIV
ANJO ÉS

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve a mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? – Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?




LIVRO SEGUNDO

I
BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o laço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador,

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela
Oh pescador!


X
SEUS OLHOS
Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

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VIAGENS NA MINHA TERRA – Almeida Garrett (resumo)
1. Trama:
1ª Seqüência da Viagem (capítulos I – IX)
Cap. I: Citação a Xavier de Maistre, Viagem à Roda do Meu Quarto: “O próprio Xavier de Maistre que aqui escrevesse, ao menos ia até ao quintal”. Citações a Píndaro, Lord Byron. Início da viagem à Santarém. 3.º parágrafo: Garrett apresenta o seu projeto de viagem especial a Santarém.
Cap. II, 2.º parágrafo: Garrett fala de uma escrita-viagem. Citação a Dom Quixote e Sancho Pança.Cita o filósofo Jeremy Bentham: “A virtude é o galardão de si mesma, disse um filósofo antigo; e eu não creio no famoso dito de Bentham, que sabedoria antiga seja um sofisma. O mais moderno é o mais velho” No 4.º parágrafo: tentativa de definições de “progresso”, “espiritualismo” e “matérialismo”.
Cap. III: Citações a Vítor Hugo, Fausto de Goethe, Mistérios de Paris de Eugene Sue, Cervantes,Shakespeare, Boileau e Moliére. Chegada a uma estalagem.
Cap. IV: Reflexão sobre a modéstia. Cita Dêmades, Joseph Addison. Planos de seguir viagem a Cartaxo passando por Pinhal do Azambuja, vilarejos próximos à Santarém.
Cap. V: Chegada à vila de Pinhal do Azambuja. Descrição do lugar. Cita Benjamim Antier, Vitor Hugo, El Cid. Segue o narrador para Cartaxo.
Cap. VI: Cita Homero e Camões e da necessidade de se mistura o maravilhoso mitológico ao Cristianismo. Fala o narrador da Divina Comédia. Chegada a Cartaxo.
Cap. VII: Lembrança de Paris (Campos Elíseos, Bois de Boulogne) e fala da Suécia, que nada se compara “ao prazer e consolação” que sentiu “à porta do grande café de Cartaxo”. Citação a Alfageme, conversa no café, fala-se da revolução. Passeio pelo lugar, descrição do lugar. Citação a Bacon, Isaac Newton, James Thomson, François Guizot.
Cap. VIII: Saída de Cartaxo. Citações a Teócrito, Salomão Gessner, Rodrigues Lobo. Afirma o narrador que não é romântico: “Eu não sou romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser – ao menos, o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra.” Passa pelo lugar em que ocorreu a batalha de Almoster (18 de fevereiro de 1834) em que os liberais de D.Pedro e o Marechal Saldanha venceram os Miguelistas. Compara essa batalha com a de Waterloo. Cita o filósofo Hobbes.
Cap. IX: Cita Ênio Manuel de Figueiredo. Comenta cinco peças desse autor: O Casamento da Cadeia, O Fidalgo de Sua Casa, O Cioso, O Avaro Dissipador e Poeta em Anos de Prosa. Destaca essa última: “E há títulos que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possível escrever que os desempenhe como eles merecem.” Cita o Judeu Errante de Eugene Sue. Cita a Sílvio Pélico, Madame de Lafayette, René de Chateaubriand, Madame de Abrantes. Fala de Bonaparte. Chega ao vale de Santarém: “pátria dos rouxinóis e das madressilvas”.
1.ª Seqüência do Drama (Capítulos X – XXV)
Cap. X: Transição da viagem para o drama: O narrador começa sua observação acerca de uma janela; fala da inferioridade do homem que não é poeta. A menina do rouxinóis é referida pela observação da janela. Anuncia-se que se vai começar a contar a história da menina dos rouxinóis, de olhos verdes.
Cap. XI: Apresenta Irmã Francisca (avó), velha cega, de setenta anos. Fala de Yorick, personagem shakesperiana (bobo da corte da Dinamarca em Hamlet) que aparece em Tristam Shandy de Lawrence Sterne. Cita Anacreonte, Aristóteles, Antônio Ferreira (pintor) e Rafael (Madonna della sedia). Distinção entre os poetas e os romancistas, os primeiros estão sempre namorados. Pergunta-se: “Como hei de eu então, eu que nesta grave odisséia das minhas viagens tenho de inserir o mais interessante e misterioso episódio de amor que ainda foi contado ou cantado”? Referindo-se ao caso de Joaninha.
Cap. XII: Joaninha (neta) surge para desembaraçar a meada da avó. O narrador anuncia que professa a “religião dos olhos pretos”, mas “Joaninha porém tinha os olhos verdes”. Chegada de Frei Dinis que interrompe a conversa entre a avó e a neta.
Cap. XIII: Fala-se sobre o frade no aspecto moral, social e artístico. Da separação entre o frade e o momento presente (“o nosso século” – séc. XIX). Outra referência à D. Quixote e Sancho Pança: “o frade era até certo ponto o Dom Quixote da Sociedade velha”. Interpelação intertextual a Eugênio Sue e seu Judeu Errante, “que precisa [ser] refeito.” Crítica do narrador ao “progresso” e à “liberdade” atuais de Portugal: “antes queria a posição dos frades que a dos barões”. Autotextualidade: o autor comenta que não consegue escrever uma história sem pôr nela um frade.
Cap. XIV: Depois do capítulo XIII, que devia ser considerado uma “introdução ao capítulo seguinte [XIV]”, inicia-se aqui a narrativa sobre Frei Dinis. Frei Dinis se mostra inimigo de Carlos: “mas esse rapaz é maldito, e entre nós e ele está o abismo de todo o inferno.”
Cap. XV: Descrição de Fei Dinis: “homem de princípios austeros, de crenças rígidas”. Comparação entre Frei Dinis e o filósofo Condillac: “Condillac chamou à síntese método das trevas: Frei Dinis ria-se de Condillac...” Frei Dinis critica o liberalismo, em concordância com a opinião do narrador. Frei Dinis é apresentado como um ferrenho defensor das instituições monásticas: “condição essencial de existência para a sociedade civil”. Indaga o narrador sobre o passado de Frei Dinis, desconfiando de que no passado havia alguma coisa que o prendia ainda a terra que “lhe faltava castrar ainda por amor do céu”.
Cap. XVI: Conta-se como Dinis de Ataíde, nobre cavaleiro, de posses, resolveu abandonar tudo e desaparecer, voltando dois anos depois à Santarém como Frei Dinis. Critica-se a ordem franciscana e as outras ordens, de como tão rapidamente, às vezes sem vocação, alguém surgia ordenado frei. Diz o narrador que um dia Frei Dinis contou um segredo à velha Francisca Joana, e que também deixou para ela grande parte de seus bens, depois que se tornou frei. Carlos fora estudar em Coimbra e em Lisboa e só nos finais de semana voltava. Carlos e Frei Dinis se desentendem, Carlos não concorda com os mandos de Frei Dinis na casa e resolve ir para a Inglaterra. Quando Carlos foi para a Inglaterra, Joaninha ainda “era uma criança”.
Cap. XVII: Três anos depois, como era de costume, Frei Dinis vai visitar a velha Francisca. Frei Dinis vem trazer a notícia de que Carlos estava bem na Inglaterra. Nesse capítulo de anuncia que o Frei Dinis pode mentir, uma vez que finge alegria ao dar a notícia à velha. “O frade estava por fora, o homem por dentro”. Frei Dinis tira uma carta da manga e entrega a Joaninha, a carta era de Carlos.
Cap. XVII: A carta era de Carlos para Joaninha e insinuava a saudade de Carlos para com a prima: “não continha senão as ingênuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado”. Frei Dinis, por essa época, andava preocupado com a guerra civil e com o avanço do exército realista que já cercava Lisboa. Frei Dinis sugere que Carlos poderia voltar e lutar contra os realistas: “o seu Carlos, vier expulsar as baionetas do pobre convento de São Francisco, o velho guardião” . A velha Francisca ameaça contar toda a verdade a Carlos – o segredo dos dois – Frei Dinis ameaça-a com “a maldição eterna de Deus”.
Cap. XIX: A guerra civil atinge Santarém: “Alguns feridos (...) ficavam na casa do vale entregues à piedosa guarda e cuidado de Joaninha; dos outros tomou conta Frei Dinis e os acompanho a Santarém.” “E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais feridos, o semblante desfigurado dos mortos.” Joaninha vai se acostumado com os horrores da guerra. Se torna conhecida dos solados: “A menina dos rouxinóis! Que cantiga é essa que tu cantas!”
Cap. XX: Joaninha, numa tarde, dorme ao campo, ao som do canto de um rouxinol, junto das flores. Vem um oficial, “moço, talvez não tinha trinta anos” (...) “olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa (...) a mobilidade de espírito”. Quando Joaninha é acordada pelo soldado, reconhece-o, é Carlos, seu primo. Joaninha e Carlos beijam-se como namorados.
Cap. XXI: Carlos lutava pelo exército dos liberalistas, a casa de Joaninha estava sob o domínio do outro exército, os realistas. Por isso Carlos não pode leva-la até a casa da avó Francisca.
Cap. XXII: Carlos declara seu amor à Joaninha por meio de uma carta. A diferença que Carlos percebe entre a menina que deixara e a moça que encontrara. Porém, Carlos havia deixado um amor na Inglaterra, era Georgina “a mulher a quem prometera, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bela, nobre, rica, admirada, ocupava uma alta posição no mundo”
Cap. XXIII: Carlos atormenta-se na dúvida de contar ou não a verdade para Joaninha. Carlos começa a refletir sobre a cor dos olhos das duas mulheres: “Olhos verdes!... Joaninha tem os olhos verdes. Não se reflete neles a pura luz do céu, como nos olhos azuis. Nem o fogo e o fumo das paixões, como nos pretos. Mas o viço do prado, a frescura e a animação do bosque, a flutuação e a transparência do mar... Tudo está naqueles olhos verdes. Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?” (... ) “Oh! O céu é azul como os teus olhos, Georgina...”
Cap. XXIV: Explicação do mito de Adão, comparação de Adão a Carlos. Carlos conversa com Joaninha e explica que não gosta do Frei Dinis e por isso deixou a casa e foi para a Inglaterra. A certa altura, Joaninha diz que Carlos se parece com Frei Dinis quando se zanga e franze a testa.
Cap. XXV: Joaninha declara seu amor a Carlos. Joaninha parece adivinhar que Carlos tem outra mulher. Carlos e Joaninha se despedem tristemente. Os olhos verdes de Joaninha nunca mais brilharam como dantes.
- 2.ª Seqüência da Viagem – chegada a Santarém
Cap. XXVI: O narrador fala dos autores antigos: Tito Lívio e Tácito (historiadores), Juvenal (poeta), Horácio (retórico), Duarte Nunes (cronista português), cita-se o Anel dos Nibelungos (rapsódias alemãs), Shakespeare e comenta-se de alguns de seus personagens (Banco, Macbeth, Falstaff). Fala-se de Abelardo (filólogo e teólogo da idade média) e de Heloísa (sua paixão), de Bentham (filósofo inglês), Camões e Os Lusíadas, de D. Afono Henriques.
Cap. XXVII: Chegada do narrador à Santarém. Descrição de locais de Santarém. Fala-se de São Frei Gil: “que, é verdade, veio a ser grande santo, mas que primeiro foi grande bruxo”.
Cap. XVIII: A Igreja de Sta. Maria de Alcaçova, descrição. Comentário sobre o governo do Marquês de Pombal e sobre os palácios de D. Afonso Henriques, a cruz de Santa Iria. Citação de trecho do Fausto de Goethe.
Cap. XXIX: O narrador faz a distinção entre poetas que morreram jovens (Byron, Schiller, Camões e Tasso) e poetas que morreram velhos (Homero, Goethe, Sófocles e Voltaire). Comenta sobre a imaginação e o sentimento dos poetas (categorias românticas). Compara Santarém com Nínive e Pompéia, cidades destruídas. Inserção da trova sobre Santa Iria.
Cap. XXX: Conta-se a história de Santa Iria: Que a freira Iria namorou-se de Britaldo, filho do cônsul Castinaldo. Santa Iria “consolou como mulher e ralhou como santa” e retirou do corpo a paixão de Britaldo. A paixão – obra do demo – foi se alojar no corpo do monge Remígio, este preparou uma bebida diabólica que fez Iria parecer como grávida (“os sinais da mais aparente maternidade”). Britaldo indignado, teve de volta a paixão e matou Iria, jogando o corpo no rio. O abade Célio descobriu toda a verdade sobre a falsa maternidade de Iria e foi com outros padres procurar o corpo no rio, e acharam um túmulo feito de alabastro, por obra dos anjos. Este ficou encoberto pelas águas até que séculos mais tarde a Rainha Santa Isabel, esposa do rei D. Dinis, orando fez as águas se abrirem, e contemplou o sepulcro.
Cap. XXXI: Descrição de lugares de Santarém; o busto de D. Afonso Henriques e as muralhas de Santarém.
-2.ª Seqüência do Drama.
Cap. XXXII: Volta-se à história de Joaninha. Carlos ferido e prisioneiro é atendido no hospital por uma enfermeira que é nada menos do que Georgina, a amada inglesa.
Cap. XXXIII: Georgina explica a Carlos que encontrou-o ferido e ajudado pelo Frei Dinis, e que já conhece tudo sobre Joaninha. Georgina explica que o amor que ela tinha por Carlos já se acabou.
Cap. XXXIV: Continua a conversa no hospital. Frei Dinis implora o perdão de Carlos.
Cap. XXXV: Citação a Laocoonte e Hércules. Carlos diz que não ama mais Joaninha, mas Georgina, que não o quer. Frei Dinis explica o grande segredo: que ele é o verdadeiro pai de Carlos. Que a filha da velha Francisca namorava Dinis, mas arrumou um amante e tencionava matar a Dinis numa emboscada, esse sem reconhecer ninguém no escuro, mata os dois e joga os corpos no rio, que são tomados por afogados. Carlos levanta-se da cama e vai embora para Évora lutar no exército Constitucional, dos liberalistas.
- 3.ª Seqüência da Viagem:
Cap. XXXVI: Fala sobre Santarém. Comenta o narrador que Carlos deixou de lado as paixões e se meteu na política, mas promete contar os detalhes mais adiante.
Cap. XXXVII: Fala-se do túmulo de Pedro Álvares Cabral, cita-se Os Lusíadas de Camões. A história da igreja do Santo Milagre.
Cap. XXXVIII: O narrador comenta sobre um jantar que fizera em Santarém, de como no jantar se falou mal de Lisboa e de como se exaltou Paris, Londres, Pequim, Nanquim e Timboctu.
Cap. XXXIX: O narrador comenta sobre seu ceticismo em relação ao tempo presente de Portugal. Fala da diferença entre filósofos e poetas: “os filósofos são muito mais loucos do que os poetas”. Narração de como Frei Dinis roubou os ossos de São Frei Gil.
Cap. XL: Comenta-se do mosteiro das Claras. Frei Dinis traz os ossos de São Frei Gil para que sejam guardados pelas freiras.
Cap. XLI: Frei Dinis vai embora de Santarém, Georgina fora pra Lisboa, Carlos ainda estava em Èvora e Joaninha guardava uma última carta dele.
Cap. XLII: O narrador quer ir embora de Santarém. Comenta sobre o túmulo de D. Fernando. Fala de Jesus Cristo como modelo de paciência.
Cap. XLIII: Partida de Santarém. Antes de se ir, o narrador encontra Frei Dinis que lhe conta que Joaninha morrera, de que Carlos sumira, de que a velha Francisca estava para ser enterrada e de que “Santarém também morreu; e morreu Portugal”. Frei Dinis entrega ao narrador a última carta de Carlos escrita para Joaninha.
Cap. XLIV: Início da narração da carta de Carlos. Carlos comenta que mentia e que gostava de mentir. Carlos comenta que conheceu uma família inglesa em que haviam três filhas e ele flertava com as três.
Cap. XLV: Fala de Laura: “olhos cor de avelã”. Descreve Júlia: “a mais carinhosa das três irmãs”. Julia dizia a Aia: “Febe, estou só com Carlos; e quero estar só. Em casa para ninguém.”
Cap., XLVII: Continuação da narração da carta de Carlos. Laura vai para o Páis de Gales, Júlia fica com intermediária na correspondência indireta entre Carlos e Laura, até que Laura se casa. Carlos fica só, sem Laura e sem Júlia.
Cap. XLVIII: Carlos fala que a terceira irmã da casa era Georgina. Termina a carta dizendo adeus à Joaninha.
mm) Cap. XLIX: Comenta-se que Carlos conseguiu o título de barão, Georgina virou abadessa. Frei Dinis após a leitura da carta de Carlos pelo narrador fala sobre as virtudes e defeitos dos frades e dos barões.
Comentários críticos acerca da obra:
Considera-se que Viagens na Minha Terra seja a obra em prosa mais ousada e mais bem realizada de Almeida Garrett. Fazendo referência à obra de Xavier de Maistre, Viagem à Roda de Meu Quarto, que toma por modelo, inicia uma viagem de Lisboa à Santarém a convite do amigo Passos Manuel, chefe da facção setembrista do liberalismo português. A obra compõe-se de duas partes narrativas distintas. A primeira compõe-se das impressões de viagem feito pelo autor/narrador, em que intercalando citações literárias e históricas as mais diversas (Por exemplo: Shakespeare, Cervantes, Camões, Lawrence Sterne, no primeiro caso e D. Afonso Henriques, D. Fernando, Napoleão, no segundo caso), vai compondo uma narrativa de viagem que nos é apresentada por um caráter muito subjetivo e rico em intertextualidades e digressões. A segunda parte trata-se da interposição no meio da narrativa de viagem de uma história amorosa e trágica que envolve as personagens Joaninha, Carlos, Georgina, Francisca e Frei Dinis. Essa narração de um drama amoroso concebe um passado próximo que se desenvolvera durante as lutas entre liberais e miguelistas, no período de 1830 a 1834. Os conflitos que envolvem essas personagens têm causa ainda num passado mais distante que trata da vida do personagem Frei Dinis, quando antes de se tornar religioso era um nobre e que em circunstâncias dramáticas resolvera esconder a paternidade de Carlos.
Viagens na Minha Terra fornece por meio das personagens do drama amoroso uma visão simbólica de Portugal em que se busca dialogar acerca das causas da decadência do império português. Assim, o instável Carlos, que não consegue decidir-se acerca das suas relações amorosas, é o personagem que podemos ligar às características biográficas do próprio autor. Georgina, a namorada inglesa de Carlos, apresenta-nos uma visão de ingenuidade e altruísmo como caracteres de uma mulher estrangeira que acaba por não querer envolver-se por questões sentimentais ao drama histórico de Portugal, fazendo de sua reclusão religiosa a justificativa para não participar dos dilemas e conflitos históricos que motivaram sua decepção amorosa. É a fleugma britânica. Joaninha, a amada de Carlos, singela e terna, nascida e vivendo no vale de Santarém, a “menina dos rouxinóis” simboliza uma visão ingênua de Portugal, quase folclórica, que não se sustenta diante das condições históricas. A velha cega Francisca, avó de Joaninha, mostra-nos a imprudência e a falta de planejamento com que Portugal se colocava no governo dos liberalistas, levando a nação à decadência. Por fim, Frei Dinis é a própria tradição calcada num passado histórico glorioso, que no entanto, não é mais capaz de justificar-se sem uma revisão de valores e de perspectivas. O final do drama, que culmina na morte de Joaninha e na fuga de Carlos para tornar-se barão, representa a própria crise de valores em que o apego à materialidade e ao imediatismo acaba por fechar um ciclo de mutações de caráter duvidoso e instável.


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Resumo de Frei Luís de Souza, Almeida Garrett
Resumo:
“Em 1578, o rei D. Sebastião desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir. Não tendo deixado herdeiros, houve uma longa disputa pela sucessão. Entre os pretendentes estava Filipe, rei da Espanha, que anexou Portugal ao seu império em 1580. O domínio espanhol duraria sessenta anos (1580 a 1640). Criou-se nesse período o mito popular do "Sebastianismo", segundo o qual D. Sebastião, retornaria para reerguer o império português. Entre os nobres desaparecidos em Alcácer-Quibir estava D. João de Portugal, marido de Madalena de Vilhena. Tendo esperado durante sete anos o retorno do marido, Madalena acabou contraindo segundas núpcias com Manuel de Sousa Coutinho. Entretanto, vivia angustiada com a possibilidade de que o primeiro marido estivesse ainda vivo. Suas angústias eram alimentadas por Telmo Paes, o fiel escudeiro de D. João. Essa situação perdurou por vinte anos, no fim dos quais, D. João, que realmente estava vivo, retornou a Portugal. Revelada a sua identidade, no ponto culminante da peça, o desespero domina todas as personagens. No desenlace trágico, Manuel Coutinho e Madalena resolvem tomar o hábito religioso, como forma de expiação; durante a cerimônia, Maria de Noronha, filha do casal, tomada pela vergonha e pelo desespero, morre aos pés de seus pais. A atitude de Manuel de Sousa Coutinho em relação ao domínio espanhol assim como o retorno de D. João de Portugal (associado, evidentemente, ao sebastianismo) inserem-se na temática nacionalista, tão cara aos românticos da primeira geração."
Personagens principais:
- D. Manuel Coutinho de Souza (protagonista): herói romântico; filho de Lopo de Souza Coutinho; segundo esposo de D. Madalena; fidalgo honrado e religioso; abandona o nome de batismo ao ser convertido em frei. Passa a chamar-se Frei Luís de Souza.
- D. Madalena de Vilhena: foi esposa de D. João de Portugal; mulher recatada, virtuosa, cristã, dada a presságios; converte-se também à vida religiosa, recebendo o título Sóror Madalena. Os seus temores a impediram de desfrutar plenamente a felicidade de estar casada com D. Manuel. Revela que se apaixonou pelo segundo marido antes de ficar viúva e sente-se culpada e pecadora.
- D. João de Portugal: guerreiro honrado e generoso; parece ser cruel e vingativo, mas perdoa a esposa; pede a Telmo que salve D. Madalena e D. Manuel do triste fim que os aguardava.
- Maria de Noronha: filha do segundo casamento de D. Madalena; aos treze anos apresenta-se como menina pura, inteligente, perspicaz, intuitiva, estudiosa e que gosta de ler. É carregada de virtudes que a diferenciam das outras meninas da sua idade. É muito influenciada por D. Telmo. D. Madalena afirma que a menina não ouve, não crê, não sabe senão o que D. Telmo lhe diz. Sofre de tuberculose e morre no final da peça. Segundo Vasco Graça Moura , uma análise psicológica da obra revelaria uma conexão entre Maria e a filha ilegítima de Almeida Garrett com Adelaide Pastor.
- Telmo Paes: escudeiro que ajudou a criar D. Manuel, e antigo amigo da família que dizia amar Maria como se fosse sua filha. Alimenta os temores de D. Manuela e não impede que ela e o marido se entreguem ao claustro. Desejava o tempo todo o retorno de D. João de Portugal.
- Frei Jorge: irmão de D. Manuel; evita que Telmo apresente a solução proposta por D. João de Portugal para livrar a família de D. Manuel da degradação social. Portador do discurso católico que promete consolar os sofredores, caso se convertam à religião e aceitem os desígnios de Deus.
- Miranda e Doroteia: criados de D. Manuel e D. Madalena. Doroteia é a aia de Maria.
- D. Joana de Castro: tia de Maria que abandona o esposo para se tornar freira.
- Romeiro: D. João de Portugal que retorna do cativeiro na Terra Santa e não é reconhecido por D. Madalena.
Observações:
- As personagens são descritas ao longo da peça e através dos diálogos das personagens.
- Não há referências aos atributos físicos das personagens, exceto em raríssimos casos como o de Maria que sabemos ser uma menina franzina.
- Os criados não são descritos de forma alguma; somente seus nomes e suas ocupações são mencionados. A classe fidalga é privilegiada neste sentido.
- As personagens Telmo Paes e Frei Jorge crescem no terceiro ato, tornando-se fundamentais para o desfecho trágico da peça.
- Almeida Garrett trata D. Sebastião e Luís Vaz de Camões de forma tão atenciosa, que podemos considerá-los personagens secundárias.
Espaço e Tempo:
- A trajetória das personagens limita-se às cidades Lisboa e Almada, numa época de peste em processo de declínio.
- Influência das lutas pela liberdade religiosa no século XVI. Os ingleses já haviam traduzido as sagradas escrituras. Em Portugal, somente os religiosos dominavam os segredos do catolicismo, porquanto as missas eram rezadas em Latim.
- Influência do Iluminismo: observemos a definição extraída do Dicionário Aurélio – Século XXI:
Filosofia das Luzes: Movimento filosófico do séc. XVIII que se caracterizava pela confiança no progresso e na razão, pelo desafio à tradição e à autoridade e pelo incentivo à liberdade de pensamento. [Sin.: iluminismo, ilustração. Tb. se usam o alemão: Aufklärung e o ingl. Enlightenment. ]
Vejamos, agora, o que D. Manuel diz à Maria:
“E Deus entregou tudo à nossa razão, menos os segredos de sua natureza inefável, os de seu amor e da sua justiça e misericórdia para conosco. Esses são os pontos sublimes e incompreensíveis da nossa fé! Esses crêem-se; tudo mais examina-se.”
Características Românticas:
- Nacionalismo: as personagens falam e agem, demonstrando um patriotismo ufanista:
“– O meu nobre pai! Oh, meu querido pai! Sim, sim, mostrai-lhe quem sois e o que vale um português dos verdadeiros!”
- Idealização de personagens femininas: Maria, D. Manuela, D. Joana de Castro são exemplos das mais diversas virtudes. O segundo casamento de D. Manuela não chega a ser uma atitude pecaminosa, posto que procurou por D. João de Portugal durante sete anos, investindo uma grande quantia de dinheiro nessa procura. Somente quando todos, exceto Telmo Paes, desacreditaram na possibilidade de D. João estar vivo, consolidou sua união com D. Manuel. Maria, por sua vez, é citada como um anjo de bondade.
- Pessimismo: é facilmente detectado no diálogo das personagens:
“– Meu adorado esposo, não te deites a perder, não te arrebates. Que farás tu contra esses poderosos?”
“Crê-me que to juro na presença de Deus; a nossa união, o nosso amor é impossível.”
Notamos que esse pessimismo explícito abre portas ao metafísico, sob a forma de presságios e agouros, que disputam, em pé de igualdade com os dogmas do catolicismo, a fé popular. Algumas personagens acreditam em Deus, mas crêem igualmente que seus medos e suas sensações são avisos de que alguma coisa ruim realmente acontecerá:
“...não entremos com os teus agouros e profecias do costume: são sempre de aterrar... Deixemo-nos de futuros...”
“... agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pai.”
- Sentimentos e emoções conturbados: não há paz e tranqüilidade no relacionamento das personagens principais. Amor e medo caminham juntos, gerando atitudes precipitadas e movidas pelo desespero:
“...peço-te vida, vida, vida... para ela, vida para a minha filha!”
“– Se Deus quisera que não acordasse!”
“– Vamos; eu ainda não me intendo bem claro com esta desgraça. Dize-me, fala-me a verdade: minha mulher...– minha mulher! com que boca pronuncio eu ainda estas palavras! – D. Madalena o que sabe?”
- A natureza também não se apresenta sempre tranqüila. Vimos na descrição do Tejo que suas águas ficam furiosas quando o tempo muda:
“Mas neste tempo não há de fiar no Tejo: dum instante para o outro levanta-se um nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas! Que ele é tão bom mareante...”
- Escapismo: quando a situação adquire uma carga insuportável de sofrimento moral e emocional, os protagonistas não enfrentam o repúdio da sociedade e aceitam o refúgio na vida religiosa:
“– Madalena... senhora! Todas estas coisas são já indignas de nós. Até ontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens, estava na boa-fé e seguridade de nossas consciências. Essa acabou. Para nós já não há senão estas mortalhas (tomando os hábitos de cima da banca) e a sepultura dum claustro.”
Análise dos atos e das cenas:
Primeiro ato:
- Subdivide-se em doze cenas.
- Câmera antiga e luxuosa dos princípios do século dezessete.
- Apenas um retrato do cavaleiro São João de Jerusalém.
- Menciona a posição das portas que será invertida no ato seguinte.
- Começa num início de tarde em Lisboa.
Segundo ato:
- Subdivide-se em quinze cenas.
- Palácio, em Almada, que pertencera a D. João de Portugal.
- O salão antigo, de gosto melancólico e pesado, cria um contraste com o cenário do primeiro ato.
- Há vários retratos, entre eles os do Del-rei D. Sebastião, Camões e D. João de Portugal.
- A posição das portas faz, como no primeiro ato, referência ao interior e exterior do ambiente. A inversão causa uma sensação de real mudança de domicílio.
- O aspecto religioso transparece através da Capela da Senhora da Piedade e da Igreja de São Paulo.
- Não é mencionado em que parte do dia este ato se desenvolverá.
Terceiro ato:
- Subdivide-se em doze cenas.
- Ocorre na parte baixa do Palácio, onde encontramos a Capela da Senhora da Piedade da Igreja de São Paulo dos Domínicos d’Almada.
- Os móveis e a ornamentação intensificam a melancolia do ambiente. A simbologia da cruz de tábua negra com o letreiro INRI sugere sacrifícios de cunho religioso.
- As cores, além de mais escuras, são acrescidas do peso dos materiais de que são feitos os objetos: castiçal de chumbo.
- A iluminação noturna, composta de tochas e velas, não dispensa a declaração de que o ato começa na total ausência de luz solar: “é alta noite”.
Os três atos desenvolvem-se em ambientes diferentes que acompanham o clima de tensão, e colaboram de forma graciosa para a sua intensificação. O declínio de luzes e cores dá o exato tom sombrio e triste, condizente com o destino das personagens.
A descrição dos cenários é feita de forma objetiva, sem rebuscamento de linguagem, assemelhando-se a uma lista de ingredientes.

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António Feliciano de Castilho (1800-1875) nasceu e faleceu em Lisboa. Aos seis anos, por motivo do sarampo, cegou. Não obstante isso, seguiu estudos regulares, graças ao auxílio de seu irmão Augusto Frederico. Em 1817, matriculou-se na Universidade e em 1826 estava formado em Cânones. A seguir, fixou-se com o irmão em Castanheira do Vouga, perto de Águeda, e aí se conservou uns oito anos, em situação que muito favoreceu o estudo e a produção literária. Esteve na Madeira e nos Açores e visitou o Brasil. – Dedicou-se à tradução de obras em latim, francês e inglês.
Obras Principais: Cartas de Eco e Narciso (1821); A Primavera (1822); Amor e Melancolia (1828); A Chave do Enigma; A Noite do Castelo (1836); Os Ciúmes do Bardo (1836); Crónica Certa e muito Verdadeira de Maria da Fonte (1846); Felicidade pela Agricultura (1849); Escavações Poéticas (1844); Presbitério da Montanha; Quadros da História de Portugal (1838); O Outono (1863).
Traduções: A Lírica de Anacreonte; Metamorfoses e Amores, de Ovídio; Geórgicas, de Virgílio; Médico à Força, Tartufo, O Avarento, Doente de Cisma, Sabichonas e Misantropo, de Molière; O Sonho de uma Noite de S. João, de Shakespeare; Fausto, de Goethe.; D. Quixote de La Mancha, de Cervantes.
A CHAVE DO ENIGMA

A SOLIDÃO
Tem a solidão isto de comum com o silêncio e a escuridade: espanta; e aturde quem nela cai; mas, logo que o ouvido, desadormentado dos sons fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos, desofuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de raios. fosforescências indecisas, que são como que os infusórios das trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo, a calada aviventou-se de diálogos, a solidão, que parecia o nada, é o teatro com o seu drama, é um mundo novo com um sistema completo de existências imprevistas e apropriadas.
Que admira? A solidão medita, e a meditação cria. Os sentidos pastam só no que lhes oferecem a natureza, a fortuna, o acaso: a divindade interior, a alma, tem comércios inefáveis com o íntimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Patmos, divisa uma Jerusalém celeste; nas cogitações de Sócrates, aparece o Omnipotente; nos êxtases de Platão. reflexos da Trindade; nos cálculos taciturnos de Galileu, firma-se o céu, volteiam as plantas: Colombo faz surgir do fundo dos mares a América; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o hipógrafo, o pégaso do vapor, magia, poesia, potência escrava do homem, e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes e amanhã, talvez, dos ares; a solidão cismadora dá a Eneida a Virgílio, mostra a Lineu os amores e o sono das plantas, a Dante o Inferno, a Fourier o paraíso terrestre, a Newton e a Laplace o código dos astros, a Daguerre os talentos artísticos do Sol, ao Gama o caminho do Oriente, ao soldado Camões o da imortalidade, põe na mão de Gutembergue a chave do cofre das ciências, na de Vicente de Paulo a da caridade, na de Say a da riqueza pública, na de Pestalozzi e Froebel a da escola séria e fecunda.
.....................
Arquimedes, a sós com a natureza e com o seu génio, descobre os meios de destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões criadoras, no seu gabinete, como num antro, não sente o estrondo da cidade, já senhoreada dos inimigas; não acorda à voz do soldado de Marcelo, que, de espada desembainhada, lhe ordena que o siga; sem o sentir, é degolado. Cai a grande cabeça, irmã entre irmãs, no meio das esferas celestes que está arquitectando. Só de tão extraordinária concentração podiam brotar as seus tão extraordinárias inventos e descobrimentos.
Lavoisier, outro dos martirizados pelo materialismo descrente e brutal, depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança científica, condenado ingrata e cegamente á guilhotina, que é o que pede aos verdugos revolucionários, seus juízes? Uma dilação de quinze dias. Só uma dilação! Só de quinze dias! Para quê? Para concluir trabalhos úteis à Humanidade, que neste momento o desconhece. Rematados eles, já não terá pena de morrer. Recusam-lha. Então, caminha, sereno, a depor no cadafalso uma cabeça, maior, talvez. que a de Arquimedes, e ainda na véspera coroada de loiros pelo Liceu.
Tanto a actividade fecundante, recolhida por instinto para os penetrais mais sagradas do ânimo, donde se conversa em êxtases com Deus e com a natureza, com o Pai Omnipotente e com a filha formosíssima, nossa irmã, fica inacessível aos maiores cataclismos externos, às catástrofes das Siracusas. ao caos, providencial, porém medonho, de uma revolução francesa!
O homem que nasce pertencente à escassa família deste naturalista, pai da química, e daquele geómetra, pai da mecânica, mesmo com os braços cruzados sobre o peito, mesmo com os olhas fechados, mesmo dormindo e sonhando, está servindo como operário; mas, abaixo dele, há ainda, não menos veneráveis, os prestigiosos cismadores do mundo da Arte, mundo não menor, nem talvez, em última análise, menos útil que o da Ciência.
André Chénier, espécie de Lavoisier da poesia, convocado também para o festim da morte, não é das prazeres efémeras da existência que leva saudades: bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente que se lhe estava ali dentro formando, como em cérebro olímpico, uma nova musa gentilíssima. Quem lha revelara? A meditação solitária, que sabe tudo e tudo profetiza.
Boníssima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são para os vales: nas tuas entranhas se filtram. dos teus recôncavos rebentam as génios possantes e profundos que vão derramar por longe a fertilidade. Mas tu não és só mãe às torrentes caudais: uma fontinha entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco liberalizas dons, como sabre o muito; próvida para o imenso, próvida para o limitada. Solidão, Egéria das almas eleitas! Solidão, buscada por Cristo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarca, explorada em tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau, do Infante de Sagres, de todos as videntes, de todos as descobridores, de todos os inventores, de todos as Baptistas! Solidão, ninho das rolas como das águias, perdoa, se eu não sabia ainda apreciar-te!
(A Chave do Enigma, Cap. XL)
FELICIDADE PELA AGRICULTURA
TERCEIRO SERÃO DO CASAL
Índole campestre da Poesia
Sumário
A Poesia nasceu nos campos, e para eles propendeu sempre. – Quem Ovídio. – O seu poema dos Fastos. – Duas amostras deste poema. – Festa das sementeiras entre os Romanos. – Festa do deus Término.
Dizia-vos eu, meus camponeses, que todos os poetas deveras eram vossos amigos; não há nada mais certo.
A Poesia nasceu nos campos, e por muito tempo só conheceu esse viver viçoso e perfumado. Veio a fazer-se dama ambiciosa de mais refinadas delícias; assentou vivenda nas cidades; fez-se muito sábia, muito altiva, muito malédica, muito contraditória; ora devota, ora ímpia, ora frívola, ora profunda; mas lá os seus campos nunca se lhes desluziram da lembrança.
Em nenhuma parte a ouvireis cantar combates, viagens, descobrimentos, artes, luxo, amores, ou desejos de melhor vida para além-mundo, que lhe não fugisse um olhar de saudade para o seu paraíso de flores.
A idade de oiro, que é a sua cisma contínua, posta umas vezes no passado, outras no futuro, a idade de oiro, (que Deus sabe se é tão fabulosa como cuidam, a não ser em relação ao seu título), que era ela se não a Arcádia, o viver campestre, manso e regalado?
Livros dos mais antigos do mundo, os de Moisés e os de Homero, uns e outros mananciais de Poesia, não têm página, que nos não espelhe uns reflexos das bem-aventuranças patriarcal e heróica, que são também Arcádia, com leves modificações.
Passaram os povos antigos, com as suas religiões e usos particulares. Nos escritos que de então sobreviveram, que ê o que mais nos encanta? Não são por certo as descrições dos seus usos exclusivos, ainda para aí se atrai fortemente a curiosidade; são, sim, os toques alusivos ao viver rural, porque enfim, aí é que é o ponto de contacto de todas as idades, e de todas as civilizações. O campo é que é o centro de unidade da espécie humana.
*
Se tivéssemos vagar, muito nos havíamos de entreter relendo em comum, aqui no vosso casal, alguns dos mais guapos trechos dos poemas de eras mui diversas, e países mui remotos, por onde acabaríeis de conhecer quanto o vosso trato namorou sempre aos bons engenhos. Fora leitura para cem anos bem aproveitados.
Falemos de um só autor, mas, que, pela grandeza do seu talento, vale centos.
Nasceu este na Itália, em tempo do poderio Romano, vai em dezanove séculos, e quando o latim era ainda língua viva e bizarra. Chamava-se Públio Ovídio Nasão, e era cavaleiro, ou fidalgo daquelas eras. Vivia na Corte, bem relacionado com a principal Nobreza, e mui cabido no paço dos Imperadores.
Tinha um engenho prodigioso para a Poesia; cultivou-o com os seus estudos da eloquência, com o trato dos outros poetas contemporâneos com as ciências, com as viagens à Grécia, que era a França daqueles tempos, e Atenas a sua Paris. Compôs uma quantidade de obras, que ainda existem quase todas; a maior parte amorosas e voluptuárias.
As mulheres eram para ele o maior bem do mundo; o segundo, as amenidades da Natureza (ninguém dirá que tivesse mau gosto o nosso Ovídio).
Este homem, depois de ter gozado quanto era possível da vida de Roma, de repente, e já ao descair para velho, é desterrado. E que desterro! De Itália, para a Rússia! do seio das delicias, para uma povoação bárbara, glacial, sempre em contingências de guerras! Ali se vê, longe de sua mulher, de sua filha, de seus amigos, dos campos do seu nascimento, das damas, e dos aplausos.
A causa do seu desterro é um enigma, que tem desatinado os historiadores, e a que ainda ninguém rastreou solução provável. Coisa de amores (ou seus ou alheios) deveu por certo de andar por aí. O que sabemos é que, lá no desterro, lembrando-lhe com muitas saudades tudo quanto havia perdido, nada lhe doía mais no coração, que o ver-se privado do seu quintalinho nos arrabaldes de Roma, onde outrora a mão que tão gentis coisas escrevia se deliciava, muita vez. em podar e enxertar as suas árvores.
– "Coitado de mim! – dizia ele – ainda que eu aqui me quisesse meter a lavrador, os bois desta terra não entendem latim:"
Em tal e tamanho desamparo, que até à morte lhe durou, só as Musas o não desampararam. A isso devemos duas deliciosas colecções de magoadíssimas Canas em verso, à mulher, aos amigos, a César mesmo, solicitando vir morrer onde nascera, e metade de um poema intitulado Os Fastos.
*
Eram os Fastos de Ovídio uma obra em doze Livros, de que só ficaram os primeiros seis. Tinham por objecto descrever e explicar as principais festas religiosas pagãs de cada um dos doze meses; a origem arqueológica de cada uma delas; e a sua coincidência com as revoluções astronómicas.
Eis aqui o como ele propõe a totalidade do seu plano:
Festas do Lácio ano, origens suas
quais astros vão, quais vêm, dirão meus versos.
Esta obra, além de outras suas, traduzi eu; e por sinal que ofereci a tradução a um muito particular amigo dele, meu, e vosso, que é o Secretário da nossa Sociedade de Agricultura.
Há nos Fastos muitas e mui belas provas do que eu há pouco vos dizia: do amor que o bom do Ovídio tinha à vida campestre.
Amostrar-vos-ei algumas; e vá, por estreia, o final do seu mês de Janeiro.
Canta assim:


FESTA DAS SEMENTEIRAS:

Nos Anais, onde as festas vêm marcadas,
festas em vão busquei das sementeiras.
Vendo-me a folhear, cuidoso, assíduo,
e entendendo-me o empenho, – "Em balde as buscas
rindo a Musa me diz; – "festas mudáveis
"das fixas no registro achar querias?
"Têm marcada estação, e o dia incerto;
"celebram-se no prazo em que estão prenhes
"de sementes os chãos. Gozai do ócio
"à farta manjedoira, ó bois coroados;
"lá virá logo a activa Primavera,
"à cerviz repoisada impondo jugo,
"com a renascente lida afadigar-vos.
"No abrigo do casal durma por ora
"a cansada charrua; a terra fria
"não deseja, não sofre, o ser rasgada."

Agora, que jaz finda a sementeira,
lavradores, dai folga ao solo, aos braços;
lustrem colonos sua aldeia em festa,
dêem a seus fogos a anual fogaça.
Télus e Ceres, madres das searas
já com seus mesmos grãos se propiciem,
já com as entranhas da suína fêmea.
De entre ambas nasce o grão que nos sustenta:
Ceres no-lo produz; mantém-no a Terra.

Ó consócias em dádiva tão rica,
deusas, por quem a rude antiguidade
se abrandou, se poliu, deixada a glande
por mais nobre manjar, dai aos colonos,
em prémio a seu trabalho e a seus desvelos,
colheita sem medida, e que os sacie.

Dai aumento contínuo aos germes tenros,
e que a neve à nascença os não destrua.
Em quanto disparzirmos as sementes,
alimpai-nos o céu com ventos brandos;
mal que enterrada for, mandai-lhe as chuvas;
e, pois são glória vossa as pingues messes,
que em vagas de oiro, ao longo dessas veigas,
rumorejam fartura, eia, salve-as
do ávido bico das aladas hostes!
Por ora, que inda a terra o grão recata,
vós, formigas povoai-o; usura grande
havereis dele, se aguardais a ceifa.
Livre de torpe alforra a messe vingue
e cor de palma saúde o Céu lhe influa;
que nem definhe pálida, nem perca
por excesso de viço e nímia pompa.
Joio, à vista nocivo, os chãos não brotem,
nem torpe aveia as sementeiras mescle.
Só se vejam medrar profusamente
as cevadas, o trigo, e a rija escándia,
a escándia, a fogos dois predestinada.

Lavradores, por vós tais são meus rogos.
Com os rogos meus os vossos se misturem,
por que uma e outra deusa os ratifiquem.

Ferina longo tempo a humanidade
só nutriu belicosos pensamentos.
Mais apreço que a relha a espada tinha,
e em foros de nobreza era anteposto
o corcel que peleja, ao boi que lavra.
Não trabalhava a enxada; ia-se em lanças
dos alviões o ferro; o ancinho em elmos.
Graças deusas, a vós, a vós, ó Césares
o Génio marcial agrilhoado
já sob os pés de Roma em vão se extorce.
O toiro aceite o jugo; o solo, os germes;
Ceres, filha da paz, com a paz triunfe.

*
Ouvi-lhe agora a narração da festa, que em seu tempo se fazia no mês de Fevereiro, em honra do deus Término, ou Termo.
Este deus não era mais nem menos que um marco, de pedra ou pau, que extremava os prédios. Com razão lhe davam aquele culto; nada mais respeitável, que a propriedade; nada mais judicioso, que santificá-la.

FESTA DO DEUS TÉRMINO

Finda a noite, alvoreça a costumada
festa do deus que nos comparte os campos.

Quer tosca pedra, ó Término, te embleme,
quer tronco informe pela mão de antigos
enterrado no chão, sempre és deidade.

Para ti donos dois, de opostas partes,
coroa e coroa te cingem; bolo e bolo
te vem de cá, de lá; como à porfia,
aí se te engenhou ara campestre.

Lá nos traz a açodada fazendeira
no seu testo quebrado as áscuas vivas
que apurou do borralho. O bom do velho
racha a lenha miúda, ergue-a em pirâmide;
sua a cravar no chão ramos festivos.
Agora em cascas secas ceva o fogo,
tendo em pé ao seu lado, em quanto assopra,
o filhinho abraçado a largo cesto.
Três vezes dali tira a lança ao fogo
punhados de áurea Ceres. Toma os favos,
que a filha pequenina lhe apresenta
pelo meio cortados. Trazem outros
o vinho; tudo aqui se liba às chamas.

Alvitrajada a turba espectadora
religioso silêncio atenta observa.
Com o sangue quente de imolada ovelha
que ufano purpureja o vulto informe
do comum velador, o honrado Término!
e quando, em vez de ovelha, haja leitoa,
não temais que se anoje. O bródio é franco
aos bons vizinhos, corações lavados,
que o celebram com fé, que jubilosos
vão tecendo um louvor a cada prato.
Ouvi, ouvi seu rústico descante;
é do deus do festejo o panegírico:

Salve, ó Término sacro, ó tu, que extremas
bairros, cidades, reinos! cada campo
fora sem ti um campo de batalha.
Manténs, desambicioso, insubornável,
as herdades em paz das Leis à sombra.
Se a terra Thireátide te houvera,
não ceifaria a morte heróis seiscentos
de Argos e Esparta no fatal duelo;
não se lera de Othriades o nome
num vão troféu de mentirosas armas,
que inda à Pátria infeliz custou mais sangue.
Capitolino Júpiter que diga
que invencível te achou, quando ao fundar-se-lhe
a área do templo, ao passo que os mais numes
para dar-lhe lugar retrocediam,
tu só, qual no-lo conta anosa fama,
ousas te resistir, ficar, ter parte
no templo augusto, e adorações com Jove;
e inda lá, por que nada alfim te ensombre,
sobre ti ao céu livre é rota a abóbada.
Nume de tão gentil perseverança,
em qualquer a leveza achará vénia;
contradição em ti suicídio fora.
Mantêm pois sempre, ó sacra sentinela,
mantém pois sempre, ó Término, teu posto.
Despreza os rogos do vizinho avaro;
não lhe concedas do terreno um ponto.
Ceder a humanos quem resiste a Jove?!
Vem bater-te enxadão, pulsar-te arado?
proclama a vozes: "Meus confins são estes;
"de além, tu; de aquém, ele; ambos coíbo.
"e em coibir aos dois aos dois protejo."
Uma estrada une Roma aos Laurentinos,
reino que o Teucro prófugo buscara;
lá, dos marcos o sexto em honra tua
vê que lanosa vítima se imola.
Término, já que aceitas cultos nossos,
ampara-nos; sustenta o nosso Império.
De cada povo o espaço é circunscrito;
são de Roma os confins confins do globo.

*
Quão grande, meus amigos, não era o Povo em que um Poeta podia dizer isto, sem medo de que o mundo, nem a posteridade, o desmentisse!
E nós também, nós, os Portugueses, já houve um tempo, em que pouco menos fomos.
Ouvi como o nosso Camões o cantava:
Mas em tanto que cegos, e sedentos
andais do vosso sangue, ó gente insana,
não faltarão cristãos atrevimentos
nesta pequena casa Lusitana.
De África tem marítimos assentos;
é na Ásia mais que todas soberana;
na quarta parte nova os campos ara,
e, se mais mundo houvera, lá chegara.


Hoje... que são aquela Roma, e este Portugal?
Roma pereceu. Portugal, se não agoniza, enferma gravemente.
Mas para Roma não há já esperança; para nós há ainda uma. Sabeis qual?
Sois vós, vós mesmos, vós unicamente, ó Lavradores.

Março de 1849.

(Felicidade pela Agricultura, 2ª ed., Lisboa, Empresa da História de Portugal, 1903)
O AVARENTO DE MOULIÈRE
O AVARENTO ROUBADO

Harpagão
(Vindo a gritar desde o quintal até entrar em cena, com as feições desconcertadas, e no auge do terror)
Aqui de el-rei, ladrões! Ladrões, aqui de el-rei!
Querem-me assassinar. Mataram-me. Acabei.
Justiça, Deus do céu! Ó da ronda! Ó da guarda!
Estou perdido e morto! um chuço! uma espingarda!
Roubaram-me o meu sangue, os meus dez mil cruzados!
Quem seria? Quem foi? Persigam-me os malvados!
Quem mos trouxer co roubo of'reço-lhe um quartinho...
meia moeda... mais, que eu nunca fui mesquinho.
Para onde fugiu? Onde está ele? Aonde?
Corram, vasculhem tudo, a ver onde se esconde.
Ali não!... Aqui não!.. Agarra o bandoleiro!
Vê-lo cá vai... Agarra, agarra o meu dinheiro!

(Agita-se bracejando à doida, e agarra com a mão direita o braço esquerdo)

Filei-te, mariolão! Larga o que não é teu!...
Estou perdido e doido: o que apanhei fui eu.
E eu quem sou? Onde estou? Que hei-de fazer? Que posso?
Ah, meus ricos dobrões, se eu era todo vosso,
como pudestes vós deixar-me só no mundo?
Que situação! Que horror! Que inferno tão profundo!
Ninguém tem dó de mim; sou Lázaro; sou Job.

(Chora e soluça despropositadamente)

Perdi tudo, e ninguém de mim tem dó.

(Numa explosão de delírio)

Enforcar tudo a esmo, até que surda alguém
co meu cofre; aliás enforco-me eu também.
...............................
De que me hei-de valer? Demónio, eu te requeiro:
leva-me um olho... e as dois, mas dá-me o meu dinheiro!



(Tradução de O Avarento de Molière, final do acto IV) METAMORFOSES DE OVÍDIO

DEUCALIÃO E PIRRA

Enfim, renasce o mundo. Vendo o triste,
o bom Deucalião vazia a Terra
e alto silêncio derramado em tudo,
a Pirra diz, chorando:
– Ó doce esposa,
doce irmã e hoje única de tantas
habitantes do Mundo, e que ligada
pelo amor, pelo sangue estás comigo.
e ao presente inda mais pelo infortúnio,
– do Nascente ao Poente, em toda a Terra.
só habitamos nós; só nós vivemos:
tudo o mais pelas ondas foi tragado,
e cuido que não tens inda segura
tua existência tu, nem eu a minha.
Estas nuvens que observo inda me aterram:
Ah, triste! Que farias, se arrancada
ao fado universal, sem mim te visses?

Onde, fria de susto, onde levaras
a planta vacilante, e quem seria
tua consolação na dor, no pranto?
Crê. minha amada, que, se o mar sanhudo
te escondesse nas sôfregas entranhas,
te houvera de seguir o aflito esposo:
sócio te fora em vida e sócio em morte.
Oh! Não ter eu de um pai herdado a indústria?
Renovaria agora a Humanidade.
alma infundindo na formada Terra.
Todo o género humano em nós se inclui.
Isto aos fados apraz, apraz aos deuses.
Ficámos para exemplo de que o Mundo
morada de homens foi.
Disse, e choravam.
Depois, tornando em si, resolvem ambos
recorrer aos oráculos sagrados,
da deusa Témis invocar o auxílio.

Não tardam: vão-se à margem do Cefiso,
inda revolto, sim, mas já com margens;
e, apenas pelas frontes, pelas vestes
os libados licores desparziram.
para o templo da deusa os passos torcem.
Manchava torpe musgo a frente, os tectos
da estância venerável, e jaziam
sem ministro, sem luz, sem culto as aras.
Como as sacros degraus tocado houvessem,
sobre a mádida terra os dois se prostram
e dão nas pedras ósculo medroso.
Oram depois assim:
– Se justas preces
tornam benignos os irados numes;
se a cólera dos Céus com ais se adoça,
dize-nos, deusa, dize-nos de que arte
podemos restaurar a espécie humana
e socorre, piedosa, o triste mundo.
Movendo-se a deidade, assim lhes fala:
– Do meu templo saí cobrindo as frontes:
soltai as vestiduras que vos cingem
e para trás depois lançai os ossos
da vossa grande mãe.

Tendo ficado
atónitos as dois espaço grande,
Pirra primeiro enfim rompe o silêncio.
Da divindade as leis cumprir não ousa
e, com trémula voz, perdão lhe roga,
porque teme, espalhando os ossos frios,
aos Manes maternais fazer injúria.
Depois disto, repetem, pesam, notam
as palavras do oráculo sombrio,
'té que Deucalião, o venerando
filho de Prometeu, com brandas vozes
serena a cara esposa e diz:
Se acaso
não revolvo ilusões no pensamento,
o oráculo da deusa é justo, é pio:
não nos ordena o mal, não quer um crime.
A grande mãe que ouviste, a mãe de todos,
é a Terra; a meu ver, são dela os ossos
as pedras; e essas diz que atrás lancemos.

Bem que esta inteligência agrade a Pirra,
esperanças com dúvidas se envolvem,
e ambos das ordens santas desconfiam.
Mas que mal faz tentar? Descem do templo:
cobrem a fronte; as túnicas descingem,
e logo para trás as pedras lançam.
Eis, – quem te dera crédito, ó portento,
se anosa tradição não te abonasse? –
eis que as pedras de súbito começam
a despir-se do frio e da rijeza
e, despindo a rijeza, a transformar-se.
Crescendo vão: mais branda natureza
lhes entra; e, se perfeito o vulto humano
logo ali se não vê, se vê contudo
em grosseiros sinais a semelhança,
quais; mármores apenas desbastados,
estátuas em começo, informes, rudes.
Partes que eram terrenas e sucosas
nas carnes e no sangue se convertem;
o que tem solidez e o que não dobra
muda-se em ossos, e o que dantes nelas
veia se nomeou conserva o nome.
Num breve espaço, enfim – mercê dos deuses! –,
as que arroja o varão varões se tornam
e as que solta a mulher mulheres ficam.

Por isto. somos fortes, somos duros,
aptos a empresas, próprios a trabalhos;
e em nosso esforço, na constância nossa,
claramente se vê que origem temos.

As Metamorfoses de Ovídio, Liv. I
ESCAVAÇÕES POÉTICAS
OS TREZE ANOS


(Cantilena)


Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao domingo
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co'as patas
Ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,

dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co'as outras
e eu danço em terreiro».

Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.

Que em ele assomando
co'o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.

Escavações Poéticas; 1844

A TOMADA DE COIMBRA

(Xácara)
I

Caminhavam frades bentos
do mosteiro de Lorvão,
quando acharam Dom Fernando
no meio de Carrião:
era Dom Fernando o Rei,
e seu reino era Leão.

– D. Fernando, D. Fernando,
novas de consolação!
cavaleiros não nos oiçam;
manda sair quantos são.
Deus te nos manda dizer
que tens Coimbra na mão.

«Descuidados estão Moiros
do poderio cristão;
deles o havemos sabido
por sua conversação,
quando nos vêm de Coimbra
a montear em Lorvão.

«Fingimos uma romagem
por livrar de suspeição,
e viemos dar-te aviso,
grão Rei, senhor de Leão.
Manda logo fazer prestes
todo o ginete e peão.

Como três meses passaram,
era por Janeiro então,
el-Rei é sobre Coimbra,
e os de dentro em confusão;
mas vale o muro à cidade,
que é mui boa defensão.

Em que traz muitos vassalos
de caldeira e de pendão,
em que traz o Cid Rui Dias,
mais forte que quantos são,
não acaba de a tomar,
sete meses já lá vão.

..........................

Cristãos, ganhastes Coimbra,
mais que jóia oriental;
mais tu, Coimbra, ganhaste,
que tens fonte baptismal,
e a tua mesquita grande
verás logo em catedral.

Dar meia cidade aos monges
queria o Rei liberal,
mas os monges só quiseram
uma casa monacal,
contentes com Lorvão santo,
seu paraíso terreal.

Foi-se el-Rei a Compostela
com sua gente leal.
De atabales e trombetas
soa estrondo festival;
abrem-se as portas do templo
bem armado e triunfal.

Todos co'o joelho em terra
como cumpre em caso tal,
diziam de agradecidos
ao valedor imortal:
– «Santiago, Santiago,
salvaste o nosso arraial;
salva sempre os Leoneses,
e a gente de Portugal.»


Escavações Poéticas; 1844


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Resumo de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco.
Na introdução do romance, o narrador-autor reproduz o registro de prisão de Simão Botelho nas cadeias da Relação do Porto e antecipa o degredo do moço, aos 18 anos, em circunstância ligada a uma paixão juvenil, bem como o desenlace trágico da história. Falando diretamente ao leitor, imagina a reação que tal história pode provocar: compaixão, choro, raiva, revolta frente a falsa virtude alegada pelos homens em atos injustos e bárbaros.
Passa então a contar a história da família de Simão Botelho. Principia acompanhando a trajetória de seu pai, Domingos Botelho, que, formado em Direito, inicia sua carreira em Lisboa, onde cai nas graças dos reis. Na Corte, se apaixona por uma dama de D. Maria I, D. Rita Castelo.
Após dez anos de tentativas de aproximação e conquista, casam-se por fim em 1779. Em 1801, estão fixados em Viseu, em companhia de suas três filhas. Seus dois filhos estudam em Coimbra. Manuel, o mais velho, muito reclama de seu irmão Simão, ao que o pai não dá muitos ouvidos. Antes até se orgulha de sua valentia e dos resultados acadêmicos de Simão. Mas quando Simão, em férias em casa, se mete numa briga, em defesa de um criado que fora espancado, seu pai enfurecido o quer ver preso. Sua mãe o ajuda na fuga para Coimbra, onde aconselha que o filho aguarde aplacar a fúria do pai.
Simão, no entanto, mais seguro de si e de sua coragem do que nunca, começa a defender publicamente a Revolução Francesa e, por isso, acaba retido em cárcere acadêmico por seis meses. Perdido o ano escolar, retorna à casa dos seus pais. Domingos Botelho se mantém frio e distante, não dirigindo a palavra ao filho.
Grande e misteriosa transformação vai se operando em Simão, que muda completamente seu comportamento: sai pouco, fica longamente no próprio quarto, mantendo-se pensativo. Tal transformação faz com que, findos cinco meses, o pai consinta que o filho lhe dirija à palavra. Desconhece a esse momento Domingos Botelho a real razão da mudança de seu filho: o rapaz nos seus 17 anos está apaixonado pela filha do vizinho, um inimigo de seu pai. A inimizade tinha se concretizado quando Domingos Botelho dera sentenças contrárias aos interesses de Tadeu de Albuquerque e azedado mais uma vez quando Simão machuca empregados de Tadeu em recente briga.
Por três meses, Simão e Teresa encontram-se e falam às escondidas, sem levantar nenhuma suspeita. Sonham casar-se e fazem planos para concretizar seus desejos de vida em comum.
Na véspera do retorno de Simão à Coimbra, os enamorados falam-se pela janela, quando subitamente Teresa é arrancada da frente de Simão. É seu pai, reagindo fortemente ao flagrante. Simão se desespera, tem febre, mas assim mesmo parte para Coimbra, com o plano de retornar secretamente para se comunicar com Teresa. Momentos antes de sair em viagem recebe da mão de uma mendiga um bilhete, em que Teresa lhe revela as ameaças de seu pai de encerrá-la num convento. Pede, no entanto, que Simão siga para Coimbra, garantindo que se manterá em contato.
Rita, a irmã caçula de Simão, e Teresa começam a travar uma amizade secreta, com conversas sussurradas através das janelas. Numa destas conversações são flagradas e Rita, ao ser pressionada pelo pai, conta tudo o que sabe.
Tadeu de Albuquerque percebe também o incidente, mas se mantém tranqüilo. Não que tenha passado a ver com melhores olhos o namoro: tem para consigo mesmo a convicção de que o melhor remédio para curar aquela paixão é o silêncio e a distância. Planeja secretamente casar a filha com um primo, Baltasar Coutinho. Chama logo o rapaz a Viseu, conta seus planos e lhe incentiva a cortejar a filha. Teresa, no entanto, se nega a Baltasar, que insiste em conhecer suas razões: quer ouvir a confissão da prima sobre seu rival. Jura se pôr contra àquela relação, substituindo o tio nesta função se necessário.
Tadeu reage fortemente à atitude de sua filha, sentindo-se ofendido no seu direito de pai e decide mandá-la para o convento. Mas nada faz de imediato. Teresa manda semanalmente cartas a Simão, mas lhe esconde as principais ameaças, sobretudo o que escutou de seu primo Baltasar, para evitar um confronto entre os dois. Seu pai, no entanto, trama em segredo sua cerimônia de casamento com Baltasar. Novamente, Teresa se nega. Desta vez, tudo relata a Simão. O rapaz inicialmente tem ímpetos de se vingar, mas, para preservar a possibilidade de felicidade dos dois, acaba por conter-se.
No meio tempo, aluga um cavalo e, quando o arreeiro vem trazer-lhe a montaria, pede-lhe indicação de um refúgio em Viseu. Fica acertada uma hospedagem na casa do primo do arreeiro, o ferrador João da Cruz. O arreeiro encaminha correspondência para Teresa. Ao longe, Simão percebe que na casa de sua amada está acontecendo uma festa.
É uma nova investida de Tadeu. Planeja agora propiciar convívio social a Teresa, na esperança que assim ela deixe de teimar em amar o único rapaz que conhece. O primo Baltasar se encontra entre os convidados e observa todos os passos de Teresa. Percebe assim quando Teresa sai da sala e se dirige ao fundo do quintal. A menina volta logo, mas o primo continua a observá-la e, numa segunda escapada, a segue até o jardim. Teresa percebe seu vulto e se assusta, retornado a casa. Ao pai, Teresa alega que está sentindo dores. Mas como o primo Baltasar não é encontrado na sala, Teresa se oferece para ir procurá-lo lá fora. Aproveita a oportunidade para ir ao encontro de Simão que a esperava junto ao muro e dizer que retorne no dia seguinte. Baltasar, ainda escondido, denuncia sua presença a Simão e o ameaça, sem, contudo, revelar sua identidade.
Trocam os enamorados correspondência. Simão passa o dia na casa do ferrador, que lhe revela se sentir a ele unido por dever de gratidão: o ferrador escapou há três anos da forca por intermédio do pai de Simão. Coincidentemente, há mais tempo ainda, foi empregado de Baltasar Coutinho, que lhe emprestou dinheiro para se estabelecer e, há coisa de poucos meses, lhe chamou pedindo que matasse um homem: o próprio Simão. O ferrador fora na ocasião contar tudo a Domingos Botelho, que, reagindo muito, pôs-lhe a par de toda a situação. O ferrador aconselha-o a tentar resolver a história por alguma outra via, mas Simão insiste em ir ver Teresa à noite. O ferrador então se prepara para acompanhá-lo.
Seguem a Viseu Simão, o ferrador e o arreeiro. Baltasar Coutinho e dois homens estão preparando uma tocaia. Ambos os grupos discutem suas estratégias. Simão mal se avista com Teresa e o clima fica tão tenso e perigoso, que o grupo planeja a retirada. No caminho, encontram mesmo os homens de Baltasar; matam um e ferem o outro. Simão tenta dissuadir João da Cruz a consumar o segundo assassinato, mas o ferreiro não o escuta. Os crimes permanecem um mistério, sem testemunhas e sem ninguém em condições de denunciá-los, já que todos os envolvidos têm sua parcela de culpa e participação.
No embate, Simão fora ferido e passa por temporada de recuperação na casa do ferreiro. É cuidado por Mariana, de quem aos pouco descobre o amor.
Enquanto isso, Teresa é levada provisoriamente ao convento de Viseu, enquanto não se completam os preparativos para sua transferência para o convento de Monchique, no Porto. É introduzida, de imediato, nas intrigas e vícios das freiras, com seus namoros e vida sexual, o consumo de bebida, as disputas pelo poder. Mas ainda assim encontra o favor de uma das freiras, que se compromete a restabelecer sua correspondência com Simão. À noite, quase no escuro, Teresa escreve carta para Simão.
O rapaz, ao receber a carta com notícias do convento, escreve resposta e pede que o ferrador se encarregue de encaminhá-la. O ferrador percebe que o rapaz está quase sem dinheiro e com a filha inventa uma forma de resolver também este problema de Simão: dizem que a mãe lhe enviou dinheiro.
Prepara-se a mudança de Teresa para Monchique e cresce a desesperança dos amantes. Sonham com a fuga. Simão, ao saber que é eminente a ida de Teresa para o Porto, fica transtornado e se prepara para tentar raptá-la. Envia por Mariana uma carta, entregue em mãos a Teresa no convento. Em resposta a Simão, Teresa manda dizer que de nada adiantam os planos de fuga porque uma grande escolta a acompanha na viagem, incluindo o primo Baltasar... Simão se aflige em especial com este detalhe da notícia. Resolve assim mesmo ir ver Teresa à saída do convento e João da Cruz se prontifica a acompanhá-lo, com um grupo, para que possam proceder a um rapto. Simão não aprova o plano, mas mantém em segredo a decisão de ir ver Teresa.
Noite alta, Simão aguarda nas proximidades do convento. Às quatro e meia, começa a movimentação da comitiva, formada por Tadeu de Albuquerque, criados, Baltasar e suas irmãs. Tão logo saem todos, Simão os intercepta. Agredido verbalmente por Baltasar, reage e, quando o rival avança, responde com um tiro de pistola. Neste momento, surge o ferrador que incita Simão fugir. Simão, no entanto, se recusa.
O meirinho-geral, vizinho do convento, chega rapidamente e lhe sugere novamente a fuga, que novamente é recusada. O crime rapidamente chega ao conhecimento da família Botelho. As irmãs choram, a mãe espera que o pai interceda favoravelmente ao filho, mas Domingos Botelho é duro: espera que a lei se cumpra com rigor. A situação de Simão é péssima: confessa tudo, sem nem alegar legítima defesa. O pai se nega inclusive a lhe financiar o conforto e as primeiras necessidades na cadeia e decide mudar com a família de Viseu, para que ninguém se sinta coagido a facilitar a situação de Simão.
Já na cadeia, Simão recebe almoço mandado por sua mãe e acompanhado de uma carta. Pelos dizeres da mãe, acaba por concluir que a ajuda que recebera anteriormente não viera dela e passa a recusar qualquer auxílio materno. Em seguida, recebe cuidados de Mariana, que providencia mobília para a cela e o alimenta durante o período de espera do julgamento. Simão é condenado à forca. Mariana, tão logo sai a sentença, sofre de um ataque de loucura.
Amigos, conhecidos, familiares e sobretudo sua mãe, Rita, pressionam seu pai a interceder em seu favor, mas Domingos Botelho, residindo afastado da família, resiste a fazê-lo. Até que um tio o põe contra a parede. Domingos Botelho age, movido também pelo prazer em se mostrar mais influente que Tadeu de Albuquerque. Consegue assim a comutação da pena do filho para um degredo de dez anos na Índia.
Enquanto isso, Teresa se encontra no convento de Monchique, no Porto. Acompanhada de uma criada, Constança, e bem tratada pela sua tia, prelada do convento. Consegue brecha para mandar carta a Simão, onde manifesta que também se sente à espera da morte. Cai doente e só apresenta alguma melhora ao receber notícia de que Simão será transferido para o Porto. Temendo estarem os dois enamorados na mesma cidade, Tadeu planeja mudar Teresa novamente para Viseu. A tia prelada, usando para tanto das normas do convento, o impede de levar a filha.
Na cadeia da relação no Porto, Simão recebe a visita de João da Cruz, que vem acompanhado da filha, já recuperada. Mariana quer novamente servir a Simão. Também restabelece-se a possibilidade de correspondência com Teresa.
João da Cruz retorna a Viseu, deixando Mariana com Simão. Pouco depois é morto em vingança de um antigo crime. Mariana então retorna a Viseu e vende tudo o que seu pai lhe deixou, com a intenção de estar livre para acompanhar Simão no seu degredo.
Uma última decisão judicial ainda permitiria que Simão cumprisse sua pena na prisão de Vila Real, mas este se recusa a aceitar tal mudança. Prefere a liberdade de poder ver o céu e sentir o vento em país estrangeiro do se manter em uma cela. Teresa ainda tenta mudar-lhe a decisão, mas não consegue. Passam-se ainda alguns meses até que em 17 de março de 1807 Simão da Botelho embarca para a Índia. Mariana, sem maiores dificuldades, consegue um lugar à bordo.
Simultaneamente, no convento, Teresa relê uma a uma as cartas de Simão, as enlaça e entrega para Constança com o pedido de que sejam entregues a Simão. Às nove da manhã sobe para o mirante, de onde é possível assistir à partida dos navios . Simão pede a Mariana que lhe mostre o convento e vê Teresa acenando. Lá mesmo no mirante, Teresa morre. O capitão do navio conta a Simão detalhes da morte de Teresa e promete a esse que, caso algo lhe aconteça, reconduzira Mariana a Portugal.
Nesta noite, Simão lê a derradeira carta de Teresa, que lhe chegou junto ao maço de correspondência. Na manhã de 28 de março, morre em alto-mar Simão Botelho, depois de sofrer durante nove dias febres e delírio. No mesmo instante que os marujos arremessam o corpo de Simão ao mar, Mariana se atira e também morre.



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Amor de Salvação - Camilo Castelo Branco
Amor de Salvação é uma novela passional, considerada pela crítica uma das obras mais bem acabada do autor. A história relata lembranças que são contadas ao narrador pelo protagonista, em uma noite de Natal, após um reencontro entre os dois que não se viam há quase doze anos.
Afonso e Teodora foram prometidos um ao outro, por suas mães que eram amigas desde os tempos em que estudavam num convento. Após a morte da mãe, Teodora vai para um convento e tem como tutor seu tio, pai de Eleutério Romão. Teodora e Afonso estão sempre em contato aguardando o tempo certo para casarem. Afonso resolve estudar fora por dois anos. Teodora influenciada pela amiga Libana quer casar-se o mais rápido possível. A mãe de Afonso, D. Eulália, pede-lhe para aguardar. Mas com a saída de Libana do convento Teodora se desespera e resolve casar-se com seu primo, Eleutério, para libertar-se das grades do convento.
Eleutério era o oposto a beleza de Teodora, era rude e vestia-se de forma hilariante. Apesar da grande tentativa de seu tio, o padre Hilário, em ensinar-lhe a ler, nada conseguiu. Vencido pela incapacidade de seu sobrinho, Padre Hilário desistiu afirmando que somente através de uma fresta no cérebro, aberta a machado, seria possível tal façanha. Teodora viveu em pompas, trajes de sedas, cavalos, bailes, etc., mas nunca esquecera Afonso, enviava-lhe cartas de amor mas nunca obtivera resposta.
Afonso sofreu muito com a notícia do casamento de Teodora, pediu a mãe permissão para se ausentar de Portugal. Contava sempre com o apoio e o consolo das cartas de sua mãe e sua prima Mafalda, que o amava pacientemente. Após anos de amargura, sofrimento e luta contendo-se diante das cartas de Teodora, para não fugir aos ensinamentos religiosos aos quais sua mãe o educou, foi fulminado pela influencia do amigo José de Noronha que o incentivou a escrever à Teodora. Relutou, mas não conseguiu. A tal carta foi cair nas mãos de Eleutério, que a leu, mas nada entendeu. Pediu então a um amigo ajuda para interpretá-la. A carta acabou sendo rasgada por Fernão de Teive, dando a desculpa de serem grandes sandices, após junto com sua filha Mafalda, reconhecer as intenções do remetente, seu sobrinho Afonso de Teive. Não conformado Afonso parte ao encontro de Teodora. Eleutério quando os encontra juntos, pede-lhes explicações. Teodora responde-lhe que é uma mulher livre a partir daquele momento, e vai viver com Afonso. Passam momentos, ilusoriamente, felizes. Afonso abandona até a sua própria mãe para viver ardentemente esta paixão que sempre o consumiu. Sua mãe sempre afetuosa, apesar da grande tristeza, sustenta a vida luxuosa que Afonso tem ao lado de Teodora.
Afonso quando fica sabendo da morte de sua mãe, através de carta escrita por Mafalda, se desespera. Teodora tenta consolá-lo, mas ele sente em suas palavras ironia e sente nojo de tamanho fingimento. Procura isolar-se de Teodora e dos amigos. Durante este período, Tranqueira, velho criado da família, alerta-o sobre as intenções do amigo José de Noronha por Teodora. No início se revolta contra o criado, mas acaba escutando-o e passa a observá-los. Encontra umas cartas que confirmam as suspeitas. Certo dia os pega juntinhos com gestos de muita familiaridade. Aborrece-se pede para que Noronha saia de sua casa. Teodora dissimulada como sempre, tenta enganá-lo, mas ele atira-lhe as cartas. Teodora desmaia enquanto Tranqueira derruba Noronha na cisterna para vingar seu patrão.
Afonso passa alguns dias fora de casa, quando retorna encontra uma carta de Teodora informando os pertences que havia levado consigo. Apesar de traído sente saudade da encantadora Teodora. Vende tudo e parte para Paris atrás de um amor que o salve. Gasta tudo o que tem. Por fim, pede ao seu tio Fernão para comprar-lhe a casa onde viveram seus pais e avós, pois não queria ofender a memória de sua mãe que o havia pedido, em carta antes morrer que não a vendesse. Mafalda com seu coração generoso e cheio de amor pelo primo, pede a seu pai que o atenda, e este assim o faz mas, com a condição de que a casa continuaria sendo de Afonso. Afonso afunda-se cada vez mais em seus vícios e extravagâncias a ponto de querer suicidar-se. Tranqueira, que nunca o abandonou, percebeu sua intenção e disse-lhe severas palavras que o livraram de tamanha loucura. Mudou de vida, passou a trabalhar e a estudar com apoio de seu criado.
Fernão de Teive adoece, e prestes a morrer pede ao padre Joaquim que vá a Paris entregar a Afonso, os documentos de propriedade da casa a qual comprara, apenas com intuito de ajudar o sobrinho. Após a morte de Fernão, Mafalda sentindo-se sozinha, resolve viajar com o padre Joaquim para Paris com a objetivo de juntar-se as irmãs de caridade. Quando o padre Joaquim encontra Afonso e conta-lhe da morte do tio, este chora e corre ao encontro da prima que ficara em uma hospedaria.
Mafalda conta ao primo sua decisão, mas padre Joaquim pede-lhes, pelo amor de Deus, que ao invés disso, casem-se. Afonso aceitou de imediato e agradeceu à Deus por ter ouvido os pedidos de suas mães. Afonso e Mafalda voltaram para sua cidade, casaram-se, tiveram oito filhos e foram muito felizes. Apesar do título “Amor de Salvação” a novela relata em quase toda sua extensão, um “amor de perdição” entre Afonso de Teive e Teodora Palmira. Ao “amor de salvação”, Mafalda, são dedicadas somente as ultimas páginas do romance.

resumo de Sueli Rodrigues.


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A BRASILEIRA DE PRAZINS- Camilo Castelo Branco (resumo)
Essa obra apresenta uma história passada numa aldeia do Minho. A principal personagem feminina, que dá o nome à novela, é Marta, filha de Simeão. O tema central é sua paixão por José Dias. Este é filho de um lavrador rico, Joaquim de Vilalva, que se recusa a aceitar a hipótese do casamento do filho com Marta.
Escrita em 1879, numa época já distanciada das primeiras grandes novelas passionais de Camilo, as dificuldades agora criadas aos jovens têm um novo caráter. A mãe de José, Genoveva, “tinha inconscientemente este horror moderno, científico, da hereditariedade”, diz o contador da história. A mãe de Marta, de reputação duvidosa, dera desgostos ao marido por “andar muito falada com um frade de Santo Tirso”; tida como possessa do demônio, endoidecera, lançando-se às águas do rio Ave. Com o argumento de que “má árvore, ruim fruto”, a família de José opõe-se ao idílio. Os dois jovens tornam-se amantes, na suposição de que, assim, a mãe de José, muito religiosa, acabaria por concordar com o casamento. Mas nada disso ocorre.
Os acontecimentos da vida sentimental, nesta novela, já se complicam com problemas político-sociais portugueses de meados do século passado. As lutas pelo poder real entre Dom Pedro e seu irmão Dom Miguel apresentam-se numa fase de guerrilhas, que ocupam largo espaço na narrativa. Assim é que José Dias e seu pai são perseguidos por um grupo de fanáticos populares seguidores de Dom Miguel, tendo à frente Zeferino de Zamela. Este não tem apenas razão política para isso: é também rival de José Dias, apaixonado por Marta, que lhe fora prometida em casamento pelo pai—promessa não cumprida.
Enquanto isso ocorre, chega do Brasil um tio de Marta, Feliciano Rodrigues, de quarenta anos, solteirão e milionário. Era mais um aspirante à mão da moça, e se torna o predileto do pai dela. José Dias, entretanto, adoece e morre tuberculoso. Como é freqüente nas novelas camilianas, esses amores são revividos pelas cartas ou bilhetes trocados entre a moça e o rapaz. O narrador declara, no início, que encontrara, dentro de um livro, um bilhete que o levara à descoberta da história, a qual, então, ele passa a contar. Com a morte de José Dias, Marta tenta o suicídio, exatamente como fora o de sua mãe. Mas disto é impedida, graças ao socorro do pai e dos trabalhadores que se encontravam nas proximidades do local.
Ocorre, então, um incidente que vem a ser decisivo para seu casamento com o tio. Zeferino, sempre desejoso de vingança, tenta assassinar o pai de Marta. Gravemente ferido, Simeão, ainda em risco de vida, faz a filha prometer-lhe que se casaria com o tio. Promessa cumprida: Marta casa-se com Feliciano. Mas, com isso, agravam-se os sinais de sua doença, tida como hereditária: aos ataques epiléticos, somam-se os sintomas de uma neurose progressiva, marcada pela obsessão amorosa. Casa com o tio, de quem teria cinco filhos em sete anos, esta aliança nunca ultrapassaria o plano físico: em sua obsessão amorosa ela continua, e estará sempre, ligada emocionalmente a José Dias. Nele concentram-se todas as suas afeições e enlevos. É somente à memória de José Dias que ela continuamente se refere. A história finaliza com o marido, já adaptado ás circunstâncias desta estranha vida conjugal, preocupado, sobretudo, com os negócios e a crescente riqueza, e com os filhos, já casados. Marta, até o final, permanece indiferente à realidade.
Adaptado de Maria Aparecida Santilli, Literatura Comentada: Camilo Castelo Branco, ed. Abril, 1980.

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A QUEDA DE UM ANJO - Camilo Castelo Branco (resumo)
Argumento: Calisto Elói, morgado da Agra de Freimas, vive em Caçarelhos com sua mulher, Dona Teodora de Figueiroa e com seus livros clássicos. A leitura é seu entretenimento preferido.
Ao ser eleito deputado pelo círculo de Miranda, vem trabalhar em Lisboa, disposto a lutar contra a corrupção moral dos costumes. O Parlamento recebe com entusiasmo seus discursos conservadores, por meio dos quais demonstra sua habilidade na retórica e na oratória parlamentar. Defende entre outras coisas, o bom uso da língua portuguesa e combate a luxúria e os teatros como meros pontos de ostentação. Sempre apoiado na cultura livresca, seus discursos fazem tal sensação no Parlamento que causa polêmica e reações desencontradas entre favoráveis e contrários.
Defendendo sempre a moral dos bons costumes antigos e atacando a liberalidade dos modernos sua fama vai se avolumando, adquirindo uma dimensão grandiosa. Porém, logo começa seu declínio, o que justifica o título do livro. Sua decadência ocorre exatamente por acabar comportando-se segundo os vícios dos costumes modernos que tanto ataca.Apaixona-se primeiro pela jovem filha de um amigo, Adelaide e depois inicia uma relação amorosa ilícita com a viúva Dona Ifigênia Ponce de Leon – sua amante, com quem acaba por viver maritalmente e de quem tem dois filhos. Sua mulher, Dona Teodora, abandonada pelo marido, acaba também por arrumar outro companheiro: Lopo de Gamboa, seu primo, de quem tem um filho. Essa obra expressa uma crítica aos românticos e ao mau uso da língua portuguesa e com o tema do adultério faz uma crítica que relaciona o progresso acelerado dos costumes e suas conseqüências perniciosas.


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João de Lemos Seixas Castelo Branco (1819-1890) nasceu em Peso da Régua. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra onde ajudou a fundar a revista O Trovador. Além de poesias de pendor ultra-romântico, escreveu o livro em prosa Serões da Aldeia, publicado em 1877. Os seus poemas foram reunidos nas coletâneas Cancioneiro (1º volume publicado em 1858, 2º volume em 1859 e 3º volume em 1866) e Canções da Tarde, esta publicada em 1875. O seu lirismo piegas foi criticado pelos escritores realistas. O poema «A Lua de Londres», por exemplo, é ridicularizado numa passagem de Os Maias de Eça de Queirós.
CANCIONEIRO
A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!... Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!...
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

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Resumo de As Pupilas do Senhor Reitor – Júlio Dinis
Personagens Principais:
Sr. Reitor: tornou-se tutor de duas jovens órfãs, a quem muito estimava, e lhes valeu como pai, conselheiro e professor: Clara e Margarida.
Clara: “Clara possuía um gênio, com o qual se não davam as apreensões. Não calculava conseqüências. A vida era o presente. (...) A sua confiança em tudo chegava a ser perigosa. Um inesgotável fundo de generosidade, elementos principal daquele caráter simpático.”
Margarida: “De caráter triste e sombrio, que é traço indelével que fica de uma infância, à qual se sufocaram as naturais expansões e folguedos, em que precisa de transbordar a vida exuberante e bela.”
Daniel: Amigo de infância de Margarida, filho do abastado José das Dornas, também pai de Pedro. Margarida afeiçoara-se a Daniel. Daniel tem constituição física frágil, o que leva o pai a direcioná-lo para o sacerdócio por meio do Reitor.Como Daniel aos treze anos confessa que não tem vocação para a carreira religiosa, o Reitor convence o pai a envia-lo ao Porto para estudar medicina e ser doutor.
Pedro: irmão de Daniel e noiva de Clara.
Dr. João Semana: médico octagenário de idéias limitadas e ultrapassadas.
João da Esquina: comerciante boçal, atento a intrigas e brigas locais, representante do meio mesquinho e pequeno.
Velho Mestre: velho filósofo que se instalara na vila para procurar paz na vida do campo e preparar-se para morrer. O velho servia de mestre a Margarida, criando amizade com a moça, que muito aprendia com o filósofo.
Num cenário povoado de tipos humanos cuja bondade só é maculada pelo moralismo quase ingênuo de comadres fofoqueiras, desenrola-se o drama amoroso. Daniel, ainda menino, prepara-se para ingressar no seminário, mas o reitor descobre seu inocente namoro com a pastorinha Margarida (Guida). O pai, José das Dornas, decide, então, enviá-lo ao Porto para estudar medicina. Dez anos depois Daniel volta para a aldeia, como médico homeopata. Margarida, agora professora de crianças, conserva ainda seu amor pelo rapaz. Ele, no entanto, contaminado pelos costumes da cidade, torna-se um namorador impulsivo e inconstante, e já nem se lembra da pequena pastora. A esse tempo, Pedro, irmão de Daniel, está noivo de Clara, irmã de Margarida.
O jovem médico encanta-se da futura cunhada, iniciando uma tentativa de conquista que poria em risco a harmonia familiar. Clara, inicialmente, incentiva os arroubos do rapaz, mas recua ao perceber a gravidade das conseqüências. Ansiosa por acabar com impertinente assédio, concede-lhe uma entrevista no jardim de sua casa. Esse encontro é o ponto culminante da narrativa: surpreendidos por Pedro, são salvos por Margarida, que toma o lugar da irmã.
Rapidamente esses acontecimentos tornam-se um grande escândalo que compromete a reputação de Margarida. Daniel, impressionado com a abnegação da moça, recorda-se, finalmente, do amor da infância. Apaixonado agora por Guida, procura conquistá-la. No último capítulo, depois de muita resistência e de muito sofrimento, Margarida aceita o amor de Daniel.


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Soares de Passos (1826-1860) nasceu no Porto, indo estudar para Coimbra onde fundou o jornal O Novo Trovador. Nele colaboraram poetas da segunda geração romântica. Os seus poemas foram publicados em 1856 numa coletânea intitulada Poesias. Soares de Passos faleceu prematuramente, sendo, no entanto, um dos mais significativos poetas ultra-românticos portugueses. A sua composição mais conhecida é O Noivado do Sepulcro, de que os escritores realistas fizeram grande chacota.
POESIAS (extracto)
1858 (1ª ed. em 1856)
O NOIVADO DO SEPULCRO
BALADA
Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
"E que na tumba não cessei d'amar,
"Por que atraiçoas, desleal, mentida,
"O amor eterno que te ouvi jurar?

"Amor! engano que na campa finda,
"Que a morte despe da ilusão falaz:
"Quem d'entre os vivos se lembrara ainda
"Do pobre morto que na terra jaz?

"Abandonado neste chão repousa
"Há já três dias, e não vens aqui...
"Ai, quão pesada me tem sido a lousa
"Sobre este peito que bateu por ti!

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos protestos nossos,
"Gozes com outro d'infernal prazer;
"E o olvido cobrirá meus ossos
"Na fria terra sem vingança ter!

– "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
– "Oh nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
"Vês este peito? reina a morte aqui...
"É já sem forças, ai de mim, gelado,
"Mas inda pulsa com amor por ti.

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
"Da sepultura, sucumbindo à dor:
"Deixei a vida... que importava o mundo,
"O mundo em trevas sem a luz do amor?

"Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– "Oh vejo sim... recordação fatal!
– "Foi à luz dela que jurei ser tua
"Durante a vida, e na mansão final.

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
"Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
"Quero o repouso de teu frio leito,
"Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

A CAMÕES
Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.

Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio: Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
O Firmamento
Glória Deus! Eis aberto o livro imenso,
O livro do infinito,
Onde em mil letras de fulgor intenso
Seu nome adoro escrito.
Eis do seu tabernáculo corrida
Uma ponta do véu misterioso:
Desprende as asas, remontando à vida,
Alma que anseias pelo eterno gozo!
Estrelas, que brilhais nessas moradas,
Quais são vossos destinos?
Vós sois, vós sois as lâmpadas sagradas
De seus umbrais divinos.
Pululando do selo onipotente,
E sumidas por fim na eternidade,
Sois as faíscas do seu carro ardente
A rolar através da imensidade.
E cada qual de vós um astro encerra,
Um Sol que apenas vejo,
Monarca doutros mundos como a terra
Que formam seu cortejo.
Ninguém pode contar-vos: quem pudera
Esses mundos contar a que dais vida,
Escuros para nós, qual nossa esfera
Vos é nas trevas da amplidão sumida.
Mas vós perto brilhais, no fundo acesas
Do trono soberano;
Quem vos há de seguir nas profundezas
Desse infinito oceano?
E quem há de contar-vos nessas plagas
Que os céus ostentam de brilhante alvura,
Lá onde sua mão sustém as vagas
Dos sóis que um dia romperão na altura?
E tudo outrora na mudez jazia,
Nos véus do frio nada;
Reinava a noite escura; a luz do dia
Era em Deus concentrada.
Ele falou! e as sombras mim momento
Se dissiparam na amplidão distante!
Ele falou! e o vasto Armamento
Seu véu de mundos desfraldou ovante!
E tudo despertou, e tudo gira imerso em seus fulgores;
E cada mundo é sonorosa lira
Cantando os seus louvores.
Cantai, ó mundos que o seu braço impele,
Harpas da criação, fachos do dia,
Cantai louvor universal Àquele,
Que vos sustenta e nos espaços guia!
Terra, globo que geras nas entranhas
Meu ser, o ser humano,
Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas,
E com teu vasto oceano?
Tu és um grão de areia arrebatado
Por esse imenso turbilhão de mundos
Em volta de seu trono levantado
Do universo nos seios mais profundos.
E tu, homem, que és tu, ente mesquinho
Quando soberbo te elevas,
Buscando sem cessar abrir caminho
Por tuas densas trevas?
Que és tu com teus impérios e colossos?
um átomo sutil, um frouxo alento!
Tu vives um instante, e de teus ossos
Só restam cinzas, que sacode o vento.
Mas ah! tu pensas, e o girar dos orbes
À razão encadeias;
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorves
Na chama das idéias:
Alegra-te, imortal, que esse alto lume
Não morre em trevas num jazigo escasso!
Glória a Deus, que num átomo resume
O pensamento que transcende o espaço!
Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre
Conquista áureo destino,
E de século em século mais nobre
Eleva a Deus teu hino;
E tu, ó terra, nos floridos mantos
Abriga os filhos que em teu seio geras,
E teu canto de amor reúne aos cantos
Que a Deus se elevam de milhões de esferas!
Dizem que já sem forças, Moribunda,
Tu vergas decadente:
Oh! Não! De tanto Sol que te circunda
Teu Sol inda é fulgente;
Tu és jovem ainda: a cada passo
Tu assistes de um mundo às agonias,
E rolas entretanto nesse espaço
Coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai! tu findarás! Além cintila
Hoje um astro brilhante;
Amanhã ei-lo treme, ei-lo vacila,
E fenece arquejante.
Quem foi? Quem o apagou? Foi seu alento
Que extinguiu essa luz já fatigada,
Foram séculos mil, foi um momento
Que a eternidade fez volver ao nada.
Um dia, quem o sabe? um dia ao peso
Dos anos e ruínas,
Tu cairás nesse vulcão aceso
Que teu Sol denominas;
E teus irmãos também, esses planetas
Que a mesma vida, a mesma luz inflama,
Atraídos enfim, quais borboletas,
Cairão como tu na mesma chama!
Então, ó Sol, então nesse áureo trono,
Que farás tu ainda,
Monarca solitário, e em abandono,
Com tua glória finda?
Tu findarás também, a fria morte
Alcançará teu carro chamejante:
Ela te segue, e profetiza a sorte
Nessas manchas que toldam teu semblante.
Que são elas? Talvez os restos frios
De algum antigo mundo,
Que inda referve em borbotões sombrios
No teu seio profundo,
Talvez, e envolta pouco e pouco a frente
Nas cinzas sepulcrais de cada filho,
Debaixo deles todos de repente
Apagarás teu vacilante brilho.
E as sombras passarão no vasto império
Que teu facho alumia;
Mas que vale de menos um saltério
Dos orbes na harmonia?
Outro Sol como tu, outras esferas
Virão no espaço descansar seu hino,
Renovando nos sítios onde imperas
Do Sol dos Sóis o resplendor divino.
Glória a seu nome! Um dia meditando
Outro céu mais perfeito,
O céu d'agora ao seu altivo mando
Talvez caia desfeito.
Então mundos, estrelas, Sóis brilhantes,
Qual bando d’águias na amplidão disperso,
Chocando-se em destroços fumegantes,
Desabarão no fundo do universo.
Então a vida, refluindo ao seio
Do foco soberano,
Parará concentrando-se no meio
Desse infinito oceano:
E, acabado por fim quanto fulgura,
Apenas restarão na imensidade:
— O silêncio, aguardando a voz futura,
O trono de Jeová, e a eternidade.
A...
Acaso é tu a imagem vaporosa
Que me sorriu nos sonhos d’outra idade,
Como a luz da manhã sorri formosa
Nos espaços azuis da imensidade?
És tu esse astro que minha alma anela,
Que debalde busquei no mar da vida,
Qual busca o nauta bonançosa estrela
No meio da procela enfurecida?
Ah! Se és esse ente que meu ser domina,
Se és essa estrela que meu fado encerra,
Se és algum anjo da mansão divina
Pairando sobre a terra;
Já que baixaste a mim, já que a meu lado
Me apontaste sorrindo o etéreo véu,
Não me deixes na terra abandonado,
Trasporta-me ao teu céu!
N’UM ÁLBUM
Do sofrimento o arcanjo lamentoso
Sobre a face do mundo estende o braço:
Um diadema ofertava, e pavoroso:
“Para o que mais sofreu!” gritou no espaço.
Eis logo imensa turba se atropela,
Todos querem ganhar a prenda infausta;
Mas nenhum dos que chegam a obtê-la
Mostrava a taça da amargura exausta.
“Afaste-vos” lhes brada o gênio esquivo,
“Nenhum tocou do sofrimento a meta:
“Tu, só tu mereceste o prêmio altivo;
“Ergue a fronte, coroa-te, poeta!”


Romantismo em Portugal

INTRODUÇÃO.

As novas ideologias políticas, econômicas e sociais, vieram intervir na sociedade do século XIII. A influência das revoluções francesa e industrial e do pensamento liberal se deu em todos os campos, e a própria literatura mostra essas influências. A liberdade sobrepuja as regras, a razão predomina sobre a emoção. Instaura-se um novo modo de expressão em toda a Europa e, conseqüentemente em Portugal.



CONCEITO.

O Romantismo, designa uma tendência geral da vida e da arte, um certo momento delimitado. O comportamento romântico caracteriza-se pelo sonho, pelo devaneio, por uma atitude emotiva, subjetiva, diante das coisas. Afinal, o pensamento romântico vai muito além do que podemos ver; procura desvendar o que estamos sentindo. O Romantismo não conta, faz de conta, idealiza um universo melhor, defendendo a idéia da expressão do eu-lírico, onde prevalece o tom melancólico, falando de solidão e nostalgia.

Enfim, o ideal romântico, tenta colocar o universo que presenciamos, de forma subjetiva, sendo que a expressão do sentimentalismo não precisa obedecer a nenhuma regra, antes adorada pelos clássicos.



INTRODUÇÃO DO ROMANTISMO EM PORTUGAL.

O advento do Romantismo em Portugal, vem apenas confirmar a diluição do Arcadismo.

Portugal, é reflexo dos dois acontecimentos que marcaram e mudaram a face da Europa na segunda metade do século XVIII: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, responsáveis pela abolição da monarquias aristocratas e pela introdução da burguesia que então, dominara a vida política, econômica e social da época. A luta pelo trono em Portugal, se dá com veemência, gerando conturbação e desordem interna na nação.

Com isso, Almeida Garrett acaba por exilar-se na Inglaterra, onde entra em contato com a Obra de Lord Byron e Scott. Ao mesmo tempo, por estar presenciando o Romantismo inglês, envolve-se com o teatro de William Shakespeare.

Em 1825, Garrett publica a narrativa Camões, inspirando-se na epopéia Os Lusíadas. A narrativa deste autor, é uma biografia sentimental de Camões.

Este poema é considerado introdutor do Romantismo em Portugal, por apresentar características que viriam se firmar no espírito romântico: versos decassílabos brancos, vocabulário, subjetivismo, nostalgia, melancolia, e a grande combinação dos gêneros literários.



CARACTERÍSTICAS.

O Romantismo foi encarado como uma nova maneira de se expressar, enfrentar os problemas da vida e do pensamento.

Esta escola, repudiava os clássicos, opondo-se às regras e modelos, procurando a total liberdade de criação, além de defender a "impureza" dos gêneros literários. Com o domínio burguês, ocorre a profissionalização do escritor, que recebe uma remuneração para produzir a obra, enquanto o público paga para consumi-la. O escritor romântico projetava-se para dentro de si, tendo como fonte o eu-lírico, do qual fluía um diverso conteúdo sentimentalista e, muitas vezes, melancólico da vida, do amor e, às vezes, exageradamente, da própria morte. A introversão era característica essencialmente romântica.

A natureza, assim como a mulher são importantes pontos desse momento. O homem, idealizava a mulher como uma deusa, coisa divina e, com isso, retornava ao passado, no trovadorismo, onde as "madames" eram tão sonhadas e desejadas, mesmo que fossem inatingíveis. Ao procurar a mulher de seus sonhos e, então, frustrar-se por não encontrá-la ou, muitas vezes, por encontrá-la e perdê-la, o romântico entrava em constante devaneio. Para amenizar a situação, ao escrever despojava todos os seus anseios, procurando fugir da realidade, usando do escapismo, onde, não raramente, tinha a natureza como confidente. Outra forma de escapismo utilizada, era o escapismo pela obscuridade, onde buscavam o bem-estar nos ambientes fúnebres e obscuros. Essas frustrações tidas por amores ou simples desilusões com a vida, provocaram muitos suicídios. Daí a grande freqüência dos temas de morte nos poemas românticos, o que caracteriza o mal-do-século.


O PRIMEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO.

Como toda tendência nova, o Romantismo não veio implantar-se totalmente nos primeiros momentos em Portugal. Inicialmente, buscava-se gradativamente, apagar os modelos clássicos que ainda permeavam o meio sócio-econômico. Os escritores dessa época, eram românticos em espírito, ideal e ação política e literária, mas ainda clássicos em muitos aspectos.

Almeida Garrett.

Almeida Garrett, cultivou a oratória parlamentar, o pensamento pedagógico e doutrinário, o jornalismo, a poesia, a prosa de ficção e o teatro, o qual entrou em contato com o de Shakespeare quando em exílio na Inglaterra. Teve uma vida sentimental bastante atribulada em que se sobressai o seu romance adúltero com a viscondessa da Luz, a qual inspirou seus melhores poemas.

Na poesia, assimilou os moldes clássicos e morreu sem tornar-se romântico autêntico, pois carecia do egocentrismo tão almejado pelos românticos, deixando sua fantasia no teatro e na prosa de ficção. Escreveu Camões (1825), Dona Branca (1826), Folhas Caídas (1853), Viagens na minha terra (1846), dentre outras.

Alexandre Herculano.

Herculano, exilou-se na Inglaterra e na França, criando polêmica com o clero, por participar da lutas liberais. Junto com Garrett, foi um intelectual que atuou bastante nos programas de reformas da vida portuguesa.

Na ficção de Herculano, prevalece o caráter histórico dos enredos, voltados para a Idade Média, enfocando as origens de Portugal como nação. Além disso, ocorrem muitos temas de caráter religioso. Quanto à sua obra não-ficcional, os críticos consideram que renovou a historiografia, uma vez que se baseia não mais em ações individuais, mas no conflito de classes sociais para explicar a dinâmica da história.

Sua obras principais são: A harpa do crente (1838), Eurico, o presbítero (1844), dentre outras.

Castilho.

Castilho, tem como principal papel traduzir poetas clássicos. Sua passagem pelo Romantismo é discreta, mesmo que tenha sido o provocador da Questão Coimbrã.

A história de Castilho é a dum grande mal-entendido: graças à cegueira, que lhe dava um falso brilho de gênio à Milton, mais do que à sua poesia, alcançou injustamente ser venerado como mestre pelos românticos menores. Não obstante válida historicamente, sua poesia caiu em compreensível esquecimento.

O SEGUNDO MOMENTO DO ROMANTISMO.

Neste momento, desfazem-se os enlaces arcádicos que ainda envolviam os escritores da época. Aqui, notamos com plena facilidade o domínio da estética e da ideologia romântica. Os escritores tomam atitudes extremas, transformando-se em românticos descabelados, caindo fatalmente no exagero, tendenciando temas soturnos e fúnebres, tudo expresso numa linguagem fácil e comunicativa.

Soares de Passos.

Soares de Passos constitui a encarnação perfeita do "mal-do-século". Vivendo na própria carne os devaneios de que se nutria a fértil imaginação de tuberculoso, sua vida e sua obra espelham claramente o prazer romântico do escapismo das responsabilidades sociais da época, acabando por cair em extremo pessimismo, um incrível desalento derrotista

Obra: Poesias (1855).

Camilo Castelo Branco.

Casou-se com uma jovem de 15 anos, a quem abandonou com uma filha; em seguida raptou outra moça, sua prima, e com ela passou a viver. Acusado de bigamia, foi preso. Sua primeira esposa morreu e, logo em seguida, a filha. Abandonou a prima e viveu amores passageiros com outra jovem e com uma freira. Uma crise religiosa levou-o a ingressar num seminário, do qual desistiu. Conheceu Ana Plácido, senhora casada que seria o grande amor de sua vida. Ocorre sua primeira tentativa de suicidar-se, diante da impossibilidade de viver com ela. Mas, finalmente passaram a viver juntos o que lhes custou um processo por adultério. Ambos foram presos. Na prisão, Camilo escreveu Amor de Perdição. Absolvidos e morto o marido de Ana, se casaram. Alguns anos depois da morte de Ana, Camilo, vencido pela cegueira, acaba por suicidar-se.

Suas obras principais: Amor de salvação (1864), A queda dum anjo (1866), dentre outras.

O TERCEIRO MOMENTO DO ROMANTISMO.

Acontece aqui, um tardio florescimento literário que corresponde ao terceiro momento do Romantismo, em fusão dos remanescentes do Ultra-Romantismo. Esse período é marcado pela presença de poetas, como João de Deus, Tomás Ribeiro, Bulhão Pato, Xavier de Novais, Pinheiro Chagas e Júlio Dinis, que purificam até o extremo as características românticas.

Tomás Ribeiro mistura a influência de Castilho e de Victor Hugo, o que explica o caráter entre passadista e progressista da sua poesia.

Bulhão Pato começa ultra-romântico e evolui, através duma sátira às vezes cortante, para atitudes realistas e parnasianas.

Faustino Xavier de Novais dirigiu uma folha literária. Satirizou o Ultra-Romantismo.

Manuel Pinheiro Chagas cultivou a poesia de Castilho, que motivou a Questão Coimbrã; a historiografia e a crítica literária.

João de Deus.

João de Deus foi apenas poesia. Lírico de incomum vibração interior, pôs-se à margem da falsa notoriedade e dos ruídos da vida literária e manteve-se fiel até o fim a um desígnio estético e humano que lhe transcendia a vontade e a vaidade. Contemplativo por excelência, sua poesia é a dum "exilado" na terra a mirar coisas vagas e por vezes a se deixar estimular concretamente.

Júlio Dinis.

Os poemas de Júlio Dinis armam-se sobre uma tese moral e teleológica, na medida em que pressupõem uma melhoria, embora remota, para a espécie humana, frontalmente contrária à desesperação e ao amoralismo cético dos ultra-românticos, numa linguagem coerente, lírica e de imediata comunicabilidade. Conduz suas histórias, sempre a um epílogo feliz, não considerando a heroína como "mulher demônio", mas sim como "mulher anjo".

Sua principal obra: As pupilas do senhor reitor.



CONCLUSÃO.

Compreendemos que o Romantismo, não passou de uma forma de repudiar as regras que contornavam e preenchiam o campo literário da época que, juntamente com a ideologia vigente, traziam um enorme descontentamento. Este momento em que a literatura presenciava, talvez fosse, o marco principal para a definitiva liberdade de expressão do pensamento, que viria se firma, tardiamente com o Modernismo


Romantismo em Portugal
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História da arte em Portugal

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Nas artes plásticas o Romantismo é normalmente encarado como um movimento oposto ao Neoclassicismo, por ser uma reacção à excessiva racionalidade clássica, negando os princípios de harmonia, ordem e proporção. A questão é, no entanto, um pouco mais complexa, porque ambos se completam e revelam ser as duas fases de um mesmo objecto. É obvio que existem elementos díspares ou mesmo opostos, como sentimento e razão ou o indivíduo versus o todo, mas essas diferenças complementam-se, principalmente nas artes plásticas, porque o movimento neoclássico já é uma atitude romântica ao virar-se para o passado. Quer dizer, o todo só faz sentido com o indivíduo, tal como a razão é inseparável do sentimento, não se podendo por a tónica em nenhuma porque estão interligadas. Nesse sentido o Romantismo surge nas artes quase naturalmente quando os artistas se apercebem da impossibilidade de negar certos aspectos da criatividade humana. Pode, então, ser caracterizado como um apelo ao individualismo, exaltando o sentimento, a emoção e a genialidade.

Índice [esconder]
1 Influências Sociais e políticas
2 Condicionantes em Portugal
3 Arquitectura
3.1 O Neomanuelino
3.2 Historicismos
3.3 Principais edifícios Neomanuelinos
3.4 Principais edifícios Neogóticos
3.5 Principais edifícios Neoárabes
3.6 Jardins
4 Ver também



[editar] Influências Sociais e políticas
Como coincide com uma época de grandes modificações sociais, políticas e económicas, assume forte carga ideológica, sustentada pelo surgimento dos movimentos de carácter nacionalista, como a guerra de independência da Grécia. A revolução industrial, e todos os problemas que a caracterizam, também influenciam esta época. O Romantismo utiliza as inovações técnicas e torna-se uma verdadeira fuga ao real, como se pode ver nos revivalismos, orientalismos e jardins à inglesa, um pouco por toda a Europa. Tal como o Neoclassicismo vira-se para o passado, mas agora valorizando a idade média e os estilos artísticos que a caracterizam, utilizando-os como reflexo dos nacionalismos emergentes – Portugal elege o Neomanuelino estilo nacional. O desenvolvimento da história como importante disciplina académica e a moda dos romances de cavalaria, desenrolando-se numa idade média idílica, ajudam a popularizar os historicismos medievais.


[editar] Condicionantes em Portugal
Os primeiros anos do século XIX são muito complexos, devido essencialmente à sucessão de problemas políticos, nomeadamente a fuga da família real para o Brasil em 1807, devido às invasões francesas, posterior/consequente domínio inglês, revolução liberal em 1820, regresso da família real em 1821, independência do Brasil, a perda do comércio colonial com a antiga colónia em 1822 (dramático golpe na economia portuguesa), contra revolução absolutista e, finalmente, guerras liberais, conservando a instabilidade até 1834. Esta conjuntura só permite o desenvolvimento de condições propícias à eclosão de um novo estilo artístico no final dos anos 30 do século XIX. Apesar de em Portugal surgir relativamente cedo na literatura, em finais do século XVIII com alguns pré- românticos, nas restantes formas artísticas desenvolve-se apenas com o impulso de dado por D. Fernando II, marido de D. Maria II, ao iniciar a construção do Palácio Nacional da Pena, após a estabilização da conjuntura nacional.


[editar] Arquitectura
A arquitectura segue o gosto internacional, utilizando as características típicas do estilo, dividindo-se numa série de historicismos dos quais se destaca o Neomanuelino. Inspira-se no passado medieval, construindo edifícios de planta irregular simulando sucessivos acrescentos, tal como na idade média, com uma cobertura profusamente decorada, mas utilizando os progressos técnicos surgidos com a revolução industrial, tanto ao nível de materiais como de máquinas. Recorre a uma decoração baseada nas formas mais superficiais dos estilos artísticos medievais, completamente revivalista, escondendo construções modernas, frequentemente com estruturas metálicas (moderníssimas para a época). Utiliza todo o tipo de inovações como o tijolo ou revestimentos cerâmicos industriais, preservando sempre que possível questões básicas, desenvolvidas no Neoclassicismo, como a funcionalidade e a rentabilidade da arquitectura, simplesmente adaptados a outra estética. Como já foi dito anteriormente considera-se que tem início com a construção do Palácio Nacional da Pena em Sintra, pelo rei D. Fernando II, mantendo-se até ao início do século XX, a par do Neoclassicismo e de estilos posteriores. No entanto esta afirmação não é exacta porque já no final do século XVIII, se fizeram algumas construções revivalistas, como no Mosteiro de Alcobaça ou na quinta de Monserrate em Sintra, com formas Neogóticas. A construção do Palácio Nacional da Pena marca, principalmente, uma alteração na mentalidade do panorama artístico, quando os princípios do romantismo internacional se fixam verdadeiramente em Portugal. Ao contrário do resto da Europa, o Neogótico não é a forma de arquitectura mais importante, apesar de existirem exemplos de qualidade. Este facto deve-se, essencialmente, ao carácter nacionalista da arquitectura romântica, permitindo uma surpreendente originalidade, quando comparada com a repetição de modelos no norte de continente, mesmo tendo em conta as adaptações nacionalistas de cada país. Não é por acaso que ao folhear os livros de história da arte, os grandes exemplos de arquitectura apresentados são, normalmente, os edifícios de arquitectura do ferro ou as obra que verdadeiramente diferem das restantes.


[editar] O Neomanuelino
Ver artigo principal: Neomanuelino
O Neomanuelino, devido à tendência nacionalista do Romantismo, surge como a grande arquitectura. O edifício é coberto por uma profusão de formas decorativas, tal como todos os historicismos, imitando o estilo original, mas sem tentar copiar os edifícios originais. Utiliza os elementos mais superficiais do estilo como arcos (em ogiva, ferradura, de volta perfeita, e outros), pináculos, frisos, cordas, merlões, ameias, elementos vegetalistas e alguma escultura. Os elementos decorativos são directamente copiados ou inspirados nas grandes exemplos históricos como o Convento de Cristo em Tomar, Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém em Lisboa. A colocação dos elementos decorativos segue a lógica estética, ao contrário dos originais com significado iconográfico, conseguindo um efeito de conjunto com grande impacto visual. O Neomanuelino chegou mesmo a ser exportado para o Brasil onde existem também alguns aparatosos edifícios. Era, igualmente, utilizado nos pavilhões de Portugal, nas importantíssimas exposições universais do final do século XIX, como opção nacionalista, em edifícios efémeros destinados a promover o país.


[editar] Historicismos
O Neogótico teve menos importância. Segue a corrente internacional e, como é relativamente abundante na Europa, não atinge o esplendor do Neomanuelino. São edifícios adaptados às necessidades do século XIX, decorados principalmente com arcos em ogiva, pináculos, rosáceas, flechas e outros elementos superficiais do gótico original. O mesmo se aplica aos restantes revivalismos como o Neoárabe e o Neoromânico. Estes, talvez por serem menos utilizados na Europa, são por vezes verdadeiramente espectaculares, como a Praça de Toutos do Campo Pequeno em Lisboa, ou a Câmara Municipal de Sintra e o actual Palacete de Monserrate. No final do século surge o Ecletismo, ou seja a mistura de elementos de vários estilos, quando os historicismos procuravam claramente uma saída para um percurso já quase esgotado. A vanguarda tecnológica da época, também está presente nas grandes obras públicas. Adaptando as formas ao que se considerava ser o estilo mais indicado para o edifício, porque o ferro era facilmente moldável, permitia uma série de soluções técnicas impossíveis para a construção tradicional. As pontes e as coberturas das estações de caminho-de-ferro destacam-se pela elegância e amplitude dos conjuntos. No entanto outros edifícios são construídos com esta técnica, como o Elevador de Santa Justa em Lisboa ou o desaparecido Palácio de Cristal do Porto. Sempre que se exigiam grandes vãos (espaço livre entre os pilares de sustentação) recorria-se ao ferro. A construção ficava mais ampla, segura e barata que a edificação em alvenaria tradicional, permitindo todo o tipo de formas, historicistas ao não, utilizando abundantemente o vidro. O conjunto era prático e muito funcional.


[editar] Principais edifícios Neomanuelinos

Palácio da Pena, em Sintra.
Estação Ferroviária do Rossio, em Lisboa.Existem muitos outros exemplos, mas considera-se que os principais edifícios, em Portugal e no Brasil, são os seguintes:

Palácio Nacional da Pena – Barão Von Eschwege e D. Fernando II rei de Portugal – Sintra. Edificado no cimo da serra de Sintra, no meio de um luxuriante e exótico parque florestal, o palácio é uma fantasia romântica ( trinta anos antes dos palácios de Luis II da Baviera). O conjunto consiste numa justaposição quase orgânica de edifícios com vários estilos, perfeitamente adaptado ao local. D. Fernando II compra as ruínas do antigo convento manuelino, destruído por uma sucessão de acontecimentos trágicos – em 1743 é atingido por um raio, em 1755 o terramoto quase arrasa a construção e, finalmente, as invasões francesas destruíram o restante. O rei participou de forma activa no projecto, impondo a preservação da edificação manuelina, a par das novas obras. O conjunto é impressionante, completamente romântico no diálogo com a natureza envolvente, utilizando elementos de Neogótico e Neoárabe. Talvez seja o mais romântico dos edifícios portugueses. Foi classificado património da humanidade pela UNESCO no conjunto histórico "Paisagem Cultural" de Sintra.
Hotel Palácio do Buçaco – Luigi Manini – Buçaco. O pequeno convento carmelita do século XVII e o seu parque florestal recebem no final do século XIX a construção de um hotel de luxo perfeitamente adaptado ao lugar e respeitando a construção existente. O novo edifício é inspirado nos grandes monumentos manuelinos, formando um conjunto impressionante, semelhante a uma grandiosa cenografia romântica. A decoração é completamente historicista, com interiores cobertos por pinturas murais, azulejos historicistas, escultura e talha. Integra-se de modo majestoso num parque de árvores seculares e, a sua proximidade com a histórica estância termal do Luso, tornam o Hotel Palácio um dos marcos patrimoniais fundamentais do romantismo português.
Estação do Rossio – José Luís Monteiro – Lisboa. Antiga estação central de Lisboa, encontra-se no centro histórico da capital. A fachada principal é Neomanuelina, dominada por dois grandes arcos em ferradura, sugerindo a entrada de túneis, entre contrafortes meramente decorativos. Associa frisos, pináculos e janelas muito decoradas a três janelões centrais, com varanda, no primeiro piso. É, também, de referir a cobertura da gare em arquitectura do ferro, seguindo um gosto mais clássico, que a torna uma das principais em Portugal.
Quinta da Regaleira – Luigi Manini – Sintra. Executado num romantismo muito tardio, cerca de 1905, recebeu a alcunha dos contemporâneos de "Palácio das Fadas" devido à elegância do conjunto, bem como ao enquadramento paisagístico num belo parque florestal. É uma verdadeira cenografia constituída por torres, pináculos, janelões, frisos, cordas e muita decoração vegetalista. Está rodeado de algumas das quintas mais importantes, do conjunto monumental classificado património da humanidade pela UNESCO, no conjunto histórico "Paisagem Cultural" de Sintra.
Paços do Concelho de Sintra – Adães Bermudes – Sintra. Transformada em centro elegante ao longo do século XIX, a vila de Sintra chega ao século XX necessitando de um novo edifício para Câmara Municipal. Foi edificado ainda em estilo Neomanuelino, de grande elegância, e perfeitamente integrado no conjunto monumental. Foi classificado património da humanidade pela UNESCO no conjunto histórico "Paisagem Cultural" de Sintra.
Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro – Rafael da Silva Castro – Rio de Janeiro. A muito prestigiada Associação nasce em 1837. Em 1888 inaugura o novo edifício, em estilo Neomanuelino, por razões nacionalistas.
Real Centro Português de Santos – Ribeiro da Silva e Alberto da Maia – Santos. Inaugurado em 1900 segue o estilo Neomanuelino por razões nacionalistas.

[editar] Principais edifícios Neogóticos

Elevador de Santa Justa, em Lisboa.Existem outros exemplos mas considera-se que os principais edifícios são os seguintes:

Elevador de Santa Justa – Raul Mesnier de Ponsard – Lisboa. Talvez seja o exemplo de Neogótico mais conhecido em Portugal apesar de ser, também, um dos principais exemplos de arquitectura do ferro da cidade. Simula uma torre com seis andares fingidos, mas individualizados, com frisos e ogivas, coroada por uma plataforma mais larga, onde termina a subida. Tem acesso directo ao histórico largo do Carmo, através de uma passagem, também em ferro, lateralmente às ruínas góticas da Igreja do Convento do Carmo (edifício verdadeiramente gótico que foi deixado em ruínas como memorial do terramoto de 1755 para as gerações futuras). Apesar do elevador ser em ferro e a igreja em pedra, encontra-se perfeitamente enquadrado pelas semelhanças estilísticas, não escondendo o seu carácter industrial. É um dos monumentos mais marcantes do centro histórico de Lisboa.
Capela dos Pestanas – Albano Cascão – Porto. Pequeno edifício Neogótico arriscando reproduzir de forma estrutural a idade média. É constituído por torre na fachada, com flecha e ogivas, tentando verdadeiramente utilizar a linguagem do estilo original, um pouco à maneira do norte da Europa. É dos raros edifícios portugueses a não explorar a decoração como forma de imprimir o carácter pretendido.
Igreja de Reguengos de Monsaraz – António José Dias da Silva – Reguengos de Monsaraz. Uma das raras igrejas Neogóticas construídas em Portugal. É essencialmente uma planta basilical, com torre poligonal na fachada, contrafortes decorativos, pináculos muito simples, arcos em ogiva e alguns elementos decorativos. Existiu uma preocupação de respeitar a tradição alentejana ao se optar por um exterior branco em vez de uma total cobertura em pedra.

[editar] Principais edifícios Neoárabes

Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa.Existem outros exemplos mas considera-se que os principais edifícios são os seguintes:

Praça de Touros do Campo Pequeno – António José Dias da Silva – Lisboa. O imponente edifício rapidamente se tornou na principal praça de touros do país. Executado em tijolo vermelho, caso raro em Portugal, é constituído por torres, cúpulas em forma de bolbo, arcos em ferradura e alguns elementos decorativos. A forma circular é a dominante da construção. É ainda actualmente um dos principais equipamentos da cidade, entretanto adaptado para poder receber outro tipo de acontecimentos, sem interferir com a edificação.
Quinta do Relógio – António Tomás da Fonseca – Sintra. Seguindo um estilo invulgar no Portugal da época, mas já utilizado no Palácio Nacional da Pena, é claramente a tentativa de criar um refúgio exótico no propício ambiente de Sintra. Composto por arcos em ferradura e cores fortes, contrasta mas integra-se no jardim. Foi classificado património da humanidade pela UNESCO no conjunto histórico "Paisagem Cultural" de Sintra.
Salão Nobre do Palácio da Bolsa/ atual Associação Comercial do Porto – Gustavo de Sousa o Salão Árabe e Joaquim Costa Lima o Edifício – Porto. O palácio da Bolsa é bem no centro histórico do Porto e ocupa o lugar do antigo Convento de São Francisco. O interior é caracterizado por um grande luxo, destacando-se do conjunto o Salão Árabe, uma das principais salas da cidade, com uma sumptuosa decoração revivalista Neoárabe. Explora a forma puramente decorativa, sem recorrer a imagens figurativas, baseada em padrões caligráficos num ambiente de cores suaves, entre o branco, azul, prateados e discretos dourados. Era, sem dúvida, o principal cenário das vaidades burguesas na muito capitalista cidade do Porto. O edifício é o centro dos empresários da cidade, desenvolvendo uma notável actividade comercial até aos nossos dias. O salão destina-se actualmente a eventos culturais e para efeitos de representação. Absolutamente notável.

[editar] Jardins

Jardins da Quinta da Regaleira, Sintra.O Jardim, chamado à inglesa, é um dos elementos indispensáveis no Romantismo. É caracterizado por um arranjo paisagístico, simulando ou melhorando a natureza, onde se integra o edifício, bem como pavilhões puramente cenográficos, falsas ruínas e/ou pagodes. Surge nesta época como reacção ao jardim geométrico, dito à francesa, de tradição barroca, tornando-se um reflexo da mentalidade romântica e do individualismo.

Em Portugal, apesar dos inúmeros exemplos, principalmente no norte do país, destaca-se o admirável conjunto de jardins românticos em Sintra. Nestes são de referir o parque do Palácio Nacional da Pena, bem como das restantes quintas históricas, das quais é indispensável assinalar Monserrate e Regaleira. Os arranjos paisagísticos, povoados de espécies exóticas vindas dos quatro continentes, integram-se no relevo da serra que, devido às características do solo e clima, desenvolvem todas as espécies de forma invulgar

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